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UFF realiza arraial beneficente para terceirizados Por Ghabriella Costermani Machado No dia 04 de Julho, a partir das ...

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UFF realiza arraial beneficente para terceirizados



Por Ghabriella Costermani Machado




No dia 04 de Julho, a partir das 16h, será realizada a “Balbúrdia Julina”, um evento beneficente para os terceirizados da Universidade Federal Fluminense. Para participar da festa, o visitante deve contribuir com 1kg de alimento não perecível. As doações serão encaminhadas inteiramente para os trabalhadores, que se encontram em dificuldade devido à falta de pagamento há dois meses. 

O evento é organizado pelo Diretório Acadêmico Anísio Teixeira (DAAT) e o Diretório Acadêmico Raimundo Soares, com a participação de diversos estudantes e professores. Na última quarta-feira (12), o DAAT realizou uma reunião para apresentar ideias e contribuições para a festa. A comissão de organização conta também com três grupos: de alimentos, decoração e finanças. O festejo também disponibilizou um evento no facebook, com o mesmo nome, para atualizar diariamente a comunidade. Os interessados em fazer doações para a festa também podem usar o endereço para entrar em contato com os organizadores. Hoje, 26 de Junho, ocorrerá uma nova reunião, na sala do DAAT, no 2º andar do Bloco D, às 16h.


Link do evento: https://www.facebook.com/events/330801497598359/

O Prédio da Caixa ainda resiste

Por Luiza Maia.


Ex-moradores do prédio da Caixa, no Centro de Niterói, continuam sem teto definitivo
         Já são duas semanas marcadas por perdas, incertezas e luta por visibilidade. Tudo começou numa sexta-feira, dia 07 de junho, quando moradores do centro de Niterói foram expulsos de seus próprios lares, privados de estarem debaixo de seus habituais tetos onde dormir. Habitavam um prédio condenado, abandonado, mas que ainda guardava os sonhos e esperanças de pessoas também esquecidas. Deixaram suas moradas, seus pertences, não de forma passiva, antes, lutaram para serem ouvidos e reconhecidos em uma realidade de invisibilização.

Moradores despejados protestam em frente à prefeitura da cidade. Foto: Paula Máiran.
       Na segunda-feira, dia 17, exatamente dez dias após o acontecimento, os desabrigados do Edifício Nossa Senhora da Conceição, conhecido como o Prédio da Caixa, fizeram um barulho incessante. Cada ex-morador recebeu buzinas e apitos para mostrarem que apesar de terem seu prédio tapado por concreto, não conseguiram tapar suas existências, levantando um muro que apagasse suas condições. Algumas famílias ainda reivindicam o recebimento do aluguel social oferecido pela Prefeitura de Niterói, no valor de 782,69 reais. Segundo a síndica do prédio, Lorena Gaia, cerca de 15 famílias ainda estão sem conseguir receber o auxílio.

Lorena, atual síndica do prédio, conversa com moradores. Foto: Paula Máiran.
       Lorena, que morava no prédio há três anos, foi eleita pelos moradores após a ex-síndica ser acusada de atitudes administrativas improbas. Desde então, se colocou como a principal porta-voz das famílias despejadas, unindo-as em torno do desejo de terem suas moradias de volta. Na audiência pública do dia 4 de junho, que reuniu moradores, representantes do CREA e da OAB RJ, dois dias antes do despejo ocorrer, a síndica e estudante da UFF confrontava a necessidade da desocupação e o descaso da prefeitura. “Não são paredes de concreto, são histórias”, reivindicou com firmeza.
       Histórias de pessoas à margem, mesmo vivendo no coração da cidade. Em paredes que transpareciam descaso e um histórico problemático. No edifício que abrigava 394 apartamentos e 13 lojas, residiam proprietários, inquilinos e ocupantes, alguns por mais de 20 anos. Longe de uma existência tranquila, o prédio sofria com problemas de infiltração e o acúmulo de lixo. Problemas que, graças a uma má administração, mau uso do dinheiro arrecadado pelo prédio, apenas aumentaram a cena precária. Desde o mês de março os moradores estavam sem o fornecimento de luz e de água, usando galões de água mineral para o abastecimento de suas casas no dia-a-dia. Uma situação que, segundo Lorena, seria reversível com as mudanças sendo realizadas sem o despejo dos moradores. Mas a proposta não foi atendida.
       O primeiro prazo determinado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) exigia que até o dia 24 de abril o prédio fosse desocupado. Posteriormente, a data se estendeu para o dia 25 de maio, porém, até a madrugada do dia 07, os moradores se mantiveram em resistência do prédio. Por volta das 5h da manhã, enquanto o dia ainda escuro começava, a ameaça do despejo e a incerteza do “para onde ir?” bateram à porta.

Vidas invadidas

       Teresa Cristina de Souza praticamente não dormiu naquela noite, assim como outras famílias que permaneceram em vigília, esperando o que poderia acontecer. A aposentada de quase 60 anos é proprietária de um dos apartamentos e há 7 anos vivia ali. Os últimos meses haviam sido marcados por tensão. Sem luz, geladeira, sem água, tentava se manter no apartamento onde havia estabelecido também seu local de trabalho. A máquina de costura, sua fonte de renda, permaneceu no prédio concretado, assim como todos seus móveis e eletrodomésticos. Lembra saudosamente do que deixou para trás, como as frutas que havia comprado nos dias anteriores ao despejo e que viraram lixo. Hoje, depende da comida que lhe é oferecida.

Em ato, moradores tomam café da manhã em frente à prefeitura de Niterói. Foto: Paula Máiran.
       Terminando de comer um pão com manteiga e segurando um copo vazio de café, ela participa do café da manhã em frente à prefeitura de Niterói. São 11 horas da manhã do dia 17, e ela olha para o lixo em suas mãos. “Estamos sendo tratados que nem lixo”, ela afirma, “transportados de um lugar para outro”. Desde o dia que foram retirados, os moradores precisaram se deslocar diversas vezes. Da APAE para a quadra da unidade municipal Rosalda Paim, de lá para a sede do PSOL, onde puderam se abrigar por curto espaço de tempo, de volta para a colégio, e hoje permanecem em duas casas alugadas perto dos outros endereços. Lá as famílias, com cerca de 12 crianças, 7 adolescentes e vários adultos, dividem os cômodos apertados e entulhados com as únicas coisas que conseguiram levar consigo. Ainda utilizam a cozinha e abastecem água no colégio Rosalida Paim. Ali na casa, não possuem chuveiros, e uma pequena cozinha serve para quebrar um galho.


Vista das casas com sacolas e objetos resgatados do prédio.
Moradores dividem quartos em casa alugada.
       Teresa reúne as poucas coisas que ainda possui junto a doações que recebe. Lamenta não ter como se arrumar melhor. Usar uma maquiagem, fazer o cabelo. Se sente irreconhecível desde quando deixou sua casa. Naquele dia, com a entrada dos policiais no prédio, viu a porta de seu lar ser arrombada, assim como a de outras famílias. Na defesa de seus bens, moradores foram atacados, assim como a própria síndica foi agredida. Teresa diz que recebeu um tapa, mas não se rendeu à passividade. Estava em jogo ficar ou perder toda sua história ali construída. Atacou de volta. Frente ao alto nível de emoção, passou mal e foi carregada por um dos policiais para receber atendimento.
       Saiu do prédio apenas com a roupa do corpo, deixando quase todos os seus pertences para trás. Ganhou de lembrança uma foto que saiu em uma notícia veiculada pelo jornal O Globo no mesmo dia, que a captou amparada pelo policial, sua mão na cabeça, os olhos em desespero. Não queria tamanha exposição, mas deixou a foto passar. Afirma que nela parece outra pessoa, marcada pelo cansaço e pela luta.

Marisa participa da Greve Geral em Niterói (14/06).
       “Você me viu na TV? Eu saí na Globo chorando”. Em outra reportagem, veiculada pelo RJ TV no dia do despejo, Marisa Fernandes enxuga as lágrimas e afirma não saber o que fazer. Ela conta que geralmente não cai facilmente no sono, mas naquela noite, foi mais difícil ainda. Saiu também apenas com uma bolsa e a roupa do corpo. Preocupa-se com seu remédio para o controle da pressão e da diabetes que permaneceram. Assim como seu gato que ficou para trás, junto a outros animais que ficaram na prisão de concreto até cerca de uma semana após o despejo. 

Foto: Prédio da Caixa Vive.
       No dia 14 de junho, os ex-moradores do prédio participaram com seus cartazes pintados em vermelho sangue da greve geral contra a Reforma da Previdência. Seguiram a procissão junto a alunos e professores da Universidade Federal Fluminense (UFF) desde a avenida Marquês do Paraná até a avenida Amaral Peixoto, em meio a gritos contra e a favor da manifestação, passando em frente às suas antigas moradas.
       “Ah, que saudade…”, a dona de casa com mais de 60 anos exclama ao passar em frente ao prédio. Aponta o décimo terceiro andar, de onde descia e subia de escada todos os dias. Ali passava seu tempo, ocupando-o com a arrumação da casa, lavando uma louça ali, passando um pano no chão aqui. Lia a bíblia, e fora de casa, andava pelas ruas do centro, ia à igreja, catava latinhas à noite. Mas agora a rotina se perdeu.
       Agora, ocupa-se na arrumação de cada lugar onde é abrigada. Ajuda a fazer comida, varrer, a limpar o banheiro que é dividido para todos. Foi quem acordou a todos às 5h da manhã para estarem de pé no ato. Debaixo do sol quente, tomando pouca água, ela permanece firme junto aos companheiros, e mesmo com a voz muito rouca, arrisca falar ao microfone em frente ao prédio, onde os moradores se reúnem com suas faixas. Todos param para escutá-los.

  

     Vitória Salem Carvalho é uma das primeiras a protestar em frente ao prédio, discursando com um microfone. “Somos trabalhadores. Eu sou uma mãe trabalhadora”. A jovem de 21 anos tem a filha de 4 anos junto a si, a qual ela carregou durante todo o ato. Para seu sustento e de sua família, ela costumava vender bolos, sanduíches, cafezinho e chocolate quente pelo centro de Niterói. O marido vende goiabas na rua, mas ultimamente tem tido dificuldades nas vendas.
       Longe do microfone, das câmeras que a filmam e das mãos que aplaudem seu discurso, ela revela um grande desejo: “Só quero voltar pra casa e pegar meu histórico escolar”.Vitória não terminou o Ensino Médio, mas sonha em um dia chegar à faculdade, contrariando aqueles que não imaginam uma jovem negra e pobre portando um diploma. Diz que gostaria de se formar em obstetrícia ou advocacia. A forma como realizou seu discurso reivindicatório, aponta o indício de que ela seria uma advogada ferrenha. 

Vitória e sua filha de 4 anos participam ativamente da manifestação.
       “Não quero passar por essa humilhação nunca mais”, ela diz quanto ao seu desfecho no prédio em que morou por 2 anos. Antes, morava em Campos, e se mudou para Niterói a fim de buscar novas formas de conseguir uma renda. Hoje, sem seu material de trabalho, os potes para os alimentos, as garrafas térmicas, seu carrinho, avental e luvas, espera ajuda para voltar a ganhar seu dinheiro, antes do acúmulo de mais dívidas.

Sonhar ainda é possível

       No dia seguinte à greve geral, após a passeata e as reivindicações, os moradores já haviam sido mudados da quadra do Rosalda Paim para a sede do PSOL. A cada mudança, uma grande questão é levantada: “até quando?”. Marisa tem esperança que a busca por um lugar fixo possa acabar em breve. Esperando ainda receber o valor do aluguel social, diz que já encontrou uma nova casa para alugar em São Gonçalo.
       Durante uma reunião entre moradores, membros do PSOL e do MTST, na decisão de seus próximos passos juntos, Marisa pegou o microfone para falar já em clima de despedida. Em seu discurso, disse que sentiria falta de todos, daquela família que se formou em torno de um propósito comum: a busca por dignidade. Expressa sua esperança de que assim como encontrou um lugar para si, outros também reconstruam suas vidas. Mas afirma com certeza que jamais abandonará Lorena, que além de síndica, se tornou amiga, uma parente, a expressão de suas vozes. “Mesmo se eu for morar nos Estados Unidos”, ela promete.
       Vitória, após o final de semana atribulado de mudanças de um local para outro, conseguiu o valor do aluguel social e também encontrou um novo lugar. Mas não quer deixar a luta, e promete continuar ao lado de seus colegas até o final. Morando agora em Itaúna, aceitou o desafio em estar longe e manter sua vida em Niterói. Sua filha continua matriculada em um colégio no centro da cidade, permanecendo apenas meio período, e em breve ela espera voltar para suas atividades nas ruas da cidade.
       Teresinha também acredita que já nos próximos dias sairá do casarão apertado e insalubre para estar em um novo cantinho. Esteve todo esse tempo acompanhando as famílias do prédio, convivendo mesmo em meio a divergências, dependendo da mesma cozinha para se alimentar e água para se banhar. Também espera que todos possam sair dessa situação. Deseja também poder ajudar Vitória, que se casou no civil no dia 12 de junho, dia dos namorados, a conseguir realizar uma festa em comemoração. Pensa em como poderia conseguir um vestido de noiva para a jovem, que apesar da reviravolta em sua vida, sonha com esse momento marcante na vida de muitos homens e mulheres.

Prédio da Caixa Vive

   

       A página do facebook, “Prédio da Caixa Vive”, desde o dia 27 de maio tem registrado a trajetória na luta por visibilidade dos ex-moradores. Foi iniciada para reivindicar o direito à moradia dos que estavam sendo ameaçados de despejo, e hoje, pede ajuda para divulgação de suas lutas e também doações. Em uma postagem no dia 9 de maio, foi publicado o contato para doações urgentes para ajudar as famílias, enquanto elas ainda estavam abrigadas na quadra da APAE. Hoje, eles ainda precisam de remédios para pessoas com doenças crônicas, alimentos, roupas e calçados principalmente para as crianças, roupas íntimas, utensílios de higiene e beleza, entre outros.

   

       Seguem exigindo outras soluções mais humanizadas pela prefeitura de Niterói. Segundo o desabafo de um dos moradores, eles desejam palavras escritas, já que apenas os diálogos não estão contribuindo para que eles melhorem suas situações. Enquanto isso, não têm vergonha em mostrar nas fotos suas atuais condições de moradia. Afinal, desde aquele dia tiveram suas vidas invadidas e escancaradas pelo despejo.
       Juntos permanecem nas casas alugadas no centro da cidade por Welington e sua irmã Mara, ex-moradores que levaram consigo outros desabrigados e todas as coisas que lhe restaram. Dividem os pequenos espaços, cada um com seu colchonete, sacolas e objetos de valor. Debaixo desses tetos que testemunham o descaso, luta e sobrevivência são compartilhadas.

Moradora varre cômodo da casa onde estão abrigados.
A cozinha é compartilhada entre todos.

Jovens de 1968 unem-se aos jovens de 2019


Luis Carlos "Bocão" (75)





Geração que viveu ditadura militar junta-se a estudantes, professores e servidores, nas ruas do Rio de Janeiro, em oposição ao corte de verbas no setor da educação e em prol do ensino público.

Por Marco Antonio Victoy Stivanelli

Em meio a milhares de cartazes, bandeiras e faixas que expressavam indignação e resistência as recentes decisões governamentais, um deles se destacou em meio a multidão: "Jovem de 1968 apoiando os jovens de 2019 contra o corte de verbas". O texto, estampado num singelo cartaz azul, carregado por um senhor de idade, chamava a atenção dos que protestavam no ato em defesa da educação ocorrida no Rio de Janeiro, no último dia 15. 

Tendo se iniciado na Candelária, que há 35 anos servia de espaço para as manifestações da Diretas Já, o ato seguiu de forma pacífica e organizada até a Central do Brasil, através da Avenida Presidente Vargas. O clima de resistência e revolta presentes no local foram para o também jovem de 68, Luis Carlos (75) "um resgate do sentimento de indignação daquele tempo". Luis, ou "bocão" como é chamado pelos amigos, foi estudante de graduação da primeira turma do curso de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e também vice-presidente da União Fluminense dos Estudantes. Para ele, estar presente e dando apoio a essa nova geração é uma sensação de continuar a lutar, mesmo que agora com outros objetivos.
"Sempre participei de movimentos como esse em defesa do que eu considero certo e justo, e não ia perder a oportunidade, mesmo com 75 anos de idade, de apoiar vocês jovens nessa luta pela educação e pelo futuro."

Após anúncio do ministro da Educação Abraham Weintraub, no dia 30 de abril, de que o governo realizaria um corte de 30% do orçamento das universidades federais que provocassem “balbúrdia” – citando a Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) como exemplos –, a educação se tornou o principal tema de discussão do país. A decisão foi encarada como muito problemática para Vera (64), uma engenheira agrônoma e professora aposentada da UFF, que viajou de Juiz de Fora exclusivamente para o ato. 

"Eu acho que a balbúrdia é do próprio governo Bolsonaro. Quem convive com a comunidade acadêmica tem absoluta convicção de que isso é maluquice. A balbúrdia vem desse governo que não sabe para onde vai e o que quer."

Passadas vinte e quatro horas do decreto, e depois de ser amplamente problematizada por grande parte da população brasileira, o secretário de Educação Superior da pasta, Arnaldo Barbosa de Lima Junior,a informação, afirmando que esse corte se estenderia "de forma isonômica para todas as universidades". Na tentativa de conter as inúmeras reações negativas da população causadas por essas falas, o ministro Weintraub, por meio de uma live no Facebook no último dia 9, tentou explicar o corte por meio de barras de chocolate. Afirmando que o corte seria apenas de "3,5% dos valores destinados às universidades federais" ele não só virou motivo de piadas e memes na internet, como também não foi claro com suas palavras.

Esse cenário foi suficiente para que toda a comunidade acadêmica juntasse forças, aliada com uma ampla rede de organizações civis, e organizasse nas ruas de todas as regiões brasileiras um grande protesto contra essa decisão - que irá afetar não só os alunos, professores e funcionários das instituições, mas toda a produção de conhecimento científico do país. Para a professora Siomaria (67) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, essas medidas, visam a "acabar as possibilidades da educação poder ajudar o indivíduo a crescer, se libertar e possuir a possibilidade da crítica e do pensamento teórico".

Ainda no dia (15) o presidente Jair Bolsonaro, que estava em visita a Dallas, no estado norte-americano do Texas, afirmou que o bloqueio era necessário e os manifestantes eram "uns idiotas úteis, uns imbecis". Ele complementou dizendo que "é natural. Agora... a maioria ali é militante. Não tem nada na cabeça. Se perguntar 7 x 8 não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil".

As ofensas disparadas pelo presidente, no entanto, contrastam com os depoimentos dos manifestantes. É o que mostra a professora aposentada Cláudia (63), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): "É nossa obrigação nos unir e resistir a isso que está sendo colocado. Não podemos nos entregar de qualquer maneira, pois, essa é uma medida muito ruim para o país e para vocês estudantes. Principalmente para vocês."

No passado muitos tiveram sua voz silenciada ou abafada pelo regime militar instaurado no Brasil, que perdurou por mais de duas décadas. Por isso a importância dada por Luis Carlos, Siomaria, Vera, Claúdia e muitos outros jovens de 68, aos movimentos contrários à direção do governo. Como disse Jane (66), professora do Instituto de Medicina Social da UERJ, ao final do ato:

"Essas manifestações, são a chance que a gente têm de ir para a rua e mostrar nossa força, mostrar que a educação é uma questão muito relevante e que toca um conjunto de pessoas muito grande: desde educação básica, a família, colégios de segundo grau, as universidades públicas e particulares. Por isso, todos nós não podemos deixar de lutar."

No próximo dia (30) estão marcadas novas manifestações e paralisações a nível nacional contra os cortes na educação. Todos os entrevistados afirmaram que estarão presentes.


Jovens de 68

Vera (64 anos)


"Eu não poderia perder essa oportunidade de estar presente com a comunidade em defesa da educação em todos os níveis."








Cláudia (63)



"Como eu estou aposentada, me senti na obrigação de vir e retribuir algo, dar algo de mim. Essa é uma questão muito importante para mim, pois, é como uma forma de retribuição por tudo que a faculdade pública fez por mim."





Nicolas (69)
"Os governantes, sobretudo o presidente Bolsonaro, são muito insensíveis às demandas sociais, no entanto, eles são sensíveis às dos empresários, banqueiros e representantes do agronegócio. A reforma da previdência é um exemplo disso, pois, objetiva não só reduzir gastos públicos, mas também beneficiar o setor financeiro."



Siomaria (67)


"O futuro de vocês estudantes e jovens está em jogo agora com esse governo alucinado."





Luis Carlos "Bocão" (75)


"Com esse desgoverno que nós temos, não temos outra saída a não ser estar na rua, sempre."




Jane (66)
"O projeto para a educação agora com o governo Bolsonaro é basicamente a destruição do ensino público, em nome do ensino privado. O que é uma maluquice, pois um grande percentual da sociedade brasileira na verdade precisa de ensino público, gratuito e de qualidade ."

Todos pela educação: atos do 15M inundam ruas do país



Por Juliana Sá Tsunami é uma série de ondas causada pelo deslocamento de um grande volume de água. O Brasil presenciou no dia 15 de maio um outro tipo de fenômeno: em vez de água, as ruas foram inundadas por gente. Um milhão e meio em todo o país, segundo a União Nacional dos Estudantes. E se o tsunami pode ter sua origem em um atrito entre blocos de terra, no caso do tsunami do 15 de maio, o choque que motivou a inundação veio de uma medida governamental. Anunciada no final do mês de abril, ela restringe o direcionamento de verbas para a educação pública, aquela que “é uma conquista da sociedade”, nas palavras de Renata Mancini. A professora do Departamento de Letras, da Universidade Federal Fluminense era uma das gotas de gente a compor o tsunami em sua manifestação no Rio de Janeiro. A população foi às ruas em resposta à decisão do Ministério da Educação de bloquear 30% dos recursos destinados às instituições de ensino federais. “Ao falarem que é preciso tirar dinheiro da universidade para investir em educação básica, eles esquecem que é na universidade que são formados todos os profissionais. É o eixo central da organização e da construção forte de um país”, argumenta a professora, citando em sua fala uma das principais justificativas do governo para o que eles definem como “contingenciamento”, mas que nas ruas ganha o nome de “corte”. Na explicação do ministro da pasta, Abraham Weintraub, sobre o Plano Nacional de Educação, há um gasto de mais de “200 bilhões por ano no mínimo” com a meta de ampliação de vagas no ensino superior, quando, o foco que ele “gostaria de trazer aqui é que qualquer esforço novo fosse feito na educação básica, na base da casa”. Educação Básica segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação engloba a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. A argumentação do ministro, no entanto, é passível de questionamento. Um exemplo é o fato do chamado “contingenciamento” afetar o Instituto Federal do Rio de Janeiro, que contempla ensino técnico e superior. Logo, também alunos de Ensino Médio sentirão os impactos da medida, como Helena, de 17 anos: "O IFRJ é uma escola de excelência, lá dentro a gente tem pesquisas e projetos de extensão que muitas vezes ganham prêmios e conseguem visibilidade até fora do país. Mas, por outro lado, a infraestrutura, principalmente do meu campus, é precarizada, a gente não tem todos os bebedouros funcionando, falta ar-condicionado, falta jaleco, falta livro. Se esses cortes forem aprovados, a coisa vai piorar ainda mais! É triste, a gente pode ter a cura do câncer lá dentro daquelas mentes, mas sem o investimento para botar em ação, nada acontece". A decisão do governo sensibilizou até mesmo os alunos de instituições particulares. "Eu acredito que é importante a presença de alunos e professores da rede privada aqui no ato também, não é hora de segregar, é hora de unirmos forças”, diz Ana Carolina, 19 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estácio de Sá. “A educação é um direito básico de todos e, com o corte, isso deixaria de ser um fato, se as universidades públicas acabarem precisando fechar as portas. Além disso, esse corte pode chegar ao FIES, reduzindo ainda mais os meios de se ingressar em uma universidade. É preciso ter empatia e unir as vozes para que sejam ouvidas", completa a universitária. As instituições federais públicas de ensino superior, no entanto, ainda possuem os cenários mais problemáticos no contexto do bloqueio de verbas. “A UFF conta com um hospital público, um hospital veterinário, atendimento terapêutico gratuito, atendimento odontológico, áreas culturais e muitos outros serviços que dependem de verba para funcionar e para atenderem à população”. Letícia, aluna de Psicologia na UFF, ressalta o sucateamento da faculdade e a sua preocupação com o funcionamento de órgãos que beneficiam toda a comunidade, “Cortar da educação é cortar esses serviços e cortar a oportunidade de melhoria deles. É você desestimular o progresso em pesquisas de todas as áreas que não só ajudam a população, como dão visibilidade internacional ao Brasil”. Segundo Ana Beatriz, estudante de Comunicação Social na UFRJ, a situação de sua faculdade é ainda pior: “Com os cortes, a UFRJ anunciou que só teria verbas para mais 3 semanas. Hoje não sabemos até quando a faculdade vai funcionar, mas estamos na luta”. Além dos alunos, esse “contingenciamento” afeta, também, a sociedade. Adriana, 40 anos, professora da rede municipal do Rio, afirma que o bloqueio foi a “gota d’água” para ela: “Não dá mais para a gente viver e engolir isso. Essa foi a minha primeira manifestação com minhas filhas. Que vocês, a próxima geração, continuem lutando e não desistam, vai ser difícil, mas as coisas mudam aos poucos. Vocês não são idiotas e são muito úteis”. Bloquear o “eixo qualificador de uma sociedade”, como define Renata Mancini, é “atacar a sociedade como um todo. A aposta desse governo é destruir essa qualificação, mas em nome do quê?”, pergunta. Uma nova tsunami é prevista para inundar as ruas do país no dia 30 de maio.

Entenda a cronologia dos acontecimentos em torno do corte

Fotos de Gabriel Masello
Por João Eduardo Dutra

30 de Abril


O Ministério da Educação (MEC) anunciou que cortaria 30% da verba de três universidades federais, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo o Ministro da educação, Abraham Weintraub, o corte foi feito porque as instituições não estavam buscando melhorar o desempenho acadêmico, mas sim “fazer balbúrdia”.

1º de Maio

Após o anúncio, a constitucionalidade do corte começou a ser contestada, visto que as três instituições estavam bem colocadas em rankings educacionais, fazendo-se acreditar que a redução de verba era por um motivo ideológico. Tais questionamentos e a intensa resposta da população fizeram o ministro “recuar” sobre o motivo e ampliar o corte para todas as universidades federais.

9 de Maio

O ministro anunciou que o corte não era de 30% do valor total, mas sim 30% das despesas não obrigatórias, o que representaria 3,5% do valor total. Porém, o MEC não pode mexer nas despesas obrigatórias, então, no que de fato pode ser cortado, a redução de verba foi de 30%. Em entrevista ao site UOL, o coordenador geral da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, Daniel Cara, disse que mesmo assim o corte inviabiliza o funcionamento das universidades.




15 de Maio

Dia da paralisação geral e do “tsunami da educação. Diversos protestos aconteceram em todo o Brasil em prol da educação. Milhares de estudantes ou apenas apoiadores tomaram as ruas do país para manifestar-se contra o corte e a favor da educação pública, gratuita e de qualidade.

Gabriel Masello, estudante de História do primeiro período na UFF e presente no ato, exprime o sentimento de boa parte dos manifestantes: “A partir do momento em que o atual governo criminaliza as oposições e põe em risco o desenvolvimento intelectual, tomar as ruas se torna obrigação”.

30 de Maio

O Tsunami da educação está marcado para voltar às ruas no dia 30 de maio. O movimento estudantil convocou novamente os manifestantes a protestarem contra o corte.



professores e estudantes convidam população ao diálogo


Por Laís Rodrigues
No último dia 15, a Universidade Federal Fluminense (UFF) se uniu aos Sepes (Sindicato Estadual de Profissionais de Educação) de São Gonçalo e Niterói num ato em defesa da Educação Pública, na Praça Araribóia, em Niterói. Na manhã do dia do Ato Unificado na cidade do Rio de Janeiro, professores, pesquisadores e alunos da instituição reuniram seus trabalhos em tendas para apresentá-los à população que circulava pelo local.

Ao lado do Terminal Rodoviário João Goulart, área de grande circulação de moradores de municípios próximos que se locomovem para estudar e trabalhar diariamente, a comunidade acadêmica abriu os portões da universidade para interagir e compartilhar conhecimento com a população.


A Aduff (Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense) organizou a iniciativa em resposta ao corte de 30% das verbas das Universidades Federais, inicialmente dirigido à UFF, UFBA (Universidade Federal da Bahia) e UnB (Universidade de Brasília) e, principalmente, à justificativa anunciada pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Esses cortes atingem as despesas discricionárias, que custeiam gastos como limpeza, água, luz e bolsas de auxílio aos estudantes.

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em 30 de abril, o ministro alegou que as “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”. O termo mobilizou a comunidade acadêmica a dar uma resposta imediata, que teve início com a manifestação do 08 de maio, em Niterói, na qual alunos, professores e funcionários caminharam do campus Gragoatá até a Estação das Barcas, em protesto.

Segundo o professor da Faculdade de Educação e Diretor da Aduff, Reginaldo Costa, as iniciativas são parte do calendário de lutas e mobilização definido na Assembleia Comunitária do último dia 06, que contou com mais de 500 pessoas, entre técnicos, docentes, estudantes e terceirizados. A manifestação foi o primeiro passo e teve mais de 15 mil pessoas, de acordo com o diretor da Aduff, e o ato unificado e o “Uff nas praças” seguiram o calendário, devido ao critério político ideológico atribuído à justificativa dos cortes.

Em suas palavras, “o governo federal colocou uma pauta de corte, no início, baseada num critério político ideológico, como se a UFF, a UnB e a UFBA fossem de esquerda e por isso merecessem perder verba, o que chama de balbúrdia. E isso mostra que tem um controle político ideológico também. Têm vários professores sofrendo perseguição por exercerem um preceito constitucional que é a liberdade de cátedra. A gente tem muito relato de professores em campus da UFF sendo perseguidos, tendo aula filmada”.

O “UFF nas praças” tem por objetivo aproximar a população da produção acadêmica científica, e esclarecer como a universidade contribui no dia a dia dos moradores, por exemplo, com o Hospital Universitário Antônio Pedro e o Centro de Artes UFF, em Niterói.

Segundo a professora do Departamento de Educação, Dinah Terra, “a ideia é que a aula fosse na rua, apresentando aquilo que se produz no ensino, na pesquisa e na extensão, para dizer que a gente adora festa, a gente é muito feliz, a gente é muito contente com aquilo que a gente faz, a gente trabalha demasiado, mas também a gente produz o suficiente. E a ideia é que a gente possa mostrar àqueles que estão passando o que a UFF faz dentro da universidade e que por diferentes motivos, de uma grande mídia, de uma mídia fechada, às vezes, não aparece. A gente produz muito, mas fica muito falando para nós. A ideia de vir para a rua é mostrar”.

De acordo com Dinah Terra, os trabalhos apresentados no dia foram: “o projeto de Ensino de surdos sob a perspectiva bilíngue, do Departamento de Letras; Ciência sob tenda, do Instituto de Biologia; Preservação do audiovisual, cinema e educação e Inventar com a diferença, do Departamento de Cinema e Vídeo; Café com a UFF; Como identificar e se proteger de notícias falsas, dos alunos de Pedagogia, e revistas da produção da universidade”, como a Revista Aleph.

Projetos relacionados diretamente ao Ensino Básico predominaram no evento, o que atendeu às reivindicações do público presente, já que os cortes do Ensino Superior também foram justificados, pelo governo, por um incentivo maior à Educação Básica. O que não ocorreu, pois houve cortes também nessa área.



Ao apresentar o “Ciência sob Tendas” para uma senhora, o coordenador do projeto de extensão, Gustavo Henrique Alves, foi questionado se aquela atividade chegaria nas escolas, e respondeu: “Todo mês, nós vamos para colégios diferentes. Nós vamos levar toda essa exposição para lá. A gente leva tudo isso para ensinar as crianças e fazer com que os jovens não deixem de ter vontade de ser cientistas”.

O mesmo objetivo foi apresentado pelo professor do Instituto de Física e coordenador do projeto de extensão Casa da Descoberta, Lucas Sigaud. Pare ele, o intuito do projeto é mostrar para a população o que é desenvolvido na universidade, além de “incentivar, mostrar e despertar o interesse científico das crianças”. Ele destaca, ainda, que o projeto recebe muitas visitas de escolas, tem agendamentos diários de visitações de escolas públicas e privadas.

Sobre a situação do Ensino Básico, o professor do Colégio Estadual Joaquim Távora e base do Sepe Niterói, Diogo de Oliveira, relata os efeitos do corte de verbas: “Os cortes recentes que o governo do Bolsonaro fez no nível nacional não só atingem as Universidades Federais, a Rede Federal de Ensino, como também atingem vários programas da Educação Básica, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio”.

Segundo ele, “houve cortes, por exemplo, no FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). O FNDE financia, por exemplo, o programa de alimentação escolar, o programa de transporte escolar, livro didático, livros literários para compor as bibliotecas das escolas, transferências de verba para construção de escolas. Então, a situação de todos esses programas piorou com o corte de verbas. E, além disso, esse modelo de gestão pública está sendo copiada tanto no Estado do Rio de janeiro quanto na Prefeitura de Niterói. A Reforma da Previdência é uma reforma nacional, mas ela também tem pacotes nos estados e nos municípios”.

Sobre a relevância da iniciativa, ele comenta “a gente também tem que fazer um movimento pela defesa de qual condição de Educação Pública que a gente defende. E a luta da categoria aqui em Niterói tem muito a ver com a defesa de uma escola de educação integral, de qualidade, com profissionais de educação concursados e valorizados, ter, por exemplo, bibliotecas escolares, climatização das unidades escolares de toda a rede. Uma série de lutas pelas quais nós estamos nas ruas hoje”.

Em relação à recepção do público, Reginaldo Costa afirma que “muita gente da sociedade está apoiando”. E Lucas Sigaud comenta que “as pessoas vêm se interessam, querem saber mais, querem saber o que isso tem a ver com pesquisa de ponta, o que pode ser aplicado em casa. Muitas delas nunca viram uma coisa dessa sendo demonstrada dessa forma. A ciência é essa. Física não é a arte de achar respostas, é de achar perguntas”.

A apresentação de muitos projetos ligados diretamente ao Ensino Básico e à presença de representantes das escolas promoveram a união de todos pela luta por uma educação de qualidade em todos os níveis. Cartazes foram confeccionados para o ato unificado pela educação da tarde do mesmo dia. A iniciativa gerou frutos. Na quarta, 22, e no sábado, 25, a comunidade acadêmica saiu da universidade novamente, convidando a população para o diálogo.



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