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Black Mirror continua sendo “muito Black Mirror”?

Por Cecile Mendonça Imagens de divulgação “Isso é muito Black Mirror”. A frase viralizou, tornando-se até meme entre os espect...

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Black Mirror continua sendo “muito Black Mirror”?

Por Cecile Mendonça




Imagens de divulgação


“Isso é muito Black Mirror”. A frase viralizou, tornando-se até meme entre os espectadores, para referenciar fatos pesados da realidade que se conectam à série. Mas, com o lançamento da quinta temporada, diversas discussões foram levantadas entre os críticos e fãs. Parte acredita que a série perdeu o seu impacto e outros afirmam que a identidade do seriado se mantém. Foram apenas 3 episódios, e o último deles foi o que mais se destacou negativamente entre os fãs, sendo considerado por muitos um episódio fraco e fora da temática da série. Estaria então Black Mirror “menos Black Mirror”?


Black Mirror é uma série de ficção científica da televisão britânica, criada por Charlie Brooker, centrada em temas atuais e distópicos, trazendo uma certa obscuridade e satirização do comportamento humano diante dos avanços tecnológicos. A série basicamente examina a sociedade moderna, pautada principalmente nas consequências imprevistas das novas tecnologias, apresentando episódios autônomos, com elencos e histórias diferentes, que se passam no futuro ou em um presente alternativo.

A série começou a ser transmitida pela emissora Channel 4, no Reino Unido, em dezembro de 2011. Mas, em setembro de 2015, a Netflix comprou a série e logo organizou uma terceira temporada de 12 episódios que, na verdade, deu origem à terceira e à quarta temporada, já que foram divididos em seis episódios cada. A série recebeu aclamação da crítica e aumento de interesse internacionalmente, principalmente nos Estados Unidos, depois de ter sido adicionada à Netflix.

‘Parece um filme da sessão da tarde’

Essa foi uma das principais declarações sobre o último episódio da quinta temporada.



Usuário do Twitter @under_thor compara episódio ‘Rachel, Jack and Ashley Too' a um filme de sessão da tarde


Usuária do Twitter @jaquebelloni demonstra insatisfação com a quinta temporada de Black Mirror e compara episódio ‘Rachel, Jack and Ashley Too' a um filme de sessão da tarde.

E sendo Rachel, Jack and Ashley Too um dos episódios mais esperados pelos espectadores, pela atuação da atriz e cantora Miley Cyrus, ele acabou decepcionando grande parte dos fãs, já que caminha pelo clichê desde o início da trama. Além de acontecer uma série de situações exageradas e forçadas, que muda todo o conceito Black Mirror e se torna um título digno de se estar na Sessão da Tarde.


Mas, há também quem tenha gostado da última temporada, como Ana Carolina Ribeiro, estudante de Publicidade e Propaganda, que declarou estar muito satisfeita com Striking Vipers pelo protagonismo negro e pela exploração da sexualidade da pessoa negra que é bastante objetificada. Ressaltou também ter gostado porque “revelou uma das facetas dos relacionamentos modernos, mexendo com o tabu da monogamia e tudo mais”. Para Ana Carolina, Smithereens “foi um soco no estômago”. Ela se impressionou com a forma que o episódio aborda a dependência das redes sociais, e como tudo se torna banal e passado tão rápido. “Mostrar o mecanismo da relação entre a novidade que é constante nas redes sociais e como isso afeta nossa forma de ver as coisas foi genial”, diz Ana. 
Contudo, ela confessa que Rachel, Jack and Ashley Too foi o que mais a desapontou. Inclusive, falou sobre as expectativas que tinha para o episódio: “Achei que ia ser um episódio abordando como a tecnologia pode nos dominar e o quanto não questionamos mais as coisas por isso. Acreditava que a boneca daria comandos como “se jogue da ponte” e a personagem iria obedecer, algo assim”, explica. Mas, apesar do terceiro episódio não ter sido exatamente o que esperava, Ana Carolina classificou a temporada como “8/10” e ainda complementou dizendo que está recebendo muitas críticas negativas do público, porque, na realidade, “trata-se de uma crítica a nós mesmos e é difícil de engolir...se autocriticar”, afirma a estudante. 


Por que Black Mirror choca cada vez menos?

Para Maria Isabel Rodovalho, criadora do site e página ‘Cinemalize’, a série apenas se propôs a ser diferente inicialmente. “Então, o público, no geral, acaba sempre esperando reviravoltas no enredo como carro-chefe da série quando, na verdade, o carro-chefe é mostrar esse futuro distópico, que pode ser que aconteça ou não. O importante é focar nos comportamentos e realidades que já vivemos”, explica. 

Em relação às avaliações negativas de boa parte do público às duas últimas temporadas, ela afirma que não acredita que a qualidade diminuiu, apesar de confessar que a última temporada não a tocou muito. Mas explica que a série cumpriu o seu objetivo. “Eles causaram o efeito de “meu Pai, o que tá acontecendo com a realidade?", afirma.

Além disso, Maria nos conta sobre a experiência de conversar com Charlie Brooker – criador da série – na conferência Rio 2C este ano. Segundo ela, Brooker disse que ele não se propõe a falar sobre coisas ‘descoladas’ da realidade. Ele é apenas inspirado pelas tragédias da sociedade contemporânea para escrever seus episódios. “Eu facilmente faria um episódio sobre a onda de extrema direita no Brasil, usando sua distopia característica”, diz Charlie. 

Mas, enquanto para uns a série continua seguindo o seu conceito, para outros não é bem assim. Segundo o escritor e crítico do site Loucos por Filmes, Hugo Vinicius Pereira, “a série vem demonstrando uma queda flagrante de qualidade ao se tornar repetitiva em suas crônicas ou fantasiosa demais”. Ele explica que nas duas últimas temporadas, quase tudo girou em torno de usos diferentes de um mesmo conceito. E para Hugo, ao explorar muito uma mesma ideia, a série acaba variando na qualidade das suas histórias e expondo as falhas desse conceito de forma muito evidente. “Isso faz com que acostume a audiência e acabe se tornando previsível, algo que a série não costumava ser, e justamente por isso se tornou um grande sucesso”, afirma.

Acreditando que Black Mirror continua sendo “muito Black Mirror” ou não, ainda assim vale a pena conferir a nova temporada. Com o primeiro episódio filmado em São Paulo, estrelado por Anthony Mackie, de Vingadores, e Yahya Abdul-Mateen II, de Aquaman, o episódio começa repleto de potencial, discutindo relações no espaço virtual. Após, vem o destaque da temporada com Andrew Scott, de Sherlock, que traz um tenso debate, satirizando a obsessão pela cultura do Vale do Silício e o poder das empresas por trás das redes sociais. E, por fim, no episódio com Miley Cyrus, apesar de pouco impactante, promete divertir, além de construir uma crítica pesada à indústria musical e artistas fabricados. 


Pelo orgulho de ser quem se é

...

Por Thalita Bastos  

   A cidade estava mergulhada em cores. Enquanto pintores as traziam em pinceladas, retratando a lagoa que é o cartão postal de Maricá, num banquinho quase despercebido as cores ganhavam um simbolismo próprio. Lá estavam luta, identidade, aceitação, beleza no diverso. O banquinho colorido no início da lagoa foi o ponto de encontro escolhido por cinco amigos para, em junho, mês do orgulho LGBT, transmitir a mensagem da liberdade de ser quem se é. Através de fotografias, o evento “Rainbow Pride”, que aconteceu na Lagoa de Araçatiba, no dia 22 de junho, tinha como proposta despertar o reconhecimento de si mesmo por meio das imagens. A ideia partiu de um grupo de amigos, mas logo virou um evento que não cabia em volta de um banco de madeira. Vinte pessoas, entre LGBTQI+ e simpatizantes, participaram daquela tarde de sábado.     
   Pelas lentes de Daniel Lemos (21), Flávia Pariz (22), Maria Clara Pereira (18), Pedro Solis (19) e Rafaela Machado (18), mais de 20 rostos expressavam as essências de seus donos, exatamente o que os cinco organizadores propunham. “A parte que eu mais gosto do meu trabalho enquanto fotógrafo é exaltar e captar a nossa essência”, afirma Pedro Solis, “Estamos no mês da visibilidade, no mês do orgulho, com isso acho muito legal poder mostrar para as pessoas as fotos que faço delas e acompanhar como elas conseguem enxergar com outros olhos aquilo que muitas vezes não veem”.
   Solis foi convidado por Maria Clara Pereira, a idealizadora do “Rainbow Pride”, para trazer sua expertise em fotografia e fomentar novas percepções de cada um sobre si mesmo, tão caras a uma comunidade que busca se fortalecer no combate ao preconceito. “Eu via que as pessoas se sentiam mal, tinham a autoestima baixa por serem LGBT’s, por conta da sua sexualidade, por serem quem são, então decidi fazer esse evento para fotografar essas pessoas e contribuir justamente com a melhoria dessa autoestima ”, explica Maria Clara.
   Emoldurado pela natureza, o evento foi se tecendo de forma livre, com cangas estendidas pelo gramado e o sol tornando as cores das bandeiras de arco-íris mais vibrantes. O estímulo à partilha, com a proposta de cada participante levar sua contribuição para o lanche, gerou resultados acima do esperado e em pouco tempo apenas uma mesa não foi suficiente para receber brownies, sucos, bolos. Sobre as cangas, as pessoas se sentiam à vontade para deitar, conversar, trocar afetos e gargalhadas, enquanto outras passavam tintas com glitter nos rostos e partiam às margens da lagoa junto aos fotógrafos do dia, na busca pelo melhor cenário para dialogar com suas poses. O clima contagiou as pessoas, que logo começaram a tirar selfies e a fotografar os outros ali presentes.
   Jaqueline Ribeiro (19), estudante de direito da UERJ, era uma das participantes do evento a olhar para sua própria história com um sorriso no rosto. Confira entrevista concedida por ela ao Casarão.

Costuma frequentar eventos relacionados ao tema?
Costumo. Eu vou em palestras, na parada LGBT aqui em Maricá. Eu sempre tento frequentar esses espaços. Estudei no Instituto Federal Fluminense (IFF) de Maricá e lá fui bolsista do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual (NUGEDIS), criado em 2015 junto ao IFF de Maricá. Geralmente há esse Núcleo nos Institutos Federais. Esse projeto foi coordenado por uma professora de Filosofia, fui bolsista de agosto de 2017 a janeiro de 2019. O projeto visava organizar rodas de conversa a respeito desses assuntos, eventos, participamos de Mostras de Extensão, tudo isso dentro do espaço escolar ou em outros locais.

Qual é a importância de eventos como “Rainbow Pride”?
Quando eu soube achei muito importante, porque a maioria dos LGBT’s ainda tem uma autoestima baixa, eu mesma., Então quando tem um evento desses, de fotografia, ainda mais aqui em Maricá que não é uma cidade muito grande, é relevante.
Já sofreu algum tipo de violência/preconceito por ser lésbica?
Já sofri violência verbal, principalmente no Ensino Fundamental. Foi no Ensino Médio  que eu me assumi, mas estudei no Instituto Federal daqui, achei um espaço muito mais aberto. Antes me chamavam de sapatão, de coisas assim e eu negava logo, dizia que não, eu não era isso, dava várias desculpas, mas no Ensino Médio eu me soltei mais.
Foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal, no dia 13 de junho, que agora a homofobia e transfobia são crimes. Qual o significado dessa decisão para a comunidade LGBTQI+ e defensores da causa?
Acho muito importante, embora o processo de criminalização não seja necessariamente acompanhado de uma conscientização popular, de respeito, um processo que deve andar lado a lado com a lei. Mas já é um passo para a pessoa repensar qualquer atitude que tenha em mente contra LGBT’s, por se tratar de um crime.


Resurge o DACO: Pequeno movimento estudantil com grandes atitudes






Diante de transformações, pensamentos e questionamentos surgem estudantes lutando por seus ideais e em busca de um país mais justo. São os movimentos estudantis brasileiros. Esses movimentos começam a surgir século XIX e voltam a ganhar cada vez mais força.

Por Catiane Pereira
Sentados em uma calçada de cimento, um grupo de estudantes debate, argumenta, opina e organiza os próximos passos. Grandes movimentos estudantis, como a Passeata dos Cem Mil, começaram assim. Mas o cenário e os tempos são outros. Reunidos em uma das salas do Instituto de Artes e Comunicação Social - IACS, na Universidade Federal Fluminense, os estudantes reconstroem o Diretório Acadêmico de Comunicação Social (DACO), num movimento seguido por estudantes por todo o país.
Diretórios acadêmicos são organizações que representam todos os estudantes de uma instituição de ensino superior, e os centros acadêmicos representam os estudantes de um curso de nível superior. No caso do DACO,  os estudantes de Comunicação Social preferem que seja denominado diretório por ser mais de um curso ali representado. 
“O DACO está sem gestão na UFF desde 2016, pois em 2015 foi uma gestão provisória na época das ocupações, era uma coisa como autogestão. Nós já não tínhamos mais essa representação e isso acarreta em não termos voz dentro do departamento do curso, não termos voz dentro da faculdade, não termos nossas necessidades atendidas, pois esse é o papel do DACO, estar ali ouvindo os alunos, levando isso para a coordenação. Então no final do ano passado, antes de entrar de férias, eu e um amigo conversamos e resolvemos que seria necessário retomarmos as assembleias”, explica Thaís Gesteira, estudante do 5° período do curso de Jornalismo e uma das organizadoras da nova DACO. Diante das últimas ações do ministério da educação, incluindo o corte de 30% do orçamento das universidades públicas, alunos de todo o país passaram a se mobilizar em manifestações Brasil afora. Ao se envolverem com questões sociais e em consonância com movimentos estudantis, esses jovens percebem a dimensão que sua participação pode exercer, percebem que são além de sujeitos com particularidades, são cidadãos que podem mudar o rumo do país.

“O DACO foi fundamental na minha formação, eu entrei na universidade de um jeito e sai de outro. Vim de escola pública, com um ensino precarizado, eu não tive uma educação que me permitisse abrir os olhos para a realidade, pelo contrário, eu só tive essa possibilidade na universidade pública. Acho que é por isso, inclusive, que a universidade pública é alvo de tantos ataques, porque ela permite que as pessoas desabrochem, permite que as pessoas inaugurem um outro olhar perante a sociedade. O DACO me forjou enquanto ser humano que atua minimamente na sociedade.”, lembra André Borba, ex-atuante da DACO. A partir das reuniões e debates, os alunos começam a organizar suas demandas e criar um diálogo com as outras esferas da instituição, como explica Thaís. “No início, quando pensei em reconstruir o diretório, o que me motivou foi a falta de optativas, porque quero me formar e vejo que não temos muitas optativas para cumprir a carga horária. Entretanto, comecei a perceber que existem várias outras demandas muito importantes, muitas outras coisas que os alunos querem, por exemplo, a questão de eventos acadêmicos, não conseguirmos organizar e colocar ônibus de graça para irmos a congressos, não termos professores negros, e conversando percebi a necessidade de ter professores negros e outras pautas como ouvidoria contra opressões, e muito mais.”, declarou Thaís Gesteira.

Além disso, surgem muitas outras pautas que vão além das questões do próprio curso ou da própria universidade. Eu percebo que existem muitas demandas que não são assuntos acadêmicos em si, mas que são discussões fundamentais no meio acadêmico, como a opressão às maiorias minorizadas, que chamamos de minorias sociais, no caso, os negros, as mulheres, LGBTQI+. É importante ter uma organização que represente os estudantes quando tudo isso for discutido. E assim,  formarmos uma universidade que seja um lugar melhor pra todos, não só para formação profissional, mas para a vivência no dia a dia”, afirma Isabela Evaristo, estudante do 5° período do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal Fluminense

Os membros dos diretórios se sucedem, mas as conquistas do movimento estudantil permanecem. Jéssica Pietrani, ex-integrante do DACO, lembra que em 2011 a mobilização dos estudantes, que chegaram a ocupar a reitoria, foi fundamental para a abertura dos bandejões da Praia Vermelha e de Rio das Ostras.

“Mas a principal questão que na verdade mobilizou essa ocupação foi a realização de um convênio que permitia a construção de uma rua por dentro da universidade e uma outra que iria desalojar vários moradores de prédios ao lado do campus do Gragoatá, e nós conseguimos anular essa decisão”, conta.

São essas conquistas que mostram a força dos movimentos estudantis e o papel fundamental que desempenharam em vários momentos históricos brasileiros. O movimento estudantil já conquistou direitos importantes para a educação brasileira, como voto facultativo aos 16 anos e a destinação de 50% das vagas em universidades e institutos federais para estudantes de escolas públicas. Desses movimentos também surgem muitos líderes, representantes da população, como a Vereadora Verônica Lima, de Niterói.

 “O movimento estudantil é um dos mais importantes na consolidação da democracia e nas juntas populares do Brasil. Todas as vezes que nós tivemos lutas importantes, como a campanha “O Petróleo é nosso”, a luta pela redemocratização do Brasil, as “Diretas Já”, o “Fora Collor”, a “Passeata dos Cem Mil” na década de 60, em todos esses momentos nós tivemos a presença da juventude e nós tivemos a presença dessas instituições muito importantes como a UNE, a UBES. Eu tive a oportunidade de ser da executiva da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Luta pela escola pública de qualidade, pelo passe livre, por direitos,  sempre teve presente e esse movimento estudantil continua muito relevante, sobretudo, no atual momento”, declarou a vereadora, que é a primeira mulher negra a assumir o cargo na cidade. As reivindicações acompanham as demandas que são desenvolvidas pelas manifestações populares, leituras da conjuntura política e aberturas desse sistema. Os Diretórios Acadêmicos são, dentro da organização do movimento estudantil, as unidades mínimas da estrutura deste, mas não menos importante. Ele é o micro dentro do macro, no que diz respeito ao movimento estudantil. Esses organismos são um instrumento real de interferência na estrutura social.

“Se nós desejamos que o Brasil seja uma nação soberana, potente, a gente precisa investir em educação e em tecnologia. Por isso o movimento estudantil é mais atual do que nunca, porque a gente precisa defender não só a pauta da educação, mas sobretudo a pauta da democracia. A luta dos estudantes sempre esteve muito próxima e é fundamental que a gente consiga garantir a democracia no Brasil no momento atual. Então viva o movimento estudantil, hoje e sempre!” diz Verônica Lima.

No início, apenas a elite

Durante todo o século XIX, o ensino superior brasileiro esteve restrito a uma parcela extremamente limitada da população, com raras instituições no país. Os primeiros passos para a criação de um movimento estudantil foram dados por estudantes que vinham das universidades do exterior e, ao chegarem ao Brasil, envolviam-se nos debates acerca dos acontecimentos sociais. Movidos pelos ideais iluministas, os “filhos dos senhores de engenho” foram os precursores na representação de estudantes. O movimento estudantil iniciou-se nas elites, mas não parou por ali. Logo no início do século XX, com o crescimento da industrialização e das cidades, os estudantes  cresceram em número e importância. O rápido aumento do número de escolas, nas primeiras décadas do século, foi acompanhado da organização coletiva dos jovens, que desde o início de sua atuação estiveram envolvidos com as principais questões do país.  Muitos desses estudantes deram suas vidas por acreditarem num país mais justo, como o secundarista Édson Luís, o presidente da UNE Honestino Guimarães,  Fernando Santa Cruz, além de muitos outros, cada um deles com suas particulares. Édson Luís, de origem humilde, morava no Pará e mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de fazer o então segundo grau. Tiveram sua vidas interrompidas, mas deixaram sementes. 

Em todo país, multiplicam-se diretórios centrais, muitos com nomes homenageando estudantes mortos pela ditadura militar, representando todos os estudantes de uma instituição. A composição do Movimento estudantil compreende todas as camadas de estudantes: secundaristas e universitários, escolas técnicas, particulares e públicas, pequenas sementes que, quando plantadas e cultivadas, germinam e crescem.

Travas no Audiovisual: representação e inserção de corpos transexuais no cinema

A insegurança dos que asseguram


Corte dos terceirizados da UFF atinge em cheio os vigilantes


Por Ghabriella Costermani Machado

De acordo com o dicionário Aurélio, a palavra segurança significa o afastamento de todo o perigo, uma garantia de que nada irá lhe acontecer, representa a ação de se sentir seguro e soando quase como um zelo: Esta é a sensação que diversos seguranças, vigilantes, assim como funcionários do departamento de limpeza e administração da Universidade Federal Fluminense repassam para os seus alunos. No entanto, esse mesmo cuidado não tem sido oferecido de volta àqueles que, durante anos, têm sido protetores dos diversos estudantes e docentes que passam pela instituição.  

Como funcionários da segurança, os vigilantes são responsáveis por preservar o patrimônio e a estrutura da universidade, além de garantir a integridade física dos estudantes. Com a ausência deles, os alunos esbarram em alguns obstáculos, como não ter segurança no trajeto entre um campus e outro, e ter a alimentação e o transporte universitário interrompidos. Inúmeros terceirizados da UFF afirmam, porém, que o pagamento tem estado irregular desde novembro de 2018, ou seja, sem uma data fixa – alguns confessam estar nessa situação há mais de um ano. Outros confirmaram que hoje o atraso já teria completado dois meses seguidos, tendo apenas o depósito de transporte em dia. Devido a isso, 70% dos funcionários da faculdade entraram em greve, enquanto os outros 30% continuam trabalhando sem receber. Alguns trabalhadores do setor de refeição e transporte também aderiram à paralisação como forma de protesto, tendo os serviços de refeições noturnas oferecidas pelo “bandejão” e o “busuff” sofrendo reduções. 
 
Segundo ao portal G1, 100 funcionários teriam sido demitidos apenas no ano de 2019. Os poucos que exercem essa função há vários anos contaram que diferentes colegas, que estiveram lado a lado com eles por quase uma década têm enfrentado dificuldades. Alguns dos terceirizados afirmam que enquanto uns foram despejados de suas casas por não ter conseguido pagar o aluguel, contas de luz e água, outros não têm sequer o que comer e acabando dependendo de ajuda - seja de familiares, amigos e até mesmo de alunos e professores.

A partir daí diversas paralisações e mobilizações foram sendo feitas em prol da regularização dos direitos dos trabalhadores da Universidade Fluminense. No dia 15 de abril, houve uma mobilização por parte dos terceirizados das empresas Luso-Brasileira e Croll, reivindicando o pagamento do salário ainda do mês de março. Segundo a redação da Associação de Docentes da UFF (ADUFF), os constantes atrasos nos salários e a possibilidade de encerramento do contrato entre as empresas terceirizadas e a UFF são motivo de preocupação entre os trabalhadores da faculdade, que se manifestaram. 
  
No mês seguinte, após essa mobilização, a universidade efetivou novos cortes por todo o campus do Gragoatá. No dia 28 de maio, houve uma singela despedida para os funcionários do Instituto de Geociências da UFF (IGEO). Três dias depois (31), alunos e professores fizeram uma homenagem aos muitos servidores que se juntaram aos mais de 100 demitidos.  

Já em 19 de junho, uma internauta desabafou em suas redes sociais, relatando sobre novos casos de contratados que receberam demissão: “Hoje acordamos com menos 400 funcionários de setores fundamentais para o funcionamento da Universidade. 400 terceirizados demitidos! 400 famílias atingidas! Inclusive a única funcionária do LAB, minha amiga e braço direito. Segurança em greve por falta de pagamento. Sem previsão”. Na quarta seguinte, o diretor do curso de Direito da UFF, Wilson Madeira, também realizou um evento de despedida. Inara Juvita, estudante de direito e membro do centro acadêmico, relatou sobre o café da manhã concedido aos funcionários. “Os estudantes fizeram algumas cestas básicas, criamos um grupo e cada período fez uma cesta. Toquei mais um café para o pessoal da limpeza que foi despedido, mas não como celebração, não há nada a ser comemorado. Mas em atitude de agradecer o que esses funcionários fizeram e fazem pela UFF”. 

As movimentações continuaram sendo realizadas por pequenos grupos de estudantes, que disponibilizaram alguns pontos de coletas pelos blocos da faculdade - como no campus do Gragoatá e IACS -, a fim de angariar recursos e ajudar aqueles que estão em situação de dificuldade. No entanto, um vigia que preferiu não se identificar contou que apesar de se tratar de um gesto bonito, o constrangia um pouco. “É bonito, nós valorizamos, mas isso de fato não muda nada. Enquanto estivermos aqui, para eles (empresas responsáveis pelos trabalhadores e UFF), estará tudo bem”. 

Consultada, a assessoria de imprensa da reitoria informou não ter atualizações sobre o assunto. Em nota, emitida na quarta-feira (12), um dia antes da audiência com o Ministro da Educação Abraham Weintraub, no entanto, afirmou que o bloqueio de cerca de 30% do orçamento teria feito com que a “situação orçamentária e financeira se tornasse ainda mais difícil, com dívidas acumuladas ao longo dos anos”. A UFF teria um custo de R$ 16,7 milhões por mês, incluindo os contratos de prestação de serviços de terceirizados. “Só que, mesmo antes do bloqueio, a instituição já recebia um financeiro menor do que o necessário, o que prejudicava fortemente os pagamentos e a prestação dos serviços”, conclui a nota.

Copa da representatividade



Por João Eduardo Dutra

A Copa do Mundo vai chegando em suas fases finais na França. Ué, mas a Copa do Mundo não foi ano passado na Rússia? Calma, sim, teve Copa do Mundo no ano passado, mas essa foi a masculina. A competição que está ocorrendo na França em 2019 é a Copa do Mundo de futebol feminino. Em sua oitava edição, a competição contém 24 times e ocorre desde 1991.

Poderíamos discutir a qualidade esportiva do evento que contém uma seleção tão talentosa quanto a americana, que conta com grandes jogadoras como Alex Morgan e Carli Lloyd. Ou da forte seleção francesa, que joga em casa e tem como base o time do Lyon, que foi quatro vezes campeão da Champions League nos últimos anos. Falar do Brasil que, embora não viva seu melhor momento, tem a presença da artilheira Cristiane, a interminável Formiga e a maior artilheira de copas do mundo (masculino e feminino) e seis vezes melhor jogadora do mundo, a rainha Marta.

Mas não, o texto de hoje não é para debater a importância esportiva do evento, é para debater a importância por si só que tal competição tomou. Na Copa do Mundo de 2018, os franceses jogavam pelos franceses, brasileiros pelos brasileiros e assim por diante. Assim ocorre na maioria dos eventos esportivos envolvendo nações, o time nacional representa o seu povo. Mas a Copa do Mundo da França venceu essa barreira.

Isso pode ser notado pelas diversas torcedoras dessa copa, mulheres que tinham ou não interesse pelo futebol, mas que se sentiram representadas dentro dos gramados. Como a estudante de jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) Ghabriella Costermani. Ghabi, como gosta de ser chamada, sempre assistiu a jogos de futebol, mas nunca sentiu vontade de saber mais a fundo sobre o esporte, assistia, como muitos, pela emoção do ‘jogo bonito’.

“Desde criança eu assisto a jogos de futebol. Nunca fui atraída em saber as regras, qual o melhor time e jogador, nem de acompanhar meu clube ou coisas assim. Eu simplesmente gosto da alegria, da tensão, de ver jogadas bonitas e de vibrar junto com todo mundo quando o narrador grita gol”, diz Ghabi.

Todo esse sentimento se elevou com a copa, mas não qualquer copa, a copa que a estudante conseguia se ver em campo.

“Com a copa eu sinto que todo mundo se une. Sente o mesmo sentimento. Quando o Brasil ganha, todo mundo ganha, a mesma coisa quando perde. Essa comoção que abrange todo mundo é do que mais gosto. No entanto, eu sempre vi apenas homens em campo. Era legal, mas ver agora mulheres jogando, me cativou ainda mais. Me sentia representada, quase como uma prova de que ‘opa, pera..Claro que mulher pode jogar futebol’.”

Ghabriella foi uma das inúmeras mulheres que sentiram orgulho da seleção canarinho em 2019 e se sentiram representadas cada vez que Marta, Debinha, Formiga, Cristiane e companhia entravam nas quatro linhas.

“Foi um time que me deu muito orgulho, orgulho de ser brasileira e orgulho de ser mulher. E eu quero que outras se sintam assim também, sabendo que sim, claro que a gente pode colocar uma chuteira no pé e merecer o reconhecimento, serem televisionadas e serem cativadas pela nossa torcida. Eu espero que cada vez mais haja patrocínio, mídia, torcida, muitas bolas nas redes e outras coisas que deixam a todos felizes. Mas que possa ter principalmente reconhecimento de incríveis mulheres, que representa cada uma de nós lá dentro”.

Muito mais que representantes de sua nações, essas seleções representavam o seu gênero. A cena emblemática das jogadoras brasileiras cantando “jogadeira” na chegada do primeiro jogo, uma música escrita por Cacau e Gabi Kivitz, duas jogadoras de futebol, que trata um pouco do machismo em relação ao esporte. Essa foi a Copa da exposição pela luta da representatividade.

Um dos exemplos disso é o processo que a seleção americana está movendo contra a organização do esporte no país. A recorrente diferença salarial entre sexos. O jogador mais bem pago da seleção masculino ganha quase 200 mil dólares a mais que a jogadora mais bem paga. Diferente do Brasil, a organização e a própria constituição americana teriam leis que em tese evitariam essa diferença, mas não é o que acontece na prática.

O processo foi iniciado em 2016 e a resposta da federação para a não igualdade foi que, necessariamente, não era o mesmo trabalho que jogadores e jogadoras desempenhavam. Se esse é o caminho que a federação quer usar, a diferença faz menos sentido ainda. A seleção feminina americana é a mais vencedora do esporte e, sem dúvida nenhuma, é a mais vencedora do futebol no país. Não existe comparação entre os dois times. Outras ligas americanas como a Woman National Basketball Association (WNBA) tem a geração de receita e o fato de ser uma organização diferente como explicação da diferença salarial quantitativamente. Mas no caso do futebol, a seleção feminina gera mais receitas e lucro que a masculina. Ou seja, a ‘U.S. Soccer’ (Federação de futebol nos Estados Unidos) propõe as mesmas condições de trabalho e mesmas expectativas, recebe mais receita pela equipe feminina e ainda assim promove a diferença salarial.








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