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A ascensão do cinema brasileiro

Por Juliana Oliveira e Roberta Ruchiga  "As Boas Maneiras" de Juliana Rojas e Marco Dutra   Apesar dos diversos mei...

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A ascensão do cinema brasileiro

Por Juliana Oliveira e Roberta Ruchiga

 "As Boas Maneiras" de Juliana Rojas e Marco Dutra

 
Apesar dos diversos meios de acesso à cultura, segundo o estudo feito pela Tendências Consultoria através da Motion Picture Association (MPA), quase metade da população, 46%, ou seja, 93 milhões de pessoas, não têm acesso a cinemas. Ainda que o percentual seja alto, o mesmo estudo mostra que, de 2013 a 2015, as salas de cinema cresceram de 2679 para 3005 e que o número de ingressos vendidos nos cinemas também aumentou.

Os festivais de cinema brasileiro servem de plataforma para o crescimento e a consolidação de novas produções audiovisuais do país. No Brasil, o mais antigo e tradicional é o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que já está em sua 51ª edição. Sediado no Cine Brasília, o evento anual foi instaurado pelo professor de cinema da Universidade de Brasília, Paulo Emílio Sales Gomes em 1965, e é promovido pelo governo do Distrito Federal.

O Festival do Rio é uma junção de dois antigos eventos da cidade, Mostra Banco Nacional e o Rio Cine Festival, e desde 1999 exibe longas e curtas, principalmente brasileiros, em diversas salas dos cinemas cariocas. Sem o apoio da Prefeitura do RJ há dois anos, em 2018, o festival adiou sua estreia em um mês por falta de patrocínio. Grandes nomes do mundo cinematográfico já passaram pelo FDR apresentando seus filmes, como Roman Polanski, diretor de "O Pianista", em 2002; Dario Argento, para a mostra "Dario e seu mundo de horror", em 2011; E atores e atrizes como Samuel L. Jackson, Kylie Minogue, Jane Birkin, Danny Glover e muitos outros.

No Rio Grande do Sul, o Festival de Cinema de Gramado marca presença desde 1973. Um dos maiores do país, premia seus ganhadores com o famoso troféu "kikito". O evento possui sessões de reprises gratuitas para o público e já recebeu nomes como Camila Morgado, Tony Ramos, Alinne Moraes, o francês Etienne Chicote, entre outros. O Festival de Gramado tornou a Serra Gaúcha palco de grandes debates e encontros de artistas do cinema.

Outra iniciativa que colabora com a expansão do cinema nacional é realizada pela rede de cinemas Cinemark. O evento “Projeta Brasil”, que já teve 19 edições, exibe filmes nacionais em salas de todo o país. Os ingressos custam apenas R$4,00. O objetivo da rede é incentivar o cinema brasileiro aproximando o público das principais obras nacionais e fomentar recursos para apoiar premiações, projetos educativos e de acervo.

O aumento de produções brasileiras em festivais internacionais é um grande benefício para o cinema daqui e, para incentivar ainda mais esse crescimento, o programa da ANCINE - Agência Nacional do Cinema “Programa de Apoio à Participação Brasileira em Festivais, Laboratórios e Workshops Internacionais” ajuda com cópias, financeiro e legendas, filmes e projetos audiovisuais que foram oficialmente convidados para participar dos festivais ou laboratórios internacionais, mas não possuem a verba total. Em 2017, o programa levou 25 obras para 11 festivais, entre eles Festin (Portugal), New Directors/New Films (Nova Iorque), FICG (Guadalajara) e muitos outros. A inscrição pode ser feita no site oficial da ANCINE.



A presença do Brasil em festivais internacionais

Nos últimos anos, tornou-se comum o reconhecimento de produções nacionais em grandes festivais mundiais. Em 2017, o filme de horror “As Boas Maneiras” de Juliana Rojas e Marco Dutra ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema de Locarno, evento anual que acontece na Suíça. O longa foi uma surpresa agradável para os amantes do cinema, conquistando com sua história envolvente e inovadora críticas positivas de jornais, como o The New York Times e a revista estadunidense Variety.

Já em 2018, o cinema brasileiro concorreu no Festival de Berlim em diferentes categorias. O evento premiou cinco das 12 produções indicadas, com seis prêmios distribuídos entre eles. Os filmes “Tinta Bruta”, “Aeroporto Central”, “O Processo”, "Bixa Travesty” e “Ex-Pajé” desenvolvem enredos controversos sobre a realidade brasileira, como a sexualidade e o impeachment de Dilma Rousseff.

A seção independente “Quinzena dos Realizadores” do Festival de Cannes, teve em sua edição de 2018 dois representantes brasileiros de peso. O longa “Los Silencios” e o curta “O Órfão” não levaram o prêmio, porém deixaram a marca do Brasil pela 34ª vez no evento internacional.

Cada vez mais o cinema nacional vem estabelecendo a expressiva relevância das produções brasileiras e deixando sua marca ao redor do mundo.



O cinema da Retomada

Desde o seu surgimento, em 1897, o cinema brasileiro passou por ascensões e momentos de crise. Durante a década de 60 e 70 a cultura do país viveu anos sem liberdade. Pouco tempo após, na década de 80 enquanto o Brasil se redemocratizava pós ditadura, a crise econômica atingiu fortemente o mercado audiovisual, que se reergueu somente em meados dos anos 90.

A Retomada veio graças à leis de incentivo à cultura, como a Lei do Audiovisual - de 1993 - que além de conduzir o crescimento na produção cinematográfica, gerou mais liberdade criativa dos cineastas e acabamento técnico superior ao que a população estava acostumada.

Segundo a ANCINE, nos últimos quatro anos da década de 90 e começo do século XXI o crescimento foi de quase 300%. Em 1995, quando a indústria cinematográfica começou a se reerguer, sete filmes nacionais foram lançados, contra 31 em 2000.

Desde então, os números só aumentaram. Os blockbusters brasileiros começaram a fazer sucesso, longas como “O Auto da Compadecida” de Guel Arraes e “Os Normais” de José Alvarenga Júnior tiveram grande êxito comercial como exemplos clássicos da comédia brasileira.

Um marco da mesma época é o aclamado longa de Fernando Meirelles, “Cidade de Deus”, lançado em 2002. O filme foi um sucesso tanto no Brasil quanto internacionalmente, sendo indicado a quatro categorias da importante premiação norte-americana Oscar. Jornais como o The Guardian e a revista The Atlantic aplaudiram a produção de Fernando Meirelles em suas críticas positivas.

Do início do século XXI aos dias atuais, o cinema brasileiro cresceu aceleradamente, concorrendo cada vez mais em premiações internacionais importantes. Além do empenho em desenvolver gêneros que eram pouco explorados, como o terror e a ficção científica.

Parados no sinal

Trânsito tira a tranquilidade da Cidade Sorriso



Por Anna Luiza Amorim, Breno Behnken e Lara Barsi


Foto: Aayush Srivastava/Pexels

O aplicativo de transporte particular 99 publicou uma pesquisa, feita a partir da própria plataforma, que elegeu as dez cidades mais engarrafadas do Brasil. A surpresa está no pódio: Niterói tem o pior trânsito do país, superando grandes centros urbanos como Rio de Janeiro, em 8º lugar no ranking, e São Paulo, que ficou na sétima posição. A análise foi feita a partir da relação entre distância e tempo de viagem nos trinta centros onde mais se utiliza a plataforma. A Cidade Sorriso desbancou as duas maiores capitais do país com horários de pico até 80% mais lentos do que o normal.
Jailson Salles é taxista em Niterói há 8 anos, e todos os dias enfrenta o estresse do engarrafamento da cidade, que “já é muito engarrafado, porém fica muito pior no horário de pico”. O congestionamento chega a afetar a saúde do motorista, que diz ter dores na perna causadas pelo uso constante dos pedais, e o tempo que passa sentado no carro, parado no trânsito.
Os problemas enfrentados por Jailson são os mesmos que outros muitos motoristas vivenciam no dia-a-dia. A prefeitura, ciente dos problemas que afetam a vida dos niteroienses, já realizou intervenções pela cidade em busca da melhoria do tráfego. Em 2017 foi inaugurado o Mergulhão da Praça Renascença, com o intuito de desafogar o trânsito, principalmente dos coletivos que vêm do Terminal João Goulart em direção à Ponte Rio Niterói e à Alameda São Boaventura, mas os motoristas ainda encontram dificuldades. Vias importantes da cidade, como a Visconde do Rio Branco e Ernani do Amaral Peixoto, as duas principais do Centro, sofrem com o trânsito intenso. A Rua Marquês do Paraná, que liga o bairro à zona sul através de Icaraí, não depende nem de horário de pico para estar engarrafada. E as ruas Roberto Silveira e Miguel de Frias, que levam o fluxo do carros de Icaraí para o Centro, também passam mais tempo engarrafadas do que livres.
Existem projetos no planejamento da cidade, como a criação de um Corredor Metropolitano, com faixas exclusivas para o fluxo dos coletivos, com controle centralizado e acionado pela demanda. O alargamento das vias, quando possível, também está nos planos da Prefeitura, para melhorar a acomodação do fluxo. Algumas dessas obras já começaram, como a expansão da Avenida Marquês do Paraná, via que liga os dois principais bairros da cidade. No entanto, um ano após o seu início, a remodelação ainda não terminou, mesmo com o prazo dado pela Prefeitura ter sido o segundo semestre de 2018.
Para o presidente da NitTrans, Coronel Paulo Afonso Cunha, o trânsito em Niterói tem origem principalmente no número de carros. A cidade possui 500 mil habitantes e 298 mil carros, para 32km² de área. Assim, para ele, a pesquisa do aplicativo 99 não corresponde ao trânsito da cidade. “Eu não concordo com a pesquisa. Nossos números em termos de acidentes, em termos de entroncamentos, mostram que o trânsito está numa faixa boa, tanto de segurança, quanto de fluidez. A nossa visão é de que o trânsito em Niterói acompanha o seu IDH”. O Índice de Desenvolvimento Humano da cidade é o mais alto do estado, e o quarto maior do Brasil. “Nós não consideramos o trânsito aqui como essa 99 declarou, que é o pior trânsito do país. Ela fez um cálculo errado na minha acepção”, completou.
O professor do Setor de Transportes da Engenharia Civil da  UFF, Levi Salvi, aponta que Niterói cresceu de forma pouco ordenada e no passado não existiu um projeto efetivo de médio e longo prazo para o sistema viário, como é comum em cidades planejadas, com vias expressas, arteriais, coletoras e locais. Na maioria das cidades brasileiras, entretanto, grande parte do percurso é realizado por vias locais e de pequeno porte, e mesmo assim, parte da via é utilizada para estacionamento de veículos na lateral.
Levi ainda aponta uma provável solução: “A experiência vivida por outros centros urbanos semelhantes mostra que os projetos que terão melhor resultado prático estão ligados ao transporte coletivo e de massa com qualidade, que diminuem o número de veículos particulares e individuais em trânsito. A expansão do sistema viário em área urbana densamente povoada é muito difícil, e tem inclusive um impacto social, como as desapropriações.”

Bicicletas: o transporte do futuro


Foto: Cristiana Raluca/Pexels

Fabiana Marques conta que faz uso da bicicleta desde que se mudou para Niterói, há sete anos, sendo o meio de transporte mais rápido para levar seu filho para a escola, além de não ter que se preocupar com estacionamento. Ela faz uso do carro apenas em momentos que precisa sair com a família toda, como em um almoço de domingo, um passeio mais distante ou uma visita a familiares. Fabiana acredita que a prefeitura não se mobiliza o suficiente para melhorar a vida daqueles que optam pela bicicleta: “Não existe segurança efetiva para os ciclistas nas ciclovias, frequentemente caminhões e carros estacionam exatamente em cima da ciclovia (para carga e descarga de materiais no comércio). Não há nenhuma placa de sinalização e os motoristas em geral não respeitam o limite de 1,5 m de distância das bicicletas. Sou ciclista de todos os dias e ainda carrego meu filho na cadeirinha. Faço a minha parte, sinalizo com os braços e minha bicicleta tem retrovisores, isso me ajuda muito”.
Levi considera ciclovias como uma tendência mundial:  “Acredito que os resultados serão mais efetivos se a construção da ciclovia vier acompanhada de uma política pública mais ampla de incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte urbano. As ciclovias são relativamente recentes no Brasil e nos grandes centros urbanos, como é o caso de Niterói. Com um pouco mais de tempo e experiência, os pontos falhos serão ajustados e obteremos bons resultados”.
Para o Coronel Paulo Afonso Cunha, presidente da NitTrans, a bicicleta é uma alternativa possível para a cidade. “O meu sonho é que, ao invés de termos 298 mil carros, tivéssemos 298 mil bicicletas em Niterói. Não haveria poluição, não haveria tantos acidentes, tanta violência. Só que temos apenas 5 mil bicicletas na cidade”. Segundo Cel Paulo, a Prefeitura de Niterói é extremamente favorável ao transporte de bicicletas, através do projeto de mobilidade urbana que expande as ciclovias e ciclofaixas na cidade. Além disso, a cidade inaugurou o Bicicletário da Praça Araribóia e também pretende inaugurar um bicicletário em Itaipu, finalizando a Transoceânica e integrando a bicicleta com o transporte o transporte de massa.
“As duas mais importantes ruas de Niterói, Ernani do Amaral Peixoto e Roberto Silveira, possuem ciclovias. E temos mais de 20 km de ciclovias. Damos todo o apoio ao transporte de bicicleta. Já terminamos? Não, ainda tem muita coisa. Mas também precisamos dar apoio às motocicletas, aos caminhões de carga e descarga, aos ônibus”, afirma.

Escape do trânsito!


A cidade conta com site e conta oficial no Twitter, com o nome de Nittrans, para informar sobre trânsito e transportes. Também é disponibilizado um número de Whatsapp [(21) 98400-5519] para melhorar a comunicação da população com a Nittrans. Além dos canais oficiais, os niteroienses contam com diversos perfis e grupos nas redes sociais, como é o caso da Niterói Radar no Twitter, que atualiza constantemente as informações sobre o tráfego.

Os novos “Niteroienses”



Os novos “Niteroienses 
Percepções financeiras e psicológicas de quem alterou seu endereço para Niterói pela vida acadêmica. 

Por Ana Carolina Moraes e Beatriz Lisbôa 

                                                                        (Fonte: Wikipédia)


         Segundo o ranking do site TNH1, que reuniu informações do site nacional do Custo de Vida do país, e do site internacional Numbeo, feito em março de 2017, Niterói é a 4º cidade mais cara de se viver no país. Dentre esses altos custos, está incluído o aluguel que varia entre R$ 1.200 e R$ 2.080. O mercado imobiliário na cidade é altamente movimentado pelos universitários que vêm de outras localidades e buscam uma proximidade ao seu local de estudos diários. Segundo a Superintendência de Tecnologia da Informação da Universidade Federal Fluminense, em 2015, mais de 500 alunos que ingressaram na instituição vieram de outros estados, dentre o total de 5530 calouros do sistema presencial e 2031 do ensino à distância. 
       Um jovem é aprovado na Universidade Federal, se muda para uma nova cidade, assume responsabilidades, faz novos amigos, se desprende da influência dos pais, amadurece e passa a descobrir um novo mundo e sua personalidade em um local totalmente diferente. Essa é a história de Pedro Maçano, estudante de publicidade de 20 anos, que veio de Guarulhos, no Estado de São Paulo, para a cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, em busca da formação acadêmica na Universidade Federal Fluminense. Essa também é a realidade de muitos estudantes que todos os anos arriscam experimentar a vivência em outros lugares. 
         A UFF é uma das faculdades que impulsiona essa mudança na vida de jovens universitários e os atraem a sua cidade sede, Niterói. Os estudantes mudam de cidade, estado e até mesmo de país para ser possível frequentar a universidade. A instituição oferece vagas na sua moradia estudantil, porém essa opção é de muito difícil e demorado acesso, o que submete os distantes a alugarem imóveis na cidade, e por conta própria, pois as bolsas propostas pela universidade também são escassas. 
         Esses alunos se queixam do alto custo de vida em Niterói. Todos os entrevistados admitem ter enormes gastos morando no município e tentam dividir os custos com as pessoas das repúblicas e moradias. Os entrevistados relatam gastar uma faixa de 600 até 800 reais por mês, contando já com o aluguel. As formas de sustento acabam sendo, principalmente, o financiamento dos pais. Os gastos são com alimentação, aluguel, contas e consumo do dia a dia. 
         Apesar das despesas atuais que superam as das cidades de onde vieram, os estudantes afirmam que o custo/benefício é válido pela comodidade dos locais bem próximos à faculdade. Esse é o pensamento de Trevor Georges, estudante de arquitetura, de 25 anos, que veio de Gana, na África, e já morou em locais como Londres. “É alto (o custo de vida da cidade). Daria nota 8”. Ele também confessa que ainda não pode concluir se já está totalmente adaptado ao custo de vida daqui, mas está tentando. 

Formas de se bancar 

         O sustento numa cidade nova de custo elevado pode vir de diversas fontes de renda alternativas, como, por exemplo, para a estudante de jornalismo Carolinne Cabral, de 19 anos, que vende brownies para ajudar nas contas. A aluna vende pelo valor de 2 a 4 reais, dependendo do tipo de brownie. Ela distribui brownies no campus onde tem aula, e aceita, inclusive, pedidos por Whatsapp. “Meus pais me ajudam pagando meu aluguel e eu vendo brownies na faculdade para pagar as contas e o que mais precisar”. Carolinne diz ganhar em torno de 200 reais com os brownies. 
         Já Pedro Maçano confessa que tenta economizar ao máximo e dividir o possível das contas da casa. “Procuro sempre me controlar com meu dinheiro, não gastar muito em besteira, sempre aproveitar as promoções e não ficar comprando muita regalia na hora das compras de casa, divido as coisas com os moleques que moram comigo.” 

Distanciamento da família 

         Outro empecilho à mudança é o distanciamento repentino da família, amigos e rotina. Esse, além de causar mudanças financeiras e no ciclo social do aluno, é de grande impacto para o psicológico desse estudante, que se encontra em uma situação de solidão e sentimento de desamparo por estar em um novo ambiente, longe do seu ciclo social e sua rotina entre família e amigos. Alguns estudantes relatam que suas primeiras semanas na nova casa foram de intenso estresse e ansiedade, pois se sentiam extremamente tristes e sozinhos, sem ter a quem recorrer. Carolinne revela que ficou os primeiros dias sem comer, pois sentia falta de casa. Ela veio de Seropédica, onde estudava na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, mas seu bairro natal é Marechal Hermes, no Rio de Janeiro. 
         O estudante Trevor afirma que a saudade da família existe, mas é necessário seguir em frente. Ele declara que já faz dois anos que não visita a família em Gana, e um dos motivos é o custo da passagem aérea. 
         Pedro Maçano também sentiu o choque ao morar longe dos pais, porém hoje já se acostumou e volta sempre que possível para seu estado de origem. “No começo, só pensava em voltar para Guarulhos e era muito ruim ficar sozinho e distante de todo mundo que você conhece, mas depois de um tempo, eu fui conhecendo as pessoas, acostumei com a rotina. Agora, apesar de sempre estar com aquela saudade, eu estou mais tranquilo de morar aí, ainda mais que eu sempre volto para Guarulhos nas oportunidades que tenho”. O estudante busca ir a cada dois meses para sua cidade natal. 
         A psicóloga Sandra Torres afirma que o afastamento da família pode ser, muitas vezes, mais saudável. O fato de morar longe de casa gera mais liberdade para o jovem, porém ele estar preparado ou não para isso é outra questão. “É caminhar com as próprias pernas”. Ela afirma que há dificuldades de adaptação, de morar com alguém que não se conhece ser uma situação difícil, mas tudo é adaptável, especialmente, em busca de uma profissão. “O mais impactante, eu acho que é o caminhar sozinho, é cada jovem se surpreender e se deparar com a chance de crescer com tudo isso. Nós crescemos no sacrifício, na busca de conquistas. Cada conquista é um avanço, um investimento”. 
         Todos os personagens contam que as redes sociais são essenciais para manter o contato com os pais e os amigos, para manter o antigo laço, sem romper a nova caminhada.

Eu canto liberdade



Por Júlia Sestero

Ela andava por entre as imagens, lia, se abaixava, olhava de perto, nada entendia. Rodou, olhou em volta de tudo, em volta de si, foi seguindo. Olhou a primeira figura, tecidos torcidos e retorcidos, um círculo. Exatamente o 360º que ela havia dado recentemente. Continuou com afinco, uma gaiola, uma mão dentro de uma gaiola, um pássaro dentro da gaiola. Disso ela entendia: quem vive aprisionado sente as correntes de longe. Como o pássaro ela também queria voar, também queria ser livre, afinal, todos não queriam se desprender de amarras? A mão trancafiada ela interpretou como a que sufoca o grito, tenta silenciar o choro, ou pode ser também alguém querendo fugir de um amor que aprisiona, os caminhos eram muitos. Aquela conjuntura a prendeu por muito tempo.

Sonia Gomes nomeou a exposição de "A vida renasce sempre", é muito provável que agora, com 46 anos, ela tenha enxergado na sua arte em pano retorcido, a sua forma de fugir de dentro de si, mas essa visão é particular. Quando se está preso se busca liberdade, o renascer e, o tempo todo,  a gente se sufoca, se aprisiona. Toda prisão busca libertação, mesmo que ela nunca chegue. Assim como as crianças que mais tarde entraram no museu, correram, procuraram com seus pequenos olhos quem sabe alguma história fantasiosa por trás daquele conjunto de retalhos, o que move o carcerário é fantasiar a sua alforria.

Alguns pais levavam nas mãos seus filhos, até que um menino se desprendeu e correu em direção ao telão. "Um bueiro", ele disse. O filme passava diversos ângulos de um bueiro. Porque alguém iria querer retratar um bueiro? A exposição do andar de baixo não era a mesma do andar de cima mas, ainda assim, dava para relacionar de tantas formas. Os objetos contorcidos, as texturas nos quadros, para uma pessoa leiga, era a união de objetos sem sentidos. Quem tem um pouco de imaginação cria uma história até com um cano de água.

Ainda não satisfeita com o entrelaçar da narrativa que criou se imaginando como objeto criado, ela foi mais a fundo e viu uma mesa que a chamava "Monte sua frase", a convidando para construir uma história. Ela já tinha todo um desenrolar de acontecimentos, mas olhou as palavras e escreveu "Eu canto liberdade" e dali, ela saiu porta afora, avistou o mar, se esqueceu do que aconteceu a pouco tempo, e foi puxada pela sua rotina.

Artistas brasileiras no Mac


Por Júlia Leite
Está em exposição no MAC, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, até 09 de dezembro, uma homenagem à quatro das mais importantes artistas visuais brasileiras do século XX. Anna Bella Geiger, Lygia Clark, Mira Schendel e Wanda Pimentel tiveram diferentes atuações na história das artes visuais no Brasil, mas foram todas testemunhas da passagem da primeira para a segunda metade do século XX. O trânsito de linguagens e questões desse período resultaram na experimentação com múltiplas linguagens, na necessidade de sair de um lugar seguro durante a ditadura militar no Brasil e na maneira como lidavam com a efemeridade de suas obras, pontos em comum entre as três artistas. 
As obras são parte do acervo de João Sattamini, que morreu na última terça-feira (6), e sua exposição surge no momento histórico em que diversas instituições museológicas refletem sobre a presença de artistas mulheres em suas coleções. Essa curadoria ressalta o objetivo de tornar a memória da história da arte no Brasil menos masculina e mais multifacetada. Diante das obras destas quatro grandes artistas, a produção de Geiger chama a atenção pela diversidade de técnicas e pela crítica política por meio da ironia. 
Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933) é uma desenhista, pintora, gravadora, artista multimídia e professora que começa sua produção nos anos 50, um momento efervescente na área artística do país. Após dividir sua educação entre sua cidade natal e Nova York, a artista passou, como docente, por lugares de grande importância na vida cultural do Rio de Janeiro, como no Museu de Arte Moderna e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. 
As técnicas de gravura e desenho acompanharam toda a carreira da artista, que também foi pioneira na videoarte desde os anos 60 e produziu uma intensa reflexão poética a partir do uso da palavra e da cartografia. Com os anos 70 e a inclusão do debate político no mundo da arte, Anna passa a explorar o livro-objeto ao mesmo tempo que dá continuidade à sua produção de vídeos. Nisso, surgem os tópicos que marcariam sua produção: espaço, território e fronteiras. Fronteiras essas que, como foi demonstrado pela artista, não são só espaciais, mas também simbólicas e conceituais. No âmbito político, Geiger indaga, desde então e até hoje, usando um teor irônico, sobre o espaço que ocupa como artista em um país periférico. 
A exposição fica no MAC: no Mirante da Boa Viagem, s/nº, Boa Viagem, Niterói, RJ. De terça à domingo das 10 às 18 horas. Às quartas-feiras a visitação é gratuita, nos demais dias a entrada inteira é 10 reais e a meia é R$5,00.

Eu sou arte?


por Suelen Fernandes



Ali, eu sou sempre a primeira a ser vista, mas nunca a primeira a ser apreciada.
Fomos acomodados nessa casa há algumas semanas, e estamos preparados para as visitas diárias desde bem cedo. Alguns de nós estão postos às paredes, outros estão guardados em cúpulas de vidro. Ou então pendurados ao teto, como eu. Os esperamos sempre com muita tensão: que reação causaremos hoje?

 Consigo vê-los assim que eles chegam: aos grupos, em excursões escolares; em casal, tirando o dia para passear e curtir o diferente; ou até mesmo sozinhos, com semblantes reflexivos enquanto tomam o choque inicial ao nos conhecer.

 Choque — acho que essa é a palavra que eu procuro. Os olhares dos visitantes seriam até engraçados de capturar, se eu pudesse tirar fotos. Mas eu não tenho braços (ainda que eu os tivesse em meu estado inicial), então só os observo passarem direto por mim e irem ao encontro de meus irmãos. Algumas pessoas até param e tentam analisá-los, mas nunca com sucesso. Afinal, o que seria uma análise de sucesso, se fomos criados para a subjetividade?

 Também consigo ouvir o choque; às vezes é engraçado, às vezes é rude. Criancinhas com uniformes vermelhos gritavam ao nos ver de perto: “Uau, que arte bonita!”. Já seus pais, ao levá-los para conhecer meu próximo irmão, desdenhava: “Isso é arte?”

Pude, também, sentir o choque: quando as professoras se aproximavam de mim e, contra as regras de nossa atual casa, me tocavam, usando de todos os sentidos para nos entender. E então, quando eu finalmente achava que ali havia uma análise de sucesso, ela berrava para a colega mais próxima: “Tira uma foto minha aqui!”. E então abriam seus sorrisos automáticos, e em pouco tempo depois eu estaria no Facebook. Foi quase, chegou perto. Contudo, fui frustrada novamente.

 No andar de cima, onde filhos de outra criadora moravam, também dava pra ouvir o choque, ainda que eu não conseguir ver ou sentir. Contudo, eu sabia o que acontecia — olhares rápidos, frases debochadas, desdém —, pois eu mesma já fui vítima disso diversas vezes.

 É sempre depois de sofrermos essas investidas que eu me lembro de minha mãe. A querida Sonia Gomes, que constantemente diz que “a vida renasce, sempre”. Nós não éramos vistos com apreço ou pouca importância por ela, muito pelo contrário. Ela nos transformava em algo novo, com pedaços especiais dela mesma. Em suas mãos, não éramos mais meros retalhos ou objetos sem uso, tralhas ou lixos; éramos refeitos, revestidos, avivados para trazer vida a quem nos observa.
 
Tenho certeza de que também foi assim com os que estavam no andar de cima, filhos de Mira Schendel. Seus filhos foram criados após sua vivência na própria guerra. Ela quis dar voz à quebra de padrões, externar sua intelectualidade através deles.

Todos nós fomos feitos de forma especial, com carinho, história, paixão; fomos feitos para ajudá-los a se expressar, seja sua revolta, seu amor, sua melancolia ou sua felicidade. E todos nós vamos parar nos mesmos lugares: se não numa parede na casa de moradores ricos, nos museus ao redor de nosso país de origem e no mundo. Não importa onde estivermos, continuamente receberemos olhares diferenciados e, ao mesmo tempo, iguais: estranheza, desdém, compreensão fingida, espanto, admiração. Todos eles se encaixam numa mesma frase: “Isso é arte” — o ponto que se segue, contudo, muda: exclamação... afirmação... pergunta.
  
É dessa forma que sobrevivemos, atualmente no MAC Niterói. A cada dia de visitas, o mesmo questionamento permanece. Eu, Maria dos Anjos, filha de Sonia Gomes, sou arte?

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