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Audiovisual como forma de resistência e educação

Por Dandarah Filgueira e Júlia Carvalho “- Como era o jeito de fazer fogo antigamente? Quem deu o fogo pra gente?                 ...

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Audiovisual como forma de resistência e educação

Por Dandarah Filgueira e Júlia Carvalho

“- Como era o jeito de fazer fogo antigamente? Quem deu o fogo pra gente?              
 - Ke`yrusu (o Sol)!” 
Esse é o primeiro diálogo do filme Panambizinho – O Fogo que nunca acaba, um curta de 12 minutos produzido independentemente pela Associação Cultural dos Realizadores Indígenas (ASCURI). O filme conta a história da origem do fogo e da lenha, de acordo com a sabedoria indígena da aldeia de Panambizinho no Mato Grosso do Sul.  
Diante do contexto enfrentado pela sociedade contemporânea, ainda regida pela diferença de classes e socialmente desigual, incentivos culturais têm oportunizado o acesso à arte em grupos até então limitados aos incentivos políticos cada vez mais precários. Entre esses coletivos está a ASCURI (Associação Cultural de Realizadores Indígenas do Mato Grosso do Sul), grupo de jovens indígenas que utilizam as novas tecnologias como estratégia de resistência. Com intenção similar atua o Cafuné na Laje, coletivo independente de arte-educação que trabalha a produção de filmes com crianças e adolescentes, incentivando o conhecimento ao audiovisual. A ação dos grupos revela as iniciativas populares que ultrapassaram as limitações financeiras e hoje atuam como alternativas de lazer e arte

A ASCURI surgiu em 2008 e hoje luta contra o modelo de mídia hegemônico para fortalecer a autenticidade do povo indígena. O coletivo de cinema autônomo resiste por meio de parcerias colaborativas, necessárias para compra e subsequente distribuição de materiais nas aldeias que recebem as atividades da equipe. Ademilson Concianza, estudante indígena do curso de especialização em Montagem da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, explica que a produção de filmes é importante para divulgar a luta indígena e para ensinar aos mais novos sobre sua cultura. 
“Começamos a fazer documentário sobre nossa luta mesmo, porque audiovisual pra nós...ajuda a divulgar nossa luta, audiovisual parece um professor que tá ensinando a nós, a criança vai aprender através do audiovisual”, disse. 

Foto: Dandarah Filgueira

O Coletivo Cafuné na Laje, por sua vez, busca oportunizar o acesso à cultura por meio do incentivo à produção audiovisual na favela Jacarézinho, periferia carioca. Para Léo Lima, facilitador do projeto, o Cafuné busca representar o cotidiano da favela sem associá-la à violência, à guerra as drogas e à marginalidade, um enfoque diferente do que expõe a grande mídia. 

Foto: Júlia Carvalho

Foto: Dandarah Filgueira

“Nunca estudei cinema, nunca pensei em fazer cinema. Minha vontade era só a de mostrar o Jacaré de outro modo. De alguma forma os investimentos chegam na favela e as crianças usufruem disso”, explica. Para o tutor, o projeto é um incentivo ao conhecimento. “Não é que vamos tirá-los do tráfico ou dar um emprego, a gente vai trocar uma ideia. Por exemplo, por qual razão as mulheres negras são invisibilizadas no cinema? Vamos tentando desconstruir olhares”, relata. 
 O grupo de crianças presentes também dividiram suas experiências no coletivo, contando como é o processo criativo dos filmes, sobre o que gostam de fazer e os motivos pelo qual participarem do projeto. Para Crislayne, de 11 anos, a iniciativa é positiva e pode gerar frutos no futuro.  “Eu  desde o começo, quando a gente não tinha nada, e hoje a gente já tem tudo. A gente pode sair dali atriz, querendo ou não querendo. Depende da gente”, revela. 
A iniciativa de arte e educação independente teve início em 2013, e atualmente conta com mais de 20 curtas metragens gravados pelos participantes. O objetivo é ocupar espaços populares e estimular essas produções de acordo com os recursos disponíveis, garantindo a manutenção do projeto. Já conseguimos criar vários curtas nessa pegada de fazer filme com dinheiro e de fazer filme sem dinheiro. Tinha filme que nem tínhamos microfones. Hoje temos dois e podemos até emprestar equipamento pra galera trabalhar. Essas crianças têm muito o que contribuir com o cinema. Especialmente o cinema no Brasil.”  
Os grupos estiveram presentes no Cine Debate do Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF, promovido em comemoração aos 50 anos do IACS. 

Para saber mais sobre os dois grupos que participaram do Cine Debate, acesse o site da ASCURI e o seu canal no YouTube, e curta a página no Facebook do Cafuné na Laje e também se inscreva no seu canal no YouTube.

50 anos do IACS: Mesa LGBT

Por Suelen Fernandes e Vinícius Gonçalves


(Foto: Natasha Mastrangelo)


Na última quinta-feira (13), ocorreu no IACS, em meio aos eventos de comemoração de 50 anos,
a Mesa LGBT uma roda de conversa entre estudantes e professores, com debates sobre questão de gênero e
orientação sexual. O evento contou com a participação de Eloá Rodrigues, uma mulher trans e
estudante da UFF (4º período de Ciências Sociais), Tali Ifé, um homem trans e também estudante
da UFF (7º período de Produção Cultural), e teve a professora Flávia Lages como mediadora.
No evento foi mostrada a importância de questões desta natureza serem debatidas na sociedade,
principalmente em ambiente universitário, através dos relatos de suas experiências como LGBT
na universidade.
A conversa começou com algumas palavras da professora Flávia. De forma divertida, ela descreveu
como funciona a bolha em que os LGBTs vivem na universidade (destacando o conforto que o IACS
dá a eles), discutiu a ausência de dirigentes LGBT na UFF e em demais cargos importantes na
sociedade e, além disso, falou sobre a falta de mulheres nas teorias acadêmicas e que tais assuntos
também devem ser debatidos por heterossexuais.
Eloá Rodrigues, que foi estudante do PreparaNem, mostrou a dificuldade e necessidade dos LGBTs
estarem na universidade, sobretudo os transexuais, além dos dramas sociais e familiares passados por
eles. Discutir a LGBTfobia é fundamental, disse ela: “Se a sociedade criou o problema, é justo que a
própria sociedade o resolva”.
Tali Ifé, que nasceu no Mato Grosso e veio em função do estudo para o Rio de Janeiro, contou um
pouco mais sobre sua experiência pessoal dentro das salas de aula. Ele sofreu com o estranhamento
dos professores enquanto trans: foi chamado no feminino sem parar e chegou a largar 8 matérias
pelo preconceito; escolheu então mudar seus ciclos a fim de ter uma boa vivência universitária.
Tali coloca o diálogo como a principal forma de evitar a evasão da comunidade LGBT:
“Divida seus incômodos! Pergunte!”
A mesa também abriu espaço para as dúvidas de quem estava ouvindo. Entre as perguntas, a cota
para transexuais na graduação e pós-graduação, binarismo e a visibilidade que a transexualidade
ganhou na última década foram discutidas.

Os últimos 50 anos do IACS foram cheios de vitórias e conquistas para a comunidade LGBT —
hoje em dia, a Casa Rosa é um lar para quem não é bem-tratado fora dali. Os próximos 50 anos
estão em nossas mãos. Chegamos até aqui. Para onde vamos?

Teatro e inclusão


Por Anna Luiza Amorim

No último dia de celebração dos 50 anos do IACS, a peça “A disformidade do disforme” voltou ao casarão para mais uma apresentação, nos ensinando uma importante lição sobre empatia. A obra foi resultado do TTC de Fagner Emerich, que se formou na UFF em produção cultural no final do ano passado e hoje, junto com alguns amigos, faz parte de uma companhia de teatro chamada Coletivo de Quinta. Em Abril, o grupo ficou um mês em cartaz no Centro Cultural dos Correios, em Niterói, mas depois desse período resolveram dar uma pausa nas produções por conta da falta de incentivo financeiro.
A história tem como personagem principal Santiago (Matheus Apolonio), que sofreu um acidente e perdeu a mobilidade das pernas, desde então, vive sozinho e sem muito apreço pela vida. No entanto, essa situação muda quando sua tia contata uma organização para ajudá-lo, o protagonista então recebe a visita de Glaucia (Ys Rangel), Samuel (Lauro Tomaz) e Cauê (Jordan Cardoso), todos portadores de alguma deficiência. Por meio de experiencias sensoriais, a peça coloca o expectador na posição dos personagens, fazendo-o sentir na pele, por alguns instantes, o que é ter uma deficiência. Com um texto sensível, a obra conscientiza e emociona o público, promovendo um debate importante sobre acessibilidade, muitas vezes esquecido nas agendas políticas.
A performance dos atores é um dos pontos altos do espetáculo e apesar de não possuírem as deficiências de seus personagens, conseguem passar credibilidade por meio de suas atuações. Esse sucesso é resultado da preparação e comprometimento dos artistas, que confessam não ter sido um processo fácil. Lauro Tomaz, que interpreta um personagem surdo, conta que de início foi um desafio pela necessidade de aprender libras, uma língua que tem movimentos precisos, e o medo de errar era grande. 
 A peça não só produz um efeito no público, mas no elenco também, Ys Rangel, com o papel de uma jovem cega, falou sobre a reflexão que sua personagem lhe proporcionou “a visão da gente talvez seja o maior defeito do ser humano, porque quando a gente não enxerga a gente não julga(...), a gente precisa ouvir (...), a gente precisa sentir o cheiro, a gente precisa sentir o gosto. Então se a gente não enxergasse não teria tanto preconceito, tantos problemas socias como a gente tem”.
Assim como a primeira apresentação, que ocorreu no IACS em outubro do ano passado, a montagem de sexta-feira, dia 14, marcou uma nova página para os membros do grupo, que agora planejam retomar as apresentações e novos projetos. É possível acompanhar o trabalho deles por meio das redes sociais, no Instagram (@coletivodequinta) e no Facebook (Coletivo de Quinta). 

Da esquerda para direita: Ys Rangel, Fagner Emerich(sentado), Matheus Apolonio, Lauro Tomaz e Jordan Cardoso.
                                                                                   

Esporte e lazer melhoram a qualidade de vida da terceira idade


Criado há mais de 20 anos, Projeto Gugu leva atividades a três mil idosos em Niterói

                                  Foto: Rodrigo Soldon


Niterói é considerada uma das melhores cidades para se envelhecer com saúde. Um estudo realizado pelo Instituto de Longevidade Mongeral Aegon junto com a FGV, revelou que a cidade é a segunda melhor no país para o idoso.

                              Alda Borges, a Borboletinha, 92, esbanja saúde e bom humor

Uma boa mostra  da longevidade do município pode ser vista diariamente nos diversos núcleos do Projeto Gugu, criado pela FUNCAB (Fundação Professor Carlos Augusto Bittencourt). Idealizado pelo então ortopedista e professor que leva o nome da fundação, o projeto teve início no dia 10 de abril de 1995, na praia de Icaraí. Completamente gratuito e sem restrição de idade, o projeto conta hoje com o patrocínio da Prefeitura de Niterói e possui 40 núcleos com a participação de 3000 pessoas. 


Regina Bitterncourt, esposa do fundador do projeto, conta que a ideia apareceu após uma palestra dada por Carlos Augusto na UNIVERTI (Universidade Aberta da Terceira Idade). Na ocasião, o ortopedista discutiria sobre prevenção, mas pensou de que adiantaria falar sobre isso já na terceira idade. “Como ele era idoso também, pensou em como colocá-los para fazer exercício. Há 23 anos o idoso não ia para a academia, não havia todos esses projetos. Aí ele teve a ideia de ir para a praia de Icaraí. No dia seguinte tinham 32 senhoras. Levamos um radinho de pilha e aliado à sua experiência em exercícios, ali começou.”

                   O Projeto Gugu conta hoje com 37 núcleos de ginástica, 2 de dança de salão e 1 coral.

O projeto mantém núcleos espalhados por todos os bairros da cidade, como Icaraí, Santa Rosa e Rio do Ouro, com atividades diárias. Além das atividades físicas, a confraternização é um dos focos do projeto, como conta Lourdes, 72 anos, há 16 no projeto: “Ele [o projeto] é muito bom, porque não visa só a ginástica, ele visa as pessoas, a integração de um com o outro. Tem festa de dia das mães, tem passeio, tem festa de fim de ano. A gente recolhe o dinheiro no mês e faz a festinha do aniversariante de dois em dois meses. Festa de São João, de dia das mães... Tudo. É muito bom. A gente faz amizades. Esse núcleo aqui já tem 240 pessoas.”

As atividades têm mudado não só o corpo dos idosos como também a mentalidade de muitos deles. Ainda que tímida, a presença de homens no projeto tem crescido. “As senhoras ficam viúvas, porque o homem morre mais cedo. E essa geração vive em função dos maridos. Quando eles morrem, elas ficam sem chão. Ficam sozinhas, os filhos precisam trabalhar... Acabam caindo em depressão. Mas agora vêm casais. E isso é muito bom, ver esses casais chegando. O homem ainda é muito resistente, mas hoje já vieram seis. Eu fiz um evento no projeto que precisava de assinatura. Consegui 1900 assinaturas. Dessas, apenas 110 eram homens. Mas hoje é diferente. De vez em quando entram alguns, principalmente nesse núcleo. Alto astral é o clima do Projeto Gugu”, completa Regina.

Por Matheus Deccache

Conheça o Turismo Social UFF: Projeto que oferece passeios para alunos e funcionários da universidade

Por Gabrielle Fonseca

Em um país que ainda enfrenta as consequências de uma severa crise econômica, concentrando índices preocupantes de desemprego e que possui uma enorme desigualdade social, o acesso à cultura se torna um bem restrito. Para muitas famílias do Brasil, gastos com passeios e viagens são os primeiros a serem descartados.

No entanto, uma iniciativa do departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense tem transformado esse cenário na vida de alunos e professores da UFF. Com o apoio de uma bolsa que o projeto recebe da PROAES (Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis), o Turismo Social cobra uma taxa simbólica e opcional para seus passeios, revertida para um almoço no local e viagem. Oferecendo excursões quase de graça, o projeto traz destinos e atrações locais para os participantes de seus passeios.

Fundado e coordenado pelo professor da Faculdade de Turismo e Hotelaria Bernardo Cheibub, o projeto conta com participação de alunos bolsistas e voluntários. Com um total de 11 membros, o Turismo Social traz passeios para cidades próximas de Niterói como Petrópolis, Maricá e até mesmo Rio de Janeiro.
Acervo Turismo Social UFF
A criação do projeto veio de uma demanda de auxílio nas atividades da Coordenação de Atenção Integral à Saúde e Qualidade de Vida da universidade. Em 2014, foi solicitada ao professor Bernardo Cheibub, a aquisição de dois bolsistas para ajudar nesse trabalho, surgindo assim, a possibilidade da realização de um projeto de turismo social.

Segundo os organizadores, a iniciativa surgiu com o objetivo de proporcionar experiências turísticas a alunos, servidores e à comunidade que, por falta de condições, não conhecem os atrativos das cidades próximas à Universidade. A partir disso, a equipe do Turismo Social promove visitas guiadas por destinos turísticos, possibilitando a integração e socialização dos participantes em ambientes diversos.

A iniciativa chegou se expandir para fora da comunidade acadêmica, acolhendo também membros do projeto Centro Pop (centro de referência especializado para pessoas em situação de rua) em Niterói. O Turismo Social organizou um passeio em que os moradores de rua conheceram atrativos turísticos, culturais e educacionais das cidades de Niterói e do Rio de Janeiro. No roteiro da excursão constaram lugares como o museu MAC e o prestigiado Pão de Açúcar, altamente procurando pelos turistas.

Recentemente, através dessa iniciativa, o projeto chegou a fazer uma exposição itinerante que passou pelo MACquinho e está atualmente na Biblioteca Central do campus Gragoatá. A mostra conta com fotografias feitas pelas pessoas assistidas pelo Centro Pop e que participaram dos passeios realizados pelo Turismo Social. Os comtemplados pelo projeto ainda fizeram molduras para suas próprias fotografias utilizando materiais recicláveis.
Acervo Turismo Social UFF
Para participar das ações do projeto voltadas para a UFF basta ser aluno ou funcionário da universidade e fazer inscrição no formulário que se encontra no site do Turismo Social. O número de vagas para os passeios varia de acordo com o número de assentos disponíveis no ônibus. Quando as inscrições excedem o número vagas, a equipe do projeto realiza um processo seletivo levando em conta critérios financeiros, econômicos, físico-espaciais, entre outros fatores que contribuem para o afastamento da prática turística.

Desde sua criação, o Turismo Social realizou 10 passeios com a comunidade acadêmica (dois por semestre) e dois passeios com o Centro Pop. O mais recente ocorreu no último sábado (30 de junho) e teve como destino o Rio de Janeiro. Até o momento a iniciativa levou alunos e funcionários da UFF a destinos como Rio de Janeiro, Petrópolis e Maricá.

Os próximos passeios terão como destino Cabo Frio e Penedo/Itatiaia. As inscrições, dessa vez, serão presenciais nos campus da UFF em Niterói. As datas e locais de inscrição serão divulgados no site do projeto. Mais informações também podem ser encontradas no Facebook do Turismo Social.

Os 50 anos de Os Mutantes



Por Matheus Wesley

1968 costuma ser referido como o "ano que não terminou". Essa alcunha muito se dá por uma série de acontecimentos que marcaram a humanidade não só aquele ano como para todo o sempre. Em março, o estudante Edson Luís foi morto por policiais militares no Rio de Janeiro, em abril o pastor e líder dos direitos civis Martin Luther King foi assassinado nos Estados Unidos. Em maio, implodiu na França uma série de protestos organizados por estudantes da Universidade de Paris.

Os ares do planeta Terra estavam um tanto quanto conturbados e turbulentos, e se percebia entre a juventude a vontade irriquieta de burlar padrões, quebrar paradigmas e criar algo novo. Dessa vontade surgiu a Tropicália. Com a Tropicália, surgiram Os Mutantes. Com Os Mutantes, surgiu o seu álbum homônimo gravado em janeiro de 1968, mas só lançado em junho daquele inesquecível ano.

A banda, baseada em São Paulo, era formada pelos irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista e por uma ainda desconhecida Rita Lee. Passou a conseguir certa relevância quando começou a ser atração fixa do programa da TV Record O Pequeno Mundo de Ronnie Von, mas após divergências artísticas acabaram por sair do programa. Essa saída fez com que se aproximassem de um outro ícone do que viria a ser o movimento tropicalista, o maestro Rogério Duprat. O maestro os apresentou a Gilberto Gil, para gravarem a música Domingo no Parque para a disputa do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. A canção acabaria por conseguir a segunda colocação no festival, e deu mais visibilidade à banda paulista. Essa visibilidade fez com que Manoel Barenbein, produtor musical, os indicasse para assinar um contrato com a Polydor.

O álbum teve sua qualidade e experimentações reconhecidas pela crítica, nacional e internacional: a Rolling Stones Brasil o considerou o 9º entre os 100 maiores discos da música brasileira. A Mojo, revista americana especializada em música, o listou como o 14º disco mais experimental da história da música, à frente de discos famosos como o Sargent Peppers dos Beatles e The Pippers Gates of Down do Pink Floyd. Porém, isso não faz com que o álbum e a banda sejam devidamente reconhecidos pelo público, como aponta o ex-jornalista da Folha e dono do canal Alta Fidelidade, Luís Felipe Carneiro: "Tem seu reconhecimento, mas para um público muito específico. Em 2006, na época da volta deles (com Zélia Duncan nos vocais, no lugar de Rita Lee) fui em um show do grupo no Vivo Rio com 1/3 do público que a casa comporta. É subestimado, aliás como qualquer música de qualidade no Brasil", lamenta.

O disco possui a antropofagia característica de outros trabalhos do movimento tropicalista: influências de músicas estrangeiras (como os Beatles e o movimento psicodélico em voga na Europa à época) sendo "engolidas" e misturadas aos ritmos mais genuinamente brasileiros e "vomitando" algo novo. Essa atitude foi algo inovador para o rock brasileiro da época, visto que seus precursores no Brasil, os integrantes da chamada "Jovem Guarda", nas palavras de Luís Felipe "chupavam muito o que era feito lá fora". Além de quebrar quase que totalmente com o estilo predominante no Brasil à época: a Bossa Nova.

Nos anos 90, Os Mutantes tiveram um boom de reconhecimento, principalmente no exterior, depois que Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, e Sean Lennon, filho de John Lennon, declararam sua admiração pela banda. Kurt chegou a escrever uma carta a Arnaldo Baptista e Sean fez alguns shows com o baixista da banda paulista. O filho de John Lennon chegou a até mesmo fazer a arte do disco Tecnicolor, gravado em 1970 mas só lançado em 2000. Esse reconhecimento tardio faz com que alguns fãs se questionem sobre o que seria da banda se tivesse sido formada na Inglaterra dos anos 60 em vez do Brasil? Apenas divagações, mas Carneiro considera: "Muita gente diz que seriam maiores que os Beatles, eu não acho, até porque eles se inspiraram nos Beatles. Mas seria uma banda muito grande. E seria lembrada da mesma maneira que é um Jefferson Airplane (banda americana de rock psicodélico)".




As músicas

Panis Et Circenses, a música que abre o disco, trata do estado de alienação que parte da sociedade brasileira vivia em relação aos fatos que ocorriam no Brasil e no mundo, dizendo "Mas as pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer". A canção tem claras influências do rock inglês da época, usando efeitos de som e mudança brusca de tempo. A segunda canção do álbum é, talvez, o melhor exemplo da mistura entre estilos da banda: na música A Minha Menina, de letra de Jorge Ben escrita após pedido de Rita Lee, um ritmo levado ao samba é acompanhada de uma guitarra estranhamente distorcida. Os vocais alegres dão um tom descontraído à canção de amor.

Essa influência continua a ser percebida em O Relógio, música com efeitos sonoros de um - obviamente - relógio e feita em homenagem ao relógio de Rita Lee. A mistura entre os ritmos brasileiros e o rock inglês (apesar de, ironicamente, não ter em sua gravação os instrumentos típicos dos dois: a sanfona e a guitarra) presente em A Minha Menina, voltaria em Adeus Maria Fulô, originalmente escrita e gravada por Sivuca e Humberto Teixeira, em 1951. A canção, que é um baião, ganha uma pegada de rock com arranjos de música erudita feitos por Rogério Duprat.

Uma pegada mais pop é vista em Baby, uma balada escrita por Caetano Veloso sobre a vida do jovem nos anos 60. Senhor F é a música mais beatle do disco, sendo inclusive assumidamente uma forte influência de Being for the Benefit of Mr. Kite do aclamado álbum Sargent Peppers Lonely Heart Club Band da banda inglesa. Bat-macumba é uma música que mistura referências ao candomblé (como se percebe tanto no título como na batida da percussão) e a algo extremamente estrangeiro: o super-herói Batman. A letra, composta por Caetano e Gil, possui uma construção peculiar:


Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba
Bat Macumba ê ê, Bat Macum
Bat Macumba ê ê, Batman
Bat Macumba ê ê, Bat
Bat Macumba ê ê, Ba
Bat Macumba ê ê
Bat Macumba ê
Bat Macumba
Bat Macum
Batman
Bat
Ba
Bat
Bat Ma
Bat Macum
Bat Macumba
Bat Macumba ê
Bat Macumba ê ê
Bat Macumba ê ê, Ba
Bat Macumba ê ê, Bat
Bat Macumba ê ê, Batman
Bat Macumba ê ê, Bat Macum
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba oh
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá
Bat Macumba ê ê, Bat Macumba obá

Em Le Premier Bonheur du Jour, é uma canção composta pelos franceses Frank Gérald e Jean Renard, interpretada inteiramente em francês pelos Mutantes. O curioso é que, para fazer um efeito de som, se usou no estúdio uma bomba de inseticida em vez de um chimbau. O resultado foi uma pausa nas gravações pelo estúdio ter se impregnado de veneno. Trem Fantasma, composta em parceria com Caetano Veloso, é uma música recheada de efeitos sonoros e parece relatar um passeio no brinquedo de mesmo nome dos parques de diversões.

Tempo no Tempo é uma versão em português da música Once Was a Time I Thought da banda americana de rock psicodélico Mamas & The Papas. Ave Gengis Khan, com uma série de efeitos experimentais, é a canção que fecha um dos álbuns mais inovadores, experimentais e subestimados de nossa música.





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