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Vidas negras importam: racismo ainda estrutura acesso a direitos no Brasil

Por Pâmela Dias Ao nascer e ao pôr do sol, o bairro da Zona Sul continua igual: prédios luxuosos, roupas caras nas vitrines e lado a...

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Vidas negras importam: racismo ainda estrutura acesso a direitos no Brasil


Por Pâmela Dias

Ao nascer e ao pôr do sol, o bairro da Zona Sul continua igual: prédios luxuosos, roupas caras nas vitrines e lado a lado, à espera para atravessar o sinal, a face da vida abastada contrasta com a de Cristiane. Nascida e criada em Estrela do Norte, bairro de São Gonçalo com cerca de sete mil habitantes, Cristiane Correia dos Santos (49), doméstica em um dos incontáveis apartamentos de Icaraí, em Niterói, sempre foi mais adulta do que criança. Com apenas oito anos de idade, vendo a mãe doméstica e a avó cortadora de cana passando dificuldade para sustentá-la e prover ainda a subsistência dos dois irmãos, Cristiane decidiu trabalhar. Seu primeiro emprego foi na casa de uma conhecida da família, onde ganhava 5 cruzeiros, valor que atualmente nem se materializa no real. “Ia de manhã para casa dela, limpava e lavava a louça e depois do almoço ia para a Escolinha Três, também na minha cidade, onde a amiga da minha avó me matriculou”.

Ascendente de família negra e pobre, Cristiane reproduz o cenário de desigualdade social que historicamente assola o país e foi um fator decisivo para a não concretização do seu sonho de infância: “A minha vontade era ter um bom estudo e me formar professora, mas esse sonho eu não pude realizar”. Filha de mãe jovem (18) e doméstica, Cristiane inconscientemente seguiu os passos da mãe. Parou de estudar aos 15 anos e se arrepende de ter completado apenas a quinta série. Uma sucessão de acontecimentos iniciada com a infância pobre fez com que os livros não pudessem mais ser a primeira opção em sua vida.

“Eu não tinha muita escolha”, esclarece, “Com os meus 15 anos, meu irmão veio a falecer e minha mãe ficou desolada. Aí eu saí do colégio para cuidar dela e da minha irmã pequena. Mas, hoje, se eu tivesse a oportunidade, eu ainda escolheria ser professora para poder ensinar as crianças, porque eu gosto muito de criança”.

Cristiane Correia dos Santos, doméstica no bairro de Icaraí que sonha em conquistar sua casa própria através de programas do governo e em terminar os estudos para trabalhar em escolas de ensino infantil.
Foto: Pâmela Dias

De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2018, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda hoje a população negra, composta por pretos e pardos, encontra-se na linha de pobreza monetária do país. O arranjo familiar formado por mulher preta ou parda sem cônjuge e com filho(s) até 14 anos, caso de Cristiane, representa 64,4% da população entrevistada, cuja maioria é composta por pensionistas, empregados domésticos ou parentes de empregados domésticos. Quando observado o mesmo arranjo, contudo com mulheres brancas, este número cai para 41,5%.

Atualmente, com um total de 41 anos exercendo a profissão de doméstica, ela sai do Estrela do Norte às 7 horas da manhã em direção ao condomínio Pedra de Itapuca, em Icaraí. O caminho da BR-101, muito transitada neste horário, é exaustivo quando somado às 11 horas e meia em que passa no serviço. Cristiane trabalha de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h30, enquanto em sua carteira de trabalho consta a carga horária das 8h às 17h. “É muito raro eu largar 17h, quando eu largo é porque eles (os patrões) falam que não vão ficar em casa, que vão pra casa de praia. Mas quando a gente precisa, tem que se submeter a esse tipo de coisa”.

De acordo com o art. 7º, XIII da Constituição Federal e com o art. 58 da Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT), o trabalhador deve cumprir a quantidade máxima de oito horas diárias de trabalho, num total de 44 horas semanais. O tempo excedido de trabalho deve ser acordado entre empregador e empregado, como prevê o art. 59 da CLT, não podendo ultrapassar o limite máximo de duas horas suplementares. Quanto à remuneração, cada hora extra deve ter valor 50% superior ao da hora normal, conforme art. 7º, XVI da Constituição.

Outra incongruência trabalhista que não está na carteira, mas é vivida por Cristiane diz respeito a seus afazeres. Apesar de ser contratada para o cargo de doméstica, isto é, para fazer a limpeza diária da residência do empregador, são designadas a ela mais funções, como cozinhar, lavar e passar roupa, além de fazer as compras de supermercado e açougue. Para realizar todas essas atividades, Cristiane recebe um salário mensal de apenas R$ 1.200,00. A pequena quantia ajuda em sua subsistência, pois o que realmente a faz existir, segundo ela, é Deus: “Eu compro as minhas coisas tudo balançadinho. Tenho o sonho de comprar minha casa, estou na fila do ‘Minha Casa Minha vida’, mas nunca me chamaram. Apesar disso, não tenho do que reclamar, com o pouquinho que eu ganho consigo pagar meu aluguel e comprar umas coisinhas, porque Deus está sempre multiplicando na minha vida”.


O que está por trás do colapso dos sonhos

Vidas como a de Cristiane viram números para as estatísticas brasileiras, mas, antes de tudo, são histórias. Uma história que não é narrada na sala de aula, uma história encerrada em determinado perfil de profissões. Desenhada em gráficos do IBGE, a parcela da população com mais restrito acesso à educação corresponde a homens e mulheres negros (63,9%). Esta realidade é uma das responsáveis pela discrepância de oportunidades profissionais e pela pior qualidade de vida desta parcela da sociedade, que se vê obrigada a escolher entre estudar ou sobreviver. Com Cristiane foi assim: teve que largar os livros e pegar a vassoura e o espanador.

Fonte: IBGE 2018 

Diante deste cenário, é possível constatar que as posições de trabalho continuam sendo determinadas pela cor de pele: o duradouro apartheid da mão de obra. O recorte da População Ocupada por cor ou raça mostra a predominância de pretos ou pardos em atividades de menor rendimento e maior informalidade. Entre as funções determinantemente ocupadas por negros estão a Agropecuária (60,8%), a Construção (63,%) e os Serviços domésticos (65,9%). Cristiane encontra-se imersa na porcentagem dos servidores domésticos, aqueles que enfrentam como desafio a desvalorização tanto monetária quanto do pouco prestígio social agregado à profissão. A dignidade, no porém, a sustenta frente a tantos obstáculos. O orgulho de fazer o que faz atenua todo o preconceito e disparidade vivenciada. “Eu me sinto bem na minha posição, porque você tem que gostar do que faz, porque ninguém é melhor que o outro”, frisa.

O racismo que reproduz disparidades de geração em geração ainda se faz presente na avaliação da historiadora Larissa Viana, professora adjunta da Universidade Federal Fluminense, porque “lá no século XIX a escravidão estruturava a política, a economia e a sociedade brasileira. Dessa forma, somos, historicamente, frutos da violência e da brutalidade do tráfico, considerado legal entre nós até a década de 1850, e herdeiros da profunda desigualdade social e da imoralidade criada por séculos de escravidão”.

Argumentos como o de Larissa se materializam por meio de novas estatísticas, que insistem em se multiplicar por falta de políticas públicas efetivas. A taxa total de desocupação, por exemplo, é sempre maior para pretos e pardos (14,7%) considerando os mesmos níveis de instrução da população branca, que apresenta 10,0% dos entrevistados em situação de desemprego. O balanço total dos dados foi feito levando em consideração o grau de ensino de pessoas: Sem instrução ou fundamental incompleto (A); Fundamental completo ou médio incompleto (B); Médio completo ou superior incompleto (C) e Superior completo (D). Além disso, ter ensino superior é um fator que contribui para o acesso ao mercado de trabalho com mais intensidade para as pessoas negras, mas não o suficiente para colocá-las em igualdade de condições com as brancas. Em números, pretos e pardos ainda compõe cerca de 54% das pessoas que possuem ensino superior, mas estão desempregados. 


Fonte: IBGE 2018 

“Dados como estes indicam o racismo estrutural em ação. Por muitos anos, a chamada aparência foi um elemento definidor no acesso ao mercado de trabalho no Brasil, um código mais ou menos velado para barrar cores, cabelos e comportamentos vistos como inadequados pelas lentes racistas em operação na sociedade. Uma educação antirracista, neste sentido, é urgente também para os empregadores. É preciso assumir que o racismo nos formou, em meio ao discurso dominante da mestiçagem e da suposta democracia racial brasileira. Virar este jogo implica em reeducar-se, em reconhecer dívidas históricas e coletivas com a população negra. É um processo educativo longo, urgente e parte, acredito, do nosso compromisso moral com o presente e o futuro do país”, defende a historiadora.


A luta dos movimentos sociais negros contra o racismo estrutural

Taxado pelo ócio que não possui, o povo negro sempre teve a gana de provar seus valores como rotina, devido ao longo legado de escravidão e racismo no Brasil. A invisibilidade que grupos dominantes tentam imputar aos negros nunca impediu o ecoar das vozes em busca de seus direitos como cidadãos, a luta pelo fim dos grilhões e, para além dele, pelo pagamento de uma dívida histórica que ainda hoje recai sobre cada corpo retinto. De acordo com Larissa Viana, o abolicionismo no Brasil envolveu efetivamente as forças sociais populares, não sendo um processo que deve ser visto como dádiva, mas sim como fruto da coragem de uma minoria social:

“Pesquisas atuais demonstram que o abolicionismo pode ser compreendido como o primeiro grande movimento social de massas do país, com decisiva participação dos próprios escravizados e de inúmeras lideranças negras, como Luís Gama, José do Patrocínio e André Rebouças, que promoveram debates, escreveram na imprensa, atuaram juridicamente na defesa da liberdade e vislumbraram novas formas de sociedade. Mas também saímos da abolição sem um pacto social amplo que garantisse acesso à terra ou possibilitasse maiores condições de igualdade através de políticas de valorização dos trabalhadores. As comunidades negras se organizaram no pós-abolição através de sindicatos, clubes carnavalescos, imprensa, associações recreativas, educacionais e religiosas. E este é um ponto importante a ser destacado: sempre houve mobilização negra”.

Um dos caminhos traçados em busca da correção de injustiças históricas no Brasil foi a instauração de cotas nas universidades públicas federais, com o objetivo de compensar discrepâncias sociais, econômicas e educacionais apontadas ainda hoje pelo IBGE. As cotas foram implementadas pela Lei nº 12.711, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff em 29 de agosto de 2012.

Do total de vagas das instituições federais, 50% deve ser preenchida por cotistas. Metade dessas reservas tem como foco estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita. Já a outra metade é garantida a estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Brancos e negros são aqui contemplados. Em ambos os casos, no entanto, há modalidades subdividindo as vagas e aqui entram em cena critérios raciais.

Tomemos como exemplo a Universidade Federal Fluminense. Oito modalidades são levadas em consideração nas vagas voltadas a cotistas, sendo que quatro citam negros. São elas: candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas com renda igual ou inferior a um salário mínimo e meio; os mesmos candidatos autodeclarados, mas que independentemente da renda tenham cursado Ensino Médio em escola pública; e as duas modalidades anteriores, mas especificamente tratando-se de alunos com deficiência. Para cada uma das modalidades há um número de vagas e esta decisão varia de faculdade para faculdade. No segundo semestre de 2018, 44,4% dos alunos matriculados na UFF foram cotistas. Desse total, 24% atenderam a critérios étnicos.


Fonte: UFF 

“As cotas raciais são garantias recentes e fundamentais no Brasil. São direitos conquistados por décadas de lutas dos movimentos sociais negros organizados, direitos em grande medida expressos na Constituição de 1988. No universo em que atuo, que é o das universidades públicas, a mudança é notável e exige profundo compromisso por sua expansão e continuidade”, aponta Larissa Viana, “É vital hoje presença dos coletivos negros, a pressão por mudanças curriculares que contemplem uma visão da centralidade das culturas afro-brasileiras e indígenas na nossa história e a atuação cotidiana de estudantes negras e negros na elaboração de uma agenda de debates que confrontem o preconceito nos meios acadêmicos”.

No entanto, este incentivo ainda não é suficiente para tornar o ingresso no ensino superior massivo entre pretos e pardos, que compõem 55,8% da população brasileira, de acordo com dados do IBGE. Acompanhando ainda dados do instituto, apenas 29,1% desta parcela da população - que estuda em escolas de ensino público - chegam à universidade, seja ela de rede pública ou privada. Apesar de já representar um número significativo frente às estatísticas de décadas anteriores, ainda se faz necessário medidas públicas que acompanhem a expansão deste grupo social e os assegurem direitos proporcionais às suas lutas e dores históricas.

As conquistas são comemoradas e os movimentos sociais negros continuam ativos na busca pelo fim da estrutura determinista. Para o futuro, espera-se apenas o progresso e a equidade. Palavras cujo significado está nos novos sonhos de Cristiane, como o de fazer com que os filhos Priscila, 25 anos, Jaciel, 24, e Marco, 23, possam um dia erguer um diploma. Por enquanto, a filha segue os passos da mãe, trabalhando como doméstica. Jaciel, pai de uma menina de 4 anos, tenta passar em concurso para a guarda municipal. Marco ainda concluirá a escola, mas vê nos Bombeiros um objetivo de futuro. Quando menina, Cristiane queria ser professora. Trabalhando em casas de famílias abastadas por toda a vida, ela emprega cada gota de suor que cai do rosto em prol de uma nova história para a sua descendência.

A fama na era das redes socias: Como lidar com as relações efêmeras do meio digital?

Por Juliana Sá

Foto: Juliana Sá

Uma história que foi contada mais de uma vez pela mídia. Um estilista que vendia seus croquis nas calçadas de Niterói e de São Gonçalo por R$ 1,00. Ele já foi “descoberto” cinco vezes, mas, até hoje, permanece nas ruas. Os “15 minutos de fama”, conseguidos em anos diferentes, parecem não ter sido suficientes para realizar o sonho do seu José Carlos Ferreira. Já o estudante Pedro Manuel possui mais de um milhão de seguidores no Twitter. Através do humor, conseguiu visibilidade, alcançou o que tem ânsia por manter. A internet representa a esperança das pessoas em alcançar atenção, por diferentes motivos.  É possível, mas por que tão poucos conseguem uma fama duradoura? 
Talvez porque o próprio conceito de fama se ressignifique na atualidade. Para Bruno Campanella, professor do departamento de Estudos de Mídia da UFF, “a fama era algo desejado e alcançado por poucos. Mas hoje, ela se torna quase uma pré-condição para a autorrealização identitária de todos nós”. Se poucos estavam visíveis para muitos, agora muitos estão visíveis para muitos, enquanto para os marginalizados sociais a falta do olhar continua a criar sobre eles uma penumbra. 
Pedro Manuel tem 19 anos e é estudante de Comunicação Social da UFRJ. Mais de um milhão de pessoas sabem o que ele faz, pensa e sonha a partir dos comentários que compartilha no Twitter. A visibilidade conquistada nas redes sociais foi tamanha, tantas imagens sobre si hoje inundam o seu cotidiano, que chegar até o verdadeiro Pedro, aquele por trás do @itspedrito mostrou-se um desafio que esta reportagem não conseguiu vencer. Procurado para falar acerca da sua ascensão virtual, ele aconselhou que fossem consultadas outras entrevistas concedidas por ele anteriormente. Em uma delas, no canal “Sereio”, do YoutubePedro Manuel atesta: “Fazem cinco anos que eu entrei para o Twitter. Eu comecei postando coisas sobre meu cotidiano igual a todo mundo, mas um dia um tweet meu viralizou e teve 1000 rts, o que para mim, na época, era muita coisa. Eu gostei do sabor da ‘fama’, aí comecei a fazer mais tweets voltados para o humor e, com isso, consegui crescer muito. Hoje, eu tenho um milhão de seguidores. Às vezes, acontece de algumas pessoas me pararem na rua quando eu estou indo para a faculdade e perguntarem se eu sou o ‘Pedrão do Twitter’ porque elas me conhecem de algum lugar. Eu fico todo sem graça, mas falo que sou ele sim”. 
Mais do que 15 minutos de fama, Pedro passou a ter necessidade de alimentar uma certa imagem, que não obrigatoriamente espelha quem é. Em análise deste fenômeno, Campanella atenta para o que toma como uma mudança crucial da visibilidade. “Em vez de pensarmos nos 15 minutos de fama, que todos teriam direito no futuro, conforme proposto por Andy Warhol, talvez faça mais sentido, hoje em dia, pensarmos numa recente variação desta frase, segundo a qual ‘no futuro, todos serão famosos para 15 pessoas’”, defende. 
Seja composto por 15 ou um milhão, o público que está conectado tem pressa para falar da sua própria vida e ver a vida do outro com o intuito de comparar à sua. A tirania do eu parece predominar. Parece, pois nem todos utilizam as redes apenas com este fim. Para Kamyla Costa e Soraya Sanches ela foi instrumento para pensar no outro. Era 2012, quando Kamyla fez o movimento de se abaixar e olhar para José Carlos Ferreira, 40 anos, sentado no chão, desenhando. O estilista contou sua história, ela postou no Facebook e a partir daí, estar nas redes e estar na mídia viraram rotina. Todos queriam ouvir seu relato acerca de sua origem, das batalhas travadas desde que sofreu um acidente e teve que parar de trabalhar, a forma como viu nos desenhos da infância uma maneira de conseguir o sustento. Mas, poucos podiam ajudar Ferreira de fato. 
Tanto Kamyla - “Ele tem muito talento e eu queria ajudar de alguma forma, por isso acabei divulgando a história dele no Facebook” - quanto Soraya, a segunda pessoa a divulgar essa trajetória, relatam que tinham a intenção de contribuir. De fato, mudanças vieram: após o post de Kamyla, Ferreira, que muitos julgariam “invisível” apesar de não o ser, foi parar no Programa da Fátima Bernardes. Já o post de Soraya muito provavelmente contribuiu para o convite de desenhar a coleção de inverno do Fashion Week de 2014, junto do estilista Walério Araújo. 
Simultaneamente, no entanto, Ferreira experimentou decepções. Soraya destaca que as ilusões causaram danos a ele: “Eram muitas promessas feitas ao Carlos, mas, no final, ele apenas criou expectativas e não ganhou nada. Ele teve outra crise depressiva por causa da ilusão.” 
O sucesso passageiro de Ferreira, depois de um tempo, fez com que ele voltasse às antigas calçadas de chão quente para vender seus desenhos a R$ 1,00. Era estaca zero de novo. Em abril deste ano, Mariah Ferretti estava andava pelo centro de Niterói quando deparou-se com os croquis de alta qualidade.  Mais uma vez a história de Ferreira seria exposta nas redes, agora através do Twitter. A estudante de enfermagem da UFF fez um tweet, para divulgar o trabalho do artista de rua, que acabou viralizando novamente e alcançou mais de 70 mil curtidas. Enxurrada de oportunidades apareceu na vida dele. Ferreira não parecia muito esperançoso, quando entrevistado à época: “Tem dias que eu penso: ‘vou desistir não quero mais não’, mas eu não posso desistir do meu sonho. Eu queria mostrar para o mundo o meu trabalho, a minha arte. Até quando a minha história vai ficar na parede?” 
A parede da qual o estilista refere-se é a de seu quarto, onde todos seus desenhos mais bonitos ficam. Existe outra, entretanto, a da exposição na internet. Essa, diferentemente da do quarto de Ferreira, possui um espaço infinito, porém poucos conseguem conquistar uma posição de destaque permanentemente. Diante do excesso do visível, a parede está repleta do "eu" e mesmo quando a intenção é conseguir ali pregar um retrato do outro, a visibilidade não é garantia de sonho realizado.

Black Mirror continua sendo “muito Black Mirror”?

Por Cecile Mendonça




Imagens de divulgação


“Isso é muito Black Mirror”. A frase viralizou, tornando-se até meme entre os espectadores, para referenciar fatos pesados da realidade que se conectam à série. Mas, com o lançamento da quinta temporada, diversas discussões foram levantadas entre os críticos e fãs. Parte acredita que a série perdeu o seu impacto e outros afirmam que a identidade do seriado se mantém. Foram apenas 3 episódios, e o último deles foi o que mais se destacou negativamente entre os fãs, sendo considerado por muitos um episódio fraco e fora da temática da série. Estaria então Black Mirror “menos Black Mirror”?


Black Mirror é uma série de ficção científica da televisão britânica, criada por Charlie Brooker, centrada em temas atuais e distópicos, trazendo uma certa obscuridade e satirização do comportamento humano diante dos avanços tecnológicos. A série basicamente examina a sociedade moderna, pautada principalmente nas consequências imprevistas das novas tecnologias, apresentando episódios autônomos, com elencos e histórias diferentes, que se passam no futuro ou em um presente alternativo.

A série começou a ser transmitida pela emissora Channel 4, no Reino Unido, em dezembro de 2011. Mas, em setembro de 2015, a Netflix comprou a série e logo organizou uma terceira temporada de 12 episódios que, na verdade, deu origem à terceira e à quarta temporada, já que foram divididos em seis episódios cada. A série recebeu aclamação da crítica e aumento de interesse internacionalmente, principalmente nos Estados Unidos, depois de ter sido adicionada à Netflix.

‘Parece um filme da sessão da tarde’

Essa foi uma das principais declarações sobre o último episódio da quinta temporada.



Usuário do Twitter @under_thor compara episódio ‘Rachel, Jack and Ashley Too' a um filme de sessão da tarde


Usuária do Twitter @jaquebelloni demonstra insatisfação com a quinta temporada de Black Mirror e compara episódio ‘Rachel, Jack and Ashley Too' a um filme de sessão da tarde.

E sendo Rachel, Jack and Ashley Too um dos episódios mais esperados pelos espectadores, pela atuação da atriz e cantora Miley Cyrus, ele acabou decepcionando grande parte dos fãs, já que caminha pelo clichê desde o início da trama. Além de acontecer uma série de situações exageradas e forçadas, que muda todo o conceito Black Mirror e se torna um título digno de se estar na Sessão da Tarde.


Mas, há também quem tenha gostado da última temporada, como Ana Carolina Ribeiro, estudante de Publicidade e Propaganda, que declarou estar muito satisfeita com Striking Vipers pelo protagonismo negro e pela exploração da sexualidade da pessoa negra que é bastante objetificada. Ressaltou também ter gostado porque “revelou uma das facetas dos relacionamentos modernos, mexendo com o tabu da monogamia e tudo mais”. Para Ana Carolina, Smithereens “foi um soco no estômago”. Ela se impressionou com a forma que o episódio aborda a dependência das redes sociais, e como tudo se torna banal e passado tão rápido. “Mostrar o mecanismo da relação entre a novidade que é constante nas redes sociais e como isso afeta nossa forma de ver as coisas foi genial”, diz Ana. 
Contudo, ela confessa que Rachel, Jack and Ashley Too foi o que mais a desapontou. Inclusive, falou sobre as expectativas que tinha para o episódio: “Achei que ia ser um episódio abordando como a tecnologia pode nos dominar e o quanto não questionamos mais as coisas por isso. Acreditava que a boneca daria comandos como “se jogue da ponte” e a personagem iria obedecer, algo assim”, explica. Mas, apesar do terceiro episódio não ter sido exatamente o que esperava, Ana Carolina classificou a temporada como “8/10” e ainda complementou dizendo que está recebendo muitas críticas negativas do público, porque, na realidade, “trata-se de uma crítica a nós mesmos e é difícil de engolir...se autocriticar”, afirma a estudante. 


Por que Black Mirror choca cada vez menos?

Para Maria Isabel Rodovalho, criadora do site e página ‘Cinemalize’, a série apenas se propôs a ser diferente inicialmente. “Então, o público, no geral, acaba sempre esperando reviravoltas no enredo como carro-chefe da série quando, na verdade, o carro-chefe é mostrar esse futuro distópico, que pode ser que aconteça ou não. O importante é focar nos comportamentos e realidades que já vivemos”, explica. 

Em relação às avaliações negativas de boa parte do público às duas últimas temporadas, ela afirma que não acredita que a qualidade diminuiu, apesar de confessar que a última temporada não a tocou muito. Mas explica que a série cumpriu o seu objetivo. “Eles causaram o efeito de “meu Pai, o que tá acontecendo com a realidade?", afirma.

Além disso, Maria nos conta sobre a experiência de conversar com Charlie Brooker – criador da série – na conferência Rio 2C este ano. Segundo ela, Brooker disse que ele não se propõe a falar sobre coisas ‘descoladas’ da realidade. Ele é apenas inspirado pelas tragédias da sociedade contemporânea para escrever seus episódios. “Eu facilmente faria um episódio sobre a onda de extrema direita no Brasil, usando sua distopia característica”, diz Charlie. 

Mas, enquanto para uns a série continua seguindo o seu conceito, para outros não é bem assim. Segundo o escritor e crítico do site Loucos por Filmes, Hugo Vinicius Pereira, “a série vem demonstrando uma queda flagrante de qualidade ao se tornar repetitiva em suas crônicas ou fantasiosa demais”. Ele explica que nas duas últimas temporadas, quase tudo girou em torno de usos diferentes de um mesmo conceito. E para Hugo, ao explorar muito uma mesma ideia, a série acaba variando na qualidade das suas histórias e expondo as falhas desse conceito de forma muito evidente. “Isso faz com que acostume a audiência e acabe se tornando previsível, algo que a série não costumava ser, e justamente por isso se tornou um grande sucesso”, afirma.

Acreditando que Black Mirror continua sendo “muito Black Mirror” ou não, ainda assim vale a pena conferir a nova temporada. Com o primeiro episódio filmado em São Paulo, estrelado por Anthony Mackie, de Vingadores, e Yahya Abdul-Mateen II, de Aquaman, o episódio começa repleto de potencial, discutindo relações no espaço virtual. Após, vem o destaque da temporada com Andrew Scott, de Sherlock, que traz um tenso debate, satirizando a obsessão pela cultura do Vale do Silício e o poder das empresas por trás das redes sociais. E, por fim, no episódio com Miley Cyrus, apesar de pouco impactante, promete divertir, além de construir uma crítica pesada à indústria musical e artistas fabricados. 


Pelo orgulho de ser quem se é

Resurge o DACO: Pequeno movimento estudantil com grandes atitudes






Diante de transformações, pensamentos e questionamentos surgem estudantes lutando por seus ideais e em busca de um país mais justo. São os movimentos estudantis brasileiros. Esses movimentos começam a surgir século XIX e voltam a ganhar cada vez mais força.

Por Catiane Pereira
Sentados em uma calçada de cimento, um grupo de estudantes debate, argumenta, opina e organiza os próximos passos. Grandes movimentos estudantis, como a Passeata dos Cem Mil, começaram assim. Mas o cenário e os tempos são outros. Reunidos em uma das salas do Instituto de Artes e Comunicação Social - IACS, na Universidade Federal Fluminense, os estudantes reconstroem o Diretório Acadêmico de Comunicação Social (DACO), num movimento seguido por estudantes por todo o país.
Diretórios acadêmicos são organizações que representam todos os estudantes de uma instituição de ensino superior, e os centros acadêmicos representam os estudantes de um curso de nível superior. No caso do DACO,  os estudantes de Comunicação Social preferem que seja denominado diretório por ser mais de um curso ali representado. 
“O DACO está sem gestão na UFF desde 2016, pois em 2015 foi uma gestão provisória na época das ocupações, era uma coisa como autogestão. Nós já não tínhamos mais essa representação e isso acarreta em não termos voz dentro do departamento do curso, não termos voz dentro da faculdade, não termos nossas necessidades atendidas, pois esse é o papel do DACO, estar ali ouvindo os alunos, levando isso para a coordenação. Então no final do ano passado, antes de entrar de férias, eu e um amigo conversamos e resolvemos que seria necessário retomarmos as assembleias”, explica Thaís Gesteira, estudante do 5° período do curso de Jornalismo e uma das organizadoras da nova DACO. Diante das últimas ações do ministério da educação, incluindo o corte de 30% do orçamento das universidades públicas, alunos de todo o país passaram a se mobilizar em manifestações Brasil afora. Ao se envolverem com questões sociais e em consonância com movimentos estudantis, esses jovens percebem a dimensão que sua participação pode exercer, percebem que são além de sujeitos com particularidades, são cidadãos que podem mudar o rumo do país.

“O DACO foi fundamental na minha formação, eu entrei na universidade de um jeito e sai de outro. Vim de escola pública, com um ensino precarizado, eu não tive uma educação que me permitisse abrir os olhos para a realidade, pelo contrário, eu só tive essa possibilidade na universidade pública. Acho que é por isso, inclusive, que a universidade pública é alvo de tantos ataques, porque ela permite que as pessoas desabrochem, permite que as pessoas inaugurem um outro olhar perante a sociedade. O DACO me forjou enquanto ser humano que atua minimamente na sociedade.”, lembra André Borba, ex-atuante da DACO. A partir das reuniões e debates, os alunos começam a organizar suas demandas e criar um diálogo com as outras esferas da instituição, como explica Thaís. “No início, quando pensei em reconstruir o diretório, o que me motivou foi a falta de optativas, porque quero me formar e vejo que não temos muitas optativas para cumprir a carga horária. Entretanto, comecei a perceber que existem várias outras demandas muito importantes, muitas outras coisas que os alunos querem, por exemplo, a questão de eventos acadêmicos, não conseguirmos organizar e colocar ônibus de graça para irmos a congressos, não termos professores negros, e conversando percebi a necessidade de ter professores negros e outras pautas como ouvidoria contra opressões, e muito mais.”, declarou Thaís Gesteira.

Além disso, surgem muitas outras pautas que vão além das questões do próprio curso ou da própria universidade. Eu percebo que existem muitas demandas que não são assuntos acadêmicos em si, mas que são discussões fundamentais no meio acadêmico, como a opressão às maiorias minorizadas, que chamamos de minorias sociais, no caso, os negros, as mulheres, LGBTQI+. É importante ter uma organização que represente os estudantes quando tudo isso for discutido. E assim,  formarmos uma universidade que seja um lugar melhor pra todos, não só para formação profissional, mas para a vivência no dia a dia”, afirma Isabela Evaristo, estudante do 5° período do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal Fluminense

Os membros dos diretórios se sucedem, mas as conquistas do movimento estudantil permanecem. Jéssica Pietrani, ex-integrante do DACO, lembra que em 2011 a mobilização dos estudantes, que chegaram a ocupar a reitoria, foi fundamental para a abertura dos bandejões da Praia Vermelha e de Rio das Ostras.

“Mas a principal questão que na verdade mobilizou essa ocupação foi a realização de um convênio que permitia a construção de uma rua por dentro da universidade e uma outra que iria desalojar vários moradores de prédios ao lado do campus do Gragoatá, e nós conseguimos anular essa decisão”, conta.

São essas conquistas que mostram a força dos movimentos estudantis e o papel fundamental que desempenharam em vários momentos históricos brasileiros. O movimento estudantil já conquistou direitos importantes para a educação brasileira, como voto facultativo aos 16 anos e a destinação de 50% das vagas em universidades e institutos federais para estudantes de escolas públicas. Desses movimentos também surgem muitos líderes, representantes da população, como a Vereadora Verônica Lima, de Niterói.

 “O movimento estudantil é um dos mais importantes na consolidação da democracia e nas juntas populares do Brasil. Todas as vezes que nós tivemos lutas importantes, como a campanha “O Petróleo é nosso”, a luta pela redemocratização do Brasil, as “Diretas Já”, o “Fora Collor”, a “Passeata dos Cem Mil” na década de 60, em todos esses momentos nós tivemos a presença da juventude e nós tivemos a presença dessas instituições muito importantes como a UNE, a UBES. Eu tive a oportunidade de ser da executiva da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Luta pela escola pública de qualidade, pelo passe livre, por direitos,  sempre teve presente e esse movimento estudantil continua muito relevante, sobretudo, no atual momento”, declarou a vereadora, que é a primeira mulher negra a assumir o cargo na cidade. As reivindicações acompanham as demandas que são desenvolvidas pelas manifestações populares, leituras da conjuntura política e aberturas desse sistema. Os Diretórios Acadêmicos são, dentro da organização do movimento estudantil, as unidades mínimas da estrutura deste, mas não menos importante. Ele é o micro dentro do macro, no que diz respeito ao movimento estudantil. Esses organismos são um instrumento real de interferência na estrutura social.

“Se nós desejamos que o Brasil seja uma nação soberana, potente, a gente precisa investir em educação e em tecnologia. Por isso o movimento estudantil é mais atual do que nunca, porque a gente precisa defender não só a pauta da educação, mas sobretudo a pauta da democracia. A luta dos estudantes sempre esteve muito próxima e é fundamental que a gente consiga garantir a democracia no Brasil no momento atual. Então viva o movimento estudantil, hoje e sempre!” diz Verônica Lima.

No início, apenas a elite

Durante todo o século XIX, o ensino superior brasileiro esteve restrito a uma parcela extremamente limitada da população, com raras instituições no país. Os primeiros passos para a criação de um movimento estudantil foram dados por estudantes que vinham das universidades do exterior e, ao chegarem ao Brasil, envolviam-se nos debates acerca dos acontecimentos sociais. Movidos pelos ideais iluministas, os “filhos dos senhores de engenho” foram os precursores na representação de estudantes. O movimento estudantil iniciou-se nas elites, mas não parou por ali. Logo no início do século XX, com o crescimento da industrialização e das cidades, os estudantes  cresceram em número e importância. O rápido aumento do número de escolas, nas primeiras décadas do século, foi acompanhado da organização coletiva dos jovens, que desde o início de sua atuação estiveram envolvidos com as principais questões do país.  Muitos desses estudantes deram suas vidas por acreditarem num país mais justo, como o secundarista Édson Luís, o presidente da UNE Honestino Guimarães,  Fernando Santa Cruz, além de muitos outros, cada um deles com suas particulares. Édson Luís, de origem humilde, morava no Pará e mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de fazer o então segundo grau. Tiveram sua vidas interrompidas, mas deixaram sementes. 

Em todo país, multiplicam-se diretórios centrais, muitos com nomes homenageando estudantes mortos pela ditadura militar, representando todos os estudantes de uma instituição. A composição do Movimento estudantil compreende todas as camadas de estudantes: secundaristas e universitários, escolas técnicas, particulares e públicas, pequenas sementes que, quando plantadas e cultivadas, germinam e crescem.

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