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O silencioso sintoma da pandemia: a saúde mental em pauta

O isolamento social, o desemprego, o próprio vírus e o medo têm causado o aumento ou a intensificação de transtornos emocionais Por João Pau...

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Carteiras vazias: o impacto do fechamento das instituições de ensino

Os desafios de serviços que dependem do público das escolas e faculdade durante a pandemia

Por Fátima Moraes, Karina Vasconcellos, Keila Marques e João Marcos de Figueiredo

 Estabelecimentos fechados ao redor da Praça Leoni Ramos, em Niterói. (Foto: Keila Marques)

Em março de 2020, o governo do Estado decretou a suspensão das aulas presenciais no Rio de Janeiro. Em outubro, foi a vez de o Conselho Nacional de Educação (CNE) se pronunciar, permitindo que escolas do ensino básico e superior funcionem de forma remota até o final de 2021. Além de afetar diretamente o trabalho de professores e outros funcionários das instituições de ensino, o fechamento das escolas também gerou impactos fora das salas de aula, refletindo em atividades que, mesmo não diretamente ligadas à educação, são dependentes do fluxo de alunos e funcionários nas áreas próximas aos colégios e faculdades. Tendo sofrido, segundo o IGBE, uma queda de 9% nos oito primeiro meses de 2020, o setor de serviços foi um dos mais afetados pela suspensão das aulas em diversas cidades do Rio de Janeiro. 

 

Niterói de praça vazia

 

  Localizada na região metropolitana, Niterói abriga sete instituições de Ensino Superior, incluindo os principais campus da Universidade Federal Fluminense (UFF), instituição federal com o maior número de alunos do país. É no bairro de São Domingos, na região conhecida como Cantareira - que compreende a Praça Leoni Ramos e seus arredores, que esse grande fluxo de estudantes universitários se concentra, movimentando a economia e aquecendo o comércio local.

 

 Praça Leoni Ramos antes e depois da pandemia. (Fotos: Karina Vasconcellos e Keila Marques)

Gabriel Fonseca cursa ciências biológicas na UFF e trabalha há quatro anos no restaurante Vestibular do Chopp, - localizado nas imediações da popularmente conhecida como “Praça da Cantareira”, e afirma que esse é o período mais difícil pelo qual o restaurante já passou. Segundo Gabriel, adaptar-se e reinventar-se foi muito difícil. Os funcionários estavam acostumados a lidar com o público pessoalmente e tiveram que se acostumar ao serviço de delivery. Mesmo existindo antes, a demanda era muito menor, de 5 a 15 pedidos por dia, com entregas feitas pelo próprio funcionário do restaurante. Com as universidades e escolas fechadas, o movimento caiu tanto que alcançar o mesmo rendimento já não é mais possível. “Com certeza não só esse comércio aqui como os outros da região dependem muito dos estudantes, porque a universidade tem vários polos espalhados pela cidade, que movem muito a economia. Então, fomos muito afetados”, afirma o atendente. 

O número de fregueses do restaurante caiu cerca de 90%. Antes da pandemia, o estabelecimento chegava a receber uma média de 350 clientes em dias de grande movimentação, e 210 em dias regulares. Com o Covid-19, número de frequentadores caiu para menos de um quarto. Dependendo apenas dos moradores locais, sem os estudantes, o Vestibular do Chopp teve que investir em panfletos para atrair consumidores, anunciando o serviço de delivery que poucos sabiam que existia. Para que não houvesse demissões em decorrência da crise, a estratégia do negócio foi manter os funcionários trabalhando, com 50% do salário e a carga reduzida, além da constante tentativa de recuperar ao menos parte clientela. 

 

 São Gonçalo e o fechamento da FFP

 

Apesar de terem conseguido sobreviver ao isolamento social em São Gonçalo, os estabelecimentos próximos à Faculdade Formadora de Professores (FFP) da Uerj enfrentaram e continuam enfrentando um momento difícil com a paralisação das aulas. O Bar da Frente e a Copiadora Paraíso, que dependem diretamente do consumo dos alunos da universidade, foram entrevistados pelo jornal O Casarão e relataram as constantes dificuldades enfrentadas durante o fechamento da instituição para as aulas presenciais.

Proprietário do Bar da Frente - Bar e Música, Denilson Marvila sente a falta do movimento dos alunos, afirmando que há uma grande expectativa para o retorno das aulas ano após ano. “A gente se prepara para as férias da faculdade, por que o movimento cai 80%, 70%, nesse período. Quando voltaram as aulas a gente estava preparado para seguir todo nosso cronograma e aí uma semana depois houve a paralisação. Foi uma perda absurda, enorme”, conta o dono do estabelecimento que precisou reinventar-se para manter a freguesia. 

“Começamos a criar pratos executivos para entrega, coisa que não fazíamos antes. Muitos dos alunos que já seguiam as nossas páginas começaram a divulgar e ajudaram muito a expandir esse novo segmento”.

Os desafios enfrentados pelo bar giraram em torno da adaptação ao novo estilo de serviço delivery e nos mecanismos para evitar perda de funcionários, com a criação de divisões de escalas de trabalho e reduções de salário para não demitir  nenhum empregado. 

Vista interna do Bar da Frente para a UERJ (Foto: João Marcos de Figueiredo)

Uma situação semelhante foi vivida pela Copiadora Paraíso, que não conseguiu expandir o seu serviço por conta da paralisação, como relata Amanda, uma das proprietárias do comércio: “Eu ia começar a contratar, porque as aulas tinham acabado de voltar, mas aí parou antes de eu concluir a contratação”. A copiadora ainda alcançou clientes para além dos alunos da UERJ, embora seu rendimento tenha reduzido consideravelmente já que o corpo docente e discente da universidade eram seus principais fregueses. 

 

 O Rio e as vans na garagem


Dona Maria Luiza Carreiro (59), mora em Jacarepaguá e trabalha há 20 anos no ramo de transporte escolar. Transporta mais de 100 crianças, em horários diversos, em um percurso que inclui no mínimo quatro escolas, na Barra da Tijuca. Com a ajuda de sua filha e seu marido, dispõe de dois veículos: uma van e um micro-ônibus. Com grandes expectativas para 2020, esperava um aumento de clientes e investiu no negócio.  

Van escolar estacionada (Foto: banco de imagens)

Entretanto, a realidade trouxe algo diferente: dívidas. Com as aulas presenciais suspensas devido à pandemia de Covid-19, os pais - que também passam por problemas financeiros - não viram o porquê de continuarem a pagar pelo serviço. “A minha vida virou de cabeça para baixo”, desabafa. “Eu não tinha dinheiro em caixa, nem em caderneta, porque estava usando para construir uma casa”, explica dona Maria.
A pandemia pegou todos de surpresa. Com uma dívida de quase R$100.000 reais, a motorista conta que está totalmente inativa e que sua renda agora consiste na pensão de um salário mínimo, na devolução de um empréstimo antigo, no auxílio emergencial que o marido conseguiu e nos “bicos” que ele faz como ajudante de pedreiro. O estresse foi tão grande que dona Maria adoeceu: “Comecei a ter vitiligo”, ela conta, relatando que a doença se espalhou por todo o corpo. Por não ter dinheiro para pagar o tratamento, a saída foi recorrer à Clínica da Família.
Com problemas para conseguir arcar com todas as despesas, dona Maria conta também com a ajuda da filha, que passou a vender salgadinhos. Ela afirma, no entanto, que a pior parte está ligada ao emocional: "Sinto muita falta do trabalho. Da rotina de acordar às 5 horas, de me sentir útil, das crianças. Trabalhar com criança é maravilhoso”, diz, confessando que, enquanto ativa, mesmo que os pais devessem alguma mensalidade, continuava levando as crianças para a escola a fim de ajudá-los.  

O silencioso sintoma da pandemia: a saúde mental em pauta

O isolamento social, o desemprego, o próprio vírus e o medo têm causado o aumento ou a intensificação de transtornos emocionais


Por João Paulo Ferreira, Maria Clara Mangelli e Maria Luísa Pimenta


O isolamento social pode causar solidão, medo e tristeza por estar longe de convívio social     
(Foto: CEMEP)

Em março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou o surto de coronavírus como uma pandemia. Segundo a agência Reuters, até 7 de dezembro 1.536.242 pessoas morreram e 66.749.165 foram infectadas pela doença. Muito se fala sobre os sintomas físicos provocados pelo vírus: febre, dificuldade de respirar, perda do olfato e do paladar, coriza, entre outros. Há, no entanto, uma série de consequências para a saúde mental da população. O aparecimento ou intensificação de questões psicológicas preocupa tanto quanto a Covid-19, pois não afeta somente quem se contaminou, mas todos  os que estão vivendo a pandemia – ou seja, o mundo inteiro.

A psicóloga Giulia Latge afirma que a saúde mental é afetada de muitas maneiras e que a proximidade da morte, o medo e o isolamento social são responsáveis por toda a angústia que as pessoas sentem. “Não estamos acostumados a não ter controle dos acontecimentos e a pandemia colocou isso ainda mais em evidência, destacando o fato, tão difícil de lidar, de que a morte é uma parte da vida”, afirma Latge. Ela ainda diz que o afastamento do convívio social causa uma espécie de luto da vida e da liberdade que existia. “O luto da vida de antes, uma vida sem pandemia, sem medos, sem tantas mortes diárias por causa de um vírus. Assim, faz parte de um processo de luto certo desânimo, negação e dificuldade de desinvestir da vida que costumávamos ter. É doloroso viver tantas perdas e conviver com esse ‘novo normal’ tão distante do que desejamos”.

Quem se contaminou com o coronavírus também passa por problemas psicológicos, além dos sintomas diretamente relacionados ao vírus. Muitas vezes, o emocional consegue ser pior que a própria doença, como diz Rita de Cássia Ferreira, de 53 anos: “Senti muito medo pelos meus filhos, pela minha família, medo de contaminá-los. É horrível, são 14 dias isolada no quarto, passando mil coisas na cabeça, sem saber o que pode acontecer, se no dia seguinte estaria melhor ou pior, no CTI entubada, ou internada. É muito ruim, o sentimento é muito mais difícil do que a própria doença, o medo do que pode acontecer é pior do que o medo da doença”.

Além da privação do convívio social e do medo do que pode acontecer, houve um grande impacto no âmbito financeiro, uma vez que diversas pessoas perderam empregos e empresários tiveram que lidar com a falência de empresas e perda de empreendimentos. O desemprego e diminuição na renda são fatores cruciais para o surgimento de sintomas depressivos e ansiosos ou afloram ainda mais no caso de quem já sofre. Uma pesquisa realizada pela ConVid Comportamentos, uma parceria entre a Fiocruz, a Unicamp e a UFMG, coordenada pela professora de epidemiologia Marilisa Barros, mostra que 62,2% dos entrevistados tiveram sua renda diminuída ou ficaram sem renda. Além disso, 40,4% disseram ter sentimentos de tristeza ou depressão e 52,6% afirmaram sentir nervosismo e ansiedade.

O Brasil tem o maior índice de pessoas que sofrem com algum transtorno mental na América Latina - estima-se que são 12 milhões de brasileiros. Durante a pandemia, o quadro ainda se agravou. Muitos passaram a ter algum tipo de transtorno psicológico e muitos viram seus problemas já existentes se agravarem.

Matheus Bárcia, de 20 anos, afirma que já fazia terapia, mas que com a pandemia questões que antes eram ignoradas foram ganhando espaço e a ajuda psicológica tem sido fundamental. “Eu já fazia acompanhamento psicológico antes da pandemia, mas devido à necessidade de ficar em casa, muitos problemas que antes eram ignorados foram se tornando diários, como discussões em casa, desavenças familiares, ansiedade, compulsão alimentar, ciclo de procrastinação. A terapia me ajudou muito a montar rotinas pessoais, organizar meus pensamentos e aprender a sair de situações estressantes sem necessariamente sair de casa”.

Uma das maiores dificuldades durante o isolamento social é se manter distante de pessoas que costumávamos encontrar diariamente. Larissa, de 21 anos, afirma que o mais difícil é ficar longe da família e amigos. “O auxílio psicológico foi muito importante pra mim nesse período, porque eu já tinha uma ansiedade bem acentuada e quando a pandemia começou, ela piorou bastante devido a todas essas preocupações da Covid-19. Acho que o mais difícil tem sido ficar longe da minha família e dos meus amigos, sem poder abraçá-los e sem poder ir à faculdade”.

Outra questão que tem feito aumentar a necessidade de terapia é o ensino remoto. A sobrecarga de tarefas e a impossibilidade de conviver com colegas de classe têm feito muitos alunos se sentirem mais cansados e pressionados. “Mesmo estando cercada de pessoas que eu amo, às vezes me sinto sozinha pela falta de contato com meus amigos e minha família. Percebo que minha ansiedade está cada vez pior também, devido ao excesso de tarefas para fazer no estágio e na faculdade. Pensar no futuro, às vezes, me dá uma certa angústia, nesse cenário tão caótico que estamos vivendo”, afirma Cecile Mendonça, de 20 anos. Outro entrevistado que preferiu não se identificar, de 22 anos, também se diz pressionado e reitera a importância que a terapia tem nesse momento. “Com toda a pressão e estresse nesse período, a ajuda psicológica seria um escape, como um paralelo para descansar a mente e a dar mais atenção a si mesmo”.

Em pesquisa realizada por O Casarão, com 40 pessoas de 18 a 89 anos, 85% dos participantes revelaram o aumento da necessidade de ajuda psicológica durante a pandemia. Porém, 50% não buscou essa ajuda. Além disso, dos que buscaram ajuda, 27,8% não conseguiram.

O motivo mais alegado pela dificuldade em conseguir apoio psicológico foi a falta de condições financeiras, resposta dada por 57,1%, seguida por falta de tempo, com 21,4%, e pela falta de conhecimento de profissionais da área, 7,1%. Uma pessoa afirmou que as três opções acima a impediam de conseguir fazer terapia.

Giulia Latge dá dicas de como as pessoas com dificuldades de conseguir tratamento podem reagir. “Cada situação é muito singular. Há casos que precisam de um cuidado especializado e não tem como encarar de outra forma. Nessas situações, ainda contamos com uma rede de saúde mental pública de qualidade. Existem formas de conseguir atendimento psicológico online durante essa pandemia de forma bastante acessível. Mesmo nesses casos, ou nos casos de pessoas que não precisam desse encaminhamento para atendimento especializado, existem direções para um cuidado com a saúde mental. Um deles é o de respeitar o que se sente, tudo bem ter dias mais para baixo e outros melhores”, afirma Latge.

Com a pandemia, o atendimento online tem se tornado uma maneira de se cuidar mesmo em período de isolamento. Um participante da pesquisa que preferiu não se identificar, de 20 anos, disse que encontrou na Rainbow, iniciativa de profissionais da psicologia dedicada à comunidade LGBTQI+, um apoio fundamental. Com os atendimentos sendo realizados a distância, pessoas de qualquer cidade do país podem ser atendidas, mesmo que não tenham um psicólogo perto da sua casa cadastrado. “Com o início da pandemia tive que voltar a morar com meus pais e isso me fez dar uma pirada, por ter que “retroceder” tudo o que conquistei. Em junho consegui um psicólogo pela Rainbow e desde então tá sendo muito importante, me ajudando em mil questões que vieram à tona nesse período”, contou nossa fonte. Além da Rainbow, outras iniciativas fornecem atendimento online. A Rede de Apoio Psicológico e o Instituto de Psicologia da USP são alguns exemplos.

Giulia Latge afirma também que, além de ajuda especializada, é importante contar com uma rede de apoio composta por família e amigos. “Estar perto daqueles que você gosta é uma dica para passar por momentos de dificuldade. E, quando falo em estar perto lembro que existem diversas formas de isso ocorrer, como os novos recursos para encontros virtuais gerados pela internet”. Mas reforça que buscar ajuda profissional é essencial em alguns casos. Quando uma questão te afeta emocionalmente, sua rotina deve ser cuidada e nunca deixada de lado. “Não há como passar ileso por tudo isso. Mas, é claro, é importante se atentar em como essas questões estão mobilizando e afetando a sua rotina. Se o mal estar é tão grande que lhe impede de fazer tarefas básicas, como comer, dormir, se cuidar, é importante buscar ajuda”.

Queda na procura por vacinas preocupa especialistas

País registra há cinco anos diminuição na cobertura vacinal,  tendência que pode prejudicar o combate ao novo coronavírus 

Por Catarina Brener, Felipe Teófilo, Giulia Monteiro

    Criado em 1986, Zé Gotinha é símbolo do Programa Nacional de Imunizações
Reprodução: Governo de São Paulo 

Na década de 1980, o personagem Zé Gotinha foi criado pelo Ministério da Saúde para combater a resistência da população adulta, além do medo das crianças, em relação às vacinas. A popularização do símbolo gerou uma mobilização nacional em favor da importância da vacinação para prevenção de doenças. Hoje, 34 anos depois, o Governo Federal não demonstra incentivo ao programa de imunização e o Brasil, no levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2019, aparece como um dos países que mais regrediu na taxa de vacinação nos últimos cinco anos. 

De acordo com uma pesquisa publicada na revista científica The Lancet em 2020, o extremismo religioso, os movimentos antivacina, a instabilidade política e as fake news estão afetando na confiabilidade das vacinas em diversas partes do mundo. Os pesquisadores acreditam que a desinformação contribua para as incertezas sobre os programas de imunização e, como consequência, haja uma queda das coberturas vacinais. 

O Brasil, pela primeira vez em 20 anos, não atingiu a meta de vacinação de crianças de até um ano, de acordo com o levantamento de 2019 da Folha de S.Paulo, a partir de dados do Programa Nacional de Imunizações. Essa queda se reflete na volta de doenças já controladas no país, como o sarampo, que registrou um número de casos exponencial. Em maio de 2020, já havia transmissão ativa da doença em 29 estados. 

“O seu reaparecimento é o exemplo da vulnerabilidade para qualquer doença não erradicada, incluindo a rubéola e a poliomielite”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), em nota da entidade publicada em 2019. 

Como consequência, o Brasil perdeu o status de país livre do sarampo que havia sido concedido pela Organização Panamericana de Saúde (Opas). A cobertura para tuberculose e a vacina pentavalente, que cobre infecções como difteria, tétano e coqueluche, entre outras, caiu de 94,9%, em 2014, para 69,6%, em 2019. 

     Queda da cobertura vacinal contra pólio e tríplice viral 
     Fonte: Gazeta do Povo 

Para a médica infectologista Évelyn Rubi, as campanhas de vacinação deveriam ser enfáticas no sistema de educação. “Aqui no Rio de Janeiro, na época dos “Brizolões”, a vacinação era feita na escola. Isso era muito importante para atingir as crianças de forma geral. Seria interessante também que elas precisassem estar com seu cartão vacinal em dia para que pudessem estar matriculadas na escola”, defende. 

Com a pandemia do novo coronavírus, esse cenário de desinformação sobre vacinas é ainda mais preocupante. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro acredita que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina e que impor obrigações definitivamente não está nos planos do governo”, segundo postagens nas redes sociais. A corrida pela vacinação é encarada pelas autoridades sanitárias como uma necessidade para frear o contágio da Covid-19. 

O grupo União Pró-Vacina (UP) - organização formada por instituições acadêmicas e de pesquisa, como Universidade de São Paulo (USP) e Centro de Terapia Celular (CTC), aponta que a imunização coletiva é necessária para que seja efetiva. “Não adianta apenas algumas pessoas se vacinarem, porque os patógenos continuam circulando. Muitos indivíduos, como idosos, recém-nascidos, alérgicos a alguns componentes, não podem tomar algumas vacinas e ficam expostos. Todos nós possuímos liberdades individuais, desde que não sejam capazes de ferir o coletivo. Não se vacinar leva a prejuízos na saúde pública e é uma irresponsabilidade social”, reitera Nathália Leite, divulgadora científica do UP. 

A infectologista Évelyn também enfatiza que a vacinação coletiva é fundamental: “Se o vírus permanecer circulando, vai continuar causando vítimas fatais e limitando a circulação de pessoas. Quem toma a vacina não apenas se ajuda, mas ajuda o próximo que não pode tomar. Então temos que nos proteger e proteger o outro”. 

Embora a vacina seja uma questão sanitária, ela entrou em uma disputa política durante a pandemia. Em outubro de 2020, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que o Brasil iria comprar 46 milhões de doses da vacina CoronaVac. No dia seguinte, Bolsonaro anunciou em sua rede social que não compraria a “vacina chinesa”, polarizando o debate. 

Após a morte – depois constatado suicídio – de um voluntário da vacina CoronaVac, o presidente comemorou o fracasso da vacina e disse em sua rede social: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria quer obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha". 

O cientista-político Humberto Dantas, comentou ao jornal Nexo que o presidente adota o discurso anti-China com pretensão política. “O elemento China é muito importante nesse cenário e para essa parcela do eleitorado dele mais radical. Para quem se sustenta da maneira que o Bolsonaro faz, precisa criar sistematicamente inimigos imaginários, como é o caso do comunismo chinês que pode dominar o mundo”, afirma. 

A insistência do Governo Federal em negar as evidências científicas está presente desde o início da pandemia. O incentivo ao uso da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia registrada, e o descrédito na segunda onda da doença são exemplos recorrentes que acontecem no Brasil. O dano quando uma figura pública relevante para o país desestimula a ciência é retratado nos números da doença no país: o Brasil é segundo país com mais mortes pela Covid-19

Incentivar dúvidas a respeito de vacinas e suscitar questionamentos sobre a capacidade de um país de produzir medicamentos acaba por alimentar o movimento antivacina que, embora não tenha grande relevância no Brasil, cresceu no período pandêmico. De acordo com um estudo realizado pela Faculdade São LeopoldoMandic em parceria com a London School of Hygiene and Tropical Medicine, 4,5% dos pais recusam vacinar suas crianças e 16,5% têm receio ou não consideram importante. 

As redes sociais, como Youtube, Twitter e Facebook, se tornaram aliadas aos grupos antivacina. O vídeo conspiracionista Plandemic, que teve mais de 4 milhões de visualizações em uma semana, mostrava falsos dados e afirmava que a vacina matava milhões de pessoas. O Youtube retirou o vídeo do ar por alegar que não permite vídeos que promovam desinformação. “Desde o início de fevereiro, analisamos e removemos manualmente milhares de vídeos relacionados a afirmações perigosas ou enganosas sobre o vírus", afirma a empresa em nota.  

Como forma de combater essas falsas informações, a União Pró-Vacina diz que, principalmente em postagens relacionadas a vacinação e ao Covid-19, apenas as estratégias de sinalização de notícia falsa não são suficientes. 

“As redes sociais precisam se posicionar de forma mais assertiva e com estratégias mais concretas para barrar a desinformação. Deve haver uma checagem mais assídua das publicações, principalmente das que possuem alguma denúncia de conteúdo falso. Com isso, pode ser feita sinalização mais frequente nas postagens falsas e até mesmo a exclusão desses conteúdos”, aponta Nathália. 

A OMS incluiu o movimento antivacinação como uma das 10 maiores ameaças à saúde pública global. Para combater a desinformação, a Instituição UP conclui: “Quando há disseminação de fake news, os prejuízos na saúde pública são gigantescos. A hesitação em relação à vacinação por conta de informações falsas traz prejuízos na confiança dos indivíduos na ciência e, ainda, danos na própria economia e retomada das atividades cotidianas”.

O redescobrimento da arte: produções artísticas crescem durante a pandemia


Conheça o trabalho de novos artistas e entenda como a arte pode influenciar a saúde mental no momento de distanciamento social

Por Júlia Martins e Luiza Soares


Obra “Carolina Maria de Jesus” feita por Cecile Mendonça (Foto: Reprodução/ Instagram @picortes_)


Em meio a pandemia do novo coronavírus, o distanciamento social  tornou-se parte da nova realidade de milhares de brasileiros. De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 80% da população do país desenvolveu ou apresenta sintomas intensificados de ansiedade, depressão e estresse durante esse período. Em 2017, segundo os dados da OMS, ansiedade e depressão afetavam apenas 9,3% e 5,8% da população, respectivamente. Neste cenário complicado para a saúde mental, a arte e a cultura se tornaram um refúgio. A produção artística foi abraçada por quem já tinha uma vontade adormecida de criar ou para aqueles que queriam se redescobrir. 


“O isolamento social é para poucos” afirma Juliana Quintas, médica psiquiatra. Ela conta que houve um aumento de 25% na procura de consultas médicas psiquiátricas durante o período da pandemia. A psiquiatra compara que ainda que os seres humanos sejam seres gregários, há pessoas com fobia social, que não gostam de se relacionar e que estão lidando bem com o tempo em casa. Por outro lado, o isolamento social para quem gosta do contato e da troca com o outro é bastante sofrido, principalmente depois de 9 meses de pandemia. “As pessoas falam ‘não, isolado não vou mais ficar, vou criar alguma coisa, encontrar alguns amigos, porque daquela forma não dá mais’”.


Obra "No Caminho do Bem" por Cecile Mendonça
 em exposição (Foto: Reprodução/Instagram @picortes_)


E foi esse sentimento de criar que impulsionou a estudante de jornalismo Cecile Mendonça a investir no mundo das colagens digitais. “Sempre fui uma pessoa muito sociável, então o principal impacto do isolamento foi a falta da troca física com as pessoas. Sinto que cada dia eu estou mais ansiosa” conta Cecile. Sua inspiração veio através de outros artistas que divulgavam material para colagens nas redes sociais para começar a produzir e criar a sua própria conta no Instagram (@picortes_). "Chegou a quarentena, não tinha nada pra fazer, e eu resgatei esse sonho antigo. Criei coragem e estava sentindo falta de uma conexão com as pessoas, e já que não posso ter isso fisicamente, vou fazer no virtual”. A artista expandiu sua rede de contatos e foi convidada para exposições, sendo uma delas a “Arte em tempos de pandemia: de mãos dadas com a generosidade” cujas obras foram todas doadas para uma instituição beneficente, em Fortaleza. A artista afirma que a colagem a ajudou a lidar com a ansiedade. “É um dos poucos momentos em que eu faço as coisas com calma, porque tudo a gente tem prazo, e para a colagem não tem, porque é minha arte, não preciso entregar nada pra ninguém, eu faço pra mim e pra outras pessoas.”


Além do fazer artístico ter se intensificado, a produção de arte também assumiu um papel fundamental na saúde mental das pessoas. “A arteterapia é uma prática reconhecida. Estar em contato, fazer e ter momentos sutis em que estamos estimulando áreas cerebrais diferentes tem um ganho muito grande na questão do prazer interno” explica a psiquiatra Juliana Quintas. Ela aponta também a importância da sensação de utilidade e do trabalho. Temos dentro de nós a necessidade de saber qual é a nossa importância, qual é o nosso sentido de estar aqui, pessoas que não têm esse sentido acabam, infelizmente, às vezes optando até mesmo por não estarem vivas, porque não se percebem aqui.”


Luminária e vasos esculpidos em concreto por Silvia Branco

(Foto: Reprodução/Instagram @ideiasconcretas.sb)


Entretanto, encarar a arte como trabalho remunerado no Brasil ainda é difícil. “A arte em si não é valorizada de forma alguma. Já me perguntaram: você só faz arte ou você trabalha também? As pessoas não encaram nunca a arte como um trabalho, é sempre como um hobby, uma distração”, conta Silvia Branco, artesã e escultora. Silvia também é professora de Educação Física, trabalha em três escolas, e com a pandemia, manteve o contato com os alunos por meio de aulas online. O processo todo foi um pouco traumático e desanimador para a artista, que resolveu investir em suas produções e começar a fazer luminárias e vasos de concreto no tempo livre. Incentivada por uma amiga, criou uma conta no Instagram (@ideiasconcretas.sb) para vender as obras. “As pessoas estão comprando, é um fator motivador para eu gastar a minha energia.”


Vasos esculpidos em concreto por Silvia Branco
(Foto: Reprodução/Instagram @ideiasconcretas.sb)

A possibilidade de criar pequenos empreendimentos também sustenta  e motiva os artistas independentes. “É uma novidade na minha vida, eu sou professora, esse ano minha carga horária diminuiu bastante por conta da pandemia e tive uma redução de salário e tudo, então para mim (a arte) foi uma oportunidade também de saber que tenho outras maneiras de conseguir sustentar a minha vida”, relata a escultora Silvia Branco. Para a artista plástica e estudante de arquitetura Mariana Andrade, é importante financiar o trabalho de pequenas marcas e artistas autônomos. “Incentivar isso fortalece a autoestima dos artistas. Você comprar e afirmar que aquilo vale algum dinheiro mostra que há um caminho pra pessoa.”


Brinco "Face" feito em arame por Mariana Andrade
(Foto: Reprodução/Instagram @dobradinha_)

Mariana tinha um projeto antigo de divulgar a sua arte e esculpir brincos em arame nos mais inusitados formatos de rosto. Foi na pandemia, porém, que a artista se sentiu motivada a reativar seu perfil no Instagram (@dobradinha_) e vender seus brincos produzidos de forma única. “O cliente recebe uma coisa feita com muito carinho por um pequeno produtor, embalada com muito carinho, é um tratamento pessoal.”




Tanto Mariana quanto Sílvia e Cecile afirmam que pretendem dar continuidade aos trabalhos num cenário futuro. A produção artística permitiu que as artistas se conectassem às pessoas e criassem novos laços durante o período de distanciamento social. “Estou criando uma rede de apoio muito grande, pessoas que até dividiam o mesmo espaço que eu, mas que agora estão se aproximando por causa da minha arte”, diz Cecile Mendonça, dona do perfil de colagens.


A psiquiatra Juliana Quintas ressalta que  o isolamento não começou com a pandemia, apesar de ter se agravado por conta dele. “Há alguns anos estamos ouvindo que precisamos nos conectar. Nesse momento da pandemia, as pessoas podem se conectar via redes sociais, de forma a produzir uma troca de aprendizado e estimular o que os outros estão fazendo”. Além disso, Juliana ressalta a importância de uma memória afetiva e positiva durante a pandemia do Covid-19 .“ É como como se fosse um porto seguro, pra você, se torna um momento de prazer.”


Efeito Bolsonaro: relação entre voto e números da pandemia

Estudo franco-brasileiro compara o eleitorado bolsonarista nos municípios com o aumento nos casos de COVID-19 

Por Leonardo Campos, Marcel Albuquerque e Mariana Figueiredo


A crise política na pandemia
Fonte: Carolina Antunes | Agência Brasil

 

Estudo feito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Instituto Francês de Pesquisa e Desenvolvimento (IRD), evidencia correlação entre a quantidade de eleitores que votaram em Bolsonaro no 1º turno na corrida presidencial de 2018 e o impacto na crise sanitária do novo coronavírus. A investigação científica feita em 5.570 municípios do Brasil demonstrou que, em média, a cada 10% de votos a mais em Bolsonaro, o número de contaminados aumenta em 11% e 12% nos índices de morte em decorrência da doença. Tal fenômeno foi alcunhado pelos pesquisadores em questão como Efeito Bolsonaro.




O infográfico acima ilustra dados gerais do país. A cidade do Rio de Janeiro, na última eleição presidencial, depositou 58% dos seus votos em Bolsonaro, enquanto Salvador teve um percentual bem abaixo, com 28%. Números estes do 1º turno, quando havia diversos candidatos e o argumento do voto útil não estava em questão, apontando mais claramente uma preferência ideológica do que escolha pragmática, como pode ocorrer no 2º turno. Como indica a pesquisa da UFRJ, há uma proporção entre votantes do líder reacionário e números epidemiológicos nas cidades. Na capital soteropolitana, o quantitativo geral de mortos pelo vírus supera a marca de 8 mil, mas a cidade carioca possui dados ainda mais devastadores, acima de 23 mil. O que não se justifica pela quantidade de habitantes de cada local, uma vez que a primeira cidade tem 42% da população total da segunda e menos de 29% da taxa de contaminados quando confrontada ao município do sudeste. Há, portanto, outros determinantes. E o negacionismo bolsonarista está evidenciado como um deles.

Embora o primeiro caso de COVID-19 tenha chegado em 26 de Fevereiro no Brasil, foi em 16 de Março de 2020 que o país iniciou práticas de isolamento social sugeridas pelo poder público, a partir de critérios regulamentados pelo Ministério da Saúde três dias antes. Entretanto, no período até então de dez meses desde a chegada da síndrome respiratória, o presidente Jair Bolsonaro fez questão de dar diversas declarações que ora minimizavam a magnitude da pandemia, ora recomendavam medicamentos em divergência com a Organização Mundial da Saúde (OMS), inflamando seus devotos correligionários para teorias conspiratórias.

Ratificando os desdobramentos do bolsonarismo no controle da disseminação do vírus, outra pesquisa, intitulada Ideologia, isolamento e morte: uma análise dos efeitos do bolsonarismo na pandemia de Covid-19, e promovida por um pool entre a Universidade Federal do ABC Paulista (UFABC), Universidade Estadual de São Paulo (USP) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), indica que em praticamente todas as circunstâncias em que Bolsonaro diminuiu os prejuízos do vírus à saúde ou ironizou as práticas protocolares de precaução, a taxa de isolamento caiu e de contaminações cresceu.

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Além das falas, em inúmeras ocasiões, o presidente fez aparições sem máscara e suscitou aglomerações. Dessa forma, Bolsonaro foi um obstáculo direto do controle epidemiológico, não apenas no que se refere às políticas públicas omissas, mas também acerca de práticas sociais negligentes. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Ivan Filipe Fernandes, coordenador do estudo, afirmou que um dos desdobramentos das ações do presidente foi a menor adesão dos seus apoiadores aos protocolos de saúde. “Não conseguimos estimar quantas pessoas morreram a mais por conta das falas do presidente, mas certamente teríamos menos óbitos se ele tivesse agido de forma diferente”, disse ao jornal. 


O teste positivo para covid-19 de Bolsonaro na imprensa europeia | Notícias  e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 08.07.2020
Aceno de Bolsonaro aos seus seguidores e ao negacionismo. Fonte contida na imagem.


Segundo o sociólogo Eric Monné, uma questão imperiosa é a compreensão de que o bolsonarismo não deve ser lido apenas como o conjunto de práticas governamentais da atual gestão federal, e sim sob uma chave de análise mais panorâmica e concernente a uma mentalidade sociopolítica internacional. O contexto brasileiro dialoga e retroalimenta-se com um cenário global de crise da razão. “Essa crise é uma crise da confiança nas instituições responsáveis por produzir e divulgar conhecimento, tais como universidades e agências de pesquisa cada vez mais afastadas do restante do corpo social, os órgãos estatais e sua contínua falta de transparência, uma imprensa comprometida não com a verdade, mas com interesses políticos de oligopólios”, ressalta o estudioso.

Para além da desconfiança perante às instituições, Monné apresenta três vetores centrais para a crise da razão e seu correlato, o negacionismo: a especialização do conhecimento científico, a escolarização dissociada do desenvolvimento de raciocínio crítico e autônomo do discente e a infodemia, onde o volume de informações paradoxalmente apresenta severas dificuldades para ser bem informado, uma vez que a capacidade de averiguação das fontes é inversamente proporcional à oferta. Tal configuração teria criado solo fértil para teorias da conspiração. Enfatiza, ainda, que há agentes politicamente interessados nela. “A extrema-direita tem encontrado aqui uma via eficaz para ocupar o debate público e retornar ao núcleo dos espaços de tomada de decisão política”, infere.

Ainda que o Efeito Bolsonaro esteja suficientemente demonstrado, é necessário, como dizia o poeta Hemingway, cerrar os olhos para ver melhor. Bolsonaro explica algo, muito, mas não tudo. O cientista político Eric Nogueira pondera que estudos empíricos demonstram que o tema da Saúde é central no Brasil desde os anos 90, especialmente após a implementação e consolidação do SUS. Assim, as gestões das prefeituras frente a essa pauta desde então são decisivas para as eleições, e com a administração da crise sanitária do SARS-COVID não foi diferente. “A quantidade de municípios no Brasil é enorme, e é equivocado tentar interpretar os conflitos locais como uma tradução das questões federais. Cada cidade é um universo”, advoga. Mesmo municípios que votaram massivamente em Bolsonaro em 2018, dependendo da gestão da prefeitura, conseguiram desenvolver importantes políticas públicas e conter relativamente o rápido progresso do vírus. Um exemplo contundente é Niterói, que dedicou 53,4% no 1º turno de 2018, mas ganhou prêmios internacionais e anunciou no último dia 11 a compra de 1,1 milhões de vacinas Coronavac. Essas medidas foram desempenhadas pela gestão de Rodrigo Neves, do PDT, quem conseguiu eleger também o novo prefeito, Axel Grael. Tal cenário corrobora a tese de Nogueira: as preferências políticas locais não necessariamente são coerentes com as pertinentes à esfera federal, e os dados do COVID-19 não podem desprezar o papel das prefeituras.

De forma ambivalente, mesmo que Bolsonaro ocupe um cargo de autoridade contestado por crises, como a da razão e da representatividade, o maior líder da extrema-direita brasileira consegue despertar enorme comoção no comportamento sociopolítico de seus seguidores. Nogueira pontua que o direcionamento de mensagens radicais reafirma um modo operacional de Jair Bolsonaro se comunicar com seus correligionários, por meio de uma comunicação de nicho que deslegitima os veículos tradicionais e diversas instituições, inclusive da área médica. “A configuração como está colocada reafirma a cultura política personalista no Brasil. Ao radicalizar, com discursos como o favorável à cloroquina e afins, ele mantém um eleitorado fiel, que permanece vendo-o como o outsider que desafia o poder estabelecido”, sustenta.

Alfabetização em EAD traz novos desafios para a educação

Dada a impaciência de alunos e a exaustão de professores e pais, até que ponto esse ano letivo  funciona para aos pequenos?

Por Ana Beatriz Lopes


Desde março sem aulas presenciais por conta do inicio da pandemia, chegou ao final de  um ano letivo  atípico e  bastante estressante para alunos em fase alfabetização, visto que as aulas a distância  têm sido um desafio enorme para crianças e adolescentes de todas as idades. A situação ainda é mais preocupante em relação aos pequenos, entre os 6 e 7 anos, que estão na fase de juntar palavrinhas, aprender a  ler e  compreender  o  que  está  sendo lido,  tudo isso tendo o  professor  somente do outro lado da tela. 


No dia 28 de novembro ocorreu em Niterói uma carreata em prol das volta as aulas de escolas particulares. Sob o slogan “lugar de  criança é na escola”, reivindicava a liberação dos  colégios. Mas o prefeito Rodrigo Neves (PDT) vetou qualquer possibilidade de retorno no momento:  “Não está prudente”, resumiu Neves em sua rede social.


Uma  pesquisa  da  Avaliação  Nacional  da  alfabetização (ANA)   apontou  que 54,73%  dos  alunos do terceiro ano do ensino  fundamental não  possuem conhecimentos de leitura suficientes. O quadro  mostra que mesmo em situações normais a alfabetização não é eficaz em 100% dos casos.  

                           

O aluno em alfabetização Bernardo Saraiva, de apenas 7 anos, faz sua avaliação sobre o período remoto: “Não gosto muito das aulas assim, preferia quando era lá na minha escola, tinha a professora perto e mais tempo de recreio também. Pelo computador é mais chato e também não tem como conversar com meus amigos direito".

Bernardo durante a aula de matemática.


A  mãe   do pequeno Be  acrescenta: “ O  Bernardo tem dificuldade de parar para prestar atenção na explicação,  muitas vezes esquece o que foi passado minutos depois. Conversando com outros pais, eles me contam o mesmo problema. Em casa parece que eles têm muitas distrações”. 


Alessandra Saraiva conta um  momento de exaustão do Bernardo na aula  a distância: “Em junho, a escola  informou que a turma teria uma  festa junina online, era uma data que o Bernardo sempre amava na escola, mas dessa vez ele pareceu tão cansado e desanimado que acabou pegando no sono durante a aula”.                   


      
Bernardo durante a festa junina online da turma.



A rotina de tarefas após as aulas também gera incômodos nas crianças, que passam a maior parte do tempo em frente à tela do computador. “Confesso  que as vezes  chega a ser  esgotante, porque além da aula, os  professores passam uma série de deveres de  casa na  plataforma, e ele não quer fazer, chora e sempre questiona o por que de não  poder  voltar para a escola”, aponta a mãe do Bernardo. A Alessandra também relata os problemas técnicos que ocorrem durante os encontros: “Às  vezes é um desastre, é criança almoçando durante a aula, é  internet daqui de casa que resolve cair, é computador desligando durante a  explicação, isso tudo acaba dificultando ainda mais a evolução da aula, né?”.



Apesar  de inúmeras dificuldades durante esse ano letivo online, a responsável do Bernardo conta que em  nenhum momento cogitou desistir de mantê-lo nas aulas. Ela considera que um ano perdido pode significar muito no decorrer da aprendizagem fundamental. “É um ano diferente para todos, em que buscamos adaptação, e sim, em alguns momentos é estressante e  desgastante,  mas  desistir não está em questão, a alfabetização é vista com uma das fases mais importantes do ensino infantil, então seguiremos firmes nesse desafio, buscando a conclusão desta etapa”.


Uma professora de alfabetização da rede particular de Niterói que prefere não se identificar também relata o cansaço dos profissionais da educação. “Se é cansativo para a gente, professor, imagina para as crianças, mas infelizmente temos uma forte cobrança da escola também”, justifica.

Reprodução:EADBOX

A profissional conta também que os professores buscaram adaptar suas aulas. “Procuramos diminuir o horário de aula online, tendo em mente que a visão de tela cansa muito. Introduzimos dinâmicas e brincadeiras, fazendo com que esse momento de introdução à leitura seja mais diverso, aberto e relaxante, sem muita pressão sobre o aluno”.


Apesar de reconhecer a necessidade das aulas remotas neste momento, a professora questiona a efetividade do processo. “Alfabetização online não é impossível,  mas é um  grande desafio, uns alunos mostram ter facilidade, outros dificuldade, e está tudo bem, sabemos que a realidade de cada casa é distinta. Me pergunto se todos os alunos vão para o segundo ano sabendo ler e escrever bem. Acho que não. Por isso pensamos em medidas de inclusão geral para que nenhum aluno saia prejudicado ou tenha  que repetir. Não  vamos  deixar ninguém  para trás”, acrescenta. 


A professora destaca que o método perfeito não existe e a participação de pais e mães no processo é fundamental. “É importante que  nesse momento os responsáveis estimulem as crianças e treinem  leitura todo  dia em casa. Se tiverem condições, comprem livros paradidáticos com letras grandes e palavras de fácil entendimento, fazendo com  que essas  atividades possam  complementar as  aulas online e facilitando cada vez mais o entendimento do aluno”.           


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