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Como é explicar o Brasil para estrangeiros, por quatro correspondentes - Patrícia Álvares

São eles: uma argentina da Al Jazeera English; um norte-americano, autor de ‘Brazillionaires’, do New Yorker; um francês freelancer e uma brasileira da Sputnik News



Por Lizandra Machado e Marcella Ramos


Quase um ano após as Olimpíadas, o país ainda desperta o interesse no noticiário internacional. As razões para isso podem ser muitas – contexto histórico-político-social, direitos humanos, belezas naturais, Floresta Amazônica, exotismo, entre outros. Na quarta e última reportagem da série, o Casarão conversou com a brasileira Patrícia Álvares, da Sputnik News.

*Clique aqui para ler a conversa a anterior, com o Jean-Mathieu Albertine, jornalista francês freelancer


Patrícia Álvares, da Sputnik News
Única brasileira entre os quatro correspondentes, Patrícia Álvares trabalha na agência de notícias estatal russa Sputnik News. Baseada em Montevidéu, no Uruguai, a jornalista, está no veículo desde outubro do ano passado. Antes disso, ela já havia passado pela EFE-Uruguai, CBN, BandNews, Correio Braziliense, entre outros.
Na Sputnik, a brasileira escreve sobre toda a América Latina e relata o “exotismo”, que às vezes chega a ser estranho para os entrevistados. “Quando sou eu que ligo para os entrevistados, eles acham muito engraçado, porque é uma brasileira falando em espanhol nitidamente com sotaque, que não é de um hispano-hablante nativo e de uma agência russa. Sempre rola aquela piadinha de que tudo é tão bizarro, que não tem sentido, que a gente fica parecendo que é espia da KGB”, brinca.
Segundo ela, sobre o Brasil sempre interessam política, corrupção, turismo, praia e economia. No entanto, muitas coisas a jornalista descobriu e foi aprendendo sobre o país por estar no exterior. “Eu fui descobrindo que o Brasil é uma referência negativa ou positiva, dependendo do que é noticiado. Agora, é Temer, Lava Jato, Odebrecht, que explodiu pela América Latina, está tudo bombando. Não sei alguma coisa específica, porque realmente desde o Impeachment [da ex-presidente Dilma, em 2016], que isso meio que ofuscou tudo”, explica Patrícia.
Em 23 de novembro de 2016, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que acusa os meios de comunicação russos de “propaganda anti-União Europeia”, segundo publicação no seu site oficial. No documento, o órgão recomenda que os países europeus invistam nas suas comunicações e defende "reforçar a comunicação estratégica da União Europeia" contra o que os europeus chamam de “campanha de desinformação” promovida pela mídia russa, especialmente a agência de notícias Sputnik e o canal RT, ambos citados no texto.
“Sim, nós sofremos preconceito por trabalhar na agência Sputnik. Porque o Parlamento Europeu, em novembro do ano passado, aprovou uma resolução que não tinha caráter vinculatório. Ou seja, que não acarretava nenhuma sanção, mas recomendava aos países europeus investirem nas suas comunicações, acusando os canais e suas ‘pseudo-agências’ de notícias, RT e Sputnik, de propaganda e de manipulação da informação para fazer propaganda anti-européia. E comparando essa estratégia de comunicação da Rússia ao terrorismo Islâmico”, explica Patrícia.
A jornalista ainda relata que, em janeiro, saiu um relatório da CIA também acusando a Sputnik de influenciar a campanha eleitoral do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o documento, a vitória de Trump aconteceu porque a Sputnik fez campanha contra a Hillary. “Nós sabemos que é um meio de comunicação com seus problemas, como todos os outros meios têm. Sabemos que tem umas particularidades bem bizarras, mas é um emprego como outro qualquer. Eu tenho amigos que são super conscientes de perspectivas de direitos humanos e tudo mais, mas tem que trabalhar para meios ‘super coxinhas’. Enfim, todo mundo tenta lutar contra o sistema dentro dele. Nós tentamos, pelo menos, aplicar a nossa ética”, defende Patrícia.


Como é explicar o Brasil para estrangeiros, por quatro correspondentes - Jean-Mathieu Albertini


São eles: uma argentina da Al Jazeera English; um norte-americano, autor de ‘Brazillionaires’, do New Yorker; um francês freelancer e uma brasileira da Sputnik News



Por Lizandra Machado e Marcella Ramos

Quase um ano após as Olimpíadas, o país ainda desperta o interesse no noticiário internacional. As razões para isso podem ser muitas – contexto histórico-político-social, direitos humanos, belezas naturais, Floresta Amazônica, exotismo, entre outros. Na terceira reportagem da série, o Casarão conversou com Jean-Mathieu Albertine, jornalista francês freelancer.

*Clique aqui para ler a conversa a anterior, com o Alex Cuadros, da New Yorker.


Jean-Mathieu Albertini, Freelancer
Diferente dos demais, o francês Jean-Mathieu Albertini, de 28 anos, não tem o respaldo de um grande veículo estrangeiro conhecido aqui no Brasil. Quando terminou os estudos na França, em meados de 2015, já tinha o interesse de trabalhar de forma independente nas terras tupiniquins. Veio seis meses depois, em um trabalho no consulado em Recife, onde conseguiria juntar dinheiro durante um ano para se manter nos primeiros meses de trabalho freelance. Desde então, repórter cobre o Brasil para diversos veículos europeus, como o Mediapart (site francês), XXI e Sang froid (revistas francesas) e Sept (site suíço)
Mesmo que mantenha uma frequência em alguns jornais, como o Mediapart, o trabalho de Jean-Mathieu depende do empenho próprio de vender as pautas que acha interessantes e da disposição de ir a lugares mais obscuros para achar boas histórias. Como bom empreendedor autônomo, ele cita com facilidade os assuntos que mais chamam atenção do público francês e, consequentemente, dos veículos: “Política, violência e Amazônia. Na França, é muito forte a ideia de que a Floresta Amazônica é o 'pulmão do planeta'. Além disso, a Guiana Francesa fica do lado. A Floresta gera interesse em si, qualquer que seja a pauta. Se você apresentar bem, consegue emplacar, mas há uma dificuldade de chegar lá”, explica.
Ele identifica a dificuldade de acesso à Floresta como um problema até para os próprios veículos brasileiros. Para ele, é papel dos correspondentes contar essas histórias que nem a imprensa nacional consegue cobrir. “Tem jornais brasileiros que fazem um trabalho bom na Amazônia, mas é muito raro. É grande demais e o pessoal não pode mandar muita gente para lá. Também não sei se tem muito interesse. Não sei explicar. Acho que os correspondentes estrangeiros têm um papel muito importante de ir a esses lugares mais remotos. Eu tento fazer, quando posso, mas é muito difícil”, revela.
Jean-Mathieu prefere contar as histórias de maneira aprofundada, como nos moldes da revista brasileira Piauí. Para pôr em prática as ideias maiores, ele prefere escrever para jornais com menor periodicidade, que lhe permitem escrever um texto mais denso. Assim, ele consegue dar mais detalhes sobre as nuances da política e da cultura brasileira. Entretanto, a maior parte do seu trabalho é mais curta e sobre política. Como Cuadros, ele se queixa que é um trabalho mais complicado, mas com o tempo ele adquiriu algumas estratégias para se tornar mais inteligível.
“Política é um pouco mais difícil porque os artigos são mais curtos, então, tenho que simplificar. O que eu tento fazer no Mediapart é focar em alguma pessoa e não sobrecarregar de nomes, porque se você sobrecarrega, os franceses ficam perdidos. Um dos últimos artigos que eu escrevi foi sobre o Temer. Eu foquei no nome do Temer, na Lava Jato. Depois, para tirar os nomes dos outros envolvidos na história é só colocar, por exemplo, “Ministro do STF”, tentar simplificar um pouco. Explicar para o público brasileiro já é difícil, imagina para os franceses”, conta.
Como correspondente no Brasil, Jean-Mathieu conta que a reportagem que mais lhe marcou na carreira foi sobre o justiceiro Hélio José Muniz Filho, também conhecido como Helinho e “Pequeno Príncipe”. Condenado por cometer 65 homicídios nos anos 1990 na periferia de Camaragibe, região metropolitana de Recife, Helinho foi morto na cadeia em 2001. A grande reportagem foi publicada no jornal suíço Sept, em 2016.
“Achei essa matéria bastante interessante porque esse justiceiro matou muita gente. Foi um dos maiores justiceiros do Brasil e morreu faz tempo, no início dos anos 2000. Mas quando eu fui lá a memória dele ainda estava forte e, principalmente, a lógica era a mesma. Mesmo sendo um número baixo, as taxas de homicídio voltaram a crescer. Tentei explicar a lógica por trás disso, porque o cara, basicamente, queria fazer o bem, mas matava mais gente. No início, ele matou uma pessoa que matou o tio dele, e isso já é uma vingança. Depois, como era apoiado pela população, ele matou um cara que roubou uma bicicleta, depois matou a mulher de um traficante, porque não gostava dele. Achei interessante esse conceito de justiceiro e como ele pode dar errado. Enfim, a história dele me permitiu explicar boa parte da violência, mas nem tudo, claro”, explica Jean-Mathieu.

Como é explicar o Brasil para estrangeiros, por quatro correspondentes - Alex Cuadros

São eles: uma argentina da Al Jazeera English; um norte-americano, autor de ‘Brazillionaires’, do New Yorker; um francês freelancer e uma brasileira da Sputnik News


Por Lizandra Machado e Marcella Ramos



Quase um ano após as Olimpíadas, o país ainda desperta o interesse no noticiário internacional. As razões para isso podem ser muitas – contexto histórico-político-social, direitos humanos, belezas naturais, Floresta Amazônica, exotismo, entre outros. Na segunda reportagem da série, o Casarão conversou com Alex Cuadros, da New Yorker.

*Clique aqui para ler a conversa a anterior, com a Teresa Bo, da Al Jazeera English



Alex Cuadros, da New Yorker
Hoje, morador do Brookyn, em Nova York, nos Estados Unidos, Alex Cuadros, de 32 anos, trabalha como jornalista há 9 anos. Desde 2010 faz cobertura internacional sobre o Brasil, quando mudou-se para São Paulo. Até o ano de 2016, ficou baseado no país, cobrindo principalmente a turbulência política ultra-rica, a epidemia do Zika Vírus e as Olimpíadas do Rio.
Cuadros nasceu na cidade de Nova York, mas cresceu em Albuquerque, Novo México. Na sua carreira, já escreveu para inúmeros veículos, como The Atlantic, The Baffler, Bloomberg Businessweek,Vanity Fair, The Washington Post, entre outros. Atualmente, escreve sobre o Brasil para a revista New Yorker. É autor do livro “Brazillionaires”, em que fala sobre riqueza, poder, decadência e esperança ao revelar detalhes da vida de bilionários brasileiros. A publicação foi considerada o melhor livro do Financial Times de 2016.
Questionado sobre ter sentido alguma vantagem por ser jornalista estrangeiro para conseguir chegar até algumas pessoas, Cuadros se lembra do momento em que foi fazer o perfil do bispo Edir Macedo, da igreja Universal, para o livro “Brazillionaires”. “Eu fui entrevistar um cara da igreja, o João Batista, também vereador em São Bernardo do Campo pelo PTC. Ele falou claramente assim pra mim: ‘eu não falaria com você se você fosse da Globo’. O jornalista brasileiro é visto por outro brasileiro como tendo uma agenda política mais clara. Como estrangeiro, eu era um pouco alienígena, não tinha tanta relação com as questões políticas do Brasil. Acho que isso ajuda porque a pessoa confia um pouco mais em mim”, revela Cuadros.
O jornalista ainda afirma que o fato de ter trabalhado na Bloomberg - empresa global de informações financeiras e notícias fundada pelo ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg - também lhe deu acesso a pessoas que, se ele fosse de um veículo brasileiro, teria mais dificuldade de atingir. “Eu entrevistei o João Roberto Marinho, da Globo, e ele abriu a porta para mim porque eu ia com o editor executivo da Bloomberg. Ele falava que respeitava a Bloomberg e tudo mais, acho que isso abriu mais portas. Tanto por trazer mais confiança, quanto pelo prestígio de ser de um veículo 'gringo'”, conta.
Para Cuadros, uma das maiores dificuldades no trabalho de correspondente é a tradução simplificada dos acontecimentos para quem não vive a realidade brasileira. “Se você escreve uma matéria de mil palavras sobre política, você acaba perdendo um monte de nuances que são impossíveis de incluir em uma matéria desse porte. É um trabalho estressante de simplificação e síntese e às vezes você perde informações importantes, referências que para um brasileiro já são subentendidas. Então, escrever para fora é um trabalho necessariamente imperfeito e simplificado. É difícil e, por conta disso, eu quis escrever um livro, porque eu poderia entrar em detalhes, descrever as nuances, explicar detalhadamente a história, a cultura. Tudo que não tem espaço para explicar em uma matéria curta jornalística”, explica.
Em “Brazillionaries”, Cuadros fala de um momento em que seu editor falha ao entrevistar o empresário Abilio Diniz porque começa a entrevista tratando dos pontos mais delicados. Ele teve que aprender a não ser tão abrupto e direto ao se relacionar com o entrevistados. “No Brasil, pra falar com qualquer tipo de personagem, quando se é jornalista, você tem que fingir um pouco mais que vocês são amigos, que você se importa com a outra pessoa para que a conversa possa fluir. Aqui nos EUA é diferente, as pessoas são um pouco mais diretas. Quando você conversa com alguém sobre um assunto profissional, é bem direto”, compara.
O jornalista norte-americano ainda escreve sobre o Brasil para o site da New Yorker, mas aponta que o interesse diminuiu muito depois dos Jogos Olímpicos. Segundo ele, com os mega-eventos, tudo que acontecia no Brasil podia virar pauta para a TV, com manchetes do tipo “crise e tal no país que vai sediar a Olimpíada”. “Implícito nisso é que esse interesse vinha do fato de que um monte de "gringo" iria para o Brasil. No auge do boom, o Brasil estava visando ser até uma potência mundial e agora, evidentemente, esse processo parou. O país voltou a ser, e eu falo do ponto de vista de um leitor médio americano, mais um país estrangeiro com problemas. Obviamente não é a minha visão, eu adoro o Brasil e continuo lendo as notícias todos os dias, mas é difícil para alguém que precisa prestar atenção em tanta coisa. A gente tem o Trump, a Síria e a Rússia... Mas o interesse diminuiu muito”, analisa Cuadros.

Como é explicar o Brasil para estrangeiros, por quatro correspondentes - Teresa Bo


São eles: uma argentina da Al Jazeera English; um norte-americano, autor de ‘Brazillionaires’, do New Yorker; um francês freelancer e uma brasileira da Sputnik News

Por Lizandra Machado e Marcella Ramos




No início da década de 2010, o Brasil estava no auge. Após dois mandatos do presidente Lula e prestes a eleger sua primeira presidente mulher, o país era a 70ª economia mais aberta do mundo, produzia mais petróleo que a Noruega, a Ambev se tornara uma das mais importantes empresas do globo, era o maior exportador de carne do planeta e 40 milhões de pessoas saíram da miséria. Além disso, a descoberta do Pré-Sal e o nascimento de toda uma classe de bilionários brasileiros atraía os olhos do exterior para o maior país da América do Sul, por muito tempo conhecido apenas pelo samba, 'mulatas' bonitas e a violência. Como cereja do bolo, passaria a sediar os dois mais importantes eventos esportivos do planeta: a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016. O Brasil avançava a passos largos para se tornar uma potência. Junto com o progresso, vieram os jornalistas.  
Segundo pesquisa realizada pelo Ministério do Turismo em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), 18.800 jornalistas foram credenciados pela FIFA para a Copa de 2014. Desses, 80% eram estrangeiros e a maioria residente na Argentina (24,8%), Colômbia (9,7%) e México (6,2%). O estudo também aponta que São Paulo (58,3%), Rio de Janeiro (53,0%), Belo Horizonte (28,6%), Porto Alegre (22,3%) e Salvador (19,8%) foram as cidades-sede mais visitadas pelos profissionais da imprensa. O levantamento foi realizado de 19 de junho a 2 de julho com 350 profissionais nos locais que concentravam a maior parte dos jogos da Copa.
Já os Jogos Olímpicos Rio 2016 atraíram 25 mil jornalistas de 105 países, de acordo com informações publicadas pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Na época, a NBC, principal rede de TV norte-americana, montou um dos seus estúdios na areia da Praia de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. E, para apresentar o jornal noturno, o canal trouxe o âncora Lester Holt, uma das estrelas do seu jornalismo.
No entanto, tão rápida quanto a subida foi a queda. Em 2015, o baile começou a dar sinais de fim de festa. Terminados os jogos, a maior parte dos correspondentes que começaram a cobrir o país assim que os grandes eventos foram anunciados, deixaram o Brasil. De qualquer forma, não dá para dizer que a atenção foi extinta.  Quase um ano após as Olimpíadas, o país ainda desperta o interesse no noticiário internacional. As razões para isso podem ser muitas – contexto histórico-político-social, direitos humanos, belezas naturais, Floresta Amazônica, exotismo, entre outros. O Casarão conversou com quatro jornalistas ligados à cobertura internacional para conhecer suas impressões e o quê o Brasil tem de diferente.


*Acompanhe a primeira conversa da série.


Teresa Bo, da Al Jazeera English
Repórter da Al Jazeera English, a argentina Teresa Bo trabalha na sucursal da maior rede de TV árabe, em Buenos Aires. Da capital argentina, ela faz a cobertura da América Latina, na língua inglesa, não só para o mundo árabe. Segundo ela, o canal tem uma recepção muito boa, principalmente na internet, além de um grande público.
“Temos uma grande comunidade árabe em São Paulo, no Brasil, mas não atraímos somente esse público. Em vários campos a Al Jazeera se destaca por parecer um meio bastante imparcial. Nós nos apresentamos como uma mídia internacional. Isso é muito bom, pois hoje você tem que estar com a grande mídia e poder ter a liberdade de falar com todos os atores. Nos apresentar como um meio internacional nos dá muita liberdade. Eu vejo isso como algo muito positivo”, ressalta Teresa.
As reportagens produzidas na Al Jazeera English vão além do Oriente Médio e, quando há a necessidade de cobrir o Brasil presencialmente, Teresa se desloca até o país. “No Brasil, cobrimos muita política e economia. Mas sempre tentamos fazer reportagens sobre como isso afeta a vida das pessoas e tudo que está acontecendo. Agora, com o desenrolar da corrupção, como isso afeta o cotidiano. Esse é o nosso foco mais importante. Muita política, muita Brasília, São Paulo e Rio também”, explica.
De acordo com a jornalista, os temas sobre o Brasil pautados pela rede de TV se devem ao interesse prévio do público e a repercussão internacional do assunto. “Fazemos muitas reportagens sociais, sobre as necessidades das pessoas. Quando estamos aqui, vamos às favelas e vemos o que as pessoas precisam, como elas estão. Temos muita liberdade com temas, mas também fazemos muitas reportagens com pessoas em situações mais vulneráveis”, revela Teresa.
Coberto de estigmas e comumente associados ao terrorismo, o povo árabe observa a incompreensão mundial. A visão ocidental sobre o mundo árabe é pouco informada e carregada de preconceitos, como sentiu Teresa quando iniciou na rede. “A princípio, sim, pois era visto como um canal árabe em que as apresentadoras teriam que cobrir a cabeça com um véu. No entanto, não é bem assim. A Al Jazeera em inglês é feita com muita gente estrangeira, profissional, com experiência. Além disso, o canal em inglês, apesar de ser originalmente árabe, é um canal internacional”, explica.
No que se refere às diferenças de cobertura do canal árabe para os outros veículos, a repórter sente que há um interesse muito maior pelo que acontece na América Latina, em comparação com outros veículos. “Os outros meios só se importam quando algo é muito grande.  Estamos o tempo todo fazendo reportagens da região. A BBC também tem a BBC Brasil e a BBC em espanhol, mas eles não fazem tanta cobertura como a gente. Sinto que fazemos muito”, destaca.
Teresa iniciou sua carreira em Washington, nos Estados Unidos, como estagiária da rede de TV norte-americana CNN. Mais tarde, ela virou freelancer e foi trabalhar no Oriente Médio. “Fiquei em Gaza, vivi no Afeganistão por três anos. Em 2006, fui trabalhar para um jornal espanhol e, no mesmo ano, a Al Jazeera lançou um canal, em inglês, e me ofereceram o trabalho em Buenos Aires para cobrir toda a América Latina. Me pareceu bastante interessante e aqui estou”, conta ela, que completa: “Eu trabalhei muito no Haiti, no Iraque, na Colômbia, no Brasil e sempre vejo coisas muito dramáticas, mas eu sempre tento pensar algo positivo e sobre como sou privilegiada”.

No campo e nas cidades, a voz das ocupações

Por Felipe Gelani


"O Brasil é considerado um dos países com a maior concentração de terras do mundo. Um por cento de todos os proprietários de terra no nosso país, de acordo com os dados do IBGE, detêm 46% de todas as terras. Temos no nosso país em torno de 14 milhões de pessoas sem terra, que querem trabalhar na terra", explica Joaquín Piñeiro, do MST. Ele e a mestre em Mídia e Cotidiano, Mariana Pitasse, trouxeram para o debate a relação entre "Movimentos Sociais: Comunicação e Territórios". A apresentação ocorreu na sala Interartes, do Iacs, em maio, como parte da programação do ciclo Encontros do poder popular, realizado na UFF. 

Evento foi realizado no final de junho Fotos: Felipe Gelani

"O embrião do poder popular é a colaboração", afirmou Joaquín


Joaquín contextualizou o cenário da produção agrária no país, desde antes de sua formação como estado nacional. "Nosso país foi organizado no modelo agrário-exportador, que durante 400 anos funcionou assim. Esse modelo era baseado em um tripé. Com a produção de monocultivos, primeiro com o pau-brasil, depois a cana, o café, agora a soja... Com a mão de obra escrava, pois a escravidão foi abolida apenas no papel em 1888, e com a terceira base desse tripé: a produção era para exportação", explicou.

Segundo ele, essas bases que favoreciam poucos – os latifúndios surgidos nas Capitanias Hereditárias – foram a fagulha que mais tarde originaria movimentos de revolta e resistência popular, como o próprio MST. "Se pegarmos os dez maiores produtos de exportação do Brasil, sete ainda hoje são commodities agrícolas e minerais. Ainda somos hoje um país produtor de matérias-primas para as nações chamadas desenvolvidas. Ainda hoje encontramos terras nas quais temos trabalho escravo. A própria ação da PM, formada antigamente para ir atrás de negros fujões, hoje é a maior causa da morte de pobres e negros nas favelas. Por causa disso tudo, movimentos de contestação foram criados. Houve um extermínio dos primeiros revoltosos, os índios, depois dos negros. Como consequência, houve uma luta. O país é constituído dessas lutas, e o MST é herdeiro dessas lutas."

Joaquín ressaltou a importância de uma reforma agrária no país, uma pauta muito antiga dos movimentos sociais. “Os países que detêm os meios de produção já fizeram suas reformas agrárias há cem, duzentos anos, pois se trata de algo importante para o desenvolvimento de um país. Precisamos democratizar o acesso a terra. Sua função social deve ser exercida." Ele ressaltou que, em nossa Constituição, "é respeitado o direito à propriedade desde que se cumpra sua função social. O MST nasce desse problema histórico não resolvido. O problema agrário."

"O MST foi criado em 1984, com as pautas de luta pela terra, luta pelas reformas e pela transformação social. Estamos organizados em 24 estados, menos no Amazonas, Acre e Amapá, mesmo por que a maioria dos trabalhadores nesses estados são extrativistas, e nossa luta não abarca esses setores. Mas com o avanço da fronteira ruralista estamos nos organizando lá também", detalhou Joaquín sobre o grupo.

Ele também revelou outros números sobre o MST. "Estamos em 2.300 municípios brasileiros, quase a metade. Nossa base social e organizada é dividida entre as famílias ainda acampadas, em luta, em torno de 100 mil famílias, e as famílias assentadas, que já conquistaram terras com reconhecimento do estado. São 300 mil famílias assentadas que conquistaram a terra nesses 30 anos de luta. Os números são estimados, pois não temos filiação. É um movimento de massa, social e aberto, no qual entra quem quer lutar pela terra. Dentro do movimento temos nossas normas de atuações. Isso demanda um trabalho muito duro para manter a organização."

Joaquín ressaltou que a entrada de pessoas no movimento se dá mais por pura necessidade do que por algum tipo de conscientização política, algo passado para as famílias posteriormente. "É uma vida dura. Só fica quem realmente precisa. Viver em um acampamento é muito difícil. Vivemos tensos, com a possibilidade de sermos atacados por jagunços, policiais, etc. Todos têm que cumprir uma tarefa, participar da organização. O embrião do poder popular é essa colaboração, a divisão de tarefas."

Ainda segundo Joaquín, atualmente a principal luta do MST é contra o agronegócio, ou a "aliança entre latifundiários e o capital internacional." E alertou: "70% do alimento que chega à casa das pessoas vêm dos pequenos e médios produtores. O MST, por exemplo, é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. Já os grandes latifundiários produzem para fora, para exportar."

Mariana ressaltou o importante papel da comunicação em ocupações populares

Mariana Pitasse: Um estudo sobre as ocupações populares

Mestre pelo PPGMC/UFF, Mariana Pitasse, que também é repórter do jornal Brasil de Fato, apresentou os resultados de sua pesquisa para a dissertação. Seu objeto de estudo foram as ocupações populares no Contestado, na cidade de São José, em Santa Catarina, e a 6 de Abril, em Niterói. Ela investigou as estratégias de comunicação implementadas nos dois territórios, refletindo sobre seu impacto e efetividade.

Mariana esclareceu que a ocupação do Contestado, ocorrida em outubro de 2012, começou quando um candidato a reeleição à prefeitura de São José prometeu para um grupo de famílias do bairro de Serrarias, na periferia da cidade, que um terreno em desuso seria desapropriado e destinado para moradias sociais. Segundo Mariana, o candidato incentivou as famílias a ocupar o terreno. No entanto, seis dias depois, o candidato perdeu as eleições, não cumprindo a promessa.

Isso provocou uma expulsão dessas famílias, que já estavam se estabelecendo no local. Elas foram violentamente retiradas do terreno. Porém, algumas famílias, que não tinham para onde ir, foram apoiadas por militantes políticos e movimentos sociais, como o próprio MST, Brigadas Populares, e o coletivo anarquista Bandeira Negra. As famílias foram realocadas em um ginásio, e posteriormente também ocuparam um terreno privado, que estava em desuso há quase 40 anos. Lá, as pessoas tentaram reconstruir as moradias que lhe foram prometidas. O grupo foi batizado de Ocupação Contestado.

Já a Ocupação 6 de Abril foi formada em agosto de 2015, mas começou a ser planejada um ano antes, quando os militantes do MTST chegaram ao Rio com o objetivo de identificar demandas locais de moradia e dar início à atuação do grupo na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Apesar de uma atuação forte em São Paulo, o grupo ainda não realizava grandes atos no Rio, até uma ocupação em São Gonçalo e posteriormente a ocupação de 6 de Abril.

O grupo procurava famílias afetadas economicamente com o objetivo de realocá-las em ocupações, para reivindicar os direitos à moradia. Na época, havia muitas famílias que foram fortemente prejudicadas pelas fortes chuvas, que inclusive soterraram várias casas no deslizamento do morro do Bumba, em Niterói, deixando cerca de sete mil pessoas desabrigadas.

Desde a tragédia, a prefeitura da cidade prometeu entregar unidades habitacionais para os desabrigados, promessa até hoje ainda não cumprida. "Por isso, em agosto de 2015, um grupo formado em grande parte por essas famílias que perderam suas casas com as chuvas se juntou e ocupou um terreno localizado no Largo da Batalha, perto da Região Oceânica de Niterói, um terreno de propriedade da prefeitura, há muitos anos abandonado também. O grupo foi chamado de ocupação 6 de Abril de 2010, data da tragédia do morro do Bumba", explicou Mariana.

O trabalho de Mariana incluiu as duas ocupações como objeto de pesquisa por se tratarem de experiências recentes e por possuírem características semelhantes: pessoas com baixa renda salarial que reivindicam a casa própria. Outro motivo da escolha das ocupações foi o motivo delas terem sido estruturadas por organizações políticas apartidárias, como o MTST e a organização das Brigadas Populares, que reivindicam moradia por meio de diferentes formas de ocupação.

Mariana buscou problematizar a formação dos movimentos de ocupação e mostrar como eles se estruturaram em resposta à segregação econômica e social dos grandes centros urbanos. Ela realizou uma pesquisa qualitativa baseada em entrevistas, com base em um método etnográfico, com membros das ocupações e das organizações políticas. Na dissertação, ela conta histórias das pessoas envolvidas em ambas as ocupações.

No entanto, ela ressalta a grande diferença entre as ocupações: enquanto a do Contestado permanece até hoje, a 6 de Abril durou apenas um mês, por conta de um acordo com a prefeitura de Niterói. No acordo, estava estabelecido que as famílias deveriam desocupar o terreno, e a prefeitura doaria outro terreno, com casas construídas com verbas do programa Minha Casa Minha Vida.

Ela destacou outras diferenças nas estratégias de organização política e social nas ocupações, além de analisar as formas de comunicação estabelecidas. "Logo que começa a ocupação do Contestado, a comunicação aparece como instrumento de organização das ações de urgência, que eu chamo de período emergencial. A comunicação está presente desde a nomeação da ocupação, em referência a Guerra do Contestado, até a organização de eventos que ajudaram a apresentar publicamente a ocupação e a suprir necessidades básicas dessas famílias ocupantes", explicou.

Posteriormente, a comunicação foi planejada para comemoração de um ano da ocupação, tendo como intenção reformular a imagem pública do movimento, como a recriação do logo da ocupação, criado e decidido pelos próprios membros do grupo em votação. Nessa época, também foi criado o jornal Contestado Vive, que funciona como um panfleto de notícias e como um meio de representação formal que ajudava a definir a identidade pública do grupo.

Ela destaca que, durante um período posterior, com o afastamento dos moradores dos grupos sociais, que cuidavam dos mecanismos de comunicação do Contestado, e a consequente diminuição das publicações dos panfletos, jornais, e outros suportes comunicacionais da ocupação, a ação repressora da Polícia Militar de Santa Catarina aumentou.

Isso incentivou uma nova fase na comunicação das famílias afetadas, como uma reativação das páginas das redes sociais relacionadas ao Contestado e a produção de um pequeno documentário com relatos dos moradores sobre a ação policial. Segundo Mariana, o projeto de comunicação do grupo teve sucesso, e foi notada uma redução da violência policial. O movimento continuou forte em 2016, mobilizando inclusive manifestações contrárias ao governo Temer.

Sobre as estratégias comunicacionais da ocupação 6 de abril, foi um elo de comunicação entre as famílias que formaram a ocupação. As estratégias foram estabelecidas pelo MTST, no caso dessa ocupação, e foram divididas entre comunicação interna e externa, com diferenças entre o período de ocupação e o aguardo das famílias pela realização das promessas da prefeitura.

Em busca do "Caraca!"

Fernando Moreira fala sobre o início da trajetória no jornalismo e o atual sucesso de seu blog Page Not Found

Por Stephany Cordeiro
   
Aos 47 anos, o jornalista e escritor Fernando Moreira diz que o que espera de seus leitores, são reações do tipo "Caraca!". Autor do blog Page Not Found, que trata de fatos verídicos inusitados, Fernando se inspirou em 14 histórias publicadas em seu blog, na criação do livro "Baseado em Fatos Reais". Ele conta que a obra não se resume em uma coletânea dos contos "As histórias são reais no coração delas. Elas foram tiradas de um fato real, mas eu me permiti a ficção. Tem um fato real, e aí eu "viajo", eu invento personagens... todos os nomes e locais são fictícios".
  O "jornalista da ficção", como autodenomina-se, acredita que seu livro tem grandes condições de ser adaptado para a televisão. "Eu acho que os contos que escrevi têm um apelo visual muito grande. As histórias são facilmente roterizáveis e podem ser transformadas em contos pra tela. O meu objetivo é  transformar o page em algo maior. Já virou livro. Quem sabe, uma série na tv? Porque os contos têm um toque cinematográfico"- explica.

   Fernando estudou no Colégio Militar e chegou a fazer três períodos de Engenharia. Na faculdade, durante os intervalos das aulas, ele gostava de passar o tempo escrevendo. Mas na verdade, conta que o dom o acompanha desde pequeno, quando escrevia pequenas histórias e sua vó pagava uma pequena quantia por elas. "Ela financiava esse meu hábito de escrever, esse meu prazer de escrever, me incentivando. Claro, não era DINHEIRO... era pra comprar uma bala, uma pipa... Eu vim do subúrbio, então, pipa era  uma coisa importante."  

O tempo passou, e Fernado percebeu que Engenharia não era realmente o que queria. Largou tudo e foi fazer Jornalismo na UERJ. Em uma entrevista exclusiva, ele conta um pouco mais sobre suas experiências profissionais.


A trajetória

Como foi o início da sua carreira de jornalista?

Foi bem difícil... eu me formei em 1993 e só fazia uns freelas, umas coisas bem pequenas. Não conseguia arrumar um emprego e nem cheguei a estagiar em redação. Em 1999, O DIA ofereceu um curso de jornalismo e os melhores seriam aproveitados. Esse curso foi super concorrido e eu passei em primeiro lugar. Depois disso, eu fui aproveitado e consegui um emprego fixo. Eu comecei com a editoria de Economia em 1999, mas por acidente. Eu não tinha menor vocação pra essa área, mas era a única oportunidade oferecida e eu queria muito trabalhar em uma grande empresa.

Como foi o processo de ir para a editoria de jornalismo  internacional? Os assuntos que você escrevia antes mudaram completamente?

Foi um acidente. Em 1999, eu saí do O Dia e vim para O Globo ser redator. Eu fui convidado pra trabalhar em um site, numa parte, que reunia muitos redatores. A gente chamava de Plantão. Ou seja, eram redatores que faziam todas as notícias de todas as áreas. Você estava aqui num momento, e se acontecesse alguma coisa importante de inter, você fazia. Se fosse de país, você fazia. Se fosse cultura, você fazia. Se fosse esporte, você fazia... Então, nós éramos generalistas. A partir de 2000, no processo de eleição do Bush contra o Al Gore, eu passei a cobrir internacional. Só que aí, aconteceu um fato muito importante em 11 de setembro de 2001 (o ataque às torres gêmeas). A editora de inter, na época, pediu pra minha chefe nesse grupo de redatores, um redator mais experiente e tal... Então, ela falou "Tem que ser o Fenando, que tem facilidade com língua, com inter...". Na verdade, eu fui pra ajudar na cobertura, que era muito pesada. Só que na época, a editora falou "você não volta mais". Então, exatamente ali, eu comecei minha carreira de repórter internacional. Em 2003, acaba o globonews.com, eu volto pro O Globo e continuo na editoria de inter e ciência. Em 2008, eu assumo a chefia da editoria de internacional.

Qual matéria você considera ter sido "um divisor de águas" na sua carreira?
Acho que foi uma matéria que mais teve repercussão aqui no O Globo. Em 2005, teve o Katrina, que atingiu Nova Orleans...  eu estava aqui no Brasil, e por acidente, uma pessoa entrou em contato com O Globo, querendo achar uma brasileira que estava lá. E eu fui atrás dessa brasileira. Talvez, eu tenha sido o primeiro repórter do mundo a mostrar que  o estádio Superdome estava entupido de gente; com dezenas de corpos, a partir do relato de uma brasileira que estava lá, com um celular quase acabando a bateria (não tinha como carregar, porque a cidade estava totalmente  às escuras).  E me deu muito orgulho, poque eu consegui ajudar  essa Brasileira, ao Consulado entrar em contato com ela, e tirar ela de lá... então, não só foi uma história que teve muita repercussão nacional e internacional, como também me deu muito orgullho de poder usar o jornalismo como seus fundamentos: de ajudar a sociedade, promover o bem estar social... esse foi um caso bem marcante.

Nas entrelinhas

Como você fica sabendo dos casos inusitados que acontecem no exterior? Você pesquisa na internet ou tem algum correspondente ou uma agência que te mantém informado?

As agências não cobrem tudo de todos os eventos. Principalmente essas coisas que são relegadas à segundo plano. Qual é a ideia do Page Not Found? Por que que o nome é Page Not Found? Porque é a página que você não encontra mídia tradicional. São notícias que você não encontra na cobertura "normal", na cobertura "corriqueira das coisas"; chamado hard news (que são as notícias mais "pesadas"). Então, as agências de notícias não cobrem esse tipo de coisa, como deveria, pra abastecer um blog que é muito atualizado. O Page, tem uma média de 9 posts por dia. Então, eu tenho que recorrer a sites mesmo. E alguns países, principalmente Reino Unido, Alemanha, Rússia, China e Índia, são países que gostam muito desse tipo de notícia. Então, eu desenvolvi uma lista de sites onde procurar esse tipo de coisa, esse tipo de informação inusitada.
Em um trecho do seu livro "Baseado em Fatos Reais", você relata "Sem tirar o avental de sangue e cego de fúria, Igor entrou no Samara enferrujado e desapareceu na névoa de óleo queimado que se espalhou pela rua" (pg 40). Você é adepto do Jornalismo Literário (ou Novo Jornalismo)?
Sim. Eu acho que eu fiz jornalismo pra chegar ao "Baseado em fatos reais". Eu acho que esse livro é o auge da minha carreira. A minha carreira aqui no Globo foi construída em cima de textos menos hard news, e  mais metafóricos. Textos mais densos,com mais liberade... eu uso a palavra "libertinos". Não no sentido sexual, mas no sentido de se permitir... sair do lide convencional. E esse tipo de assunto que o Page trata, facilita um pouco isso.  As  histórias do livro foram selcionadas pensando nisso: Quanto de literatura eu vou poder tratar e abordar nessas histórias? Essa experiência no Globo me ajudou bastante a fazer isso.
Como você faz  pra  apurar a veracidade desses casos tão bizarros e inusitados?
Não existe um critério pra você fazer isso. A gente  tende a confiar. Por exemplo, a própria agência de notícias... você não sabe se ela está apurando uma coisa verdadeira ou falsa. Então, meu critério é: onde está publicado. Se onde está publicado é um site confiável, eu vou atrás... eu não tenho como ligar e creditar. Mas, eu sempre faço a ressalva  que a notícia foi tirada do site tal. Eu não assumo aquilo como uma verdade minha, que eu pesquisei, que eu corri atrás, que eu apurei. Volta e meia, a gente cai nuns golpes. Ninguém está imune a isso. Jornalismo é isso.

Na rede
Você acha que seu blog é dirigido a que tipo de leitores? Dá pra traçar um perfil?
Não existe. As pessoas pensam, de uma forma geral, que o blog é pra classe C e D . Porque tem esse fenômeno de Expresso, Meia Hora... que são jornais muito populares, que vendem na barca, no trem, nas áreas menos favorecidas da cidade, que têm uma leitura muito rápida, muito dinâmica... rasa, e não, profunda.  Quando o Page foi criado em 2006, curiosamente no 06/06/2006, as pessoas falavam pra mim" Seus leitores vão encher uma Kombi, no máximo", "Aqui no Globo isso não vai funcionar", "O Globo não tem esse perfil de leitor: classe C e D". Mas, as pessoas se enganaram. Hoje, eu tenho 4,5 milhões de cliques por mês. Eu  tenho leitores de todas as classes sociais:  desembargador, engenheiro, médico... "n" políticos me seguem no Twitter, gente da imprensa, artistas...  Ou seja, não existe isso porque a curiosidade pelo que é diferente afeta as pessoas da mesma forma, independente de classe social.
Você acha que a página do Globo em redes sociais como o Facebook ajudam a divulgar as notícias do seu blog? Ou as pessoas só lêem as chamadas de forma superficial?
A audiência no Facebook é muito importante pra mim. As pessoas não passam só os olhos por curiosidade.  O blog não trata de notícias hard news. Você vai ler assim "Dilma chama Serra de careca e bobão", por exemplo. Aí, a pessoa terá a seguinte reação "Ué, como isso aconteceu?" Então, ela clica.  Cada vez mais, eu estou mais relevante no Facebook, e o Facebook está cada vez mais relevante para o "Page". Então, isso me dá a certeza de que as pessoas não se bastam só com a chamada. Elas clicam também, pra saber o que tem por trás dela.
Você acha que o tipo de notícia que você escreve para o blog tem sido mais valorizado pelos leitores do que assuntos considerados mais sérios, como política, economia e saúde?
Nem todo mundo que entra no blog é um desavisado de  que tal página trata de notícias surreais. Mas eu acho que em entra no blog sabendo sobre o que se trata, quer exatamente o que eu pretendi quando criei o Page Not Found.  Eu estava cansado de falar sobre Bush, Saddan Hussein, guerra ao terror, Bin Laden, de Al- Qaeda, e quis escrever sobre assuntos mais leves. Quando o leitor vai ao page, ele não está abrindo mão do hard news, da política, da economia, das notícias do Rio de Janeiro... Ele quer um momento em que  possa viajar comigo, um momento de lazer. O Page Not Found é mais ou menos isso. É o momento do leitor se afastar um pouco desse mundo pesado que a gente vive.
Como você lida com as críticas? Elas interferem no seu trabalho de alguma forma?
Jornalista que tem medo de crítica, não vira jornalista. A gente que tem um blog, ou uma coluna (como você queira chamar), com um apelo tão popular e tão visto, vai receber crítica de todos os lados. Existem críticas construtivas (são críticas bacanas)... mas tem  muita gente que critica só por criticar.  Acha que o conteúdo do Page é um conteúdo menor...  Eu escrevo alguma coisa do tipo fait diver, um assunto leve... aí, vem aqueles caras politizados" O Brasil pegando fogo, a CPI, a currupção da Petrobras, o mensalão... e você escreve uma besteira dessas? Um assunto tolo desses?" Tem espaço pra todos, entendeu? Mas o cara clicou lá, chamou a atenção dele. E existe um negócio que eu acho engraçado: elas são atraídas pra esse tipo de conteúdo e se sentem mal por terem entrado naquilo. "Poxa vida, eu acho que eu queria ser um pouco mais politizado. Eu queria ser um pouco mais intelectualizado, e entrei naquilo... Estou aqui lendo essa bobagem, então vou ter que me chicotear e me punir por ter entrado aqui"- e escrevem  esse tipo de coisa. Então, eu lido muito bem com isso.  Volta e meia, eu agradecia as críticas. Eu tinha até a prerrogativa de publicar ou não o comentário criticando. E muitas vezes, eu aceitava e autorizava a publicação de comentários que "metiam o pau" no meu trabalho. Não tenho problema nenhum quanto à isso. "Quem tá na chuva é pra se molhar".
Você já trabalhou ou pensa em trabalhar em meios diferentes como rádio ou televisão?
Rádio, eu já fiz. Durante um ano e meio eu tive um quadro chamado "Caraca!" toda sexta-feira no programa do Alexandre Ferreira, na Rádio Globo. Para esse quadro, eu levava casos inusitados, que tinham o mesmo viés, o mesmo teor  de notícia do Page Not Found. Era muito legal! Eu gosto muito de rádio. Tinha uma audiência muito boa, uma resposta muito boa dos ouvintes. Televisão, eu já fiz produção, edição de texto na Globosat... mas, nada específico (isso, na época que eu fazia freela). Mas, a minha grande paixão é ficção. É engraçado falar isso, mas é uma expressão que martela na minha cabeça... eu sou um "jornalista da ficção". E o "Baseado Em Fatos Reais" é exatamente isso: um jornalismo da ficção.

Sua  obra
Como foi a seleção dos fatos para o seu livro? Quais critérios você usou?
Não houve nenhum critério. A única história que eu já sabia diante mão, que entraria no livro, foi a primeira história: "Coração de chumbo", que  quando eu escrevi pro Page, eu pensei "Poxa, se um dia eu escrever um livro, essa história vai ter que entrar (por ser muito interessante). As outras histórias foram tipo: Calma aí, deixa eu dar uma olhada no que realmente dá pra fazer um conto.  Quais são as histórias em que eu vou poder viajar, em  que eu vou poder  realmente oferecer pro leitor alguma coisa diferente do  blog? Porque simplesmente repetir o que estava no blog, não fazia muito sentido pra mim.  Eu queria dar ao leitor uma coisa que fosse inédita pra ele. É claro que o coração da história já saía no Page. Mas toda a construção da história, toda a periferia da história foi inédita.
Em seu livro "Baseado Em Fatos Reais", você procura extrair uma lição de cada conto?
Eu não diria uma lição, porque eu não sou educador. Mas tem uma mensagem, tem alguma coisa nas entrelinhas que gosto de deixar no ar. Deixar o leitor pensando, deixar ele atento e mais desconfortável. O curioso é que meu filho nasceu tem 7 meses, o Rafael, e depois que eu escrevi os contos, que eu entreguei pra editora, eu me dei conta de que quatro deles falam de gravidez (não exatamente sobre isso, mas têm a gravidez como componente do conto) Na hora, eu não tinha nem percebido. Isso me fez parecer que eu devo ter sido sugestionado de alguma forma. Então, tem muito de mim naqueles contos. Tem muito das coisas que eu acredito que valem ser passadas para o leitores. Tanto é que eu sempre abro os contos com a citação de alguns autores, de algum famoso, e tal... justamente pra dizer pro leitor o caminho  que eu quero que ele enverede. Quando ele começa, lê um título e já tem uma citação. Isso leva o leitor a ter uma leitura diferente  sobre o assunto. Eu chamei atenção pra uma coisa ali. Então ele passa a ler o conto procurando aquela referência.

O inusitado
O que é bizarro pra você?
Eu repasso a pergunta. O que é bizarro pra você?  Não existe. Esse é um dos grandes desafios do blog e também, uma das fontes de crítica. Muitos posts que eu considero  ter temas inusitados, curiosos... as pessoas perguntam "Ué, essa é a coisa mais comum do mundo. Qual é a bizarrice disso? Qual é a coisa insólita desse negócio? Não entendi". Então, eu não consigo definir o que é bizarro pra mim. E o que é bizarro pra mim este mês, pode ser que mês que vem não seja mais.
Você ainda se surpreende com as coisas bizarras que noticiou ou o inusitado tornou-se comum pra você?
Sempre me surpreendo. Todo fim de ano eu faço uma retrospectiva. Eu imagino assim "Poxa, esse ano eu consegui falar disso, daquilo, daquilo outro... É, acho que agora não vai ter mais assunto. Acho que eu cheguei no meu limite de notícias curiosas, inusitadas, bizarras..." mas, eu sempre me surpreendo. E é por isso que o page continua a existir, porque se os assuntos já tivessem desgastados e as notícias fossem as mesmas, eu não teria nem prazer em fazer o Page Not Found. Então, um dos combustíveis para fazer o blog, é sempre me surpreender. Sem isso, eu não conseguiria fazer o Page Not Found, fazer o livro, e ser o profissional que eu me tornei.

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