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Kafka e a boneca viajante

Por Camille Velloso


Com um sumário diferente, capítulos nomeados de “A” a “Z” e páginas tomadas por ilustrações, o título “Kafka e a boneca viajante”, de Jordi Sierra i Fabra envolve o leitor com a história que faz de Franz Kafka, um dos maiores nomes da literatura, um carteiro de bonecas. O episódio teria acontecido nos últimos anos de vida de Kafka, em um passeio do escritor por um parque de Berlim onde encontrou uma menina chorando por ter perdido sua boneca.


KafkailusNa curta narrativa de 127 páginas, Jordi Sierra mostra como teria se dado o curioso encontro entre Kafka e a pequena menina, no livro denominada “Elsi”, em que Franz teria se feito passar por um carteiro que entregava cartas enviadas por bonecas que viajam pelo mundo, destinadas a suas donas. A história surgiu a partir do artigo “La muñeca viajeira” publicado no jornal “El País”, por César Aira, que inspirou Jordi Sierra a contar o episódio trazido ao mundo por Dora Dymant (ou Diamant, segundo algumas obras) a companheira de Franz Kafka na época que teria presenciado as três semanas de entrega das cartas.


De narrativa simples, fluida e por vezes poética, “Kafka e a boneca viajante” consegue encantar o leitor com a descrição das cartas de Brígida, a boneca, e paralelamente com o envolvimento e carinho do escritor pela menina Elsi. E o que deveria ser apenas uma entrega de carta para aliviar o choro de uma menininha do parque Steglitz, acabou se transformando em três semanas das mais inspiradas cartas que Kafka teria escrito.




Naquele dia, ele entrou no mesmo estado de tensão nervosa que o tomava cada vez que se sentava a sua escrivaninha, fosse para escrever uma carta ou postal.” – parte do depoimento de Dora Dymant



Trata-se da recriação das linhas das cartas de Kafka, no que teria se tornado uma das histórias mais bonitas a respeito do famoso autor. De criador e provedor do conforto para Elsi, através das cartas que criou para contar as aventuras da pequena Brígida pelo mundo em sua viagem de crescimento, Franz Kafka se torna o que anseia pelos encontros que lhe ensinaram mais do que poderia esperar. Ver Elsi correr esbaforida em seu encontro passa a ser uma das expectativas diárias para o autor das cartas e é isso o que Jordi Sierra mais evidencia em sua narrativa.


kafka-e-a-boneca-viajanteUm dos pontos fortes do livro é a narrativa fluida, fácil e de leitura gostosa, em que cada linha passa a ser esperada e encantadora. E as páginas se passam sem que se note, o que no final acaba se tornando um ponto quase que fraco. Por se tratar de tanto encanto em apenas 127 páginas o leitor acaba desejando mais: que as cartas de três semanas pudessem vir a se estender e que se soubesse de mais peripécias da pequena Brígida pelo mundo só para se ter mais das inesperadas e singelas reações de Elsi com a leitura de cada linha delas. Ou ainda pela humanização do autor Kafka, que envolve o leitor, através da forma como acabara o escritor esperando pelos encontros com a menina apenas para lhe causar mais conforto e risos. Como mostra o trecho a seguir:




"O rosto de Elsi era um poema, uma canção. Toda a fascinação da infância flutuava em seus traços e toda a inocência da sua idade, talvez a melhor, rebentava naquela sinfonia de cores e enorme alegria." - Kafka e a boneca viajante - Jordi Sierra i Fabra



As ilustrações de Pep de Montserrat, ilustrador famoso por trabalhos em livros infantis e juvenis, se tornam mais um dos pontos fortes do livro pois. Sutis ao ilustrar apenas os momentos mais marcantes de cada parte e/ou capítulo, interagem diretamente com o que se imagina das cenas mais singulares, direcionando novamente a atenção do leitor para aquele ponto, ao invés de simplesmente desviá-la. Pode se dizer que fazem parte de uma harmonia maior que transborda em cada palavra e página.


Produto de um premiado autor e um competente ilustrador, “Kafka e a boneca viajante” se desdobra em narrativa e obra simples. Caracteriza, subliminarmente, a pureza da felicidade que por si só se perfaz na sutileza vista nas linhas poéticas e simples da escrita de Jordi Sierra.


Um pouco mais sobre o autor e o ilustrador, respectivamente:




[caption id="attachment_434" align="alignleft" width="105"]jordi i fabra Jordi i Fabra[/caption]

Jordi Sierra I Fabra (Espanha, 1947)

Premiado escritor com mais de 300 obras publicadas de gêneros diversos. Criou a Fundação Jordi Sierra i Fabra, em Barcelona, e a Fundação Taller de Letras Jordi Sierra i Fabra para a América Latina, na Colômbia, que desenvolvem intenso trabalho com crianças e jovens para estímulo à leitura e à criação literária.


Pep de Montserrat (Espanha, 1966)

Ilustrador de diversos livros infantis e juvenis. Também trabalha como ilustrador para jornais como El país, na Espanha, e The New York Times, nos Estados Unidos. Desde 1998 é professor na escola de arte Massana de Barcelona.

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