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Meu ranzinza favorito

Uma entrevista exclusiva com o professor aposentado Alceste Pinheiro


Por Elena Wesley e Gabriel Vasconcelos


O trato durão vai até a terceira conversa. Logo ele vai querer saber onde você mora, os bares que frequenta, a música que ouve e os ônibus que pega. É impossível passar despercebido. Sozinho, Alceste já daria uma boa pauta, mas o frisson da comunidade acadêmica frente à sua aposentadoria pedia mais. Surgiu, então, a ideia de uma entrevista exclusiva. Solícito, ele nos recebeu em seu apartamento. Encravado na boemia da Lapa e revestido de livros, o lar de Alceste já dizia muito sobre ele e, após uma tarde inteira de conversa descontraída, dois de seus alunos tornaram-se convictos admiradores. Com 40 anos de carreira, dos quais 26 foram na Academia, o cineasta de formação passou por seis grandes jornais, uma revista e uma rádio. Nas linhas que se seguem, Alceste Pinheiro falou sobre sua vida pessoal e profissional, jornalismo e política, além dos recentes levantes sociais sobre homossexualidade e legalização da maconha.

[caption id="attachment_508" align="aligncenter" width="470"] Foto Gustavo Cunha[/caption]

A Juventude na UFF


Alceste, no Controversas você mediou a mesa “Prata da Casa”. Sabemos que você também é um ex-aluno da UFF. Quando e como você entrou na Universidade? Fale um pouco do IACS daquele tempo.

Sim, entrei nos anos 1970. O vestibular já era dividido como hoje para jornalismo, publicidade e cinema. Eu era confuso com o que queria, mas passei para fazer publicidade. Logo no primeiro semestre eu pedi transferência para Cinema e consegui. Na época a transferência era fácil, quase que imediata. Depois eu fiz até o final e me formei em Cinema.

O IACS era no prédio do Instituto de Matemática, onde hoje é a Nutrição e o Turismo. Depois, quando criaram o prédio do ICHF no campus do Gragoatá, vagou a casa na Lara Vilela e nós fomos para lá. Assim, eu comecei no Valonguinho e terminei na Lara Vilela. Quanto ao curso, era muito sacrificante ir até lá. No meu tempo, era uma infinidade de professores que faltavam, porque muitos trabalhavam nos meios também. Se comparado com aquela época, hoje aquele instituto é um céu.

Nas aulas, você revelou que morava em Sepetiba quando jovem. Como resolveu o problema da distância?

Eu ainda morava em Sepetiba quando fui para O Globo, em 1975. Mas depois ficou impossível e vim morar no Rio. Eu nunca morei em Niterói. Naquele tempo não era habitual morar em Niterói, tanto que, todos os dias, vínhamos em um grupo grande para o Rio. Eram alunos e professores, todos conversando. Naquele tempo professor não tinha carro e por isso não havia fartura de carona. Na verdade, nem havia muita gente de Niterói.  

A carreira no mercado


Professor, você passou por muitos lugares, mas qual foi sua primeira oportunidade? Como você progrediu no mercado?

Na época, os dois primeiros anos de Cinema eram teóricos e, mais ou menos na metade da faculdade, eu consegui um estágio em um jornal, o Diário de Notícias. Fiquei seis meses ou um ano, não tenho certeza. Naquele momento o jornal estava carente, mas tinha sido importante até os anos 1960, tinha um título muito sólido. A família Dantas, proprietária do jornal, abandonou o negócio e o deputado federal Ricardo Fiúza (PE) comprou o título para ficar com o prédio. Ele entregou tudo para uma pessoa do ramo, o Olímpio Campos, para que ele demitisse os funcionários e vagasse o prédio. Mas ele não demitiu logo.
Eu nunca tinha pensado em ser jornalista. Não tinha cultura para isso, mas eu continuei ali e comecei a dar certo.

O meu contrato foi por acaso. Naquele tempo os jornais colocavam a edição do dia em vitrines, na frente de sua sede. Um dia eu vinha descendo a Riachuelo e fui lá ver o jornal. Foi quando me perguntaram se eu gostava de jornais. Eu disse que sim e me chamaram. Ofereceram um salário extremamente alto para um estagiário e eu fui. Mas ofereciam aquele salário só porque não pagavam.

Eu nunca tinha pensado em ser jornalista. Não tinha cultura para isso, mas eu continuei ali e comecei a dar certo. Depois, fui para o Jornal dos Sports já como profissional, porque o mercado estava aquecido e tinha bastante emprego, graças ao Milagre Econômico. Fiquei um ano lá com Ives Stavelle. Foi quando abriu uma vaga para O Globo. O Celso Itiberê, que era editor de esportes do Globo, e um amigo nosso, o José Paulino Senra, chamaram o Ives. Um dia, quando ele andava para pegar o ônibus para casa, teve uma hemoptise bem em frente ao Souza Aguiar. Ele estava com tuberculose e não podia mais continuar. Essa vaga sobrou e o Paulino me chamou. Naquela época não havia muito rigor com registro, mas me pediram no O Globo. Fui ao sindicato e expliquei a situação. Devido a minha experiência, o sindicato não viu problema em me registrar.

Depois eu fui para O Dia ser coordenador de esportes e nos anos 80, estive na rádio JB e no Jornal do Brasil. A rádio foi o melhor lugar. Foi onde aprendi a escrever. Para não ser repetitivo, eu inventava aberturas. Fazia até 150 linhas por dia. Até hoje aquele grupo é muito unido. No mesmo ano em que fui para o Jornal do Brasil, fiz concurso pra UFF. Foi em 1985.

Em qual empresa você julga ter alcançado uma maturidade profissional?

Ah, foi no O Globo. No O Globo eu alcancei a maturidade profissional, mas não era o lugar em que eu mais gostava de trabalhar. Era um lugar de tensão. Eu tinha de ter muita atenção e trabalhava muito. Não havia folga completa no fim de semana e eu não gostava de trabalhar no sábado porque gostava de sair à noite nas sextas. Apesar de ter mais trabalho, eu preferia ir para redação no domingo. Eles me preservavam à tarde porque eu costumava fechar o jornal à noite. Lá também foi o único lugar do qual fui demitido.

Porque você foi demitido?

Eu me recusei a trabalhar. Nós fechávamos o jornal de sábado na sexta, cedo. Mas naquele final de semana, eu resolvi adiantar algumas coisas e fui trabalhar no sábado. Estávamos no final do Campeonato Carioca de 1979 e o resultado mais improvável de todos garantia o título antecipado ao Flamengo. Só que o pauteiro de sexta não atentou para este fato. O Flamengo acabou sendo campeão antecipado e alguém tinha de cobrir.

Logo que eu entrei na redação eu vi o Robertão (Roberto Porto), o editor de esportes, cutucar o Celso (Celso Itiberê), subeditor à época, e dizer – ‘manda o Alceste, manda o Alceste’. Eu fingi que não vi e fui para o fundo da sala. Eu o vi insistindo com o Celso, que veio. Ele queria que eu fosse até a concentração do Flamengo, uma casa em São Conrado. Eu me recusei e ele me demitiu justamente. Se ele não tivesse me demitido eu ia rir da cara dele. No O Globo as relações eram muito agressivas, mas de qualquer jeito, ninguém podia se recusar a trabalhar. Não existe isso. Não pode um repórter estar no local de trabalho e se recusar a trabalhar. Eu me arrependi nos primeiros meses. Mas logo depois fui para O Dia.
Eu vejo os jornalistas esportivos de hoje e fico com pena.

Tivemos acesso a algumas reportagens suas na revista Placar. Você já pensava em ser jornalista esportivo? Você se interessava por esporte?

Não, não tinha nada a ver, foi pura coincidência.  Na rádio eu era redator internacional e fui para o jornalismo esportivo pelas circunstâncias. Eu vejo os jornalistas esportivos de hoje e fico com pena. Na minha época era mais lúdico, não havia esse rigor de contar quantos gols, quantas faltas, erros ou aces. Eu gostava muito, saíamos tarde porque as coisas aconteciam mais tarde e eu também podia dormir mais ou estudar e ler pela manhã. Foi bom, mas também não senti falta quando saí.

Mas você passou a se interessar por esporte?

É como estou dizendo, as gerações de hoje são muito mais responsáveis. Eu passei a me interessar sim, mas não era a coisa mais importante da minha vida, tanto que, quando eu deixei, não senti falta.

Sabemos que você é Vasco, você está acompanhando as recentes campanhas do time?

Acompanho pela TV, mas não vou a estádio já tem tempo. A última vez que fui a São Januário já faz mais de 10 anos. E esta é a tendência, diminuir o público com ingressos caros e estádios menores.

O Lampião, Homossexualidade e Ditadura


Segundo a tese de mestrado Reinventando o Sonho de Claudio Roberto da Silva, em que consta uma entrevista sua, você se afastou da grande mídia para ser freelancer na mídia alternativa, mais exatamente no Jornal O Lampião da Esquina, de orientação homossexual. Como foi essa experiência, o que era o Lampião da Esquina?

Em determinado momento de 1979, eu saí do O Dia. Tinha brigado com o Guedes de Freitas, o editor de esportes, e saí. Resolvi ficar sem fazer nada e me envolvi com a mídia alternativa. Ganhei algum dinheiro com isso sim. Nunca morri de fome. Depois fui para a rádio em 1981. Neste meio tempo fiz matéria para jornais alternativos e muito freela para a Veja, a Placar e O Repórter. Foi quando eu conheci o Agnaldo Silva, nós trabalhávamos juntos. Eu não ia às reuniões de criação do Lampião, não queria ser cotista do jornal. Quando eu passei a colaborar, eles já estavam fazendo o jornal e eu acabei me envolvendo.

O Lampião da Esquina era um jornal muito particular. Ele nasceu para ser um jornal de militância, mas entre os donos havia divergências sobre isso, seu papel na sociedade e a forma de fazê-lo. Ninguém tinha experiência em jornalismo diário, só o Agnaldo, que era muito debochado, o que eu gostava. Eu não queria fazer um jornal de serviço, mas eram os militantes que sustentavam o jornal.

Uma das razões pela qual eu brigava lá era exatamente isso. Tinha um grupo que achava aquilo muito particular, um jornal muito político, para gueto de viado. Por isso acabei me afastando. Quando o grupo que pensava assim saiu, o Agnaldo me pediu socorro. Ele disse que estava sozinho e eu fui. Quando mudou o foco, o jornal perdeu leitores e, embora também tenha ganhado alguns, surgiu uma campanha contra o Lampião. Já no final, eu fazia tudo no jornal, ia até para gráfica. Tudo o que eu aprendi de fechamento de jornal, impressão, essas coisas, foi lá. Mas depois, o Agnaldo começou a se envolver com o teatro, novelas e se desinteressou. Além disso, começou a faltar dinheiro e a coisa desandou. Até que um dia, eu estava saindo do Lampião e o Celso Itiberê, aquele mesmo que tinha me demitido, passou. Falei a ele que queria voltar e consegui uma vaga na rádio. Ele estava no início do projeto de implantação do modelo da CBN e da BandNews.

[caption id="attachment_510" align="alignleft" width="470"] Foto Gustavo Cunha[/caption]

A mesma tese infere uma declaração sua de que nunca sofreu nenhum tipo de repressão por ser gay no período da ditadura, um tempo em que se imagina todo tipo de sanção à individualidade. O que você acha desse levante político sobre homofobia? Porque não aconteceu antes se a causa gay não é nova?

Eu nunca sofri. Acho isso uma bobagem, mas também, estou dizendo isso porque nunca deixei. Mas é claro que, anos depois, as pessoas se puseram a reagir e as coisas avançaram. Eu acho que grande parte das agressões é uma reação a esse avanço. É resultado do que as pessoas estão sendo obrigadas a ver por aí como uma pessoa que vê um casal de mãos dadas na rua, está entendendo?

Como você vê esse período da história do Brasil? Você concorda que o regime favoreceu conglomerados midiáticos como as Organizações Globo? Em sua opinião até que ponto isso prejudicou a atividade jornalística no país? Há reflexos diretos hoje?

Eu fui criado nisso né. Nasci em 1952. Então em 64, quando dei por mim, já vivia assim, toda a minha adolescência foi assim. Acho que foi ruim para as pessoas, mas ao mesmo tempo foi o período de maior criatividade da sociedade: nasceu o Cinema Novo, o Teatro de Arena, os diários combativos, como o Pasquim. Havia mais criatividade. Hoje é uma mesmice, basta olhar a música e comparar o que faz sucesso hoje com o que fazia há 40 anos. Não é saudosismo, é verdade.

O que favorece os conglomerados é o modelo capitalista em que vivemos. Veja na Itália. Lá o Berlusconi tem o seu conglomerado e não teve ditadura. Além disso, depois desse período de redemocratização muitos jornais fecharam: o JB acabou, O Dia entrou em decadência. As afiliadas da Globo cresceram agora, no período democrático. A concentração hoje é grande sim, e eu acho que só não é maior graças às redes sociais.

Então aconteceria de qualquer jeito?

Sim, acho que sim. Independente do regime, isso aconteceria de qualquer maneira, pela opção do capitalismo que se fez, um modelo concentrador. Dizem que o regime prejudicou porque havia censura, mas há vários livros que mostram que era uma censura consentida.

Você não dá pinta nenhuma, professor. O que você pensa sobre a postura do gay?

Em primeiro lugar, quem tem postura é galinha. Este é um assunto que me interessa tão pouco que eu nunca parei para pensar nisso. Tem vários tipos de gay e isso não é como na política, em que os partidos têm questões fechadas. Isso é muito abstrato. Não existe caracterização, é uma questão de desejo. 

Orientação política, Drogas e Liberdade de Imprensa


Aquela tese diz que você é adepto do anarquismo. Explique.

Eu sou anarquista. Anarquista em costumes, anarquista em moral. Sou de esquerda, mas não sou um marxista. Posso até usar um instrumental marxista, mas sou anarquista. Acho que não tem de ter Estado, e é uma pena que o Anarquismo não tenha tido uma produção teórica tão intensa como o Marxismo.

Porque não tem que ter estado?

A função do Estado é controlar, e acho que ninguém deve controlar o outro. Mas por favor, esta é uma questão teórica. Eu vivo numa sociedade de capital excludente e tento viver da melhor maneira possível, não faço parte de nenhum movimento e sei que tudo isso é uma utopia.

Você vota? Se sim, qual foi sua última escolha para a presidência?

Sim, eu voto. Eu votei no velho maluquinho, o Plínio. No segundo turno eu anulei.

Eu votei no Lula até o primeiro turno da primeira eleição em que ele venceu. Anulei no segundo por causa dos debates dele com o Serra. “Lulinha Paz e Amor” foi quase uma ofensa pessoal. Mas eu nunca me decepcionei. Eu sempre soube o que o Lula queria, qual era o papel dele. A construção dele, de onde veio até chegar à presidência, não me agradava. É claro que uma pessoa que saiu de onde ele saiu tem alguma coisa acima dos outras, mas o Lula cresceu como se tivesse criado o movimento sindical e isso não é verdade. Ele cresceu subindo na cabeça de pessoas que vieram antes dele. Essas pessoas foram sumindo, ele foi desarticulando os movimentos e fortalecendo os líderes.

Certa vez perguntaram a ele – “Você é comunista?”, ele respondeu “Sou sindicalista!”. É uma resposta ou infantil ou muito esperta. Havia oposição dentro da própria esquerda, inclusive anticomunistas. Lula criticava os “comunistas barbudinhos da USP” e tinha a simpatia da esquerda cristã por ser temente a Deus. Ele é muito singular. Me cita alguém do Ocidente que foi operário e chegou ao poder. Ele tem uma capacidade política que só o Brasil poderia gerar.
“Lulinha Paz e Amor” foi quase uma ofensa pessoal.

Professor, o que você pensa sobre a recente discussão acerca da regulamentação da imprensa?

Eu sempre fui completamente a favor da regulamentação. O que dá base à liberdade de imprensa é a liberdade de expressão, mas é completamente diferente uma pessoa dizer que o síndico é ladrão numa reunião de condomínio e um meio de comunicação dizer isso para 60 milhões de pessoas. Isso não pode seguir para questões de lei, é diferente. Além disso, não são todos os que têm o direito de se expressar. É como o direito à propriedade. Ele existe, mas nem todos têm. É alguma coisa abstrata em nossa sociedade.

Não é possível que se tenha uma legislação que não regule o mínimo. Na Constituição está previsto o direito de resposta, mas não acontece, não está regulamentado corretamente. Para conseguir, você tem que entrar na justiça e demora uns três anos. Acho também que é possível limitar a propriedade cruzada sem limitar a empresa. Tem de haver uma legislação própria, como o direito do consumidor. E tem mais, enquanto houver capitalismo, haverá jornalismo porque o jornalismo nasceu daí. Nos Estados-Unidos, por exemplo, existe regulamentação e ninguém está falindo.

Sobre a questão de os jornais falarem em censura, é por que eles querem ser os censores. Quando o Roberto Marinho fala da Censura, ele quer ser o censor, basta ver a quantidade de notícias orientadas neste sentido.

E o que você achou da decisão do STF?

Na verdade o STF foi chamado a discutir uma lei que não existe. Mas se existisse uma lei, eles teriam de cumprir porque não são eles que legislam. Existe uma concepção conservadora de que qualquer intervenção do Estado é contra o princípio liberal. Eles igualam informação a macarrão. Macarrão não tem caráter ideológico. E, como já disse, o nosso jornalismo existe graças ao capitalismo. Uma regulamentação não acabaria com o capitalismo nem tão logo com o jornalismo.

Em uma matéria de 1989, também para revista Placar, você fala abertamente dos bicheiros Nacif e Sued, que patrocinavam o Itaperuna, recém-chegado à série A do estadual. Outros bicheiros eram figuras carimbadas em times de futebol e escolas de samba, como Castor de Andrade, pai do Bangú. Castor, inclusive, era figura pública e foi até mesmo no programa do Jô Soares. O que você pensa sobre o jogo do bicho e outros jogos de azar? Você jogava? Passar de um estado de aceitação velada para uma perseguição implacável não estimulou uma clandestinidade ainda maior?

Nunca joguei que eu me lembre, e não tenho opinião sobre isso. Acho que ninguém devia jogar, mas as pessoas estão envolvidas. Pra mim não tem problema, mas acho que deveria ser regulamentado.

Quanto à perseguição, não acho que forçou uma clandestinidade maior. Acho que hoje os bicheiros não se mostram muito. Antigamente havia outro tipo de bichisse, eles tinham orgulho de ser bicheiro e ostentavam isso. Hoje ninguém sabe quem é bicheiro ou não. A polícia deve saber por que é a quem interessa. Eles estão mais pra personagem de crônica policial. Lembro que o Sued era o banqueiro menor do Castor e o Nacif era quem controlava o bicho em Itaperuna, mas hoje você não vê essas pessoas tão envolvidas com futebol e escolas de samba.
Acho que tem de legalizar imediatamente. Não só a maconha, mas todas as outras drogas.

Uma pergunta seca. Legalizar ou não legalizar a maconha? Por quê?

Acho que tem de legalizar imediatamente. E isso é uma coisa que eu defendo há anos. Também acho que não deve ser só a maconha, mas todas as outras drogas.

É um direito. Acho que não se deve proibir ninguém. Se não interfere na vida do outro, não tem problema nenhum. As pessoas não bebem? Bebem porque querem se divertir e ninguém tem nada com isso. Enfim, o que me move é o direito da pessoa escolher.

Além disso, tem quem beba e não é alcoólatra. Eu por exemplo. É proibido um monte de remédios também, mas tem quem os use nas boates. A maioria que usa droga usa socialmente. O próprio traficante não usa. O governo tem de prover tratamento para as pessoas que se viciam, é questão de saúde pública.

Há uma concepção de que o modelo está errado. Se hoje faz mal não só para quem consome é porque é proibido, e isso só estimula mais violência, mais crime, mais armas. Mas a questão é que é um direito de escolha. Que haja controle público na compra e venda, na saúde e anistia aos traficantes. O traficante de drogas é resultado do capitalismo. O cara tem que ser muito inteligente também, tem que ter capacidade administrativa e política para cuidar do morro. Dizem que ele usa de violência, mas o Estado também usa. A violência é monopólio do Estado.

Eu acho que a legalização vai acontecer para as próximas gerações. Talvez vocês não vejam isso, mas vai acontecer. E como tudo, vai ter de passar por um processo de encaretamento, um entortamento do capitalismo: o vendedor vai ter que pagar impostos, você também e tudo vai entrar de acordo com o sistema. É como o casamento gay. Isso nada mais é do que o encaretamento da coisa. É tornar tudo mais burguês como é o sistema: agora vamos casar e trabalhar mais para produzir mais, tudo direitinho como deve ser. É isso, é o caminho natural das coisas. 

[caption id="attachment_511" align="aligncenter" width="470"] Foto Gustavo Cunha[/caption]

A vida acadêmica, o IACS e a mudança para o Gragoatá


Porque você virou um acadêmico?

Isso foi simples. Um dia eu encontrei o João Baptista, meu contemporâneo de faculdade, e ele me falou que a UFF ia abrir um concurso. Era para rádio. Eu fiz e passei. Eu e Ana Baum (Ana Baumworcel) passamos no mesmo ano. Comecei na UFF no dia 18 de agosto de 1985.

Elena Wesley - Que lindo! Você lembra?

Não. É porque um dia eu tive de olhar o registro para resolver um negócio e acabei decorando. Mas este agosto de 85 foi um mês interessante. Neste mesmo mês eu saí da rádio, fui para o jornal e comprei meu apartamento na Glória. Foi muito bom para mim.

Como foi essa mudança do mercado para a cátedra?

De início peguei matérias sobre reportagem, mas ainda trabalhava na redação do JB. Eu dava 20h de aula, mas comecei a me envolver com a faculdade. Era uma luta. Contei na redação que os horários seriam incompatíveis. Foi quando me tornei coordenador do curso de Comunicação na UFF. Fazia as pautas e só trabalhava das 9h às 17h. Nas sextas ajudava a fechar o jornal e ainda ia para Niterói dar aula no sábado pela manhã. Foi assim por dois semestres, até que mudou o editor e todo mundo foi demitido. Ficamos apenas eu, Ives e o Paulo César Vasconcellos, esse da TV. Queriam que eu ficasse como repórter e cobrisse automobilismo, que eu odiava. “Quero fazer futebol!”, retruquei, mas colocaram outra pessoa no futebol.  Então fui para a revista Placar, onde fiquei por oito meses e saí. Quando começou a acabar o dinheiro, eu resolvi voltar a trabalhar. Fui então para a Rádio Globo, mas fiquei apenas um pouco, de dezembro a março, porque não dava horário. Depois, ainda fiquei um ano na France Press. Lá era tipo serviço público, trabalhava das 10h às 16h, mas larguei em 1989 para ser coordenador do curso novamente e fui fazer doutorado direto, por determinação da banca de qualificação.

O que mudou no alunato desde sua entrada na faculdade? E quanto aos professores?

As gerações mudam. Desde que eu entrei já foi uma geração inteira. Nos anos 1980 as pessoas eram muito mais politizadas. Hoje os alunos são mais centrados, mais profissionais, focados. Não gosto do termo individualista porque tem uma conotação muito pejorativa. Mas enfim, eles querem fazer carreira, não se preocupam em derrubar presidente, fazer revolução. Mesmo assim, tenho a impressão que são mais amigos entre si, além de serem mais soltos.

Quanto aos professores, hoje eles são mais profissionais também. Na minha época todos tinham uma função no mercado, trabalhavam em jornais e assessorias de imprensa. A dedicação era obrigatoriamente menor. Mas eu não sei. Não tenho muitos contatos acadêmicos, tenho amizades e nem são com professores de Comunicação, são com os de Letras da UFRJ, amigos de uma amiga minha. Hoje eu vejo os professores novos com seus ciclos acadêmicos, todos com mestrado e doutorado. Eu não.
Nos anos 1980 as pessoas eram muito mais politizadas. Hoje os alunos são mais centrados, mais profissionais.

Você é notabilizado por sempre priorizar as reivindicações do alunato. O que você acha que é o diferencial no Jornalismo da UFF?

A UFF não faz melhor, as faculdades são apenas diferentes. Na UFRJ, por exemplo, a vocação da ECO é mais teórica.  No instituto isso é uma das divergências entre graduação e pós-graduação. Isso foi, inclusive, uma das razões da separação do Departamento de Estudos de Mídia. A briga é porque queremos priorizar a graduação. A gente não permite que aluno de pós-graduação dê aula. Além disso, outra diferença é a situação dos professores. Se você parar para olhar, os professores daqui são diferentes dos da ECO. Os daqui têm mais inserção no mercado, na prática profissional do que os de lá. Mas isso tende a se diluir com as exigências de currículo para os concursos.

Professor, porque você não tem bolsa de iniciação científica?

Eu tive uma vez, mas hoje não tenho mais. Foi com uma aluna de história e a bolsa estava ligada à minha pesquisa, uma comparação entre um jornal católico, O Apóstolo, e outro protestante do século XIX. Eu desisti na hora de renovar. Era preciso fazer um texto de 14 linhas, eu fiz um com 16. Foi um alarde, outros professores passaram por isso e recorreram. Eu deixei pra lá e nunca mais pedi.

O que você acha de alunos que se envolvem com o movimento estudantil?

Não tem problema nenhum. Pelo contrário, eu acho ótimo, é importante para a formação pessoal. Além disso, é quase que um rito de passagem e, muitas das vezes, o único envolvimento político que alguns vão ter é nesse espaço.

O que você pensa sobre o novo IACS no Gragoatá?

Eu acho que do jeito que está não deve mudar. O problema é que há uma torrente nos departamentos que quer mudar de qualquer maneira. Mas não pensem que vocês vão pegar isso porque não vão. E também há um interesse castelar. Tudo seria mais fácil se a pós-graduação aceitasse ficar com o espaço que tem hoje, mas eles querem ir para o prédio novo, ocupando salas que seriam da graduação. Eu acho que a prioridade é a graduação.

Mas é claro que tem de ir para o campus, mas não desse jeito. É muito complicado levar só alguns setores. É muito chato que alunos tenham aula na Lara Vilela e precisem resolver problemas no campus principal. Os departamentos têm que ficar onde estão as aulas. Mas nem quero mais me meter porque teve baixaria na última reunião de colegiado. 

A relação com os alunos e a aposentadoria


Alceste, você é um grande paradoxo. Apesar de sempre ser curto e grosso, é uma unanimidade positiva entre os alunos. Todos te adoram. Porque é tão ranzinza e ao mesmo tempo tão querido?

Eu não sou ranzinza. Na verdade, eu sou a pior pessoa para falar de mim e também não faço a menor questão disso. Sabe aquela conversa de “conhece-te a ti mesmo”, pois é, eu não. E eu também nunca fui a psicólogo ou analista, nunca paguei para deitar na poltrona de ninguém.

Porque gostam de mim? Eu acho que é porque eu sou honesto, não sacaneio ninguém e cumpro com as minhas obrigações. Eu não gosto de trabalhar, mas procuro fazer o necessário, só isso. Acho também que as relações não são puramente profissionais. Se Deus, ou seja lá quem for, colocou uma pessoa no seu caminho é para você se divertir com ela. Tem uma ou outra turma com a qual não tenho vínculo, mas de um modo geral, desde que me conheço, mantenho contato. Adoro reencontrar ex-alunos.
Eu não sou ranzinza. (...) Se Deus, ou seja lá quem for, colocou uma pessoa no seu caminho é para você se divertir com ela.

No Controversas 2011  você disse que precisava parar. Explique melhor porque decidiu se aposentar.

Há razões pessoais e intelectuais para minha aposentadoria. A parte pessoal é que eu já trabalho há muito tempo e quero parar para ver como é. Sim, eu podia tirar uma Licença Premium, mas é aí que entram as outras questões. A universidade é um espaço que precisa se renovar. Eu tenho de dar lugar a pessoas com novas idéias, mais vigor, que vão trazer uma nova brisa para lá e vão se envolver mais com o processo. A escola precisa de gente que veio outro dia do mercado, que sabe o que está acontecendo e vai debater isso com os alunos. Sem falar das questões físicas. Não aguento mais pegar ônibus. Esses ônibus são feitos para atletas, não para idosos. E olha que eu sou muito paparicado, professores fazem questão de vir me pegar. No mais, é muito chato ficar lá até dez horas da noite, é uma coisa meio lúgubre, vocês não acham?

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