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Diversão sem frescura

Originalidade, criatividade e boa música atraem uma juventude ávida por novidades no circuito noturno de Niterói


Por Thaianne Coelho


Independentes, undergrounds, conceituais e, acima de tudo, artísticas. Essas são as características de festas que ganham cada vez mais visibilidade em Niterói. São novos e antigos rostos, iniciantes e experientes, que investem tempo e dedicação para manter em alta os pontos alternativos de produção de cultura e entretenimento da cidade.

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O que pode ser mais alternativo que ter um muro grafitado para divulgar a data da festa e  uma set list que vai de Wilson Simonal a Iron Maiden, passando por Criolo e The Smiths? A festa Hey Joe chegou à décima primeira edição no Dia Mundial do Rock com essa cara e  trouxe ainda outros diferenciais para se igualar às festas do Rio, mas de um jeito bem original assim como o estilo dos produtores José Pantoja e Matheus Marins.

Os dois amigos de 22 anos se conheceram ainda na época de colégio e a partir daí  começou a parceria que os levou a fundar uma produtora cultural, a Agência Universo Paralelo. De festival de bandas independentes no início da parceria em 2007 à festa Hey Joe, que completa um ano em novembro, eles amadureceram o trabalho, o que não significa que não se divirtam nas pickups durante as festas.

“Idealizamos a festa em um momento em que frequentávamos muito as noites do Rio. A partir daí nos perguntamos se era possível criar eventos semelhantes aqui onde moramos. Então surgiu a Hey Joe, uma festa para amigos, com o mesmo som que escutamos em casa para nos divertir. E a nossa surpresa foi que a festa cresceu rapidamente. Talvez por carência do público que não tinha opções de noites alternativas na cidade”, conta Marins, que cursa Estudos de Mídia no Iacs.

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E de 600 pessoas na primeira edição no Espaço Convés, próximo ao Gragoatá, o público pulou para 1,2 mil na última, comemorado no dia 13 de julho no Espaço Fênix, em Charitas, que já está pequeno para tanta gente.

“O nosso maior desafio ainda é encontrar espaços, casas ou bares que abriguem uma festa de médio porte. Mas estamos na luta, fazendo uma festa com o intuito de colocar música boa e não apenas embolsar o lucro. Talvez esse seja nosso grande diferencial. Colocamos um espaço para a galera interagir na própria festa, com um mural de sugestões de especiais e exposições de arte, como pinturas e curtas metragens. Também levamos Super Nintendo. É como a nossa casa!”, destaca Pantoja, que já levou a festa para o Sana e para o Rio de Janeiro, na Gafeira Elite.

Projetos rock’n’roll

Além da ideia de fazer um festival de bandas independentes na comemoração de um ano de Hey Joe em novembro, Pantoja e Marins deram espaço para a criatividade e produziram uma espécie de desdobramento da festa: a Fuss. E não há melhor tradução. Barulho é o que rola do início ao fim da festa, seja do pessoal cantando seja dos gritos de Serj Tankian, Corey Taylor e Dave Grohl.

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Palco principal das duas festas, o Espaço Convés é um jovem veterano de 16 anos. Abrigo de artistas independentes, nele acontece desde o forró tradicional, que já dura 12 anos, a choppadas de diferentes cursos da UFF. Já atraiu bandas  underground internacionais, festivais de bandas independentes, artistas do reggae e do rock que conseguiram espaço fixo na programação da casa e projetos culturais, como o Arte Jovem.

A parceria entre o grupo Arte Jovem Brasileira e a Secretaria Municipal de Cultura já tem lugar no Convés há dez anos. E traz trabalhos e manifestações de artistas plásticos, escritores, fotógrafos, cineastas, músicos e DJs do cenário independente da cidade. Os eventos acontecem  todo início de mês, como a “mostra de arte livre e sincera”.

Mas nem sempre foi assim. O dono da casa, Adenor Guimarães, de 53 anos, já foi policial durante 13 anos e quando resolveu mudar de vida teve a ideia de criar um “barzinho de praia”, no terreno da família. Construiu todo o espaço com uma decoração rústica e um cardápio de petiscos do mar.

“O bar com essa proposta durou apenas dois anos. Nessa época vieram alguns estudantes da UFF pedindo um espaço para um evento de música que eles criaram. Achei interessante. Quando vi o bar cheio de jovens e música logo pensei ‘é isso o que eu quero’. A partir daí o transformei em uma casa de eventos culturais e nunca mais parei”, explica Adenor.

A cara alternativa é visível no estilo, nas manchas de copos nas mesas e nas paredes pretas e vermelhas descascadas. Nelas ficam estampadas figuras, desenhos e frases: “dentre os animais, mais pardais, menos pastores”; “ame nos jardins artificiais”; “vista-se de lona e se atire contra a vidraça”; “crie regras com o que ouve nos sonhos, viva outra ficção”.

“Somos voltados para o público jovem, sem sofisticação nenhuma. Já recebi várias propostas de mudança de estilo e sugestões de sociedade, mas não tenho interesse em tornar o lugar elitizado. É um espaço simples e neutro para que qualquer tipo de pessoa se sinta à vontade. A cara da casa é o público que faz”, conta.

Outro ponto é o São Dom Dom. Na Cantareira, o bar funciona há nove anos e traz de reggae a rock, assim como o Convés.

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“Jazz, reggae, música brasileira, DJ, rock e um encontro de artistas é o que rola no São Dom Dom, dependendo da seleção de cada produtor”, comenta Solanges Pimentel, dona do espaço, que lembra também das festas: Preto é Foda, Araribeats, Festa Erótica, I love rock’n’roll, Festa Zazueira. Esta última do mesmo produtor da festa Enquanto Corria a Barca, que já teve como palco o Convés e o próprio São Dom Dom.

“Em uma festa de música brasileira que rola rock, bossa nova, rap, samba, de Tropicália à Tulipa Ruiz, o diferencial está no próprio estilo musical. E o bom é que, mesmo com certas dificuldades, ainda há espaço para esse tipo de produção aqui em Niterói”, conta o produtor Bernardo Collet, que tenta aproveitar ao máximo os espaços de Niterói produzindo festas também no Espaço Box 35, como a Feito para Dançar.

E as dificuldades a que Collet se refere, Nicole Blass explicita. A produtora de 32 anos do Espaço Box conta com ajuda de todos ao seu redor para produzir o espaço conhecido por valorizar as bandas independentes e o circuito underground.

“O que a gente tem aqui é uma patota da cultura que limita o acesso dos artistas  independentes a espaços e financiamentos do município, o que faz com que Niterói tenha uma grande tendência a fazer as pessoas desistirem da arte ou pularem para o outro lado da ponte”, conclui.

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