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Mulher de verdade: Entrevista com Ana Arruda Callado

Por Mariana Vita


Ana Arruda Callado pode ser considerada repórter desde o ensino fundamental. Trabalhou o jornalismo de diversas formas. Do jornalzinho de família manuscrito e do jornal da Ação Católica, à premiada jornalista do Jornal do Brasil e primeira mulher chefe de reportagem de um jornal brasileiro. Editou o periódico alternativo O Sol em 1969, foi professora universitária e autora de romances biográficos de mulheres brasileiras, como Adalgisa Nery e Darcy Vargas. Recentemente aposentada, pretende continuar trabalhando, dedicada à escrita.

Confira a entrevista completa:

Sente que passou dificuldade na carreira por ser mulher?

Claro! Além de ser mulher, eu tinha outra coisa – que eu gostava muito, mas funcionava contra mim – eu era jovem e parecia ser muito mais jovem do que era. As pessoas não acreditavam que eu era repórter. Quando eu viajava era: “Mulher viajando sozinha? Imagina se a gente não sabe o que é...” Isso no final dos anos 1950, começo de 1960. Havia um preconceito muito grande. Uma vez, o dr. Sabin veio ao Brasil para uma reunião com o ministro da Saúde - reunião fechada num hotel e eu fiquei na porta, esperando. Eles saíram e eu segui o ministro até a porta do elevador fazendo perguntas. O elevador chegou, os assessores seguraram a porta. Ele entrou e se virou para mim: “Se você topar jantar hoje comigo, eu lhe conto tudo”. Eu não disse uma palavra. E os assessores rindo.

Passei muito por isso viajando. Teve uma vez, em Belém, que eu tive que arrastar a cama para a porta porque o assessor da prefeitura tentou me agarrar no carro quando estava me levando para o hotel. Eu disse: “Que é isso?!” E ele: “Que é isso o quê? Você pensa que eu não sei... Mulher viajando sozinha, o que é!” Eu dei um empurrão nele, saltei. Quando entrei no hotel disse pro rapaz da portaria: “Eu vou subir, não vou mais sair e, sob pretexto algum, o senhor vai deixar alguém ir ao meu quarto. Eu não estou esperando ninguém”. E ele deu um risinho sínico. Quando ele deu aquele risinho eu fiquei em pânico. Subi e pensei: “Se o porteiro tem a chave... com a raiva esse cara é capaz de fazer uma barbaridade”. Não aconteceu nada, mas eu dormi apavorada.

Dentro da redação, não. Não fui só respeitada, fui paparicada. Fotógrafos e motoristas até me ajudavam.

[caption id="attachment_596" align="aligncenter" width="470"]IMG_6113 Aos 28 anos, Ana Arruda Callado se tornava a primeira mulher chefe de reportagem de um jornal brasileiro[/caption]

Como foi a experiência de ser a primeira mulher chefe de reportagem do Brasil?

Foi complicada. Primeiro que houve muita propaganda. O Diário Carioca estava se relançando, ele tinha sido um jornal fantástico antes do Jornal do Brasil. Depois ele caiu um pouco, então estava com a tentativa de voltar a ser o que era. O dr. Prudente de Moraes era diretor de redação e o jornal era do Horácio de Carvalho. Ele chamou o Zuenir Ventura para ser chefe de redação. E eles me chamaram. Até hoje eu nunca soube se me chamaram por me achar “gabaritada”, competente, ou se foi pra fazer propaganda. Porque em todos os lugares saía: “Primeira chefe de reportagem!” Dei entrevistas, saiu uma matéria grande na Veja...

Mas de fato era uma maneira de dizer que o jornal queria inovar. Não tem dúvida. E foi muito complicado porque o Diário Carioca vinha de uma fase de envelhecimento e estava tentando uma renovação. Então, tinha uns repórteres lá muito mal acostumados, que não gostaram nada de ver uma mulher sentada naquela mesa. Eles ficaram quase injuriados, e eu sentia essa hostilidade.

Tinha um secretário de redação: Deodato Maia. Quando eu falo isso as pessoas ficam bobas porque amam o Deodato. E eu, só de ouvir o nome dele, já me dá raiva. Ele era alto, tinha uma voz forte, e seu divertimento era ir da mesa dele até o outro canto da sala dizendo palavrão. Palavrões que eu nunca tinha escutado. Eu ficava vermelha... Ele via que eu ficava vermelha e se divertia. Ele estava tentando me fazer desistir.

A coisa melhorou um pouco quando eu tive que demitir um rapaz. Eu levei a pauta a ele, dei as instruções, sugestões, e ele saiu. Voltou umas três horas depois, fazendo pose, com o paletó apoiado no ombro. Passou por mim, não disse nada. Sentou na mesa. Eu disse: “Vem cá” Ele: “Que é?” - lá da mesa dele. “Eu quero saber como foi a matéria, venha cá” Ele chegou perto de mim: “Não deu em nada” Eu: “Não deu em nada, não, o que aconteceu lá?” Ele: “Nada” Deu as costas e foi andando. Eu fui rápida, peguei o telefone: “Seu Zélio, aqui é Ana” Quando eu disse isso ele parou – tinham três outros no fundo vendo a minha reação - ele tinha combinado aquilo. “Seu Zélio, eu quero lhe pedir uma coisa desagradável, mas com urgência. Prepare a demissão, agora, do ‘Fulano’” Seu Zélio: “Tem certeza?” Eu disse: “Tenho” E continuei a fazer minhas coisas. Melhorou o ambiente. Ele saiu e o pessoal nunca mais ficou de fundo dando risinhos. Mas é uma coisa que me custou. Tirar o emprego de uma pessoa é uma coisa muito desagradável. Mas ele me desafiou de propósito. Não mudei meu trato com eles, mas eles mudaram comigo.

As mulheres conquistaram muitos espaços desde o início de sua carreira. Houve mudança no relacionamento entre mulheres jornalistas, entrevistados e colegas de trabalho?

Dos entrevistados, total. Mesmo quando eu ainda era repórter, o número de mulheres foi aumentando por causa dos cursos de jornalismo. Os entrevistados se habituaram. O número de mulheres nas redações hoje é enorme, a maioria. Mas as chefes de redação, cadê? Mulher chefe de reportagem? Editora? Pouquíssimas. Essa evolução acontece no nível básico. Hoje tem muitas operárias nas indústrias, sim, mas vai ver se tem mulher diretora de fábrica. Vai numa reunião na Confederação Nacional da Indústria ver quantas mulheres tem. E bancos? Quantas mulheres donas de banco no Brasil? Dizem que eu sou apressada. Eu acho que não. Acho que eu já estou bastante velha, já esperei muito.

O maior escândalo é na política: a quantidade de deputadas e senadoras, em relação aos homens, é grotesca. Até na Academia Brasileira de Letras. A ABL proibia mulher, proibia mesmo. Mas no regimento não tinha isso. Então eles inventavam mil argumentos para não deixar mulher entrar. A Lygia Lessa Bastos fez um projeto dizendo que o governo não podia dar qualquer ajuda, nem subvenção, empréstimos, a entidades que não permitissem o ingresso de mulheres. O projeto dela nem foi adiante, mas saiu nos jornais. Resultado: pouco depois permitiram a entrada da Raquel de Queiroz. Hoje são quatro. A presidente é mulher, Ana Maria Machado. Nélida Piñon também já foi presidente. Mas em mais de cem anos tiveram uns 45 presidentes: duas mulheres. Eu acho que eles colocam a cota, uns 4,5%. É um escândalo.

A ditadura interferiu também nesse sentido?

Acho que a ditadura retardou o processo. A ditadura retardou todos os processos de modernização do país. Eles ficam falando das estradas que fizeram, nas hidrelétricas. Mas foram 20 anos de atraso.

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