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Ame-o e deixe-o ir aonde quiser

Por Gustavo Cunha


Carregava um par de óculos de tipo aviador, desses que envidraça a porção superior do rosto. Protegidos pela grossa lente, os olhos míopes vagueavam de um canto ao outro, em ritmo inconstante, como se procurassem – pelas arestas da sala – as palavras que logo saltavam da boca. O batom vermelho-alaranjado destoava na pele branca, levemente maquiada. Entre sinuosas digressões (que fizeram parte do público grunhir que o debate não era propriamente terapia em grupo), a moça relatou a recente crise de relacionamento que vivera – ou ainda vivia. Sentada na primeira fileira da plateia, esperava alguma orientação.

Não devia passar dos 25, apesar de aparentar ser mais velha. Entre parte da testa e do cabelo loiro-oxigenado, um lenço colorido completava o nó enlaçado. Há algum tempo, mantinha uma relação aberta – e transparente – com o namorado: ambos combinaram que o sexo poderia ser livremente praticado: desimpedidos, cada um deitaria com quem desejasse. Lidaram bem com a igualdade de direitos. Mas, passados alguns meses, a namorada sentiu a voz da liberdade querer soar mais alto. “Por que não estar realmente livre, a ponto de se apaixonar por outras pessoas?”, questionou, empolgada, frisando o último verbo. A proposta, no entanto, não foi recebida com alvoroço pelo namorado. Muito pelo contrário.

“Ele não entendeu. Não conseguiu entender direito o que eu dizia. Ele, ele que já estava no seu ter-cei-ro relacionamento aberto”, argumentou, gesticulando pausadamente as mãos. Ao fim, interrogou: “O que eu devo fazer?”. Reticente, ainda demorou a largar o microfone, depois de dizer: “Não quero fazê-lo sofrer”.

[caption id="attachment_626" align="aligncenter" width="470"]Fotos: Douglas Nascimento, Rômulo Correa e Wesley Prado Fotos: Douglas Nascimento, Rômulo Correa e Wesley Prado[/caption]

Numa quarta-feira chuvosa de novembro, no início da noite que antecedia um longo feriado, cerca de 40 pessoas se reuniram para um debate sobre “relações livres”, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o IFCS, da UFRJ, no Largo de São Francisco de Paula, no Centro do Rio. A divulgação do encontro se deu exclusivamente pelas redes sociais na internet. O cartaz virtual dizia: “É possível amar e se relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, com sinceridade e sem enrolação”.

A Rede de Relações Livres tem como embrião dois pequenos movimentos do Rio Grande do Sul, formados entre a década de 1990 e o início dos anos 2000. Ambos debatiam e estudavam possibilidades não-monogâmicas de relacionamento afetivo – um de caráter essencialmente teórico, constituído por pessoas já estabelecidas em relações monogâmicas, e outro de caráter mais “prático”, formado por estudantes universitários. Em 2005, as duas tendências se equilibraram com a junção dos grupos.

Conhecida pela sigla “RLi” (érreli, na pronúncia – maneira pela qual cada membro é chamado), a Rede de Relações Livres se tornaria “a primeira organização do Rio Grande do Sul a se dedicar exclusivamente ao tema do amor e da sexualidade em ações políticas e sociais de resistência à hegemonia heterossexual monogâmica”, como definiu a pesquisadora Mônica Araújo Barbosa, em dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal da Bahia, a UFBA.

Maria Fernanda Geruntho Salaberry é uma mulher extrovertida de 26 anos, com os cabelos pintados num vermelho-vinho, em tons escuros. Gaúcha de sotaque forte, revela um piercieng no centro da língua quando fala por tempo demorado. Participante da RLi, foi ela quem conduziu o “papo para novos amigos no Rio de Janeiro”, ao lado de Marcelo Soares, um dos seus companheiros – também um érreli do sul do país.

Em agosto do ano passado, os dois declararam em rede televisiva nacional – dos pampas à Amazônia – o modo como se relacionavam. À época, Maria tinha dois parceiros fixos, “pessoas que comumente chamariam de namorados”. Da mesma maneira, os dois homens também cultivavam relacionamentos com outras mulheres. Apresentador do programa Na Moral, exibido pela TV Globo, Pedro Bial fraseou um pouco, antes de lançar a primeira pergunta no ar: “Compartilhar a mulher com o amigo... Marcelo, você costuma emprestar o seu carro?”. O companheiro de Maria Fernanda não tem automóvel, mas disse que confia temporariamente a bicicleta aos amigos. O jornalista foi mais incisivo na questão: “Você não tem problema em compartilhar a sua mulher?”. Antes da resposta, Marcelo não pensou duas vezes: “Ela não é minha”. “Como eu vou compartilhar uma coisa que não é minha? Ela é ela”, afirmou, meneando a cabeça para a parceira.

[caption id="attachment_627" align="aligncenter" width="470"]Fotos: Douglas Nascimento, Rômulo Correa e Wesley Prado Fotos: Douglas Nascimento, Rômulo Correa e Wesley Prado[/caption]

A Rede de Relações Livres tem como principal objetivo mostrar que existem alternativas ao casamento monogâmico – e dar o amparo necessário às pessoas que desejam fazer a transição. “Queremos o fim da miséria monogâmica. Não toleramos subnutrição amorosa e carência afetiva; temos múltiplos amores, beijamos com prazer muitas pessoas e amamos no plural”, diz um texto no site.

Na sala de pé-direito alto, no IFCS, Maria Fernanda apontava para o canto direito do quadro-negro, enquanto afirmava: “Entendemos o indivíduo como um ser livre e autônomo. Portanto, é a partir de si mesmo que ele deve se estruturar”. Em pilot, estava desenhado um número considerável de bonequinhos-palito, “soltos e independentes no mundo”, como classificou. A ilustração se diferenciava dos outros rabiscos que o antecediam, categorizações de diferentes formas de relacionamento. Da esquerda para a direita, constavam, ainda que confusamente ordenados: monogamia, poligamia, swing, relação sem vínculo, relação aberta, poli-amor e relações livres. A última definição é uma conceituação do próprio grupo – “e talvez por isso ainda não seja tão conhecida”, explicou.

Os membros da RLi são contra quaisquer tipos de acordo que gerenciem a vida sexual e afetiva de outrem. “A nossa reivindicação não é amor”, esclareceu Marcelo Soares, numa conversa na véspera do embarque para a capital gaúcha. “A nossa reivindicação é a liberdade afetivo-sexual, inclusive para não querer amor nenhum”. Ao lado do companheiro, Maria Fernanda questionou a suposta liberdade em pactos monogâmicos: “Se tu és livre e tu gostas da outra pessoa, por que tu precisas fazer um acordo para que essa pessoa não possa mais gostar de ninguém?”. Marcelo ainda acrescentou: “Essa ideia de controle só faz sentido dentro da lógica monogâmica de que ‘se ela gostar de outra pessoa, ela pode deixar de ficar comigo’”.

Há cerca de três anos e meio que o rapaz magro, de pele alva e cavanhaque avolumado pensa – e age – dessa maneira. Na virada de 2007 para 2008, transformou uma pesada dor de amor em motivo de longas elucubrações sobre a própria dor. Estava no sítio de um amigo de Maria Fernanda (então apenas colega do cursinho pré-vestibular), distante alguns quilômetros da namorada, que optara passar o Réveillon com a família, em Santa Catarina. Marcelo ficou muito mal com a ausência da amante na festa de Ano Novo – “bem coisa de bêbado, chorando triste pelos cantos”, como descreveu. No dia seguinte, Maria Fernanda sentou para conversar com o colega. Falou sobre amor, contou sobre a Rede de Relações Livres, e “desconstruiu uma série de conceitos que eu tinha como certos”, lembrou. Pouco tempo depois, o relacionamento de Marcelo acabou, e o rapaz apressou-se em conhecer mais a fundo o grupo sobre o qual Maria Fernanda havia comentado.

Na primeira “reunião para novatos”, Marcelo se deu conta de que realmente não iria amar uma única pessoa para o resto da vida. A filosofia da alma gêmea, até então levada ao pé da letra, se converteu em mero mito, falsa verdade. Entendeu que “cada pessoa é um ser completo, não a metade de outro” – e que todas as relações devem ser guiadas pelas leis da amizade: quanto mais, melhor. Sobre isso, Maria Fernanda justificou, numa simples comparação: “Num relacionamento monogâmico, um pilar segura um prédio de 20 andares. Na relação livre são vários pilares que seguram um prédio inteiro. Portanto, se um desaba, o prédio ainda se mantém”.

Quando sentem-se à vontade, Maria Fernanda e Marcelo contam um para o outro sobre os outros relacionamentos que cultivam – ou cultivaram. Mas nada é posto como obrigação. “Se eu quiser ficar com um amigo, com um primo, com um vizinho ou com a avó dele, eu posso, porque eu sou autônoma”, disse a companheira, gargalhando um pouco, em seguida, ao indagar: “Bom, se eles vão mesmo querer ficar comigo, aí é outra coisa”. Uma das maiores dificuldades encontradas pelo casal é lidar com indivíduos estabelecidos na monogamia. “As pessoas estão tão confortadas com a traição que elas entendem se eu estou traindo o Marcelo. Se eu disser ‘olha, vá lá pra casa, mas de manhã tu sais quando o meu marido chegar’, os caras topam. Se eu falar ‘vamos lá pra casa, o meu companheiro está lá, ele é um cara muito legal’, bate um pavor, e a galera fica aterrorizada”, exemplificou.

Mas quando vocês tem relações com outras pessoas, o outro pode estar em casa normalmente? “É claro”, respondeu Marcelo, com naturalidade. “Só o lance da cama é que a gente combina”, adicionou. De uma forma geral, para o grupo, o ideal é que cada um tenha o próprio espaço – para que haja, de fato, autonomia. “Mas a situação financeira é outra; não permite”, ponderou Maria. De qualquer maneira, os dois costumam se dar muito bem com os outros parceiros de cada um: conversam, batem papo, fazem sala, preparam jantar. “Se eu tenho namorados que são muito legais, por que não apresentá-los?”, interrogou.

[caption id="attachment_628" align="aligncenter" width="470"]Fotos: Douglas Nascimento, Rômulo Correa e Wesley Prado Fotos: Douglas Nascimento, Rômulo Correa e Wesley Prado[/caption]

Autora do fenômeno editorial dos anos 90 A Cama na Varanda, a psicanalista Regina Navarro Lins desconstrói a ideia de que o amor é algo universal e atemporal na recente obra O Livro do Amor, dividida em dois volumes. “O amor é uma construção social que em cada época se apresenta de uma forma”, explicou, em entrevista ao jornalista Roberto D’Ávila, na TV Brasil, no final de novembro.

De domingo a domingo, a carioca que já deu aulas no curso de psicologia da PUC-RJ lança frases relacionadas ao tema no Facebook e no Twitter. Citações de pensadores, como a do antropólogo francês Jacques Ruffié, ao falar sobre a monogamia: “O hábito acarretando ao mesmo tempo exigência e tédio gera uma tendência à separação”; declarações do tipo “As pessoas não amam umas às outras, mas o fato de estar amando”; ou interrogações polêmicas, como “Não posso transar com outro homem só porque estou casada?” geram um sem-número de curtições e compartilhamentos pelas redes sociais. Em alguns casos, comentários discordantes produzem efusivos debates entre os usuários.

Referência teórica para a Rede de Relações Livres, Navarro Lins esteve presente no encontro anual “Universo Livre”, em novembro, em Porto Alegre. Consonante com o discurso do grupo, a pesquisadora acredita veementemente que o amor romântico, idealizado – “que prega a ideia de que duas pessoas vão se transformar numa só” –, tem os dias contados, mesmo que ainda persista nas novelas. “A busca da individualidade, que caracteriza a nossa época, nos leva por um caminho oposto às propostas deste tipo de amor”, escreveu, em conclusão ao segundo volume do novo livro. Parágrafos a frente, a autora vaticina: “A ideia de que um parceiro único deve satisfazer todos os aspectos da vida tem grandes chances de se tornar coisa do passado”.

Pesquisadora do comportamento humano e da atração romântica interpessoal, a professora de antropologia Helen Fisher, da Rutgers University, em Nova Jérsei, nos Estados Unidos, concluiu que a alta quantidade de relações extraconjugais é um indício da força da natureza contra a cultura. “Dezenas de estudos etnográficos, sem mencionar inúmeras obras de história e de ficção, são testemunhos da prevalência das atividades sexuais extraconjugais entre homens e mulheres do mundo inteiro. Embora os seres humanos flertem, apaixonem-se e se casem, eles também tendem a ser sexualmente infiéis a seus cônjuges”, disse, certa vez.

Em 2010, pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, revelaram um aumento significativo no número de divórcios no país. Se em 1984 a taxa geral de separações era de 0,5%, em 2010 a porção atingiu 1,8% - ou seja, para cada mil pessoas de 20 anos ou mais, foram registrados 1,8 divórcios.

O mesmo quadro de mudanças matrimoniais é acompanhado pelo crescimento vertiginoso de espaços virtuais para homens e mulheres casados a fim de relações extraconjugais, “em busca de um caso ou uma aventura emocionante”, como explica a versão brasileira da página Second Love. No Brasil, em apenas uma semana, o site de relacionamentos americano Ohhtel, comprado recentemente pela rede Ashley Madison, atingiu pouco mais de 63 mil usuários, superando os cerca de 11 mil nos Estados Unidos, nesse mesmo período de sete dias. Classificado como “líder mundial em encontros discretos para pessoas casadas”, o site tem o seguinte slogan: “A vida é curta... curta um caso”.

Para muitos, a dedução que se tira disso é simples: o brasileiro está entre os povos mais infelizes do mundo no casamento, e é um dos mais afoitos para pular a cerca. No IFCS, ao fim do debate, uma senhora de aproximadamente 70 anos, na plateia, não apressou o seu relato ao avistar os funcionários da limpeza entrarem na sala, indicação de que o encontro chegava ao fim. Viúva, disse rebater constantemente as reclamações dos filhos, que a aconselham a arranjar um homem, um companheiro de vida que permaneça com ela até a morte. “Mal sabem eles que eu sempre fui adepta das relações livres, mas é claro que sem o pai deles saber”, afirmou – e estampou um sorriso no rosto moreno. Com os corpos encostados na parede, e vassouras firmes nas mãos, as faxineiras lançaram risos tímidos umas as outras, em coro às gargalhadas da plateia.

Esta matéria faz parte de nossa edição n˚02. Clique AQUI para acessá-la digitalmente.

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