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As manifestações e o discurso da mídia

Por Bruno Roncada




[caption id="attachment_695" align="aligncenter" width="470"]Foto: Gustavo Cunha Foto: Gustavo Cunha[/caption]

Junho de 2013 marcou um novo capítulo na história brasileira. O povo se reuniu, voltou às ruas e protestou como há muito não se via. Não foi um movimento inédito, como alguns dizem. Foi sim a retomada de uma tradição no Brasil. Os manifestos populares se misturam com a trajetória do país. Enganam-se aqueles que dizem que o povo brasileiro é acomodado. Como disse brilhantemente em um de seus posts o jornalista Lúcio de Castro, da ESPN Brasil, a história de luta do povo brasileiro foi subestimada. Basta abrir um livro de história para tomarmos conhecimento de marcantes revoltas que aconteceram no país, desde seus tempos como colônia. Tivemos a Conjuração Baiana, a Mineira, as Revoltas da Armada, da Vacina, só para ficar em alguns exemplos. Portanto, por mais que se diga que o povo brasileiro não tomava as ruas desde o impeacheament do então presidente Collor, há duas décadas, pensar que as lutas populares não constroem a história desse país é ignorar nosso passado.


De início, o motivo que levou as pessoas às ruas foi o aumento da tarifa de ônibus em muitas cidades brasileiras. Nesse momento, aqueles que marcharam foram covardemente reprimidos pela ação policial e pela caneta da grande mídia. Taxados de radicais e extremistas, eram vistos como causadores do pânico. Tratavam-se de baderneiros que atrapalhavam o trânsito e que não permitiam a livre circulação dos verdadeiros cidadãos pelas ruas das cidades. Políticos fizeram coro, dizendo que tudo não passava de um movimento da esquerda.


Quando “desciam a borracha”, os policiais estavam apoiados pelos discursos do Estado e da grande mídia. Abusos de autoridade eram perdoados. Mais do que isso, eram ignorados. Afinal, melhor acabar com isso enquanto era tempo. Tivemos declarações desastrosas de políticos, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que durante boa parte dos protestos esteve em Paris (assim como o prefeito Fernando Haddad), chegou a elogiar a atuação da PM paulista. Os editoriais dos jornais de grande circulação no país faziam apologia à repressão policial. Afinal, os “radicais” estavam colocando em xeque a segurança e o bem-estar da cidade. O Estadão deixou isso bem claro em seus editoriais dos dias 8 e 13 de junho.


Enquanto aconteciam as manifestações, outras pautas começaram a ganhar também as ruas, como a discordância aos excessivos gastos decorrentes da realização da Copa do Mundo. As marchas começaram a receber mais gente. E a serem mais reprimidas. Eis que chega o dia 13 de junho, um marco nessa história. As manifestações tomaram conta de cidades como Rio, Natal, Porto Alegre e Maceió. Mas foi o que aconteceu em São Paulo que mudou os rumos da cobertura dos protestos dali em diante. A capital paulista viveu cenas de guerra. Policiais lançando gás lacrimogêneo e balas de borracha contra manifestantes. Ou seja, nenhuma novidade até ali. Só que entre os manifestantes, estavam jornalistas. E bala de borracha não faz distinção entre manifestante e jornalista. A dor é a mesma. No dia 13 de junho, profissionais da imprensa, que estavam ali fazendo o seu trabalho, foram feridos. O caso mais notório foi o da jornalista da Folha de S. Paulo, Giuliana Vallone, atingida no olho por uma bala de borracha. As prisões arbitrárias continuaram ocorrendo. Um jornalista também foi vítima. Piero Locateri, da Carta Capital, foi preso por estar portando vinagre na mochila. Os abusos policias começaram a ganhar maior visibilidade. As pessoas começaram a se indignar. E agora? A grande mídia teve seu pedido atendido. A PM deu um basta e apelou contra os manifestantes. Abusou tanto que atingiu profissionais da imprensa que estavam nas ruas fazendo seu trabalho. Aí não. A mídia não ficaria quieta. Rebateu duramente. Como? Mudando completamente sua posição frente aos manifestos.


Mas ainda tinha um problema. Esse movimento de caráter popular era uma ameaça aos grandes conglomerados da mídia. Um movimento contestador que questiona a estrutura conservadora vigente na sociedade não seria visto com bons olhos. A estratégia? Os protestos passaram a ser considerados legítimos, desde que realizados de maneira pacífica. Seu caráter popular, que prima pela diversidade, foi ignorado. Não se pode controlar uma multidão. Sempre tem os mais exaltados, assim como tem os mais tranquilos. Houve uma estigmatização, então, daqueles classificados como vândalos. As principais notícias trazidas pela grande mídia seguiam, com raríssimas exceções, o mesmo roteiro: “... o protesto era pacífico até X horas, até que um pequeno grupo de vândalos começou a destruir o patrimônio.” As manifestações passaram a ser mais divulgadas e ganharam notoriedade, mas sempre tiveram seu lado mais violento ressaltado, reforçado.


A ampla cobertura da imprensa de certa maneira legitimou o protesto para o grande público, mesmo que destacando o lado violento das manifestações. Enquanto teoricamente apoiava o movimento, a grande mídia o condenava. Ainda assim, o maior destaque aos protestos nos jornais, rádio e televisão fez com que eles ganhassem mais adeptos. Isso resultou em passeatas com número maior de pessoas. O Rio de Janeiro, por exemplo, presenciou manifestações com 100 mil e 300 mil pessoas, durante a semana de 17 de junho, segundo números oficiais. Muitos dos presentes garantem que compareceu às ruas uma quantidade ainda maior de cariocas.


Mas simultaneamente a esse crescimento quantitativo, podemos dizer que houve um atraso qualitativo. Esclarecendo: os protestos foram mudando de cara com a chegada de mais manifestantes. Resultado direto da ação dos grandes veículos de comunicação. As pautas das reivindicações começaram a mudar. Surgiram reivindicações contra os sistemas públicos de educação e saúde, contra a PEC 37, contra o projeto de “cura gay” e contra a corrupção no país. Se pensarmos bem, todas são causas justas. Mas, sinceramente, pautas ao mesmo tempo bem dispersas, o que fazia o movimento perder o foco. Até por isso, a grande mídia apoiava e destacava essas reivindicações. Simultaneamente, noticiava intensamente os atos de violência durante os protestos. Espaço para temas como desmilitarização das polícias e transporte público 100% gratuito praticamente não existia. As passeatas começaram, então, a refletir essa mudança de postura da imprensa. Ir para uma manifestação passou a estar na moda. Pessoas se preparavam para protestar como se estivessem se arrumando para uma festa. Bebedeira e diversão começaram a tomar conta das ruas, enquanto um manifesto consciente começava a ser submetido a essas novas condições. Os protestos, que sempre tiveram um caráter apartidário, começaram a se tornar anti-partidários, uma diferença bem significativa. Manifestantes com bandeiras de partidos foram até agredidos em algumas das manifestações.


Fui a quatro passeatas e posso dividi-las em dois momentos. As duas primeiras tiveram o espírito contestador do início do movimento. As duas últimas já se pareciam mais com festas. No dia 19 de junho caiu a minha ficha. Chegando à manifestação, logo percebi que o protesto tinha tomado um rumo diferente. O humor politizado dava lugar a um humor bobo. Os manifestantes que se arriscavam a pronunciar discursos ao microfone eram vaiados. Até mesmo o anúncio do não aumento das tarifas de ônibus foi vaiado.


Mas essa era a multidão pacífica, dizia a mídia. Esses sim eram cidadãos, diferentemente do bando de “vândalos” que destruíam o patrimônio. Ainda segundo os grandes veículos de comunicação, essa era a massa politizada. Uma pena que boa parte dessa massa politizada estava mais para massa alienada. Não estou dizendo que para ser um manifestante consciente seja necessário destruir algum patrimônio. Longe disso. Das pessoas que sabiam por que estavam nas ruas, a maioria era totalmente contra a violência. Só que, junto a elas, a turma pacífica da manifestação contava com muita gente que não sabia direito qual era a origem do movimento e quais suas pautas originais.


Mas para os grandes meios de comunicação, essa ainda era a massa politizada. Principalmente se essa massa resolvesse falar mal do PT. O mesmo Estadão, que condenava as manifestações no seu início, mudou seu discurso. Ao fazer um resumo das manifestações de junho, o jornal deixou isso claro em se editorial do dia 30 do mesmo mês.


As manifestações continuam nesse mês de julho. Porém a fase na qual era moda protestar já passou. Como resultado, menos pessoas estão na rua e a cobertura da mídia diminuiu.


O fato é que a cobertura dos protestos por parte da grande mídia foi muito criticada. Justamente, diga-se de passagem. Com isso, algumas pessoas (obviamente, não os poderosos meios de comunicação) trazem de volta a discussão sobre a tão necessária democratização da imprensa, como destaca um artigo de Bruno Marinoni, no Observatório do Direito à Comunicação.


Uma mídia mais plural é muito importante para o Brasil. A diversidade de discursos beneficia a sociedade, que não deve ficar presa a uma ideologia dominante. Democracia não se faz segundo as regras de um pequeno e poderoso grupo. É um processo coletivo, em que uma única voz não deve sufocar as outras. Principalmente quando essas outras vêm do povo.

Um comentário:

  1. Mais um petista querendo desviar a atenção do povo para culpar as mídias, tudo foi estampado ao vivo e e cores.... Em todos os canais ... ! A Globo faz todo o tipo de denuncias diariamente, cobra em todos telejornais e é o maior ponto do Brasil de jornalistas investigativos que rotineiramente trazem a publico grandes denuncias de fraudes, corrupções e etc...!

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