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Fazendo Cinema

Por Daniela Reis e Mariana Ghetti







“Isso daria um filme.” Para Daniel Nolasco, estudante de cinema UFF, não havia comentário mais pertinente diante daquela foto de Gil sentado na janela em contraluz. Foi assim que surgiu a ideia do curta que levou o personagem, Daniel e Marcella Coppo, que também cursa Cinema na UFF, ao México e à Alemanha. O filme, que foi apresentado em festivais internacionais, custou apenas 50 reais: o preço para restaurar a foto símbolo do curta. Se a proposta de "Gil" permitiu o baixo orçamento da produção, por outro lado, a questão financeira foi o maior desafio enfrentado pelos alunos em outras produções.


O primeiro filme de ficção, "Os Sobreviventes", é uma adaptação do conto de mesmo nome de Caio Fernando Abreu. “Fazer ficção é muito diferente de documentário. A produção exige muito mais“, diferencia Marcella.


Dificuldades


Os sets de filmagem costumam ter uma equipe grande. "Sobreviventes" contou com um grupo pequeno: 20 pessoas. Os gastos com transporte e alimentação para toda essa gente durante uma semana foi complicado. ”Nós não temos dinheiro. A UFF não dá ajuda de custo, então a falta de verba é a maior dificuldade para os estudantes”, aponta Daniel.


Uma solução para esse problema seria os editais do governo para apoiar a produção nacional. Contudo, os estudantes não têm muito espaço nesse tipo de seleção. Para Daniel, a lógica desses incentivos deve ser questionada. “Para se inscrever no edital precisa ter currículo. Como você faz currículo se não tem dinheiro, que só teria com o edital? É um círculo vicioso.”


Outras questões complicam o acesso a esses editais. Os inscritos que não são escolhidos não recebem nenhuma resposta justificando a rejeição do trabalho, o que deixa ainda mais nebulosos os critérios de seleção. “Não pode deixar de ter.” Completa Daniel. “Em todo país com grandes indústrias de cinema há o financiamento do governo, mas falta transparência. É preciso repensar o destino do dinheiro.”


Filmes


O primeiro filme da dupla, "Geografia do Preconceito" fala da homofobia. O enredo aborda um crime acontecido em Catalão, uma pequena cidade do interior de Goiás. O delito se tornou o principal assunto da população por muito tempo. Como Daniel morava em Catalão, assistiu de perto a repercussão do crime e resolveu retratar a história para criticar a intolerância que atinge muitos gays no país. O filme rodou vários festivais GLS.


Já "Gil" é um documentário realizado apenas com fotografias. Geovaldo relembra o que viveu enquanto as imagens ilustram sua história. “A gente tinha uma quantidade gigantesca de material, 900 fotos, para fazer um filme de dez minutos. Não usamos mais de trinta. Reduzimos duas horas e meia de depoimento para menos de 10 minutos”, recorda Daniel.


"Gil" entrou em 18 festivais, entre eles o de Munique e o Festival Universitário da Cidade do México, onde teve maior aceitação do que na Alemanha, devido à proximidade da cultura.




[caption id="attachment_1066" align="alignleft" width="226"]Marcella Coppo Mercella Coppo: "As seções de festivais do Brasil são sempre assim: passa um bloco de curtas, depois eles abrem para debates, mas quase ninguém fica. Lá fora a sala sempre está cheia, e eles ainda pagam para entrar. Fiquei impressionada com isso."/ Arquivo Pessoal[/caption]

Marcella destaca as diferenças entre os festivais nacionais e os internacionais. “É um esquema de festival que eu estranhei em um primeiro momento. Eles passam o filme e depois debatem com todo mundo ainda na sala. Fiquei impressionada.” No Brasil os festivais são majoritariamente gratuitos e mesmo assim ainda não conseguem atrair o grande público.


Cinema nacional


A história do cinema brasileiro é interrompida por um hiato iniciado a partir de 1990. O governo Collor acabou com as leis de incentivo à produção e a regulamentação do mercado cinematográfico no país. A retomada começa a se consolidar em 1995, com novos mecanismos de apoio, e só ganha fôlego com a criação da Globo Filmes, produtora das Organizações Globo. Para os brasileiros os filmes nacionais eram sinônimo de produções sem qualidade. No começo dos anos 2000 a população voltou a assistir os longas brasileiros, impulsionada pelos lançamentos da produtora e distribuidora, que reproduziam no cinema os modelos televisivos. O mercado é muito fechado e ser lançado comercialmente ainda é um privilégio para poucos.


Marcella acredita que a produção brasileira tem se mostrado pouco inovadora. “Quando se experimentava mais, como no cinema novo e inclusive com as chanchadas, as pessoas tinham menos medo de errar. A estética e a estrutura narrativa atuais se enquadram em uma fôrma de fazer filme. Todo mundo ri e chora na hora certa”, ela comenta. O resultado são longas impecáveis tecnicamente, mas que repassam mensagens vazias e não criam reflexões profundas. “O pessoal aprendeu a fazer filme que vai dar certo”, complementa Daniel. “O 'Elena' da Petra Costa é lindo. Ela seguiu todas as regras. Mas quando você sai do cinema, já se esqueceu do que assistiu”.




[caption id="attachment_1067" align="alignleft" width="205"]Para Daniel Nolasco, o cinema brasileiro voltou a fazer parte da cultura nacional, mas ainda há problemas, como a questão da exibição/ Arquivo Pessoal Para Daniel Nolasco, o cinema brasileiro voltou a fazer parte da cultura nacional, mas ainda há problemas, como a questão da exibição/ Arquivo Pessoal[/caption]

Enquanto as grandes produtoras dominam o mercado brasileiro, as indústrias cinematográficas de outros países ainda oprimem as produções alternativas nacionais. “O gargalo do cinema nacional sempre foi a questão da exibição”, explica Daniel. “Os cinemas que atraem o grande público só passam filmes americanos. No Rio de Janeiro, tem o cinema francês que é uma indústria gigantesca. Todo mundo finge que não vê porque é cult. Mas ocupa metade das salas de filme alternativo. Isso pra mim é um monopólio tão grande quanto o dos filmes americanos. Onde fica o cinema brasileiro? No final da fila.”


Os estudantes concordam que, apesar de a indústria cinematográfica brasileira estar longe do ideal, a situação tende a melhorar. A indústria nacional ganha força, inclusive na quantidade de produções. “Há 20 anos o povo não aceitava o cinema nacional, que está voltando a fazer parte da cultura brasileira”, afirma Daniel.


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