Navigation Menu

Manifestantes, Placas, e uma tentativa de ler além disso

Imagem

Por Jefferson Júnior

Meu envolvimento com as manifestações não se deu de maneira tão próxima para que me julgue apto a falar como parte dela. Fui a três, duas em minha cidade natal, São Gonçalo, e uma em Niterói, na qual não pude ficar até o fim. Assim sendo, o que pretendo produzir aqui é uma visão da proximidade de quem não está dentro, mas não alheio ao que se faz.

Na verdade, queria apenas expor algumas observações sobre o que as pessoas se propõem a dizer. Para isso, quero analisar alguns cartazes. O que imagens tão amplamente divulgadas têm a dizer sobre o posicionamento, não do todo da manifestação, mas sobre o indivíduo que fala junto com a multidão. E talvez com uma graça, ou por um bom jogo de palavras, tenta ser notado na sua petição, ou na petição que decidiu usar após ver a mesma placa usada na internet. Também há sites que apresentam tops de placas das manifestações.

A maioria das placas analisadas foram vistas ou nos locais onde estive, ou no facebook, ou nesses sites, vamos tentar diferenciá-las e tentar entender alguns anseios. Os números ao lado dos exemplos são a quantidade de vezes em que encontrei a placa, numa pesquisa no Google, observando-se apenas a primeira página, e apenas a visualização da placa em manifestação. A internet muda ininterruptamente, e isso ficará desatualizado logo, mas achei válido observar.

Futebol

As manifestações ocorreram no período da Copa das Confederações, obviamente o futebol se tornou tema para alguns dos cartazes feitos.

“Japão, eu troco nosso futebol pela sua educação”(5)

“Hulk não, Felipão”(0)

“Futebol: Brasil 3 X 0 Japão, Educação: Brasil 0 X 10 Japão”(0)

“Por Lucas no lugar de Neymar”(0)

“Copa das Manifestações”(2)

“Quando seu filho ficar doente leva ele ao estádio”(0)

“A copa é da FIFA e nós ficamos para escanteio”(1)

“Me chama de copa e investe em mim”(5)

Há desde comentários sobre gastos com a copa, até críticas a escalação da seleção. Os cartazes fazem graça e, embora possam incomodar alguns, criam um lado cômico e demonstram que os interesses dos manifestantes divergem em muitos sentidos. Não sei o quanto alguns julgavam que alterariam a escalação, indo a manifestação, ou se apenas queriam fazer uma piada, mas de alguma maneira se fizeram notáveis. Outros apresentavam um motivo mais comum de indignação, como os gastos de dinheiro público com a copa, entre outras considerações contrárias.

Pessoais

Alguns cartazes apresentam um ataque a um político, ou algum outro tipo de pessoa. Vamos observar os dizeres de alguns:

“Ronaldo, quando você ferrou seu joelho, em quê estádio você tratou?”(2)

“The Alckmin dead”(3)

“Fora Renan”(16)

“Fora Feliciano”(24)

“Fora Cabral”(12)

Entre tantos outros, os políticos, ou no caso de Ronaldo, pessoas que tivessem ligação com a copa das confederações foram atacadas. No caso de Ronaldo e Alckmin, vemos a utilização de um meme, já que o nome de Ronaldo está associado a uma declaração em que disse: “Não se faz copa com Hospital” e também Alckmin, em que mais uma vez entre tantas, lançou-se mão de um trocadilho. Deixando-se os memes a parte, a revolta dos manifestantes também se dá pela presença de políticos desaprovados pelos integrantes das manifestações. O ataque a política se dá tanto no campo pessoal quanto no institucional, como veremos à frente.

Institucional

Se há uma revolta quanto aos políticos, ela também se dá na área das instituições, vejamos o que diziam algumas placas:

“Queremos escolas e Hospitais no padrão FIFA”(9)

 “Na Arábia Saudita os ladrões são amputados, no Brasil são deputados”(2)

“Hey, Polícia, Você também faz parte do Povo”(0)

“Era um país muito engraçado, não tinha escola só tinha estádio. Ninguém podia protestar não, porque a PM sentava a mão”(4)

Cargos Políticos, FIFA (que também é formada por políticos), polícia (que é controlada por políticos) caracterizam algumas das instituições com as quais os manifestantes tentaram se comunicar. A FIFA aparece principalmente como um alvo mais uma vez por causa de seus eventos e os gastos que estão ligados a ela. Os cargos são atacados. Isso é uma forma de unificar um grupo que se entende como praticamente homogêneo em possuir heterogêneos tipos de crimes e ligações obscuras. Os policiais são alvos de mensagens diferentes, uns querem apenas chamá-los a observar se o lado pelo qual lutam é o lado deles. Outros querem demonstrar as injustiças e atitudes truculentas da polícia.

Vem pra Rua

Há ainda cartazes que convocam as pessoas para irem às ruas, ou mesmo criticando um posicionamento contrário ao de ir manifestar:

“Saia do X-Videos e vem pra rua”(3)

“Se você está satisfeito fique em casa, trabalhando 4 meses para sustentar políticos corruptos”(0)

“Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”(5)

Ao compartilhar fotos com esse tipo de cartazes nas redes sociais, há um ato de convocação. A mídia mais vista quando compartilhada no facebook é a fotografia. Entã,o essa é uma ótima forma de convocar e dizer: vem pra rua.

Ponto de divergências

Às vezes, os cartazes podem trazer até pequenas divergências, como quanto à manifestação pacífica ou a exposição de ideias através de alguma forma de depredação. Nesse sentido há pequenas divergências, fiquemos em apenas dois exemplos:

“Datena, faz mais uma pesquisa”(5)

“Se você veio bagunçar, se manda, lugar de criança é em casa”(0)

Há discordâncias quanto a esse ponto nas manifestações, como qualquer conversa entre amigos poderia revelar. A brincadeira com o Datena é um meme a respeito de sua pesquisa sobre a “violência” nas passeatas e o resultado obtido,  completamente contrário à opinião do apresentador. Há um posicionamento divergente em relação à qualquer tipo de “violência”. Embora a mídia lute para apresentar apenas um lado nessa discussão, ela existe e merece alguma reflexão. No mínimo, seria bom observar os dois (ou mais) lados, seria um costume diferente para alguns veículos de mídia, afinal.

Cômicos e outras coisas

Só uma apresentação dos dizeres de alguns cartazes que, no mínimo, se pretendem cômicos. Observe-se que alguns conseguem:

“Yes PacMan, no PEC 37”(0)

“Sou Contra a PEC 37 e o Luan Santana”(0)

“Odeio bala de borracha, joga uma Halls”(2)

“Mãe tô bem”(1)

“Jogaram mentos na geração Coca-Cola”(10)

“Abaixem o preço da Nutela”(0)

“Só vamos parar quando o kinderovo voltar a custar R$ 1,00” (0)

“Enfia os R$ 0,20 no SUS”(5)

“Pelo fim do funk alto no busão”(2)

“O clima de manifestações está tão sério, que hoje espirrei no ônibus, a mulher do meu lado disse saúde, o motorista gritou educação e todos se levantaram e cantaram o hino nacional” (apenas um meme)

Não há muito o que dizer disso, é apenas uma constatação de que as manifestações também se tornam motivo para algum tipo de piada, muitas vezes críticas, às vezes nem tanto. Mas apresentam um olhar da manifestação que, também, deve ser observado.

Aproveitando o Clima

Existem até mesmo “manifestantes” que não estão na manifestação e passam como se fossem. Entre as placas dos sites apresentados acima, há duas que se observarmos o fundo, veremos que o “manifestante” apenas publicou uma imagem em rede social para se apresentar como manifestante e fazer exigências, ou se promover:

“Não são só 20 cm”(0)

“Não é por R$ 0,20 é pela série B que o Fluminense deve”(0)

Existem até mesmo as que nem precisam ir à manifestação para publicarem o seu cartaz.

O Fim da Picada

A princípio, pode-se dizer que as manifestações são uma espécie de fim da picada (como diria o Seu Madruga), há nas placas um clima de tentar destruir diversos problemas que foram se acumulando e chegaram ao inaceitável. Essas demonstram um pouco disso:

“Tanta coisa errada que não cabe num cartaz”(6)

“Tô tão puto que fiz um cartaz”(3)

“É muito motivo, não cabe aqui”(0)

Esses cartazes mostram, acho, um princípio do que é um clima comum entre os manifestantes, principalmente os não tão engajados politicamente. O princípio de que os gastos, atos, e posicionamentos do nosso governo chegaram a um ponto tão absurdo que eles se engajaram, ainda que porque todos se engajaram. Eles teriam visto nisso a possibilidade de protestar contra todas as coisas que, isoladamente, não os levaria às ruas.

No que isso vai dar, ainda é uma incógnita, não creio que vai continuar como era, então, devemos ver mudanças que já têm se apresentado. Mas podem custar muito mais cartazes, criatividade, manifestações, entre outras coisas, para ver tantas mudanças quanto se deseja.

P.S.: Existe um conto de Machado de Assis, se chegou até aqui leia-o, e se concordar, tome cuidado com os salvadores que só se apresentam junto aos lutadores depois que os lutadores já começaram a lutar sozinhos.

0 comentários: