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O Rio virou um rio

[caption id="attachment_697" align="aligncenter" width="470"]Foto: Gustavo Cunha Foto: Gustavo Cunha[/caption]


Gustavo Cunha | julho, 2013


Era nitidamente uma estudante universitária: sobre a camiseta verde, estampada com a campanha de uma chapa de DCE da Universidade Federal Fluminense, um adesivo dizia, em letras amarelas, “OCUPAR AS RUAS”. Abaixo, ainda era possível ler o complemento, escrito em menor tamanho, e logo acompanhado do logotipo do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFF, o Sintuff: “Para reduzir as tarifas e barrar as privatizações”.


Mas não eram apenas estudantes – ou “jovens e universitários”, como reiterado nas televisões e jornais – que cobriam o preto do asfalto da Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio. Uma multidão de cores, idades e origens diferentes tomou a larga pista no início de uma noite histórica, naquele 20 de junho. Perplexos, muitos arriscavam, entre sorrisos indiscretos: “Devemos somar mais de um milhão”. No dia seguinte, as manchetes nas bancas falariam menos – “aproximadamente 300 mil” –, dissonantes ao senso-comum certeiro.


Contra os podres poderes – aqueles mesmos entoados há algumas décadas nos versos de Caetano Veloso –, índios e padres e bichas, negros e mulheres fizeram o carnaval. Protestavam contra a concentração fundiária; contra as remoções compulsórias em territórios populares; contra a aprovação da “cura gay” no Congresso; contra a corrupção, mal sempre citado quando o assunto é o cenário político brasileiro; contra a má gerência governamental, que prioriza a construção de mega-estádios de futebol, num país em que apenas uma minoria privilegiada usufrui dos serviços básicos – ainda por meio do pagamento daquilo que é considerado como “direito”; contra a má eficiência dos serviços educacional e hospitalar. Contra Dilma, Cabral e Eduardo. “Tem tanta coisa errada que nem cabe aqui”, gritava um dos cartazes levantados.


Diversas, as reivindicações eram inúmeras - incontáveis, talvez. Deveriam mesmo ultrapassar o número de cabeças na avenida, que, vista de cima, formava um todo mais ou menos homogêneo – ainda que as partes fossem bem diferentes. Na transmissão atabalhoada da televisão, o retrato panorâmico da massa lembrava um rio, com correnteza e tudo, e não deixava de trazer à mente uma simples comprovação empírica: uma gota perde rapidamente sua existência-gota no exato instante que se encosta a outra gota. Existências-gotas deram forma a um todo sólido, todo gás, todo líquido. E, como num rio, deixavam marcas por onde passavam; erodiam, sem qualquer culpa cristã, o leito ainda rachado de seco. Impossível mergulhar duas vezes no mesmo rio, pois a cada instante tudo se transformava em outra coisa, mares nunca dantes navegados, lagos e poças, milhões de rios, vários rios-Rios.


Entrei um tanto tímido na água. Como vinha da Lapa, saltei mergulho próximo ao Campo de Santana, na altura da Rua Visconde da Gávea, acompanhado de um amigo, também colega de trabalho. Bem antes da Presidente Vargas, um grupo de jovens acendia um baseado. Passos adiante, uma criança sorrindinha arrancava gargalhadas roucas da avó. Outros esticavam as pernas sobre os paralelepípedos fétidos da cidade, indiferentes à sujeira da rua. Eram respingos da maré que subira descontrolada, descompassada com a lua. Um pouco mais à frente, o cheiro era de churrasco, acompanhado do pagode de Péricles, que vazava ruidoso de uma velha caixa acoplada numa barraquinha enferrujada. E logo ali, bem ali na esquina, o rio avançava a margem de pedras portuguesas como um mar revolto. As cotias do Campo de Santana nada entediam. Assustadas, muitas preferiram se esconder entre as árvores e arbustos empoeirados do parque. Em tempos de urbanidade, esqueceram-se de qualquer coisa que não fosse mijo, fumaça de ônibus, buzina de táxi, cheiro de amendoim frito e apito, apito, e grito de quem vende amendoim com cheiro de amendoim frito. Apito.


Não tardou para que ventos constantes atiçassem uma ressaca. E o que então era improvável, incalculável para as leis da física e da química, foi feito sem nenhum grande estudo, sem prosa, mas com proeza: cortaram o rio à faca. Entre a profusão de vozes desesperadas - que revelavam, por descuido, tenores e contraltos -, gotas de pernas, sandálias, tênis e pés de descalços se embaralharam em fugas de não-se-sabe-o-quê-e-para-onde. Mas os barulhos de bomba, os rostos assustados e o sangue no corpo do rapaz carregado às pressas entre o povo, também para o não-sei-onde, lembravam que o melhor a fazer era fugir. Alguns tentaram, sem muito efeito, acalmar o frenesi: "Seeeeeem correrííííííaaaaaa", cantou um grupo. Mas e o João, quedê o João, a Marina, a Luísa, o Felipe, cada um foi prum lado, gente, eles sumiram na confusão, caralho, e o celular não funciona. E logo em seguida, vinha a calmaria. É melhor não voltar pra lá, galera. Vamos ficar mais afastados mesmo.


Mas novamente chegavam as tempestades, os trovões e os clarões.


Eram as lâminas serrando o rio, fatiando gotas, impondo frio ao quente.


Descobriram, pois, o indescobrível. E usaram-no, que triste!, para o mal - para alguns, bem.


O rio se cortou.


Cortaram o Rio à faca.


E como lembrou João (sempre há um Cabral ou Mello do bem - tenhamos esperança na gente),


quando um rio corta, corta-se de vez


o discurso-rio de água que ele fazia;


cortado, a água se quebra em pedaços,


em poços de água, em água paralítica.


Em situação de poço, a água equivale


a uma palavra em situação dicionária:


isolada, estanque no poço dela mesma,


e porque assim estanque, estancada;


e mais: porque estancada, muda,


e muda porque com nenhuma comunica,


porque cortou-se a sintaxe desse rio,


o fio de água por que ele discorria.


E o belo improvável viria logo em seguida, em questões de dias, horas, segundos.


Sem precisar de muito fio de água, a linha antiga logo se refez. E o rio, o curso do rio (seu discurso-rio!) chegou bem bem a se reatar de vez.


De vez.


Sobre os gradis encharcados, para os quais as cotias olhavam atônitas de dentro do parque, um cartaz úmido chamou atenção. Colorido, entre os tons quentes da noite, sugeria: "Quem não estiver confuso, não está bem informado".

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