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Só do caos rebenta o novo

Por Filipe Galvão*


As contrações começaram. A massa de desejo e força tentou romper a histórica bolsa coercitiva. Ensaiou, botou a cabeça pra fora, mas por fim voltou à barriga. Parece querer crescer mais um pouco. E a cara de espanto na sala de espera é impagável. Ninguém sabe dizer se a criança vem por vias naturais ou se será necessária intervenção cirúrgica.


Mas esqueçamos por um momento a parteira e o nascente. Antes voltemos os olhos ao partejo, aquele que é centro e essência dos arquétipos de sêmens e sementes. A cena enquanto personagem, o verbo enquanto sujeito, o desejo enquanto agente: eis o que proponho como muleta analítica das recentes guerras juninas.


Querer definir a configuração de um movimento ainda molhado de placenta é jogar na loteria. O que mais ouço nas rodas de debates é a máxima: quem tiver certezas sobre o atual cenário é arrogante. Pois bem, estou de acordo. Mas uma ressalva deve ser feita: se a arrogância nos atrasa, a pretensão (evoé!) nos alavanca. Daí minha proposta pra lá de pretensiosa. Abandonemos por um momento os atores (encarnados ou institucionalizados) para focarmos na significação de toda essa explosão social.


Tal qual nas festas de junho, fogueiras se alastraram pelo país, cirandas se movimentaram na imprensa e os rojões estouraram na praça pública. Ante tanta barbárie e tesão expostos só cego-surdo-mudo evitaria gritar de medo ou euforia: olha o tucano, olha o gigante, olha a besta fera, olha o golpe, olha a copa. É mentira? Sim e não. A única certeza que sobrou nas ruas é que não há certeza alguma. Consideremos instaurado o reino mágico das possibilidades. E a característica clara e primordial desse descampado de solo fértil é o caos: mecanismo máster de reordenação.




[caption id="attachment_847" align="aligncenter" width="470"] Foto: Filipe Galvão[/caption]

O povo nas ruas distribuiu amostras de um potlatch saudável pelo qual todas as sociedades precisam passar. Chegamos a um limite. Um limite estrutural pautado na exploração, medo, coerção, impunidade e injustiça. O rompimento da barreira era inevitável. De concreto mesmo só as balas de borracha e os mortos que crescem em números (principalmente quando a ação da polícia é nas favelas). É triste a afirmação: mas apanhar da polícia é o ato mais didático que qualquer um pode passar. Ensina o que é injustiça, abuso de poder e violência institucional. Epifania catalisada quando o alvo da agressão é multitudinário. O povo violentado recorre ao povo. Quem esteve nas ruas descobriu que quando se sangra há o amparo da mão desconhecida, quando a pimenta fere os olhos há o vinagre do outro para acalmar. O desejo de mudança (tão antigo) foi popularizado pelo sadismo típico da ação militar. Devemos à barbárie das fardas a coesão das forças progressistas e, mais que isso, a tomada de consciência daqueles que por tanto tempo adormeciam na lógica apática do consumismo enquanto via de escape.


A aula dada pelo povo é que a solução só pode surgir das fogueiras e da destruição dos símbolos de opressão e anacronismo organizacional. Mais que causa ou resultado, o que nos interessa é a inevitabilidade da revolução. Historicamente todas nossas insurreições foram frustradas e destruídas no berço (salvo a Tropicália). Mas não na nossa vez. Nossa revolução, apesar de tão tímida e beata como pontuou Tom Zé, retoma os bailes interrompidos dos anos 60 quando o povo debutava nas ruas. Saímos da menoridade. Ganhamos pelos no púbis, sangramos o joelho, engrossamos a voz. Agora sabemos que nossos atos têm consequências. Usamos das ruas e não ousaremos em usar de novo. Está pra nascer um mundo novo da barriga magra do povo.


*Filipe Galvão é aluno de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense e membro fundador da produtora de vídeos Caqui Filmes. Atua na  coordenação coletiva de Produtos Audiovisuais da rede de comunicadores independentes Alternativa.


 

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