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Uma nova bandeira para as manifestações: por um outro jornalismo

Por Luiza Gould


Não participei das manifestações que passaram a fazer parte da realidade nacional este ano. Confesso que cheguei a cogitar a hipótese de “ir para as ruas” como pediam muitas pessoas nas redes sociais e nos próprios protestos, mas acabei mudando de ideia. O mês atribulado, assim como as histórias que comecei a ouvir de amigos, com a narração de cenas de violência por parte de policiais e confusão, foram alguns dos motivos que me fizeram acompanhar os acontecimentos como espectadora. Outro deles foi o que considerei uma perda de foco do movimento, que pude ver cristalizada em uma frase estampada em muitos lugares: “Tem tanta coisa errada que não cabe em um cartaz”. Passou-se a discutir tudo, muito além dos apenas R$ 0,20 do aumento das passagens de ônibus. Foi assim que não só o transporte público, mas também a saúde, a educação, a melhoria de serviços públicos, a Copa das Confederações, a luta contra a homofobia e a corrupção, além de tantos outros temas, foram levantados. Todos de extrema relevância, indubitavelmente, mas todos juntos e misturados, sendo levantados ao mesmo tempo, o que fez com que, de repente, muitas pessoas lutassem por tudo e nada específico. Muitas lutavam inclusive por algo de que não tinham conhecimento do que era e alguns participavam só por participar, reproduziam discursos, gritos de guerra e o que quer que fosse, mas estavam ali. Esses fatores me desmotivaram um pouco.


A minha não participação, no entanto, não fez com que eu deixasse de buscar detalhes sobre os acontecimentos históricos, e de ficar atenta à cobertura das manifestações pela mídia. Afinal, os protestos iniciados em todo o país ofereceram relevante arcabouço de discussão do próprio ramo do jornalismo, da atuação dos profissionais da área e também do papel da internet, no qual pessoas de todas as idades, religiões, crenças e costumes passaram a ser agentes da informação, no chamado jornalismo participativo. Foi impressionante e ao mesmo tempo não surpreendente ver o poder das redes sociais, a força de uma mobilização que se auto-alimentava com postagens, tweets, mensagens e compartilhamentos.


Nas ruas


As redes sociais ajudaram a construir o movimento e foram também o espaço para a proliferação de denúncias de violência gratuita de policiais. Não foram poucos os amigos que tinham alguma história nessa linha para contar. Dois exemplos me chocaram bastante. No dia 18 pela manhã recebi a notícia de que Wesley Prado tinha sido preso. Simplesmente não acreditava no que lia pelo facebook e que depois soube por e-mail. Uma das pessoas mais tranquilas da minha turma, um amigo engajado e um fotógrafo exemplar, tinha sido preso por estar documentando a manifestação no Rio em um dos seus momentos mais tensos, na Alerj. Preso, assim como outras 11 pessoas naquela noite, Wesley foi levado para um camburão, no caso dele por não ter um crachá da imprensa, ser apenas universitário. A proibição do registro das cenas que apareciam como um “vandalismo” na televisão, palavra que se tornou tão corriqueira nas últimas semanas, trazia consigo uma outra violência, que foi a da restrição da liberdade de expressão, a uma acusação de formação de quadrilha. Amigos nossos tiveram que pagar R$ 1000 para ele ser solto e depois foram pedir ajuda na rua para pagar a fiança do morador de rua que foi levado com Wesley na mesma noite.


O outro caso foi a de uma entrevistada e amiga minha. A aluna de Relações Internacionais da UFF, Marianna Aguiar, iria me conceder uma entrevista sobre o seu medo de lugares fechados para uma reportagem que eu estava fazendo. Um dia antes da data marcada, me comuniquei com ela pelo facebook e soube que ela tinha se ferido na manifestação do dia 19 de junho, em Niterói. Notícias como a do site G1 referente a essa manifestação, falavam de vândalos, tumulto, complicação do trânsito e até mesmo fechamento do comércio, mas em nenhum momento continham referência ao fato de que a polícia revistava de maneira agressiva as pessoas que estavam na rua antes mesmo do início da manifestação. Foi o que aconteceu com Marianna: às 16h, com ainda poucas pessoas nas ruas, ela viu dois policiais, sem farda, revistarem dois jovens na base de chutes e socos no Centro da cidade. Marianna e o namorado então resolveram fugir. Ela descreveu para mim o que ocorreu em seguida: “Sabíamos que eles não podiam fazer esse tipo de abordagem e pensei em correr para evitar. Quando peguei no braço do meu namorado para começar a correr, senti a pancada do cacetete atrás do meu joelho e caí no chão. Os policiais que nos abordaram estavam com a farda completa só da cintura para baixo e usavam uma camisa branca, sem nada, de modo que não dava para ver a identificação. Eles revistaram as nossas mochilas e levaram nossos cartazes e máscaras que trouxemos para nos proteger do gás. A gente perguntava o nome deles, mas só o que ouvíamos era um ‘não interessa’”. A estudante conta que o motivo alegado pelos policiais para a revista foi o de que os jovens poderiam estar portando drogas, mas não houve explicação para o confisco dos cartazes e máscaras. Para Marianna, o objetivo daquele ato, no entanto, era claro: dar um susto quando ainda não havia multidões, para diminuir o número de pessoas no protesto.


Enquanto isso, para a grande mídia


Os grandes meios de comunicação começaram a relatar as manifestações segundo a ótica das autoridades, apagando qualquer caráter positivo nos eventos que reuniram milhões nas ruas. As primeiras impressões das manifestações que começavam a ocorrer no país eram vistas assim, apenas como vandalismo, como comprova o artigo de opinião publicado no Estadão em 8 de junho, na qual o diálogo é repreendido. Com as dimensões dos protestos, no entanto, e a agressão a jornalistas, a imprensa mudaria de ponto de vista. Foi o que aconteceu com a Folha de São Paulo, depois que a jornalista Giuliana Vallone foi atingida no olho com um tiro de borracha. Com o fato, a discussão tomou um outro rumo e a atitude dos policiais passou a ser questionada. E, por outro lado, a mídia passou também a adotar uma postura não tão radical com relação aos participantes das passeatas e o “vandalismo” começou a ser atribuído a um pequeno grupo que não representava mais o tom das manifestações. Reportagem do dia 17 de junho do Jornal Nacional sobre a passeata do Rio de Janeiro exemplifica essa mudança de ótica. As imagens foram classificadas como “impressionantes” e foi ressaltado o caráter pacífico, inclusive com a distribuição de flores pelos manifestantes. No final da manifestação, porém, um “pequeno grupo seguiu para a Assembléia Legislativa e transformou a rua em uma praça de guerra”.


Além dessa inversão de papéis, o que se viu foram repórteres de longe da cena, do alto de prédios, posicionados estrategicamente, sem estar ali, no calor dos acontecimentos. Faz parte ainda desse quadro de cobertura a inabilidade para lidar com o inesperado, com o fora do usual, com a nova pauta. Todos os veículos estavam preparados para cobrir a Copa das Confederações, o evento que seria o mais importante do ano, e de repente todos se viram diante do que é uma base constituinte do jornalismo: o novo! O resultado foram coberturas como a do dia 20 de junho da Globo, que alterou a sua programação para transmitir ao vivo as manifestações, desde a hora da novela da tarde até o Jornal Nacional, que não teve sua edição habitual, como afirmaria William Bonner. Com o inesperado, a solução foi improvisar. Acompanhei as quase nove horas ininterruptas de transmissão na qual a âncora Patrícia Poeta tentava ocupar o tempo, narrando cenas que se amontoavam num todo de despreparo. A edição do JN nem sequer existe na página do jornal na internet. Prova de que aquela foi uma cobertura para se esquecer.


Internet


As manifestações mostraram todo o poder da internet. Não só pela mobilização das pessoas, como também pela divulgação da informação. Um exemplo são as Narrativas Independentes Jornalismo e Ação, mais conhecido como N.I.N.J.A. Para fazer parte do grupo, uma mídia digital independente, basta ter uma câmera e sair atrás da notícia, documentando tudo. Foi assim que surgiram os relatos de dentro das manifestações, a verdadeira cobertura in loco, como mostraria Elisabeth Lorenzotti, em artigo do Observatório da Imprensa.


Diante desse papel dos cidadãos comuns como mediadores da informação, surge o questionamento: será que o jornalismo é necessário? Para mim não há dúvidas. Por maior que seja a participação das pessoas comuns de extrema relevância, por mais importante que seja esse tipo de cobertura, a credibilidade é dada ao jornalista que discerne, filtra e apura com rigor técnico a informação, como afirmaria Sylvia Moretzsohn em artigo também do Observatório. No artigo, Sylvia afirma que muitas das informações que circulam na rede não são, de fato, reais. Há muito material interessante, mas também há criações, como as fotos, que foram divulgadas no auge das manifestações, de celebridades segurando cartazes com os dizeres “É mais do que R$ 0,20”.


Mas ainda há muito o que melhorar no jornalismo, e a cobertura da grande imprensa mostrou isso. Não se pode vir com quatro pedras na mão e esquecer que o jornalista é cerceado por trabalhar em uma empresa que antes de tudo visa o lucro e tem determinados interesses, certa linha editorial. Mas também não se pode fechar os olhos para o que está explícito. Nunca é fácil mudar, o que não significa que não possamos ter esperança, que não possamos tentar, que não possamos tirar ensinamentos do jornalismo participativo. O primeiro passo para um outro jornalismo é levantar a bandeira. A bandeira do senso crítico.

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