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A América Latina sete anos após 'Veias Abertas'

Por Bruno Roncada


Ao ler As Veias Abertas da América Latina, se não bastasse toda a genialidade da edição original de Eduardo Galeano, tive a sorte também de ter acesso nas páginas finais a um posfácio, escrito pelo uruguaio sete anos após a data de publicação do livro.


Em 1978, a América Latina vivia tempos de ditaduras. Não coincidentemente, Veias Abertas foi proibido de circular no Uruguai, Chile e Argentina. Talvez os generais no comando, a serviço do capital estrangeiro, não considerassem uma boa ideia expor algumas verdades sobre a dominação estrangeira sobre a América Latina. Galeano até conta que o melhor tipo de elogio que sua obra poderia receber era exatamente esse.




[caption id="attachment_2472" align="aligncenter" width="400"]O socialista Salvador Allende (foto) foi eleito presidente pelo povo chileno nas eleições de 1970. No entanto, três anos depois, em 11 de setembro de 1973, um golpe militar, apoiado pelos EUA, tirou Allende do cargo, colocando em seu lugar o general Augusto Pinochet. Começava ali um difícil período da história chilena. O socialista Salvador Allende (foto) foi eleito presidente pelo povo chileno nas eleições de 1970. No entanto, três anos depois, em 11 de setembro de 1973, um golpe militar, apoiado pelos EUA, tirou Allende do cargo, colocando em seu lugar o general Augusto Pinochet. Começava ali um difícil período da história chilena.[/caption]

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No mais, os problemas da região continuavam os mesmos. Pra piorar, a dívida externa dos países crescia vertiginosamente. De 1969 até 1975, ela aumentou em quase três vezes. Grande parte da produção das nações era destinada para a amortização dessa dívida. No caso de Brasil, México, Chile e Uruguai esse pedaço correspondia a quase a metade do que era produzido.


As ditaduras, por sua vez, mantinham-se no poder. Procuravam criar uma imagem de que o regime era sinônimo da nação. Enquanto isso, a população sofria. Os trabalhadores continuavam recebendo baixíssimos salários. As condições às quais estavam submetidos também eram deploráveis. Galeano inclusive cita uma história que ocorreu no Uruguai, em 1977:

No dia 28 de setembro, às sete da manhã, os operários negam-se a entrar numa fábrica de conservas de peixe porque sentem um forte cheiro de gás. São ameaçados: se não entram, perdem o emprego. Eles continuam se negando a entrar. São ameaçados: vamos chamar os soldados. A empresa já havia convocado o exército de outras vezes. Os operários entram. Quatro mortos e vários hospitalizados. Havia um escapamento de gás amoníaco.


(GALEANO, 1978)


Os interesses do capital, em especial o estrangeiro, continuavam acima dos direitos dos trabalhadores. A maioria do povo ainda vivia na miséria. E como disse Galeano, venda o que venda, o principal produto de exportação da América Latina são seus braços baratos.


E assim continuava a tendência histórica. Os países latino-americanos vendiam seus produtos a preço de banana, sejam matérias-primas ou industrializados de baixa qualidade, e importavam os produtos mais sofisticados do mercado europeu a um valor extremamente alto. Nada que contribua para uma balança comercial saudável e, principalmente, para a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.


Se por um lado faltava aos donos do poder um pouco de imaginação política, por outro eles eram mestres na arte de propagar o medo. Seja no trabalho, nas ruas, nos ônibus ou nas universidades, qualquer cidadão estava sob a ameaça de estar sendo vigiado.


Na Argentina, segundo Galeano, o próprio Código Penal já sancionava o autor e o editor de um livro considerado subversivo. Também eram castigados o impressor, para que ninguém imprimisse livros assim, o distribuidor e o livreiro, para que ninguém se atrevesse a comercializá-los, e até mesmo o leitor, para que ninguém cogitasse lê-los ou guardá-los. Era assim que as ditaduras espalhavam o pânico pela população.

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