Navigation Menu

Estamos apresentando: “A Carroça de Mamulengos”!


377004_339615702719911_1619159685_n



Por Gabriela Borchert e Thaianne Coelho


A palavra “teatro” vem do Latim theatrum e do Grego theatron que significa literalmente “lugar para olhar”, já a palavra “rua” pode ser conceituada como um espaço público onde o direito de ir e de vir seria plenamente garantido. Encontrar uma definição para a expressão “teatro de rua” pode ser muito mais complexo do que se imagina, principalmente se refletirmos sobre a heterogeneidade de artistas que se apresentam pelos parques, praças ou sinais de trânsito Brasil afora. Desde performances circenses improvisadas por palhaços, pirofagistas e malabaristas, até mesmo as "estátuas-vivas" –  chamados pantomímicos, artistas que narram a arte com o corpo - podem ser incorporadas ao teatro que tem como palco a rua e que fazem parte e constroem a cultura popular brasileira.


A Carroça de Mamulengos é uma trupe formada por uma família de brincantes, cirandeiras, mamulengueiros, palhaços e contadores de história que viajam o Brasil apresentando seus espetáculos pelas ruas. A Companhia não necessita de muitos técnicos, figurantes ou equipamentos de última geração para levar alegria a quem os assiste. Apenas com o “reforço” dos mamulengos, a família consegue criar uma aproximação com o público através de uma narrativa que, ao incorporar e dialogar com outros elementos presentes no espaço/cenário, acaba estimulando diferentes reflexões.


Mas nem tudo são flores tiradas da manga do palhaço. Maria Gomide, filha de Schirley e também integrante da companhia, diz que os grupos itinerantes estão cada vez mais à margem do sistema e cada vez mais são empurrados pra fora dele, sendo obrigados a sair das capitais e migrar para províncias.


“As cidades pequenas não proporcionam renda para que os grupos de teatro se mantenham e por isso vão ficando cada vez mais decadentes, sem grandes oportunidades ou bons espaços de apresentação” declara Maria. Os grupos teatrais independentes acabam desmotivados pois não são oferecidas muitas oportunidades e espaços para produzirem sua arte e muitas vezes acabam por “inventar um modo de dar o pulo do gato pra conseguir sair das amarras do sistema”, brinca Maria.


A essência “do Carroça” (como chamam os próprios integrantes) nasce a partir das intervenções do patriarca da família que, desde que decidira viver de arte pelo resto de sua vida, começara a construir bonecos de sucata para protagonizarem os espetáculos que criara baseados em fábulas. Na época, o rapaz deveria ter algo entre 26 e 27 anos, quando, junto aos seus mamulengos, decidiu partir para Brasília – lugar onde conheceu a mãe de seus filhos, Schirley França – numa época em que o teatro de rua/itinerante começava a tomar forma influenciado pelos movimentos políticos que expressavam-se, muitas vezes, de forma dramática e trágica através das lutas de resistência que contestavam os desmandos do governo.


“Toda a construção de vida do meu pai, sua relação de forte envolvimento com a política na época da ditadura militar, a forma como foi criado por uma família que sempre compreendeu as desigualdades das lutas de classe, está na bagagem que ele trouxe e que acabaram norteando suas escolhas e apontando a direção para que o ‘Carroça’ surgisse”, diz Maria.


Carlos Gomide, o pai da primogênita Maria, é também pai do Antonio, dos gêmeos Matheus e Pedro, do Francisco, do João, das gêmeas Isabel e Luzia, além de avô da pequena Iara. Todos, juntamente com Schirley França, Elen Carvalho (esposa de Francisco e mãe de Iara), Beto Lemos (multi-instrumentista, compositor, arranjador), Ana Rosa (musicista) e Brasilino Monobloco  integram e dão vida à “Carroça de Mamulengos”.


Pano de Roda


[gallery ids="2317,2320,2318,2319,2316,2333"]

Com mais de 30 anos na estrada, o grupo ainda carrega o frescor de uma juventude que sempre procura trazer novos desafios à vida de arte. Desafios como os que enfrenta uma dona de circo itinerante, que passa por uma pequena cidade, mantendo sua plateia e sua trupe com dificuldades, junto a uma dupla de desocupados e uma menina que sonha em ser uma grande artista. As histórias desses personagens nada mais são do que o enredo do atual espetáculo apresentado pelo Carroças. Pano de Roda, mais do que retratar desafios na ficção, representou um desafio na própria realidade do grupo.


“Tivemos apenas um ano para montar o espetáculo. Nesse tempo nasceu a Iara [a mais nova artista da família], nos mudamos de Jacarepaguá para a nossa atual residência em Itaipuaçu e fizemos uma turnê apresentando o Felinda, o espetáculo anterior, por Cariri, no Ceará. No final, só conseguimos montar o Pano de Roda nos quatro últimos meses do prazo limite do projeto”, conta Shirley.


O espetáculo é fruto do Edital de Manutenção de Companhia da Petrobras, encerrado em 2012. O patrocínio teve duração de dois anos, começado em 2010, e foi concluído com a montagem do Pano de Roda, que já passa da sua vigésima apresentação no Rio de Janeiro.


“O grande problema foi ter data para a criação. Espetáculo não é como fazer um bolo, não há receitas. É algo que você vai procurando e procurando em um quarto escuro. Mas o tempo não te espera. A montagem foi sofrida, mas foi muito rica, pois representou um desafio e um compromisso. Foi um mergulho muito grande nas próprias experiências, de onde tiramos a inspiração para compor os textos, as cenas, as músicas, os bonecos”, lembra Maria.


Versátil, ele possui uma estrutura simples e fácil de circular. Pode ser montado em palco italiano, dos teatros convencionais onde os espectadores ficam apenas de frente para os atores, ou montado simplesmente em uma praça. Pode ser feito de dia ou de noite. E, é claro, todos podem ser parte do público.


Felinda


[gallery ids="2321,2326,2323,2322,2324,2332"]

“Era uma vez uma moça, nem feia, nem linda que sonhava fugir com o circo. Fez sua mala e partiu, porém a moça não tinha nenhuma habilidade que servisse ao picadeiro, então um dia foi deixada para trás. Vendo-se sozinha, desatinou, esqueceu seu nome e de onde vinha. Só não esqueceu o circo. Eis que, evocado por suas lembranças, o circo aparece trazendo uma charanga de palhaços, uma bailarina tímida, bonecos reais e seres imaginários que rondam o picadeiro de sua memória. E tudo sempre começa de novo. Uma velha, nem feia e nem linda, sonha em fugir com o circo…”


Esse é um trecho que não só descreve, mas transmite toda a simplicidade e beleza do espetáculo Felinda. Anterior ao Pano de Roda, ele foi montado em 2008, quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, já separada do patriarca, que permaneceu no Ceará. Mas a separação foi apenas física. Apesar da montagem ter acontecido apenas aqui no estado, o pai acompanhou toda a produção e confeccionou inclusive bonecos, os quais enviou pelos correios.


“Felinda foi a primeira montagem apenas dos filhos. O que foi uma enorme experiência para nós enquanto companhia e enquanto família. Apresentamos o espetáculo quando já fazíamos o Pano de Roda. Outro importante desafio: conciliar os dois”, explica Maria.


No momento, Felinda está parado, porém passou um longo ano flanando pelas terras cearenses na turnê Cariri 2012. “A turnê Cariri não é nova. Dentro desse plano original itinerante do grupo, já passamos por diversas cidades, como Barbalha, Jardim, Assaré, Araripe, Caririaçu, e Juazeiro do Norte onde passamos a maior parte do nosso tempo, antes de virmos para o Rio”, conta a matriarca Schirley.


A família, além de Juazeiro, já morou em Anápolis, Brasília, Porto Alegre, Campinas, João Pessoa. “O Carroça sempre esteve a serviço do porvir. Algumas coisas a gente intui, outras se apresentam na nossa frente. O Carroça sempre teve um destino de estrada”, ressalta Maria.


São cortejos com os artistas em pernas de pau cantando e fazendo música pelas ruelas das diferentes cidades incluídas no roteiro, além da apresentação do espetáculo na praça, geralmente à noitinha, e oficinas para quem tiver curiosidade de saber o que é a arte dos mamulengos e quiser se tornar um artista nos moldes da tradição e pureza do conceito.


Para Maria, ser artista é “ter uma forma diferenciada de ver o mundo, sem as amarras do sistema” e, na memória e inspiração do mestre Manoel de Barros, ser artista é mais: “É transver a realidade”.






0 comentários: