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Mulheres de verdade

Esteriótipos e preconceitos ainda moldam o imaginário e o cotidiano no mercado de trabalho


Por Jéssica Alves, Mariana Vita e Roberta Thomaz


Ana Arruda Callado tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de reportagem de um grande jornal brasileiro, em 1966, o Diário Carioca. Na época, passou por dificuldades armadas por colegas subordinados que “não gostaram nada de ver uma mulher sentada naquela mesa. Eles ficaram quase injuriados, e eu sentia essa hostilidade”, conta. Os pequenos jogos de poder só terminaram quando ela sentiu necessidade de demitir um jornalista por desrespeito. “Não mudei meu trato com eles, mas eles mudaram comigo”, afirma.

[caption id="attachment_596" align="alignleft" width="282"]IMG_6113 Ana Arruda Calado: dificuldades na carreira de jornalismo[/caption]

De lá pra cá as mulheres criaram outras formas de se proteger e tentar abrir caminho no mercado de trabalho. A Rede Profissional Jurídico de Saias, com mais de 900 integrantes, é uma delas. O grupo promove palestras e trabalha por meio de um blog onde compartilha artigos jurídicos, informações sobre vagas e currículos, tira dúvidas e troca experiências. Não são as únicas. Outras redes profissionais de mulheres estão aparecendo, como a Midas - Mulheres Internacionais Dinâmicas e Articuladas Sempre – um grupo engajado em temas como responsabilidade social, políticas públicas e sustentabilidade.

Nessa corrida, vale até brincar com o inconsciente. Segundo uma pesquisa da Universidade de Berna, na Suíça, publicada no Brasil pela revista Mente e Cérebro, mulheres têm mais chance de aprovação em entrevistas para cargos executivos se usarem perfume masculino. Esse artifício só traria desvantagens para elas caso se tratasse de uma entrevista para trabalho ligado a algum estereótipo feminino, como o cargo de secretária.

No Brasil, país presidido por uma mulher e uma das dez maiores economias do mundo, essas atitudes parecem desnecessárias. O Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que não: apesar do aumento de mulheres no mercado de trabalho, o quadro de desigualdade permanece.

A remuneração média de profissionais com ensino superior completo foi de aproximadamente R$ 3 mil para elas, enquanto para eles, os ganhos chegam a mais de R$ 5 mil. Na esfera política, temos apenas 45 deputadas federais e oito senadoras em exercício para representar uma população de 100,5 milhões de brasileiras.

Conciliar trabalho, casa e filhos

A locutora Nayara Alves optou por não se casar, nem ter filhos. Conta que achou melhor trocar os gastos com um filho por viagens, mimos para si e insumos para a profissão. Sua escolha de vida é julgada de maneira negativa por muitos. A expressão “ficou para tia” é constantemente utilizada para caracterizar mulheres que, como Nayara, optam por levar uma vida independente.

[caption id="attachment_1830" align="alignleft" width="282"]Nayara Alves: nem casamento, nem filhos Nayara Alves: nem casamento, nem filhos[/caption]

“Confesso que, em alguns momentos difíceis, como quando realizei uma cirurgia para a retirada do útero, refleti sobre a possibilidade de passar a minha vida sozinha. Mas deixo rolar”, comenta. No livro “A cama na varanda”, a psicanalista Regina Navarro Lins explica: “A pressão ideológica é tanta que muitas mulheres se convencem que desejam ter filhos sem que esse desejo realmente exista”.

Em 1931, a escritora inglesa Virginia Woolf disse que, ao começar a carreira, se sentia perseguida pelo fantasma do “Anjo do Lar” - título de um poema que ditava os atributos dóceis, maternais e sacrificantes que as mulheres deviam seguir. Dez anos depois, o Anjo do Lar ressuscitava em forma de samba: era lançada aquela que, no Brasil, seria a “mulher de verdade”.

A professora da Universidade de Berea, nos Estados Unidos, Bell Hooks aponta no artigo “Intelectuais negras” que a socialização sexista impede que as mulheres façam do trabalho intelectual uma prioridade essencial, ainda que as circunstâncias sociais ofereçam recompensas por tais atividades. “O trabalho mental tem de ser sempre secundário aos afazeres domésticos, aos cuidados dos filhos, ou a outras atividades servis”, lamenta a autora.

Com apoio da ONU Mulheres, a Data Popular e o instituto SOS Corpo realizaram, em 2012, uma pesquisa que reforça a opinião de Bell Hooks. Das 800 brasileiras entrevistadas, 98% além de trabalhar, precisam se dedicar à casa. Apesar de 60% serem casadas ou morarem junto com um companheiro, 71% não contam com nenhum auxílio masculino no serviço doméstico.

O estereótipo atribuído às mulheres ainda se reflete nas funções que desempenham no mercado de trabalho. A área que reúne o maior número de mulheres é a de Serviços domésticos, com 92% seguida das seções de Educação (75,8%) e da Saúde Humana e Serviços Sociais (74,2%). Ícone de um modelo feminino, parece que Amélia continua a influenciar, timidamente, as escolhas das brasileiras.

[caption id="attachment_1831" align="alignright" width="282"]Rachel Soihet alerta para violência simbólica Rachel Soihet alerta para violência simbólica[/caption]

A historiadora Rachel Soihet, especialista no estudo de gêneros, considera homens e mulheres como sujeitos capazes de desempenhar as mesmas funções. Sustentar a família, a casa e ainda fazer o trabalho doméstico não são funções únicas da mulher, apesar de muitas até se vangloriarem com esse feito. De acordo com Rachel, não é atribuído a um ou a outro qualquer atividade, mesmo que isso possa parecer natural por questões biológicas. Muito pelo contrário, tal comportamento ainda é meramente construído.

Segundo Rachel, incorporar e reproduzir papéis ditados pelo gênero constitui a chamada “violência simbólica”. “Isso é visto na mãe que não ensina o filho a fazer as tarefas domésticas, por exemplo. Ele provavelmente não será um parceiro nessa atividade e irá contribuir para a dupla jornada realizada pela parceira. A mulher como pilar da família é algo construído socialmente, é cultural. Se fosse ensinado de outra forma seria diferente. Gênero não exerce papéis, isso é arquitetado socialmente”, explica.

Leia mais:

Entrevista completa com a jornalista Ana Arruda Callado

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