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Um lugar para chamar de casa

Por Luiza Gould e Mariana Ghetti


Quadros, móveis antigos, louças pintadas nos mínimos detalhes, objetos considerados verdadeiras relíquias. Ao passar pelas portas de ferro, subir as escadas de mármore, se deparar com um telefone do tempo dos nossos avós, se surpreender com lustres de cristal a um breve olhar pelo teto e se ver cercado de retratos antigos de família, de repente parecemos estar em outro tempo, ou em outra realidade. Ao redor tudo parece convidá-lo a se sentir à vontade, como se estivesse em sua própria casa – uma casa cheia de lembranças. É essa a proposta do Espaço 29, inaugurado no ano passado em Icaraí. Mesmo abrigando uma cafeteria, uma loja de decorações e um restaurante, o estabelecimento manteve a mesma estrutura da única casa que permanece em pé na Rua Moreira César.


A história que emana de cada objeto, de cada mobília, é a história da família Castro Ramos. Era o ano de 1949 e Nelson Ramos se perguntava se deveria ou não comprar em um leilão uma casa antiga de Icaraí. Casado e com três filhos, ele achou o valor do imóvel alto e decidiu consultar um amigo do banco. O conselho foi seguido à risca: Nelson adquiriu o terreno e pouco depois colocou a casa abaixo para construir o seu próprio imóvel. Concluídas as obras, a família se mudou e passou a morar no casarão em 1952. Criados os filhos, nascidos os netos, lá Nelson e a esposa Nair continuariam a morar até o fim de suas vidas. Nelson faleceu em 1988 e Nair em 2011.


Sessenta e um anos depois de erguida as primeiras paredes, a casa dos Castro Ramos estava então desabitada. O que fazer com ela? Vender? A princípio seria a decisão mais comum, e inclusive a tomada por vários vizinhos ao longo dos anos. Mas Alexandre tinha outros planos. Neto de Nelson e Nair, o engenheiro químico queria fazer uma homenagem aos avós e preservar a casa onde a mãe cresceu. Sugeriu então à família transformar o local em um conjunto de negócios. “Como eu já tinha uma cafeteria aqui em Icaraí, eu sugeri à família transformar esse espaço e fazer uma homenagem aos meus avós, porque essa sempre foi uma casa importante. Eu poderia ter transformado em duas lojas grandes, mas quis preservar”, recorda.







*Vídeo produzido por Igor Pinheiro


Para Alexandre, o espaço é inovador, já que toda a estrutura da casa foi mantida e cada cantinho foi aproveitado. O quarto de Dona Nair e Seu Nelson virou uma sala de chás, com capacidade para 20 pessoas. A entrada da garagem, a entrada da casa, a varanda e outros cômodos se transformaram no Restaurante Castro Ramos, com a incorporação de mesas, talheres, copos em um ambiente repleto de recordações. O casarão dos anos 50 ainda de pé em plena Icaraí abriga também uma cafeteria e uma loja de decoração retrô, com artigos que vão desde louças até vinis e peças antigas. Embora ainda não concluído especificamente para esse fim, o local conta também com um espaço que deverá abrigar uma tabacaria, para a venda de charutos.




[caption id="attachment_1975" align="alignleft" width="282"]Alexandre Ramos vê algumas dificuldades na adaptação de seu empreendimento a casa dos sues avós, mas não se arrepende: "é uma homenagem a eles"/ foto Luiza Gould Alexandre Ramos vê algumas dificuldades na adaptação de seu empreendimento à casa dos sues avós, mas não se arrepende: "é uma homenagem a eles"/ foto Luiza Gould[/caption]

Apesar de todas essas características, Alexandre não deixa de apontar, no entanto, dificuldades pelo fato de o restaurante ser adaptado a uma casa. “É cheio de degraus, cheio de altos e baixos, com várias portas, cantinhos em vários lugares. Tem umas dificuldades que em um restaurante tradicional, com um grande salão, não haveria, por exemplo”, revela. Com pontos positivos e negativos, Alexandre tem, porém a certeza de uma coisa: a aconchegante casa dos avós é o diferencial do seu empreendimento. “Tanto é assim que conquistamos o prêmio novidade do ano do Água na Boca, um concurso promovido pelo jornal O Globo”, comenta com orgulho.


A novidade do ano já conquistou clientes, apesar de Alexandre atestar que um dos atuais desafios é fazer com que o lugar seja mais conhecido. Mas, para quem já conhece, como Pedro Nunes, estudante de 25 anos, o espaço é um dos melhores da cidade. “Assim que entrei no estabelecimento, fiquei fascinado com a arquitetura e decoração. O ambiente familiar me passou uma impressão de que iria comer uma refeição caseira. Mas ele diverge muito da maioria dos restaurantes de comida caseira. Não tive a sensação de estar comendo um prato qualquer preparado na minha própria casa. Na verdade, estou me sentindo como um convidado saboreando um banquete na casa de amigos com muito mais talento para cozinha", opinou.


A irmã de Pedro, Ana Carolina Nunes, assistente de promotoria de 26 anos, também aprovou o lugar do qual já tinha ouvido falar algumas vezes. “Toda vez que passava aqui em frente, algo me chamava a entrar. Aquela simpática casa com a sua fachada era muito atrativa. À noite, havia o fator iluminação, que conferia um toque ainda mais diferenciado. Adoro conhecer as novidades gastronômicas, mas também recebi fortes e confiáveis recomendações para vir aqui. Ao entrar, descobri que aquele lugar que tanto me chamou a atenção não era um restaurante qualquer. E também pude perceber isso logo nas primeiras páginas do cardápio, que conta a história da casa”, relatou. Para ela outro ponto positivo são os objetos: “O telefone, os retratos, todos esses detalhes acho que contribuíram para que eu me sentisse num ambiente acolhedor, onde percebi uma generosidade em relação à memória. É isso que eu chamaria de uma casa que está de portas abertas”, completou.




[caption id="attachment_1957" align="alignleft" width="226"]Lar doce Lar (Matéria principal) Lar doce Lar (Matéria principal)[/caption]

[caption id="attachment_1913" align="alignright" width="282"]A Casa da Martha A Casa da Martha[/caption]

[caption id="attachment_1914" align="alignleft" width="282"]A Casa da Rosane A Casa da Rosane[/caption]

[caption id="attachment_1916" align="alignright" width="282"]A casa dos meus avós (Artigo) A casa dos meus avós (Artigo)[/caption]

[caption id="attachment_1903" align="alignleft" width="282"]A Casa Videolocadora A Casa Videolocadora[/caption]

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