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O amor nos tempos da internet

Por Lucas Bastos


Em uma noite qualquer de terça feira, um adolescente olhava para o seu notebook com tanta atenção que nem um incêndio em sua casa seria capaz de distraí-lo. Ele estava “navegando” na Internet, como diziam os velhos jovens, e sua parada preferida eram sempre as redes sociais. No momento, ele contemplava o perfil de sua paixão.

É possível amar pela tela de um computador? Os mais céticos dizem que não. Segundo eles, amor é aquela coisa física, que faz você ficar completamente bobo, suado e nervoso perto da pessoa querida. Os mais desiludidos dizem que dá sim, mas que dói muito do mesmo jeito. Os mais apaixonados acreditam, curtem e compartilham a ideia.

Há uns 2 meses, esse rapaz conheceu uma menina especial. Ou melhor, tecnicamente ele não a conhecia. Ela era prima de um conhecido de um amigo seu, um daqueles encontros que só a internet ou uma festa maluca propicia. Foi paixão à primeira vista. Ou melhor: ao primeiro click.

Ele descobriu a sua idade (mais velha), onde ela estudava (bem longe) viu todas as fotos dela (ela estava linda em todas), todos seus vídeos preferidos (perfeitos), descobriu suas preferências musicais (sensacionais), os filmes que a emocionavam (ele alugou todos), enfim, tudo sobre sua vida. Ele tornou-se o famoso e temido “stalker”. Ele não tinha orgulho disso, mas o que podia fazer? Ela era perfeita, principalmente para ele!

Todo dia, assim que ele chegava do colégio, o garoto corria para seu computador e abria seu perfil. E torcia para ela estar online. Sua foto principal, tão bem escolhida, seu sorriso apaixonante, seus olhos maravilhosos, tudo isso praticamente o obrigava a abrir uma janela de conversa com ela. Aí ele reunia toda a coragem do mundo e iniciava o contato:

- Oi – dizia ele, porque talvez um “olá” soasse muito pessoal.

- Oi – ela respondia, igual a ele. Claramente era um sinal de que os dois eram muito parecidos.

- Tudo bem? – ele perguntava, mostrando educação e preparando o terreno para assuntos mais pessoais.

- Tudo, e você? – ela respondia, manifestando interesse em seu bem estar. Ela era demais!

- To bem – e aí ele fechava a janela.

amor

Ele não conseguia mais falar nada. Não era por timidez que ele travava, pois afinal o rapaz era até bastante extrovertido. Tampouco era por falta de conhecimento, pois ele acompanha a vida dela como se fosse um livro. Quando ela estava triste, ele sabia. Quando ela tinha tirado uma nota boa, ele comemorava junto. Também não era falta de paixão, porque ele a amava com todas as suas forças.

Os dias se passavam e o histórico de conversa com a garota só aumentava. Rapidamente ela tornou-se a sua principal companhia de bate papo. Às vezes ela respondia “olá”, o que significava que os dois estavam ganhando intimidade. Em outras, ela dizia “tudo beleza, e você?”, usando uma linguagem super descolada.

Durante meses sua vida se resumiu a isso. Seus pais não entendiam o que ele via de tão interessante no computador, o que o fazia gastar horas do seu dia fazendo nada! Eles pensavam que seu filho era muito solitário, mas isso era apenas uma meia verdade: enquanto ele olhava as fotos dela, quando ela estava online, ele não se sentia sozinho. Sempre que ela postava qualquer coisa em seu perfil, ele acreditava que era uma indireta para ele. Quando ela copiava a letra de uma música ele a lia 30 vezes, convencido de que ali tinha uma mensagem que só ele poderia entender.

O mundo começou a ficar pequeno, cabendo dentro da tela do computador. Durante o colégio, ele era menor ainda, encaixando-se perfeitamente no celular. Quando estava na rua, ele queria voltar pra casa. Em casa, ele não queria mais sair. Ficava ali, contemplando sua paixão. Claro que ele sonhava com o dia em que a encontraria pessoalmente, mas e se ele falasse a coisa errada? E se ele a pegasse em um dia ruim? E se o mundo “real” fosse muito pior do que os seus sonhos? Ele não aguentaria a desilusão de perder esse amor.

Até que um dia, em uma tarde qualquer de sexta feira, o rapaz teve que faltar aula para ir ao dentista. A boa notícia era que, sentado na sala de espera, poderia acompanhar sua paixão pelo celular, o que em sala de aula era mais difícil, devido à rigidez dos professores. Até mesmo a chatice de fazer um canal seria amenizada pela companhia tão especial da sua menina.

Ele chegou ao prédio comercial, entrou no primeiro elevador e pediu para o ascensorista desconhecido apertar o botão do décimo quarto andar. Mas, antes da porta fechar, uma garota praticamente atirou-se dentro do elevador, com medo de perder a viagem. Ao perceber a cena ridícula que protagonizou, ela sorriu para ele, e se desculpou.

Ele não conhecia essa menina. Ela não tinha olhos claros como a sua paixão. Nem cabelos tão lisos. Nem mesmo um sorriso tão largo. Talvez seu gosto musical fosse péssimo. Tudo nela era diferente, desconhecido, imprevisível. Em comparação à sua namorada da Internet, ela era tão...tão...realmente linda.

O amor acabou de ficar offline.

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