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"Deixei minha alma na Tanzânia e o coração ficou no Quênia"

Por Débora Diettrich, Liliana Silva e Marcela Rochetti


http://www.youtube.com/watch?v=FoRY1q--8Zw

“O intercâmbio para África sempre foi um sonho e de repente virou necessidade. Completamente perdido no aspecto profissional quando me formei em Direito e fissurado por trabalho voluntário, foi a fome com a vontade de comer. Tirei um tempo pra filosofar, pensar na vida, me conhecer e traçar os próximos passos. Averiguando várias maneiras de partir, conheci a AIESEC, organização universitária presente em vários países. Entrevista feita e contrato assinado, escolhi a Tanzânia e o Quênia pelo trabalho oferecido em cada país e não só pela localização geográfica. Quando me perguntam, gosto de dizer que o trabalho voluntário tem tanto altruísmo quanto egoísmo. Altruísmo pela ajuda ao próximo, ‘razão de viver’, e egoísmo porque sempre há algum interesse por trás, por mais que esse interesse seja só a sensação deliciosa de se estar ajudando alguém. No meu caso, o egoísmo era resolver minha vida enquanto vivia o sonho africano”, declarou Bruno.


O Casarão: Quais foram os destinos e como era o trabalho?


Bruno Sterenberg: Na Tanzânia, fui dar aulas de Direitos Humanos e me apaixonei por uma matéria que passou despercebida na faculdade. Planejei um milhão de coisas pra voltar e... Bem, dizem que a gente faz planos e Deus ri. Acabei adiando alguns projetos em função de outros que apareceram na frente, mas nada de descartar! A experiência já foi incrível e não tem um dia que eu passe sem pensar nisso, nos amigos que fiz, no que vi e vivi. No Quénia, as expectativas acabaram sendo menores. Fechei a experiência para ensinar inglês e ciências sociais na Childrock, o que não era diretamente minha área, apesar de sempre ter pensado em dar aulas. Quando cheguei … Bom, aí eu falo mais pra frente.


 OC: Como foi a relação da sua família com a ideia do intercâmbio?


BS: Não foi tão legal, mas dentro do esperado. Tive apoio apenas da minha avó paterna, um dos meus quatro núcleos familiares (moro em quatro casas - mãe, pai, avós maternos e avó paterna - sempre fui meio nômade). O resto do pessoal exigiu um trabalho grande, mas como estava cheio de argumentos e com uma certeza incontestável de que era o certo a se fazer, não me importei muito. Os que não quiseram se convencer antes da viagem acabaram mudando de ideia depois, pelo aprendizado, vivência e experiência que tive por lá.


OC: Quais foram suas primeiras impressões chegando à África?


BS: No começo, bateu um certo desespero. Quem deveria ter ido me buscar no aeroporto não apareceu, eu não tinha o endereço da casa que deveria ir e, depois de dar um jeito, surtei com a mudança drástica de hábitos. A primeira semana foi uma batalha interna de permanência e perseverança. Eu não podia desistir de tudo e voltar pra casa dizendo para a família quase toda que eles tinham razão. Então fui ficando, um pouco por orgulho, um pouco por curiosidade, medo… E foi a melhor decisão da minha vida.


A entrada na Tanzânia foi cena de filme. Acabei dentro de um carro passando pelo típico cenário africano, bastante desolador. Logo nos primeiros dias, a higiene e alimentação assustaram. Para agravar, eu cheguei ao lugar errado, num final de semana... Não fazia sentido passar por tudo aquilo sem o trabalho. E realmente muda tudo. Quando as aulas começaram, em vários colégios diferentes, todo o dia faltava luz, água, comida.. O coração falava muito mais alto. É engraçado como você passa a gostar do perrengue. Ele vira seu aliado. A Tanzânia me mostrou condições de vida precárias, mas de forma "uniforme". Todo mundo estava no mesmo barco da pobreza, nós, voluntários, inclusive.


No Quênia, a diferença social incomoda. A casa era espetacular, talheres, cobertores, tinha até travesseiro. Quando cheguei a casa, chorei, ninguém entendeu nada. Jantar na mesa, copos, chuveiro quente. Surtei de alegria. E não fazia mais sentido estar ali, vivendo bem… Para quê? Quando fui dar aulas, ainda piorou. Surtei de desespero. Não era certo viver num "palácio" comparado com a Tanzânia, e dar aulas na miséria mais profunda que vi na vida. Então foi outra crise de querer voltar, pensar, insistir... Mas o país é mais metrópole, tem uma diversidade maior, arranha-céus. Deixei minha alma na Tanzânia e o coração ficou no Quênia.


OC: Como surgiu a ideia de fazer a campanha para a escola Childrock?


BS: Não era suficiente dar as aulas de Ciências Sociais e Inglês na Childrock.  A campanha foi uma saída pra fazer algo maior pelas crianças e me dar motivo pra continuar por lá. Não era algo previsto no contrato, mas surgiu a ideia como forma de deixar um legado, sabe? Não adiantava nada chegar pra dar aulas pra crianças que estavam há cinco dias sem comer e comeriam de novo sabe-se lá quando. Era muito pouco.


A instituição gostou, mas me deixou livre pra estruturar a ideia como queria, apesar de não confiarem. Muitos voluntários vão, começam a campanha e embolsam o dinheiro. Então tive que pensar em tudo sozinho, o que faria, como, para quem, porquê. E comecei a esboçar a campanha, até lançar oficialmente no blog que escrevi enquanto estava lá, . Exigiu um sacrifício bom. Tive que diminuir o ritmo das aulas pra poder ficar acordado até as 5 da manhã no Quênia, horário que estava todo mundo acordado no facebook no Brasil. Sabe aquela história de matar um leão por dia? Então. Certa vez li que alguns, fazendo o que amavam, se apaixonavam pelo leão depois. E realmente acontece. Hoje sou apaixonado por dificuldades, que na verdade são oportunidades gigantes de evolução e desenvolvimento. Ah, que saudade.


http://www.youtube.com/watch?v=J-uvJU9q2Kk

OC: Quais foram os meios (redes sociais, site, blog) que você usou para divulgar a campanha? Teve alguma ajuda nesses processos? Você ficou surpreso com a quantia arrecada?


BS: Desde que cheguei, queria que todos tivessem acesso à experiência, mesmo os amigos que deixei no Brasil. E aí comecei a escrever o blog, pra dividir os conhecimentos e aprendizados mil. Por acaso do destino, acabou sendo minha plataforma pra divulgação da campanha, junto com facebook. Fui até a Childrock pedir orçamentos revisados das necessidade mais urgentes e recebi uma lista até pequena perto do que poderia ser feito.


Aí comecei a arquitetar a campanha de marketing (contrapartidas para doadores), mecanismos de controle financeiro e transparência, logística… Com a campanha andando, tive ajuda de algumas pessoas no Brasil, que perturbaram amigos pra que contribuíssem com a causa. Agradeço absurdos a essas pessoas e a todos que doaram. Queria juntar uns R$ 5 mil, pra pelo menos construir o banheiro e impedir que as crianças tivessem que se aliviar nas vielas da própria favela. No final das contas, conseguimos (com a ajuda de todos) incríveis R$ 31.820, investidos até o último centavo.


OC: Quais foram as mudanças que a campanha proporcionou à escola? O que mais te marcou e/ou te emocionou durante essa experiência?


BS: Difícil enumerar. O que é proporcionado vem de uma troca cotidiana linda com as crianças. Sendo prático, um banheiro foi construído, o terreno da Childrock comprado (sem mais sufoco pra pagar o aluguel), livros comprados pra todas as crianças, todas as matérias, as instalações todas renovadas, paredes, teto, cozinha. A troca de ideias com as crianças, as aulas. É uma infinidade de coisas.


O que mais me emocionou foi a seguinte história: Na viagem toda, deixei a barba e o cabelo crescerem o e as pessoas de Mukuro (favela) me chamavam de Jesus. Só porque eu era parecido com ele, não por fazer milagres nem nada do tipo. E foi uma "brincadeira" que pegou entre os conhecidos. No último dia de colégio, na despedida, já chorando feito criança, uma das professoras foi agradecer pelo que havia sido feito. E me contou que uma das crianças da pré-escola perguntou para ela se Deus realmente tinha chegado ao colégio. Só de escrever já choro (risos).


OC: Agora que você voltou, quais são os seus planos para o futuro profissional e para sua relação com a Childrock? Pretende voltar, continuar o trabalho? Pretende relatar sua experiência em palestras ou escrever um livro?


BS: A minha relação (direta) com a Childrock foi temporária. Foi um momento em que fiz o máximo que pude para atingir o maior impacto possível naquelas circunstâncias. E passou. Ainda falo com todos de lá e tenho um carinho inexplicável, mas que venham novas iniciativas, novos impactos e novas vivências! Pretendo voltar e fazer outras viagens desse tipo, mas não necessariamente pra lá.


Quanto ao futuro profissional, é um grande ponto de interrogação. É um ponto de interrogação bem orientado, balizado por várias diretrizes e que segue um caminho aprendido na viagem, sim. Quero sim relatar a experiência em palestras e livros, contagiando o maior número de pessoas! É bem complicado resumir a experiência de 4 meses inesquecíveis em poucas horas ou páginas, mas aceitaria o desafio sem pensar meia vez!


OC: Depois de viver diversas experiências em solo africano, você mudou a forma de pensar e agir. Você pode apontar essas mudanças?


BS: Tudo muda. Tudo. Não tem um ponto que passe despercebido. E honestamente, ainda não consegui me achar desde que voltei. Comecei a trabalhar um dia depois do retorno, e não consegui assimilar o conhecimento com calma. É o lado bom e ruim de se voltar. Você volta pra pessoas e situações que não mudaram tanto assim, e você, outra pessoa. Estou bastante perdido mas…No caminho certo! Preciso de um bocadinho mais de tempo, mas...Se perder é o primeiro passo pra se achar.


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Um comentário:

  1. Nossa deve ter sido uma experiência e tanto.
    E o melhor é desperta o lado humano que de repente encontra-se escondido dentro de nós. Simplesmente um exemplo.
    Que trabalho incrível!! Pretendo acompanhar e fortalecer cada vez mais a ideia que tenho. Para que possamos acrescentar ainda mais na vida daqueles que muito precisam.

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