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Credo

Intolerância, fanatismo, discriminação: velhos dogmas invadem a política e tensionam a agenda pública


Por Camila Vianna, Jéssica Alves, Jéssica Monteiro, Roberta Thomaz e Thaianne Coelho



Em tempos de visitas sagradas ao país,em que a pregação religiosa mistura-se ao discurso político, ficam ainda mais claras as relações entre Igreja e Estado. E se há uma pressão cada vez maior de grupos religiosos sobre as decisões políticas, afirmar a espiritualidade também tornou-se mais que uma questão de fé.

Em 2008 a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), foi formada por representantes de diversas religiões para lutar pela liberdade religiosa. Desde o seu início, a comissão não mede esforços para estimular o diálogo e a paz entre as religiões. Para o interlocutor da CCIR, babalawo Ivanir dos Santos, o preconceito religioso ainda é forte e não se limita à crença.

“Ele se estende pra cultura, pra questão racial. Porque o africano não é cartesiano, ele é integral. Então, costumes, cultura e religiosidade estão juntos. Você nasceu branca, dos olhos azuis, mas se botar um fio de contas, roupa branca e não sei o quê, alguém encontra na rua e diz ‘tá amarrado!’. Porque na verdade ela assume uma identidade negra, que é africana, querendo ou não”.

O reverendo Marcos Amaral é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, uma das denominações que mais sofreram perseguições e, hoje, é tida como uma das mais intolerantes. Para ele, o preconceito também vai além da religião, mas se configura como dominação de uma maioria sobre uma minoria. Além disso, ainda hoje, o que não for visto como catequizador foge do interesse da igreja.

“A igreja evangélica é intolerante porque hoje é maioria, e o sistema de maioria reprime as minorias. A igreja possui um viés missionário muito forte, quase alheio às questões políticas, ecológicas, o que ‘faz a cidade’. E se não é para esse fim, não vale.”

Para o ateu, Pedro Martinho - aquele que estaria fora da discussão sobre religião por não ter uma -, a sociedade na qual todas as religiões viveriam em paz é quase tão sem sentido quanto a existência de um Deus. “Não acredito em sociedade ideal. A convivência pacífica entre todas as religiões e o ateísmo, que não é uma religião mas que, no caso, entra na roda, só vai ser possível no dia em que a religião for uma questão de âmbito essencialmente privado. Só que eu não sei se, sem os “fanáticos”, “fundamentalistas” religiosos para sustentar as bases e fundamentos das religiões, elas sobreviveriam por muito tempo”, acredita.

Segundo a antropóloga Ana Paula Miranda, a solução para o dilema ainda está longe do fim, já que se trata de opiniões e visões diferentes. Mas ainda vale a reflexão. E se existe uma maneira de começar a romper com esse panorama conflituoso, a resposta é enfática e sem uma posição definida, como a discussão.

“Sim e não. Sim, porque as pessoas que participam desse grupo vão sendo socializadas a entender quais são seus direitos e buscar cada vez mais, legalmente, a garantia desses direitos. E não porque isso é um processo político que pode acontecer em qualquer espaço, na medida em que esse grupo se posiciona, os grupos que são contrários ficam mais acirrados no enfrentamento. Não tem uma solução que não tenha uma reação”.

Como não pregar o preconceito



Das brincadeiras de infância ao amadurecimento religioso na vida adulta, o Ifá Israel Oliveira passou a vida muito próximo ao tema da religião. O menino, nascido em Rio do Pires, interior da Bahia, sempre escolhia ser o padre das historinhas dos colegas de infância.

Passou pelo Seminário, conheceu o Candomblé, e hoje, aos 40 anos e morando no Rio de Janeiro, caminha apenas pelo mundo dos orixás da cultura africana Yorubá, no culto específico do Ifá.

Israel joga seus opelés para qualquer pessoa. Se um católico for se consultar, verá as imagens de São Rafael e São Miguel em uma espécie de aparador. “São meus anjos protetores”, ele diz. Se for um budista, verá a imagem do buda e outros objetos que ganha de presente dos amigos. E verá, logo ao lado, a imagem do Ifá, abaixo de uma foto emoldurada que ele próprio tirou do palácio de Osun, na Nigéria, considerado o local onde Oxum apareceu pela primeira vez.

A iniciação na doutrina, em 2009, o fez conhecer a cultura nigeriana durante 21 dias e entrar de vez nessa sociedade que, segundo Israel, é voltada ao culto à Ori, que significa um culto à sabedoria. E, para ele, nesse culto não há
espaço para preconceitos e intolerâncias. Mas não é assim com todas as sociedades e todos os cultos. “O que se vê hoje é disputa de dinheiro”, afirma.

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O comportamento individual e coletivo da religião, que começa a partir da melhora de si mesmo e depois do ambiente de moradia, juntamente com uma educação religiosa não dogmática, mas voltada para a diversidade e aceitação das diferenças, são mais significativos que passeatas e marchas, segundo Israel.

“Nós do axé temos que dizer a que viemos e temos que mudar comportamentos. Para isso, temos que dar exemplos. Acredito que da maneira como essas passeatas e organizações são feitas hoje, elas não funcionam efetivamente. São muito mais um desfile de egos do que um meio para discutir e apresentar propostas para a superação dos problemas religiosos. Enquanto nós não tivermos instrumentos adequados para oferecer boa educação religiosa para as crianças, temos que recuperar os adultos. E isso tem que ser feito por comportamentos e exemplos positivos que começam dentro de nós mesmos e depois partem para a sociedade”.

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