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Diálogos entre duas primaveras: um olhar do Egito sobre o Brasil

Por Gustavo Cunha


Houve quem nem desconfiasse. Na última manifestação pelo Dia do Professor, em meados de outubro, uma egípcia se juntou à multidão que clamava por melhores condições de trabalho nas escolas do Rio. Produtora da TV Al Jazeera em Doha, no Catar ­– onde trabalha com cobertura internacional de conflitos –, Salwa Abdeltawab esteve na cidade para participar da Conferência Global de Jornalismo Investigativo, na PUC-RJ. Curiosa, aproveitou para conferir, de perto, uma manifestação carioca em plena Cinelândia, no Centro.




[caption id="attachment_3274" align="alignleft" width="198"]O gigante acordou: milhares foram às ruas, nas manifestações de junho O gigante acordou: milhares foram às ruas, nas manifestações de junho[/caption]

“Permaneci até o fim do protesto. Vi, sim, a violência, mas enxerguei também o outro lado. Tinha muita gente pacífica”, disse, num inglês calmo, a jornalista – que preferiu não se estender muito no assunto, ressaltando que a opinião não representava, necessariamente, o ponto de vista da emissora em que trabalha. “Não me sinto segura para falar sobre esse fenômeno no Brasil, pois sei muito pouco a respeito do país. A informação que nos chega, no Oriente, é rala, normalmente oriunda de agências”, explicou. Sobre a violência nos protestos – entre manifestantes e policiais –, Salwa acredita que é preciso pensar em maneiras mais pacíficas: “Quando você está fazendo violência, você está fazendo violência com o país que quer melhorar”.


Relembre as manifestações de junho. O CASARÃO produziu uma série de textos a respeito do fenônemo político no país.


Mídias sociais: revolução para as documentações jornalísticas


Coincidentemente, a jornalista veio ao Brasil durante a primavera. E pôde assistir, com os próprios olhos, a primavera figurada, política – aquela que coloriu de gente o preto das avenidas. E mesmo com todas as diferenças imagináveis entre os fenômenos no Egito e no Brasil, Salwa conseguiu enxergar semelhanças. Uma, talvez, tenha chamado mais atenção.


“No início da revolta no Egito, nós, jornalistas, nos sentimos ameaçados por coletivos surgidos das redes sociais, na internet. Eles estavam mostrando coisas que a mídia não exibia – até porque muitas emissoras precisavam manter relações com as autoridades para continuar com a autorização de permissão de trabalho. A Al Jazeera, nem tanto – do que eu tenho orgulho. Mas os coletivos de mídia mostravam tudo. Publicavam vídeos online, e o governo logo dizia que era tudo falso, feito no Photoshop. Depois, passaram a transmitir ao vivo”, afirmou, numa tarde chuvosa, em Niterói, em bate-papo sobre jornalismo de conflitos no Instituto de Artes e Comunicação Social, na UFF.


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“De uma forma ou de outra, no Egito, a população saberia o que estava acontecendo nas ruas. Os recursos culturais atraíram mais gente para as ruas, e fez com que a mídia falasse sobre o assunto”, explicou, em tom quase-didático. “Em vez de pedir por reformas (por justiça, por educação, etc), as pessoas passaram a clamar pela mudança do governo. A população não estava satisfeita apenas com a troca de ministros”.


Relembre a Primavera Árabe.


"O repórter precisa ir a campo previamente informado"


Entrar por um lado ou outro da fronteira pode ser decisivo na cobertura jornalística de um conflito. "Em ambos os lados, você terá que ficar de um lado – por exemplo, ou dos rebeldes ou dos militares. E isso acaba dando apenas uma visão dos fatos", opinou Salwa que, em seguida, aconselhou: "O repórter precisa ir a campo previamente informado sobre o local que vai cobrir. É responsabilidade de cada um o trabalho de checagem. Não dá para conferir no lugar".




[caption id="attachment_3280" align="alignleft" width="300"]Noite histórica em 20 de junho: nas manchetes dos jornais, "300 mil pessoas tomaram a Avenida Presidente Vargas". Para manifestantes, pelo menos um milhão de pessoas cobriram o asfalto. Noite histórica em 20 de junho: nas manchetes dos jornais, "300 mil pessoas tomaram a Avenida Presidente Vargas". Para manifestantes, pelo menos um milhão de pessoas cobriram o asfalto.            (Foto: Gustavo Cunha)[/caption]

Entre falas que reiteraram o argumento (incontestável) de que "é primordial estar bem preparado", o público se surpreendeu – mais uma vez – com uma semelhança entre as manifestações no Egito e no Brasil. "Ter uma boa noção matemática também pode ser fundamental. Ou, então, pode ser difícil dar a dimensão numérica de um protesto, por exemplo. Quando a primeira manifestação estourou no Egito, a polícia dizia que havia 250 mil pessoas na Praça Tharir. Por outro lado, os manifestantes calculavam dois milhões", disse, entre a exaltação da plateia, surpresa com o nível de similaridade na disparidade das estimativas numéricas. "Percebi que isso também acontece no Brasil... É preciso calcular o tamanho da praça, ver quantas pessoas cabem lá. Esse também é um dever do jornalista".

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