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Moradores da Vila Autódromo resistem a remoções: 'querem fazer uma limpeza social'

Thayuan Leiras

A Vila Autódromo é uma comunidade pacífica, e não pacificada. Não foi necessária a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela que, segundo os moradores, sempre teve índices baixos de criminalidade nestes 40 anos de existência - mais antiga, inclusive, que o próprio autódromo que dá nome à comunidade, situada em Jacarepaguá, zona oeste. Segundo a Prefeitura do Rio, a Vila Autódromo conta com 354 lotes oficiais e 520 casas para abrigar as cerca de duas mil pessoas que vivem dentro da favela.

A comunidade é uma das áreas da cidade que sofrem com a ameaça de desapropriação por parte da Prefeitura para abrir espaço para as obras da Copa do Mundo-2014 e das Olimpíadas-2016. Os moradores, porém, resistem: "A gente não briga por quatro paredes. Eu costumo dizer que nem se ele [Prefeito Eduardo Paes] me oferecesse uma mansão eu deixaria isso daqui. É a identidade, é a história", afirma Altair Guimarães, presidente da Associação de Moradores e Pescadores da Vila Autódromo.

A favela daria lugar ao Parque Olímpico, conjunto de instalações esportivas que será palco das competições de 14 modalidades nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e nove nas Paraolimpíadas. O conjunto ainda abrigará  o Centro Principal de Mídia (CPM) e o Centro Internacional de Transmissão (IBC) em uma ocupação total de 1,18 milhão de metros quadrados. O Parque Olímpico também está tomando o antigo autódromo de Jacarepaguá, já desativado.

Mas Altair Guimarães, presidente da Associação de Moradores há seis anos, garante que ele e a grande maioria dos habitantes da Vila acreditam em outro motivo para o interesse do governo em retirar a comunidade do local. Nas palavras de Altair, "querem fazer uma limpeza social".

"Hoje, ele [Prefeito Eduardo Paes] está usando a desculpa dos megaeventos para a desapropriação. Eu não vejo por que o prefeito não dá uma cara nova a essa comunidade. A UFF fez um plano popular que ficou em R$ 13,5 milhões, e ele quer criar o Parque Carioca por R$ 105 milhões. Isto é dinheiro público. Tem mais um detalhe: tem família aqui que está há 40 anos colocando dinheiro do seu suor. E o governo nunca deu muita assistência", disse.

Altair continua: "Eu te pergunto uma coisa: se você fosse um empresário e fosse fazer um investimento, gostaria de investir ao lado de uma comunidade, mesmo que essa comunidade fosse pacífica? Não, porque eles não querem saber disso. E quem vem morar, não quer morar perto de uma favela, não querem morar perto de pobre. Onde mora pobre, é favela, e favela já carrega aquele esteriótipo do bandido. Eu te garanto que nós temos muito mais trabalhadores do que bandidos", destacou.

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Governo aponta questão ambiental como justificativa

Responsável pelo processo de remoções, a Secretaria Municipal de Habitação confirmou a remoção dos moradores da Vila Autódromo para a construção do Parque Olímpico alegando questões de violação ambiental, já  que algumas propriedades se encontram em "faixa marginal de rio e lagoa, para fins de recuperação ambiental". A secretaria ainda esclareceu que títulos de propriedade ou de posse não garantem a manutenção do imóvel em caso de desocupação. Também está no planejamento a abertura de trechos de duas vias no local: a Transcarioca e a Transolímpica, além da construção de um terminal de integração do BRT.

Segundo a Prefeitura, após os Jogos Olímpicos, serão erguidas quatro escolas municipais e um parque público que será ligado ao terminal do BRT. Uma das escolas será construída no exato espaço onde, hoje, se encontra a Vila Autódromo.

Veja o especial do movimento Rio Sem Remoções sobre a resistência da comunidade.





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