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Negócio Família

Por Gustavo Cunha e Mariana Pitasse


Com uma mochila pesada nas costas,depois de cutucar um pouco o aparelho smartphone, a menina interrogou, apontando o dedo sobre o vidro quente e curvo que exibia algumas dezenas de salgados: “É de quê, moça?”. Minutos seguintes, outra estudante faria a mesma pergunta. Do outro lado do balcão, Danielle da Silva responderia com o igual sorriso de antes, elencando em tons pausados, enquanto adivinhava: “xisbúrguer, pão de batata com frango, croassan, frango com palmito, queijo com presunto, peito de peru com ricota, só queijo e tomate seco com berinjela”.

Há cerca de 21 anos que a mulher de cabelos curtos e enrolados sacia a fome de alunos do Instituto de Arte e Comunicação Social, o IACS, em Niterói, ao lado dos irmãos Anderson e Adelson. Tudo começou em meados de 1992, quando a matriarca Penha Aparecida, conhecida como Tia Cida, decidiu montar uma barraquinha de salgados caseiros na porta do instituto. “Fazíamos os quitutes em casa porque vendíamos em menor quantidade. Era de tudo um pouco: coxinhas, tortas e doces... A maioria era eu quem fazia. Na época, eu tinha uns 13 anos. Comecei cedo na cozinha”, lembra, com os olhos no passado. Desde então, a história do IACS e de sua família estão interligadas.

Recheado de muitas mudanças, o longo período é definido de forma carinhosa: “Isso aqui é a história da nossa vida”, diz a mulher, apontando para o trailer amarelo. Caçula da família, Anderson da Silva, hoje com 31 anos, tinha apenas dez quando a mãe resolveu montar a barraquinha - “cresci junto com a venda”, afirma. A comida caseira de tia Cida não demorou muito para fazer sucesso. Em pouco tempo, cruzou a fronteira estabelecida pelo portão da faculdade, a partir de um convite dos professores. Daí para frente, a parceria só aumentou, e logo veio a conquista do termo de utilização do espaço - autorização necessária para a construção da cantina ao lado da praia - que todo o estudante do IACS conhece bem.

[caption id="attachment_3092" align="alignright" width="300"]Funcionária contratada para ajudar no trailer, Joyce posa com o filho Junior e Anderson Funcionária contratada para ajudar no trailer, Joyce posa com o filho Junior e Anderson[/caption]

Com o trailer montado, tia Cida começou a servir almoços, além dos salgados e bolos. Anderson destaca que apesar da menor quantidade de alunos, os clientes eram fiéis. “Mais gente comia aqui, porque o bandejão era bem pior e os alunos tinham uma relação mais próxima. Erámos como uma grande família, já que todos passavam o dia inteiro aqui dentro”. O trailer chegou a vender 200 pratos de almoço por dia, hoje reduzidos a uma média de 60. Anderson garante que o público está mais dividido entre a universidade e a vida profissional, traduzida em estágios precoces. “As pessoas estão mais estressadas, e com isso, a educação fica meio de lado. Mas isso infelizmente está se tornando normal em todo o tipo de relação”, analisa.

Atarefada com a gastronomia universitária, Dona Aparecida nunca deixou de zelar pela educação dos filhos. Todos completaram o Ensino Médio. Anderson chegou a cursar três semestres do curso de Economia no Centro Universitário Augusto Motta, a Unisuam, em Bonsucesso, no Rio. Há cinco anos, quando a mãe faleceu, o estímulo para completar a graduação esmoreceu. Mas a labuta de dona Cida acabou deixando como legado perspectivas prósperas para as novas gerações da família. Danielle garante que a escola particular dos filhos é paga com os rendimentos do trailer. “Quero que cada um deles faça faculdade, siga o caminho dos estudos. O sonho do Lucas, de 12 anos, é ser astronauta ou biólogo. A Lara tem apenas dois anos, mas já tento estimulá-la”, diz, referindo-se aos filhos, que têm presença constante na universidade.

[caption id="attachment_3091" align="alignleft" width="300"]Para Danielle, o trailer amarelo é motivo de orgulho: "Isso aqui é a história da nossa vida" Para Danielle, o trailer amarelo é motivo de orgulho: "Isso aqui é a história da nossa vida"[/caption]

As lembranças duradouras e a intimidade com alguns alunos arrancam sorrisos largos da família. “Muitos foram na festa de um ano do meu filho”, recordou, com orgulho, Danielle. A mulher não titubeia quando questionada sobre alguma história inesquecível,guardada com detalhes na memória. “Ah, as festas...!”, exclama, deixando no ar uma longa pausa para reviver o passado na mente. “Eram umas melhores que a outras. Lembro-me bem de uma arraiá que teve aqui uma vez. Vestimos o traje típico, dançamos quadrilha com os alunos e ainda aproveitamos para também vender comidas e bebidas”, recorda.

Hoje, as festas do instituto não contam mais com parceria dos quitutes da família. Em julho, a quantidade de pessoas reunidas no IACS para uma festa junina impressionou alunos e professores, desacostumados com tamanha movimentação. Entre sorrisos embriagados e acordes da banda de forró, o alumínio arranhado do trailer servia de apoio a corpos cansados. “Os tempos parecem ter mudado”, reflete a jovem, com alguma dose de nostálgia.

As mudanças certamente vão continuar. A luta agora é pelo possível novo endereço do espaço. Desta vez, o caminho do IACS ao Gragoatá parece mais distante do que a mera passagem pelo portão com a barraquinha. As dúvidas sobre o local cativo acompanham a construção de um novo instituto do Gragoatá. “Continuar é muito relativo. Nós queremos ir para onde os alunos forem, se tiver espaço queremos estar lá”.

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