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E a música independente, vai bem?

Por Francielly Baliana


Viver de música no Brasil nunca foi fácil. Quem é que nunca ouviu uma música boa, indicada por um amigo, e pensou: “Nossa, por que eu não conheci isso antes?”. A resposta é tão simples, que chega a ser grosseira. “Porque, em algum momento da história, o espaço acabou”. Espaço pra cultura? Exatamente, pra cultura. Pra criação individual. Pra arte. Por incrível que pareça, existe quem pouco se importa com isso. O grande problema é que alguns desses – desgostosos – estão no próprio cenário de música independente. Assim é que nasce o mal conhecido como “PayToPlay” (Pagar Para Tocar).

O PayToPlay é um fenômeno que surgiu dentro do ambiente de música independente, em que casas de show, preocupadas apenas em lucrar muito alto com seus eventos, impõem às bandas e aos artistas em começo de carreira uma condição de negociata de ingressos para seus espetáculos. Trocando em miúdos, o local passa à atração uma cota de ingressos para venda e em troca o grupo ou artista tem o “direito” de utilizar o espaço para mostrar seu trabalho. É como se a banda comprasse seu horário de show.

As bandas nascem nas escolas, nas rodas de amigos, nas ruas, nas pequenas relações; os artistas geralmente são motivados primeiramente por sua intenção de música e apenas por ela. Normalmente, em ambos os casos, esses novos aventureiros musicais não têm nenhum tipo de público, além de bons colegas, grandes amigos e familiares auxiliadores. Somando-os, não tem-se uma platéia que dê o famoso sold out numa casa de show, logo, se essa banda é forçada a vender muitos ingressos para tocar, seu futuro será o evidente fracasso. São muitos custos para um projeto despretensioso ou uma iniciativa apenas musical. O PayToPlay é a “morte” anunciada dessas bandas/artistas e, consequentemente, do cenário de underground, que não se renova.

“Não queremos inventar a roda”

É nesse contexto que surge o Projeto Música Livre, para acrescentar ainda mais a esse universo underground de criação. O jornalista e músico Diego Torres, um dos idealizadores, enfatiza que a tal “morte” artística é quase certa nesse contexto do PayToPlay, e que é preciso criar estratégias para romper com esse padrão. Esse projeto é apenas uma delas.

“Sabendo do mal chamado PayToPlay, em que as bandas têm que pagar pra tocar e serem reconhecidas, e sendo um participante do ambiente de música independente na cidade de São Paulo, decidimos, alguns amigos e eu, chamar grupos de diversas regiões da cidade que não tinham nenhum espaço em suas localidades e/ou fora delas para um festival. Montamos um set list (cronograma de show) com tais artistas e uma trouxemos uma headliner (artista principal), para atrair outros públicos, o que faz com que as outras bandas menores também fiquem conhecidas.”, disse Diego.

A revolução dentro da própria revolução musical foi a internet. Com a capacidade de produção mais rápida e instantânea, o poder de divulgação inigualável, e uma nova filosofia de criação, as redes vieram como um catalisador das produções independentes no universo da música. Fazer um som de qualidade, com edições, cortes e bons efeitos tornou-se muito mais simples e dinâmico. Além disso, divulgar seu trabalho para o mundo é muito mais fácil. As ferramentas são muitas.

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Com os aparatos digitais, mais um passo foi dado na produção. O que restava era investir em estratégias de divulgação e ampliação de espaços no cenário como um todo. Depois de duas edições bem sucedidas do Música Livre, era hora de fazer a ideia crescer, agora, também com o apoio do site Catraca Livre , uma espécie de Agenda Cultural baseada no Jornalismo Comunitário, onde Diego mesmo trabalha.

“Observando o espaço de mídia e de ações culturais propostas pelo Catraca Livre, pude apresentar a ideia à equipe, que aceitou prontamente realizar o evento, e, agora, com uma estrutura muito maior, um pensamento de cenário musical independente muito mais abrangente e com possibilidades e diversificação de informação muito maiores”, explicou o jornalista.

Quem também compõe essa equipe é Rodrigo Lima, vocalista da reconhecida banda Dead Fish. O músico viveu a realidade do hardcore e punk rock independente do Espírito Santo durante os anos 1990 e, junto com seu grupo, expandiu seus horizontes a níveis mundiais. Após ser parte do casting de uma grande gravadora durante um período, está de volta ao cenário independente, com melhores visões e estruturas. Por sua experiência, Rodrigo acredita muito no investimento que pode ser feito nessas bandas.

“O nosso festival vem para fazer o contrário disso tudo. A gente vai criar um meio para que essas bandas possam tocar em nível igual ao das que tocam cotidianamente. Todas estarão num nível horizontal, vão ter o mesmo tempo, a mesma atenção em nosso festival…”, afirmou Rodrigo.

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É importante afirmar que o festival não terá nenhum tipo de segmentação musical. Segundo os idealizadores, todos os estilos serão aceitos para análise da curadoria. Rap, Dub, Harcdore, Punk, Samba… Todos poderão ter voz.

O evento inicial do Música Livre acontecia utilizando a estrutura dos Centros Educacionais Unificados de São Paulo (CEUs) e permanecerá assim. Segundo Diego, estes locais já possuem ótimos anfiteatros, palco, camarins, backline, estrutura de som, luz, segurança. Essa capacidade que os CEUs oferecem trarão aos participantes a experiência e o impacto de um show e festival de verdade, propondo a evolução musical, artística e cultural.

Os CEUs estão localizados em pontos estratégicos dos bairros periféricos da cidade de São Paulo e este fator será importante para a realização do festival, já que há a intenção de promover engajamento social das comunidades envoltas a estes locais.

O evento será bimestral e contará com a seguinte estrutura:

- Duas bandas oriundas da região de realização do evento, com o intuito de criar atrativo e público vindo das comunidades que estão em volta dos CEUs. Assim, as bandas terão públicos maiores dentro do seu raio de atuação e criação, ou seja, mais possibilidades de contatos.

- Duas bandas de outras regiões, que não a de realização do evento, pois assim serão criados pontos de encontro de informação entre elementos que, por conta da geolocalização, não se juntariam, ou poderiam demorar muito para que pudessem ter contato.

Rodrigo afirma que a presença de uma banda ou artista headliner, mais conhecida no cenário, atrairá um público diferente para o evento. “A intenção de instaurar uma banda assim no evento é dar credibilidade às bandas que irão tocar e trocar experiências com quem já atua no cenário musical, além de dar força ao nosso público e nosso evento.”, completou o músico.

O movimento, na verdade, acontece na internet

A independência desse evento não para na produção. O Catraca Livre também irá ajudar na criação e manutenção de uma plataforma digital para essas bandas divulgarem seus trabalhos.

“A ideia é criar um portal de Música Independente dentro do Catraca Livre. Nessa home, a banda poderá fazer um cadastro e criar uma página personalizada sobre seu trabalho, postando informações como release, fotos, músicas, vídeos, etc. Inclusive, a banda poderá utilizar esta página Catraca Livre como seu próprio site.”, informou Diego.

Além de ser um banco de informações úteis aos participantes e ao público, com divisões editoriais, tutoriais online de música, instrumentação e produção, essa plataforma também concentrará dicas de divulgação e outros conteúdos que possam agregar profissionalização ao cenário independente.

“Faremos uma agenda comunitária no portal. Todas as bandas que tiverem cadastro em nossa base poderão postar seus eventos e exibi-los nessa agenda, em que o usuário terá a possibilidade de clicar em um dia específico e ver quais eventos acontecerão naquela data. Haverá diversos modos de seleção: por data, por estilo, por artista ou banda, por local, etc.”, disse o jornalista.

“Nosso festival não quer inventar a roda, queremos apenas criar uma base de informação e interação social, para que, a partir deste ponto, os participantes ganhem asas e possam alçar seus próprios voos. O universo de música independente é o novo mainstream.” – concluiu Diego.

Ao fim, os idealizadores fizeram questão de agradecer à herança que o punk dos anos 1970 os deu. Estão fazendo por eles mesmos.

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