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Entrevista com o jornalista Álvaro Neiva

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Por Augusto Mendes e Thiago Medeiros


A relação entre comunicação no Brasil e as manifestações de junho, a relação cada vez mais estreita dos cursos de comunicação e o mercado, a televisão frente ao advento da internet, a conferência de comunicação, o panorama da comunicação pública no Brasil, novas mídias em rede e o papel do jornalista na defesa dos movimentos sociais.


O Jornalista


Mais do que um jornalista debruçado nas pautas de uma redação, Álvaro Neiva é o que podemos chamar de um intelectual orgânico da comunicação. A escolha de ser jornalista foi tomada por possuir uma perspectiva muito romântica da profissão, acreditando no potencial do jornalismo em modificar a sociedade. Álvaro coleciona passagens pelo Caderno do Terceiro Mundo, pela revista ecologia e desenvolvimento e por uma agência internacional de noticias espanhola - Agência F. Em seguida, trabalhou com o jornalismo sindical, que segundo ele “permitiu tentar fazer um tipo de comunicação diferente da que é vista no mercado”.


Seu mestrado foi feito na UERJ no programa de políticas públicas e formação humana, tendo como objeto de pesquisa as disputas políticas em torno da classificação indicativa dos programas de televisão e diferentes concepções do que significa democracia na rádio difusão. Atualmente, está cursando o doutorado na escola de comunicação da UFRJ.


Álvaro não restringe seu trabalho à pena que paga seu salário e é figura conhecida entre os militantes pela democratização da comunicação no país. Com a paciência e boa vontade que lhe é típico, concedeu uma entrevista de pouco mais de uma hora com muito bom humor. Perguntamos de tudo um pouco, Alvaro respondeu tudo e mais um pouco.


 Jornalismo, Universidade e Mercado


Ele fez o curso de comunicação na UFRJ na segunda metade da década de 90, durante o governo FHC. O jornalismo para o mercado já era uma tendência em vários cursos e se intensificou muito nos últimos anos. A academia vem transformando a comunicação em algo pouco crítico e com um viés de formar mão de obra pro mercado. Obviamente que existe resistência a isso dentro das universidades, mas essa tendência está ganhando muita força. De acordo com Álvaro, a solução para isso é uma formação que seja mais ampla: “Uma formação consistente deve ser buscada e ao mesmo tempo ter um entendimento critico do que é o mercado, de qual é o seu espaço e se quer ou não se inserir”.


 Rede de Comunicadores pela Reforma Agrária e Intervozes


A partir do movimento estudantil na faculdade, ele compreendeu as limitações que tinha o jornalismo por conta do mercado. Tanto no centro acadêmico quanto na Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social), discutiu outras perspectivas de comunicação. Atualmente, sua atuação é norteada por uma comunicação alternativa, com uma perspectiva de fazer um debate mais amplo sobre mudanças nas políticas de comunicação que permitissem maior pluralidade e maior diversidade, ainda que delimitado pela democracia burguesa.


Como comunicador para a reforma agrária, ele conta que o MST sofreu um ataque muito duro por parte da mídia burguesa representando os interesses do agronegócio, e por isso, reuniu uma serie de ativistas da comunicação pra fazer uma resposta a todas aqueles ataques falsos. Dentro do Coletivo Intervozes, na Frente Ampla Pela Liberdade de Expressão e Direito à Comunicação do Rio (FALE RIO), debate varias questões da comunicação, como o marco civil da internet e a possibilidade de uma nova lei geral nas comunicações que permitam diminuir o peso das grandes corporações e a possibilidade de novas vozes, de novos movimentos, representantes de sindicatos, rádios comunitárias,  tendo maior capacidade de fundir suas ideias, culturas, valores.


 Manifestações de junho e a Democratização da Comunicação - “O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo!”. Clique e confira os vídeos!


Para Álvaro, a comunicação é um setor que pouco obteve avanços democráticos desde o fim da ditadura “um oligopólio bárbaro, cuja maior representação é a Rede Globo que cresceu exponencialmente com a ajuda política e muitas vezes financeira da própria ditadura”. Ele avalia que apesar de ser algo residual, sempre houve uma resistência de setores organizados, mas que explodiu de uma forma muito grande na jornada de junho, tomando grandes proporções. Ao mesmo tempo, segundo ele, não é possível ainda avaliar os impactos do movimento e que também não teve repercussão direta pela democratização da comunicação. “Ninguém teve capacidade de compreender o que foi junho e os seus desdobramentos. Penso que o movimento segue em aberto e a perspectiva é que em 2014 seja um ano das intensificações das lutas, ainda sobre o signo da jornada de junho. A nossa obrigação é seguir tentando capitalizar aquele sentimento dos milhões de que não é preciso apenas ter uma palavra de ordem, mas ter um enfrentamento mais concreto”.


Comunicação Alternativa e em Rede


A comunicação ativa em rede não nasceu hoje e, segundo ele, essa perspectiva da intensificação não se deu em junho no Brasil, “é algo que vem se intensificando globalmente ao longo dos últimos anos, vinculado com a retomada das mobilizações massivas em diversas partes do mundo”. Álvaro deixa claro que é preciso seguir esse caminho: “Acredito que temos que apostar, é difícil, pois há diversas formas de opressão, seja a policial armada, que os mídia ninja enfrentaram em junho, seja a opressão financeira, seja a questão da neutralidade da rede, que pode ser um golpe duro nesse tipo de ativismo midiático. É preciso trabalhar para que haja o fortalecimento das redes, do aparato tecnológico das ferramentas, ampliar a rede de colaboradores. Tentar ampliar o nosso público através de novos mecanismos”.


 A televisão e o advento da Internet


Sobre o impacto do advento da internet na televisão, Álvaro não vê sua superação num prazo médio. No entanto, ele reconhece a internet como um espaço de disputa de hegemonia e que é preciso estar atento ao debate sobre o seu marco civil, pois o que for decidido ali “tem a possibilidade de dar um golpe e representar uma grande restrição à liberdade de difusão na internet”. Ele destaca a questão da neutralidade da rede como a mais importante para que não sejam as corporações que decidam como vai ser o acesso às informações e quais conteúdos pode ser acessados.


 Conferência de Comunicação


O jornalista se mostra crítico com relação aos resultados obtidos na Conferência de Comunicação realizada ainda durante o governo Lula. Ele não vê avanços concretos e atribui a isso grande responsabilidade do governo “que atendeu aos interesses do empresariado”, diferente do que reconhece que vem acontecendo em outros países latino-americanos, como a Argentina, Uruguai  e Equador.


 Comunicação Pública no Brasil


Por outro lado, reconhece como uma vitória a Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, que permitiu uma dimensão nacional para as emissoras públicas do Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, ele destaca a falta de definição do seu caráter “Um dos problemas da EBC é a dificuldade de explicitar se essa empresa pública é estatal ou é da sociedade.” e a necessidade de a EBC avançar produzindo mais conteúdo, chegando a mais lugares e tendo investimento para avançar tecnologicamente.


 Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação


Falando sobre o FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), Álvaro relembra que durante a realização da Conferência Nacional de Comunicação, um processo muito importante foi a existência dos comitês regionais pró conferência de comunicação, que permitiu "um grande avanço no debate de comunicação com uma grande capilaridade em praticamente todos os estados do Brasil e com setores que não estão exatamente ligados a comunicação”. Porém, ressalta que nesse momento o FNDC cumpriu um papel ruim, “querendo ser o porta-voz do movimento de comunicação quando ele não dava conta disso.” E tendo como consequência desse enfraquecimento daquele movimento plural nos anos seguintes. Ele acha, entretanto, que, o Fórum tem cumprido um papel importante no último ano, embora tenha “dúvidas se o Fórum dá conta da pluralidade e se os setores que querem construir um processo da comunicação devem se integrar ao Fórum ou se podem constituir uma frente mais ampla”.

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