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Lealdade

Por Lucas Bastos


Em um pequeno vilarejo no meio de vastos campos verdejantes havia apenas um cavaleiro. Este era ainda um rapaz, de aproximadamente 18 anos. Andava bem à cavalo, era tão bom nas artes da espada quanto era querido por todos seus vizinhos. Entretanto, sua vida calma e pacata tão semelhante ao do próprio vilarejo estava ameaçada: uma caravana de saqueadores terríveis foi vista avançando em direção às suas terras, prontos para destruir, pilhar, enfim, transformar a vida de todos em um inferno. Infelizmente, só havia um homem para enfrentá-los. Por mais que todos amassem o jovem cavaleiro, os moradores não poderiam deixar de se perguntar: que chances ele teria ao combater sozinho um grupo de bandidos experientes? Provavelmente nenhuma. O próprio rapaz sabia da resposta. Mas se algo não tem remédio, é porque remediado está.

Os bandidos chegaram duas noites depois. A cavalo, armados com lanças, espadas, maças e a certeza de que venceriam. Afinal, no portão do pequeno vilarejo, havia apenas um garoto. Mesmo que estivesse pronto para defender seu lar até a morte, não passava de um garoto. Ele era 1 contra pelo menos 100. A derrota era inevitável. Era.

Minutos antes do combate ter início, uma mulher surgiu de trás das colinas ao leste, lá longe, no horizonte. Ninguém sabe de onde veio ou o que ela tinha a ver com toda a historia, mas o fato é que após o primeiro disparo do seu arco, após essa flecha atingir o pescoço de um dos saqueadores e abatê-lo imediatamente, todos entenderam que ela veio lutar ao lado do jovem cavaleiro, diminuindo a covardia.

Apesar da improbabilidade de vitória, homem e mulher lutaram lado ao lado contra a horda de inimigos. Ela com o seu arco, sua atitude, seu espírito de amazona. Ele com sua espada, sua coragem, e seu fascínio pela sua companhia. Ao fim da madrugada, o triunfo impossível ocorreu: o cavaleiro e a arqueira derrotaram todos os inimigos e salvaram a vida de todos os habitantes do vilarejo.

Durante 7 dias e 7 noites os moradores festejaram a vitória. Eles beberam, escreveram músicas sobre o acontecimento, começaram a construir estátuas pros dois, reencenaram a batalha, e principalmente idolatraram seus salvadores. Enquanto isso, o cavaleiro conhecia melhor sua companheira de batalha. Ela era linda e selvagem, sensual e provocante, um sonho misturado com doce realidade. Conforme os dias iam se passando o cavaleiro ia se apaixonando pela sua companheira, e ao fim da sétima noite não resistiu e pediu-a em casamento. Ela agradeceu o pedido, disse que ele era o mais bravo cavaleiro entre todos que já encontrara, mas que não era o seu destino pertencer a ninguém. Ela pertencia ao mundo, e por lá caminharia até o fim dos seus dias, percorrendo cada centímetro da terra. Percebendo sua tristeza, a mulher fez questão de deixar claro que aquele encontro também tinha sido especial para ela. Por isso mesmo, quando estivesse velha, cansada, mas principalmente satisfeita por ter visto de tudo, ela voltaria para o vilarejo, onde o reencontraria para passar seus últimos dias juntos. Temendo que não fosse encontrar acordo melhor que esse, ele topou, mas disse que manteria contato, para saber como ela estava, o que tinha visto, e, principalmente, para saber quando ela voltaria.

Assim ficou combinado, e assim se deu. Durante 5, 10, 20, 50, 100 anos, os dois mantiveram contato dessa forma. O cavaleiro lançava sua fiel ave, uma águia preta e branca, que levava suas noticias e trazia as dela. Nesse meio tempo, ela visitou reinos de todos os tipos, conheceu pessoas de todos os jeitos, comeu alimentos de todos os gostos, e viu todos os crepúsculos que alguém poderia ver em sua vida. Ele, por sua vez, permaneceu no vilarejo, protegendo-o. Viu gerações surgirem, amigos queridos chegarem e partirem. Desposou 3 mulheres e todas viveram menos que ele, partindo seu coração. Seus herdeiros eram fortes, todos cavaleiros, e alguns já eram até velhos e casados. Todos lhe davam orgulho. Mas ainda faltava um pedacinho, um detalhe para sua vida e sua felicidade estarem completas: sua companheira de guerra.

Durante aqueles anos nos quais viveram afastados, o cavaleiro percebeu que, no fundo, a amava. Não como um homem ama uma mulher na cama, mas como um amigo ama uma companheira de confidências, alguém que está ao seu lado nos momentos tristes, mas que também está pronta para rir junto com você das alegrias da vida. Ao longo de sua existência, ele nunca saiu do vilarejo. No início era seu dever permanecer no local pois era o único que poderia guardá-lo. Mas mesmo depois que surgiram outros sujeitos capazes de proteger os cidadãos, ele relutou em sair de seu lar. Na verdade ele tinha medo que pudesse se desencontrar da mulher que há tanto tempo não vira. Por isso ele preferiu esperar, e jurou para si mesmo que nunca iria se arrepender dessa escolha.

Após mais anos do que ele poderia contar, a mulher finalmente retornou. Sua pele estava enrugada, seu corpo curvado, seus cabelos esbranquiçados. Mas ela possuía a mesma energia de há tantos anos atrás, e continuava tão linda quando da última vez que a vira. Quando ela chegou montada em seu cavalo, o agora velho cavaleiro a ajudou a descer, e nesse momento os dois se encararam durante muito tempo. Ele ignorou todas as marcas do tempo e olhou bem no fundo de seus olhos, e quando o fez, enxergou a linda mulher que tanto desejou e depois aprendeu a amar como uma irmã. Ela também o olhou com cuidado, e admirou o seu nobre cavaleiro, aquele que tão pacientemente esperou pelo seu retorno. Os dois se abraçaram ainda em silêncio, e passaram muito tempo assim, com medo de largar o outro e acabarem se separando novamente. Muitos minutos e lágrimas depois, os dois voltaram a se olhar, agora de mãos dadas. Quem quebrou o silêncio foi ela:

- Os anos fizeram bem a você, jovem cavaleiro.

- Eu ia lhe dizer a mesma coisa, linda amazona. Quantos foram mesmo?

- Tempo demais – ela respondeu.

E assim, de mãos dadas e corações mais ligados ainda, partiram em direção ao vilarejo. Reza a lenda que os dois viveram mais um bom tempo juntos, recordando o passado: ela contando historias maravilhosas sobre o mundo e suas peculiaridades; ele sobre o vilarejo e as delícias de uma vida pacata e comum. E até o fim de suas vidas a sua amizade, e principalmente sua lealdade, os mantiveram juntos.

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