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Trinta segundos

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Por Fernanda Costantino


Não sabia como se comportar na minha presença, nem como encostar em mim. Tímido. Encostou a mão na minha perna e eu me arrepiei. Coisa boba. Eu, já escaldada, me arrepiando com tão pequena bobeira. Ficou três minutos com a mão na minha perna. O lugar parecia eletrizado. Eu contava da minha viagem pra Alemanha, perdi até as palavras. Minha perna formigava, a mão tremia, pele fria, mil átomos por milésimo de segundo. Tirou a mão e eu quis gritar: "Não, volta! Que tava bom!". Mas peguei a timidez. Nunca aconteceu antes. Paralisei sem saber o que fazer.

Agora era ele que me contava uma história, mas eu mal ouvia o que me falava. Qualquer coisa sobre um filme que tá passando no cinema sobre a Segunda Guerra Mundial. Ou não é filme, mas é só guerra. Cheguei mais perto. Joelho com joelho. Eletrizou de novo. Coxa com coxa. Cotovelo com cotovelo. Antebraços se esbarrando. Fiquei tão perto que quase não fazia sentido. Estava esquisito. Ele gesticulando e meu braço atrapalhando cada movimento. Perto demais e ele falando de sei lá o que com Muro de Berlim, Guerra Fria. Eu achava que era de Hitler, de Segunda Guerra, mas ele já tinha derrubado o muro.

- Você entendeu? É coisa demais pra cabeça. - ele perguntou eufórico e sem saber aonde colocar a mão, agora que parava de gesticular.

Demorei exatos 30 segundos propositais para responder. Coisa demais pra cabeça. E, afinal, eu tinha uma teoria. Vi num filme de Tarantino. A gente encontra alguém especial quando consegue ficar em silêncio com aquela pessoa de forma confortável. Sem ter que preencher o vazio com baboseiras sobre tempo, política e etc e tal. Testei.

30, 29, 28...

A mão dele voltou para minha perna.

27, 26, 25, 24, 23...

Eu olhei bem no meio dos olhos dele. Eram bonitos, nunca havia reparado.

22, 21, 20...

Dobrei a perna, que ficou em cima da mão. Assim não me escapa.

19, 18, 17, 16...

Ele colocou meu cabelo para trás da orelha. Me derreti. Não era eu. Em qualquer outra época, pessoa, lugar ou espaço sideral, teria achado esse o gesto mais babaca do mundo. Mas hoje não.

15, 14...

Eu, a grande babaca da noite, sorri sem mostrar meus dentes.

13, 12, 11, 10...

Não conseguia mais respirar.

9, 8, 7...

Acho que minha barriga fez um barulho esquisito.

6, 5, 4, 3, 2, 1.

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