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Pipoca é com ele mesmo

Sebastião Figueira Diniz já é patrimônio do IACS: há 25 anos, tempera o intervalo das aulas com simpatia


Por Gustavo Cunha e Mariana Pitasse


 

Uma noite de chuviscos não é sinônimo de queda nas vendas para Sebastião Figueira Diniz. Protegido por um boné, o pipoqueiro carrega a carrocinha para perto do poste de luz, no Instituto de Arte e Comunicação Social da UFF, o IACS, facilitando a sessão de fotos que o deixa um pouco envergonhado. “Vai ser rápido, né?”, pergunta. O primeiro clique é logo interrompido por uma estudante, que quer o pacote completo: “Salgada e doce! Com leite condensado, tá?”. Em questão de segundos, outros seis estudantes aparecem, aglomerados abaixo de um guarda-sol improvisado na barraca, que os protege da chuva. “Essa é a melhor pipoca que já comi na vida”, exclama com conviccção uma das garotas, receosa de aparecer nas fotos.

 

[caption id="attachment_4624" align="aligncenter" width="408"]De segunda à quinta-feira, Sebastião termina o seu dia de trabalho no IACS De segunda à quinta-feira, Sebastião termina o seu dia de trabalho no IACS[/caption]

 

Há 25 anos, Tião (como é conhecido pelos mais próximos) tempera os intervalos das aulas na faculdade da Rua Prof. Lara Vilela, em São Domingos, com muita simpatia. “Se encontrarem uma pipoca doce melhor que a minha, pode voltar que não paga nada”, brada aos clientes. O segredo para o caprichoso sabor é uma simples mistura de canela com açúcar. “Eu faço essa misturinha, acho que fica melhor. Cada um faz da sua maneira, né? Tem gente que usa chocolate, mas a pipoca fica preta, amargando, meio enjoativa”, explica.

O sotaque com a cadência levemente arrastada é resquício das origens do interior. Nascido em Santo Antônio de Pádua, no norte fluminense, Sebastião decidiu tentar a vida na capital, em meados da década de 1980. Abrigou-se na casa do irmão, em São Gonçalo. “Mas ele logo se casou, e aí fui dividir apartamento com outros sete colegas. Depois de um tempo, também casei”, conta.
Minha relação com as pessoas é a melhor possível. Estou aqui no calor, no vento, no frio...

Com pouco estudo, Sebastião chegou à região metropolitana sem saber bem com o que trabalhar. Viu no carrinho de pipoca do primo - “que não usava, por vergonha de ser visto pelas meninas” - a oportunidade que esperava. Não demorou a aprender o ofício. “Ele me chamou para dividir trabalho. Me mostrou mais ou menos e disse: ‘é assim, assado… Agora, é só se virar’. Em duas semanas, já tinha aprendido tudo”, afirma.

Ao longo do tempo, o pipoqueiro aprimorou a técnica, labutando por pontos variados de Niterói. Hoje, a rotina se estende de domingo a domingo, com uma pausa na sexta - “o dia oficial de descanso dos pipoqueiros”, como classifica. O final de semana é o período mais agitado: depois de estourar milhos no Campo de São Bento, segue para a Praia de Icaraí e aonde mais tiver movimento. “Sábado e domingo é ralação total: pego às 8h e largo às 22h. Isso quando não faço nenhuma festa”, exclama. Em média, são gastos cinco quilos de milho por semana, o equivalente a 30 caixinhas de pipoca. Todo o material vem de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. “Ser pipoqueiro não é fácil, não”, desabafa.

Antes de frear o carrinho na faculdade, de segunda a quinta, o pipoqueiro ainda faz ponto em dois colégios nas redondezas. “As mães me chamam para os colégios. Na última escola que coloquei meu carrinho na porta, a diretora encrencou comigo. A primeira coisa que fiz foi pedir para ela ligar para a diretora do Meu Sonho, colégio onde trabalho há mais de 20 anos, que lhe disse: ‘olha, eu não quero que o Tião vá para aí, não, porque se não eu vou perder ele aqui, na saída do meu colégio’”, conta com orgulho. Para contornar o excesso de estima, ele agora se divide por duas tardes em cada escola e fecha as noites sempre no IACS. Todos os dias, o carrinho é guardado no casarão rosa. “Sempre faço amizade com os diretores do instituto, que quebram esse galho para mim”, explica.

 

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E quando o assunto é o projeto de mudança do IACS para o campus do Gragoatá, Tião se mostra apreensivo. “Eu gostaria muito de trabalhar lá, mas o prefeito do campus me disse que não posso, porque vou atrapalhar a venda dos trailers. Penso em pedir o apoio dos alunos. A única coisa que a gente conta nesse momento é com esse apoio”, diz, em tom de apelo.

Nas avaliações do pipoqueiro, este foi o pior ano em relação às vendas. “O movimento está fraco. A maioria dos alunos que gastava aqui no IACS agora está tendo aula no Gragoatá”, diz, reafirmando que deseja muito continuar a fazer parte da história do instituto. “Minha relação com as pessoas é a melhor possível. Estou aqui no calor, no vento, no frio…”, relata, entre brincadeiras do pequeno Junior, de sete anos, filho de Joyce, funcionária da cantina da faculdade. No fim do papo, os repórteres se lembram de que esqueceram de fazer apenas uma pergunta, simples: “ quantos anos, Tião?” O pipoqueiro responde, com ar de dúvida: “Rapaz, acho que estou caminhando para 57 ou 58. Deve ser isso, sabia?”.

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