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Jogo de gente grande

Híbridos de brincadeira e negócio, os Trading Card Games multiplicam números de fãs e cifras no Brasil


Por André Borba e Lucas Bastos


Quem passa pela movimentada Avenida Ernani do Amaral Peixoto, no Centro de Niterói, talvez não saiba que batalhas místicas e guerras medievais se desenrolam perto dali. Os guerreiros que travam esses duelos são crianças, jovens universitários e até executivos de terno e gravata. Mas longe de empunharem espadas e escudos, eles se utilizam de cartas e dados para as disputas. São os jogadores de Trading Card Games (TCG), que têm como ponto de encontro uma loja de uma galeria comercial.

[caption id="attachment_4666" align="aligncenter" width="470"]Battle Scenes: um dos muitos card games Battle Scenes: um dos muitos card games[/caption]

Os jogos reúnem personagens mitológicos, criaturas fantásticas, muita magia e alguns números que chamam atenção. De acordo com a Hasbro, empresa multinacional do segmento de brinquedos e entretenimento, cerca de 12 milhões de pessoas no mundo jogam Magic: the Gathering. Estão considerados nessa conta apenas os que participam de torneios oficiais, não entram os que disputam partidas de forma casual, com seus amigos ou em campeonatos amadores. Se esse número de jogadores torcesse por um clube brasileiro de futebol, por exemplo, sua torcida ficaria em 4º lugar no ranking das maiores do Brasil. Só seria menor que as do Flamengo, Corinthians e São Paulo.

As cifras movimentadas também impressionam. No início de 2012, Magic: the Gathering possuía sua marca avaliada em 200 milhões de dólares, cerca de R$ 430 milhões. Graças a um crescimento de 35% , registrado no último triênio, o valor da marca atingiu R$ 585 milhões.

 
No formato Legacy, um dos muitos de Magic, as pessoas chegam a pagar R$ 2 mil por quatro cartas. Pedro Bastos, vendedor

 

[caption id="attachment_4664" align="alignright" width="202"]casa7 Pedro: experiência de sobra no ramo[/caption]

Já em um outro patamar da economia dos card games, a venda de cartas pode gerar uns bons trocados para os jogadores e lojistas. Pedro Bastos, vendedor na loja Legion Card Games, conta que quem deseja participar de grandes torneios e ficar nos primeiros lugares precisa esvaziar os bolsos: “No formato Legacy, um dos muitos de Magic, as pessoas chegam a pagar R$ 2 mil para comprar quatro cartas. Já no T2, que é o mais difundido nas competições, a média varia entre R$ 500 e R$ 2 mil”, explica.

Pedro está empregado há um ano na loja e traz no currículo a experiência de ter trabalhado numa concorrente. Familiarizado com TCG desde 2001, o vendedor só joga no tempo livre e, vez ou outra, aos sábados, após o expediente. “Infelizmente, jogar não faz parte do trabalho”, lamenta Pedro, que se desfez do seu próprio deck, mas fica de olho na cotação das cartas. “Vendi as cartas que me convinha e guardei as que eu acho que vão valorizar daqui a algum tempo”, diz o rapaz.

Esse mercado milionário levanta uma questão: como um jogo fabricado com um material barato pode mover tanto dinheiro? A resposta passa pelo valor de algumas cartas utilizadas. Um deck comum custa em média R$ 30. No entanto, a busca por um baralho do nível de grandes torneios resulta na valorização de algumas cartas. Esse valor é determinado por fatores como a raridade, sua adequação a diferentes estratégias e a procura dos jogadores.

Essa lógica de mercado restringe o público que participa dos campeonatos. Mas, mesmo assim, há quem se satisfaça com torneios amadores e um deck menos elaborado. Esse é o caso do estudante de Letras Sidney dos Santos, que reconhece o caráter comercial do jogo e prefere não participar de competições. “Eu só jogo pela diversão mesmo, já que não tenho como montar um deck de campeonato”, afirma o rapaz, que indica Pokémon e Magic como os TCG preferidos. “Determinadas cartas chegam a custar R$ 1,2 mil. Conheço gente que já gastou R$ 10 mil só com a compra de cartas”, ressalta.

[caption id="attachment_4665" align="aligncenter" width="300"]Sidney participa de torneio amadores Sidney participa de torneios amadores[/caption]

O também estudante de Letras Lucas Mizumoto, de 21 anos, teve o primeiro contato com TCG ainda na infância, quando ganhou um booster de Pokémon de aniversário. Já crescido, vê o jogo como um hobby a ser levado a sério. Ele e mais cinco amigos formaram uma sociedade, na qual o valor da compra de cartas e o seu uso é dividido entre os sócios. “Todo mês, durante a temporada de torneios, cada integrante tem que investir R$ 250 na compra de cartas”, explica Mizumoto que já viajou para diversas cidades brasileiras para participar de competições.

O alto valor investido em baralhos competitivos muitas vezes não encontra recompensa financeira. Pedro admite que o retorno só é possível caso o jogador consiga se manter com regularidade nas primeiras posições. Como a premiação em dinheiro no Brasil é proibida, de acordo com a mesma lei que proíbe jogos de azar, os competidores recebem o prêmio em boosters ou em crédito para gastar como quiserem na loja que organizou o evento. Muito diferente do modelo dos Estados Unidos, em que há campeonatos que premiam o vencedor com até US$ 40 mil, como o Magic World Championship.

Conheça outros jogadores de Trading Card Games



Cardgamês


Trading Card Games: Jogos de cartas colecionáveis normalmente estampadas com algum personagem ou criatura mágica. São jogos de estratégia disputados por dois ou mais jogadores.

Boosters: Envelopes com cartas sortidas de um TCG específico.

Deck: Nome dado aos baralhos utilizados pelos jogadores. Para cada torneio há um número específico de cartas que um deck pode ter.

Formato: Regras específicas que regulamentam uma modalidade no qual o TCG é jogado. Alguns formatos admitem o uso de todas as cartas já lançadas, outros só aceitam cartas de determinada edição.

Um comentário:

  1. […] maioria dos jogadores teve seu primeiro contato com os card games quando criança. Foi assim com Pedro, Sidney, Mizumoto e Marília Milagres, estudante de Edificações da Faetec. Aos 19 anos, a jovem conta que começou […]

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