Navigation Menu

Parkour: adrenalina dos saltos

Por Gabriel Oliveira


A tarde de sábado ensolarada no Aterro do Flamengo parece perfeita para relaxar ou praticar algum esporte nas várias quadras espalhadas em um dos locais mais frequentados pelos cariocas que gostam de fazer um programa ao ar livre nos fins de semana. Um pouco mais afastado da orla da praia, das ciclovias e quadras poliesportivas, um grupo de jovens pratica uma modalidade ainda pouco difundida no Brasil: o Parkour.

Criado na França nos anos 80 por David Belle e Yann Hnautra, o Parkour (também conhecido como arte do deslocamento) consiste em uma prática em que o objetivo é mover-se de um ponto a outro da forma mais rápida e eficiente possível usando apenas o próprio corpo. Os obstáculos estão no próprio ambiente de circulação cotidiana: prédios, muros, marquises ou qualquer outra configuração de paisagem que pareça desafiadora serve como “alvo” para os recorrentes saltos dos praticantes.

[caption id="attachment_4794" align="aligncenter" width="470"]Leandro treina Parkour desde os 13 anos (Foto: Gabriel Oliveira) Leandro treina Parkour desde os 13 anos (Foto: Gabriel Oliveira)[/caption]

É em um cenário composto por vários desses pequenos obstáculos, construídos num ponto um pouco mais afastado do Aterro do Flamengo, que Leandro Franco, de 16 anos, treina com um grupo de amigos aos finais de semana o Parkour. Praticante da modalidade desde os 13, Leandro explica que praticava artes marcias em uma academia de Botafogo, quando conheceu Vance Poubel, considerado o grande difusor do Parkour no Rio de Janeiro. A partir daí, Leandro e alguns amigos conheceram as noções básicas da prática e depois não pararam mais. “Desde que eu e meus amigos começamos a treinar, nós buscamos nos aperfeiçoar sempre, embora eu esteja ainda longe de ter a mesma técnica que o Vance, por exemplo”, conta o estudante.

O adolescente explica que quando conheceu o esporte o número de praticantes ainda era bem pequeno, mas o boca a boca começou a tornar a modalidade um pouco mais conhecida e desde então a quantidade de adeptos vem crescendo “No começo, eu basicamente só treinava com a galera que conheceu o Parkour lá na academia, mas muita gente começou a se interessar quando passamos a treinar os saltos na rua”. Já em relação aos espaços onde os treinos de Parkour são permitidos, Leandro destaca que em locais públicos não há qualquer tipo de restrição à modalidade, mas que em espaços privados as dificuldades costumam ser bem maiores. “Quando queremos gravar vídeos saltando de um prédio a outro, por exemplo, nós procuramos não chamar muita atenção e ficamos por pouco tempo. É por isso que treinamos mais em locais públicos mesmo”.

[caption id="attachment_4799" align="aligncenter" width="470"]O número de adeptos ao Parkour cresceu nos últimos anos (Foto: Gabriel Oliveira) O número de adeptos ao Parkour cresceu nos últimos anos (Foto: Gabriel Oliveira)[/caption]

Leandro também ressalta que o tempo para se começar a fazer saltos mais arriscados varia muito de uma pessoa para outra. Ele conta que o estado psicológico e o nível de autoconfiança de cada um muitas vezes determinam um tempo de aprendizado maior ou menor, mas lembra que o aspecto mais importante é a dedicação regular aos treinos, além da capacidade de vencer o medo. Durante o treino, Leandro dá essa orientação a um dos praticantes mais inexperientes após a falha em um salto. “Se você já pular com medo, não vai conseguir chegar do outro lado. Fica calmo”.

Lesões, Escher Parkour e diferenças em relação ao Free Running

Ao falar sobre os principais acidentes ligados ao universo do Parkour, Leandro revela que nunca sofreu qualquer tipo de fratura em decorrência de quedas. Ele explica que as principais lesões costumam ser menos graves. “Praticando Parkour eu nunca fraturei um braço ou perna. O máximo que já aconteceu foi quebrar o dedo ao dar um mortal durante um treino. É claro que as quedas acontecem, e eu já bati com o braço no chão, ralei e abri o joelho, mas nada tão grave”.

Leandro explica que a adesão do público feminino à prática costuma ser um pouco menor, apontando alguns dos principais fatores que ainda colocam o Parkour como um esporte majoritariamente masculino. “Nós temos algumas meninas que treinam com a gente, mas não com tanta frequência. O que mais costuma desmotivá-las é o fato de o desenvolvimento da musculatura dos homens ser mais rápido. Como esse ganho de força delas é mais lento, isso muitas vezes atrapalha o salto sobre um muro, por exemplo”, relata. Por coincidência, Leandro preocupou os amigos ao estalar o braço direito quando realizou alguns saltos sequenciais, mas a queda foi menos grave do que todos pensavam e, cerca de três minutos depois, o estudante já havia voltado ao treino.

Como maior forma de divulgação de esporte, Leandro e um grupo de amigos criaram a Escher Parkour, que conta um site próprio, página no facebook e canal de vídeos no Youtube. Com uma série de fotos e vídeos gravados em cenários diversos do Rio de Janeiro, principalmente ambientes urbanos, Leandro fala sobre os objetivos da criação da marca. “A Escher existe basicamente pra difundirmos a prática do Parkour e o nosso trabalho. As camisas do nosso grupo, por exemplo, são feitas mais para termos uma identidade visual e divulgarmos o Parkour aqui no Rio. O nosso objetivo não é lucrar com a venda dessas roupas”, ressalva o adolescente. Ele lembra ainda que, para praticantes mais experientes, eventualmente surgem convites para a gravação de comerciais de TV ou cenas de dublê em novelas ou séries, mas enfatiza que os praticantes de Parkour não vivem da modalidade, uma vez que esses trabalhos são mais esporádicos.

[caption id="attachment_4826" align="aligncenter" width="470"]Junto com alguns amigos, Leandro criou a Escher Parkour para divulgar o esporte (Foto: Gabriel Oliveira) Junto com alguns amigos, Leandro criou a Escher Parkour para divulgar o esporte (Foto: Gabriel Oliveira)[/caption]

Ao contrário do que muitos pensam, o Parkour não é uma prática acrobática ou competitiva. A técnica de saltos é extremamente objetiva, onde precisão e velocidade de progressão importam muito mais do que o caráter plástico. Estes saltos esteticamente mais elaborados, que vão, inclusive, contra a filosofia do Parkour, se encaixam em uma outra categoria denominada Free Running. Leandro destaca que não existe nenhum evento no mundo onde praticantes do Parkour competem entre si, citando o Red Bull Art of Motion como a maior disputa de saltos em ambientes urbanos existente. “O Art of Motion é uma competição de saltos mais acrobáticos, que conta não com a participação dos praticantes do Parkour, e sim com a galera do Free Running, embora haja semelhanças entre essas duas modalidades”, conta.

Antes de voltar definitivamente aos treinos, Leandro explica ainda que o Parkour é para ele muito mais do que um simples hobby, frisando que a modalidade funciona para a maioria dos adeptos como uma filosofia de vida. “Eu sei que, daqui a alguns anos, o meu corpo já não vai mais aguentar fazer alguns movimentos que eu faço hoje, mas eu não pretendo parar de praticar nunca. O Parkour aumentou muito a minha autoestima, e é por isso que pra mim ele representa muito mais do que um esporte ou estilo de vida”. Depois, Leandro voltou à rotina de treinos com os amigos e disse que só sairia dali quando anoitecesse. À medida em que o tempo passava, o pequeno grupo que treinava no começo da tarde dobrou.

Confira os outros esportes:

Surfe

Skate

Veja a galeria de fotos

[gallery type="slideshow" ids="5152,5151,5150,5149,5148,5147,5146,5145,5144,5143,5160,5161,5162,5163,5164"]

0 comentários: