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Direto no alvo

Tiro com Arco se expande no Brasil, mas ainda enfrenta – enormes - dificuldades


Por André Borba, Felipe Magalhães e Gabriela Antunes


Fotos de Felipe Magalhães








Das páginas de livros às telas de cinema, nós – meros mortais sem qualquer tipo de habilidade fantástica – sonhamos, muitas vezes, em nos tornarmos heróis ou vilões com capacidade para derrotar batalhões inimigos. Se o cenário for medieval e pudermos disparar três, quatro, cinco flechas de uma vez enquanto nos viramos para bater em mais seis ou sete inimigos, o sonho fica ainda mais (sur)real. Influenciados pelo sucesso de produções como Jogos Vorazes, Senhor dos Anéis e o Hobbit, além da série Arrow,  jovens e adultos têm buscado aprender o Tiro com Arco, um esporte ainda pouco popular no Brasil, mas que vem ganhando adeptos, embora enfrente dificuldades para sobreviver.

A história de Wilson Jorge Rodrigues, de 83 anos, mais conhecido como Seu Wilson, que o diga. Ex-atleta, o professor de Tiro com Arco no Club Municipal, na Tijuca, dedicou a vida pelo amor aos alvos. E ainda dedica. Pelas aulas que ministra, não recebe qualquer remuneração. E quem nos conta isso são seus alunos. Wilson prefere, sabiamente, apegar-se às boas recordações, como as viagens que fez. “Conheço a Europa, a América toda. Não só como atirador, mas como comandante de equipe. Levava as equipes para competir e competi muitas vezes. Eu fazia meus treinamentos aqui. Eu treinava segunda, terça, quarta, quinta e sexta e dava 144 tiros por dia”, orgulha-se.

Por conta da idade e de um problema de saúde, o professor precisou parar de praticar, mas engana-se quem acha que o perfeccionismo ficou no passado. Os 51 anos de Arco e Flecha – somados aos inúmeros cursos nos Estados Unidos - gritam, de um sutil banner preso à parede: “Aqui se forjam arqueiros”. Para ele, a condição psicológica é muito mais importante que um campo bem equipado ou arcos caros. “O principal é ter vontade e gostar do esporte. Se você gostar, você vai longe. Mas se não gostar e só fizer aquilo porque é obrigado, aí não demora muito”, afirma. O instrutor continua e mostra que ser atleta vai além de atirar. “O cara chega aqui e fala ‘quero aprender’. Eu boto ele, ali dentro, pra treinar. Atleta comigo começa do zerinho. Ele tem sete etapas para poder atirar naquele alvo verde. Ele vai pegar um arco e vai ficar puxando, até ele aprender a puxar. Depois, passa a puxar o arco com uma flecha sem atirar. Depois ele vai atirar dali de pertinho”, finaliza, apontando para as placas de EVA, compradas através de "vaquinhas" por quem treina no clube.

 

MEDALHAS DE OURO PARA A TIJUCA

Foi do stand – termo utilizado para “local de treino” – liderado por Wilson que saiu a campeã brasileira de tiro com arco de 2014, na categoria Master. Maria Nadir, 54, professora da rede municipal, pratica o esporte há apenas seis anos, mas já virou expoente no meio ao levar a medalha de ouro de São Paulo para a Tijuca. Nadir sempre admirou o Tiro com Arco. “Desde criancinha, eu gostava. Por várias situações da vida, eu não pude vir fazer. Meu pai era sócio do Municipal e me trazia. Eu ficava de olho no stand... Quando eu estava indo para a faculdade, tentei vir aqui fazer, mas, com os estudos, acabei casando, fui morar em outro lugar. Várias coisas aconteceram. No final das contas, eu só comecei a praticar com 48 anos.”

Há três anos, Nadir ganhou um colega de tiro de alto nível. O médico-cirurgião Francisco José Saraiva, 57, começou a atirar ao acompanhar o filho, que tem déficit de atenção, nos treinos. Pouco tempo depois, o rapaz teve um problema no braço e Francisco continuou. Em 2013, trouxe medalha de ouro pela Copa Brasil. E poderia até participar das Olimpíadas de 2016. “Mas não tenho mais idade, não é? Se eu tivesse 18 anos, iria me interessar com certeza. A gente ajuda o pessoal mais novo que tem interesse”, brinca.

Apesar de não ir aos Jogos Olímpicos, o treinamento é duro. São, pelo menos, oito horas por semana de tiros, além da musculação. “Quem quer só lazer, não precisa de um treino mais rígido. Eu treino geralmente bem mais, pelo menos oito horas semanais. Se não, você não pega o reflexo. Esse é um esporte diferente de arma de fogo, que você tem a mira. O arco não é bem assim. Você aponta e não consegue ficar com ele parado na pontaria certinho. Tem que ser meio instintivo. Levantar, apontar e atirar. Tem que repetir milhares de vezes até ter essa noção espacial.”

O cirurgião conta que os amigos, sobretudo os de mesma profissão, sempre estranham o fato de ele ser atleta de Tiro com Arco. “Eles acham engraçado. Médico só conversa de doença, de sangramento, essas coisas horríveis, e ter outra atividade fora não é muito comum. O máximo é fazer tênis. Já é bom, porque a maioria não joga nem carta. Você vai a um jantar com médicos, e fica horrorizado”.

Os familiares de Maria Nadir também acham inusitado, mas o apoio dos filhos está sempre presente. Na medida do possível. “Eles [os parentes] comentam: ‘você faz? Existe isso? Onde?’ Geralmente, causa um espanto. [Os filhos] Acham interessante. Eles vibram, mas só vieram uma vez. Eu compreendo que não é muito empolgante. Tem muita gente que vem por curiosidade, para apreciar os equipamentos, ver a prática da coisa”, comenta.

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FALTAM INVESTIMENTOS

O desconhecimento por muitos também evidencia que o esporte fica, muitas vezes, colocado de lado no país do futebol. “Só se fala em futebol. Futebol, futebol, futebol, quiçá um vôlei, basquete”, observa Nadir.

Com a realização das Olimpíadas na cidade do Rio de Janeiro, em 2016, os investimentos no esporte aumentaram e foram construídos novos centros de treinamento. Porém, para a instrutora Thais Ribeiro Teixeira, sócia da escola Archeria Carioca, o repasse da nova verba ainda é ineficiente. Segundo ela, que trabalhou voluntariamente durante um período como secretária-geral da Federação do Estado do Rio de Janeiro, os investimentos teriam que ser distribuídos pela Confederação para as federações dos estados, e, então, das federações para os atletas. Entretanto, isso não acontece da maneira correta.

Thais ressalta ainda outro problema: a falta de clareza nos critérios utilizados para selecionar os atletas que irão treinar no centro de treinamento de Campinas, onde ficam aqueles que estão sendo preparados para as disputas de alto nível. “Na verdade, não tem muito critério para selecionar quem vai treinar lá. É por indicação. O correto seria selecionar pelo ranking dinâmico: quem está indo bem, vai. Existe um ranking, mas ele não é utilizado.”

 

FETARCO FUNCIONA POR VOLUNTARIADO

No Brasil, a Confederação Brasileira de Tiro com Arco é a instituição responsável pelos assuntos do esporte. É filiada ao COB, o Comitê Olímpico Brasileiro, e a outras siglas do Tiro com Arco em diversas partes do planeta. A CBTARCO foi fundada em julho de 1991 por federações de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, do Pará, de São Paulo e do Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro, hoje, a FETARCO – Federação de Tiro com Arco do Estado do Rio de Janeiro – é quem organiza a prática esportiva. Por conta da carência de verbas, toda a diretoria da Federação do Rio trabalha gratuitamente, por amor ao esporte. É o caso da advogada Therezinha de Jesus Machado Diniz, de 54 anos, praticante também do esporte, no stand do Municipal. “Toda instituição tem que ter um corpo jurídico. Me convidaram e eu faço isso com todo amor e carinho. Arco e Flecha é a minha vida. Eu moro em Laranjeiras, trabalho no Centro da cidade, pego metrô lotado para vir para cá, e depois volto pra Laranjeiras. Eu não sou tão assídua quanto eles (os colegas de stand, que atiravam enquanto Therezinha era entrevistada), porque eles moram por aqui. Eu falto muito, por isso ainda não entrei em competição”, explica.

Praticante há cinco anos, Therezinha diz que a vida mudou após começar os treinos. “Eu sou uma pessoa estressada, por conta da minha atividade. E desconcentrada também. Mudei 80% na minha concentração. Mas o melhor disso tudo é esse grupo que nós criamos. Nosso grupo é bem interessante. Nosso ciclo de amizades passa a ser dos 12 aos 80 anos. É uma variedade. Nós interagimos com os jovens, as crianças interagem com eles; nós, com as crianças. Acho engraçado. É impressionante, os meninos do Arco e Flecha me chamando para serem meus amigos no Face”, completa.

A advogada trabalha para a escola Curumim, em Realengo, e conta que implantou um projeto de Arco e Flecha para crianças. “A maior dificuldade nossa é conseguir treinadores. “A nossa intenção, enquanto FETARCO, é expandir essa modalidade nas escolas, nos clubes. Mas a maior das nossas dificuldades é treinador, porque temos poucos. Temos o Seu Wilson, mas ele é daqui. Os outros trabalham. A Federação se sustenta da mensalidade, então, não temos dinheiro para ficar pagando treinador. É complicado.”

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POPULARIZAÇÃO DO ESPORTE PODE SER SOLUÇÃO

Thais Ribeiro Teixeira, ainda que aponte os problemas de investimentos, considera que o tiro com arco recentemente se popularizou no Brasil. Um dos principais motivos, segundo ela, é a crescente presença em filmes e séries de televisão, despertando interesse de muitas pessoas. Com isso, a procura pelas escolas tem aumentado. Filmes como Jogos Vorazes, Senhor dos Anéis e o Hobbit, além da série Arrow, são as principais influências.

A instrutora considera a popularização positiva para o esporte, pois atraiu novos aprendizes. Sua escola, a Archeria Carioca, no Cosme Velho, possui 60 alunos matriculados, apesar de funcionar há apenas um ano. Ela conta que muitos deles chegam citando os filmes, mas, na hora da prática, descobrem as diferenças. “Eu explico: ‘lembra o que você viu no Senhor dos Anéis, atirar quatro, cinco flechas de uma só vez? Não é assim.’ O pessoal ri, mas 99% das pessoas que vêm só para testar acaba ficando.”

Comprovamos a influência cultural, por exemplo, no stand do Seu Wilson, do início desta reportagem. Enquanto conversávamos com o instrutor, dois estudantes do Ensino Médio queriam saber mais informações para se matricular. De acordo com Igor Paixão, de 19 anos, o interesse surgiu por conta dos traços medievais, que – muitas vezes – estão presente nos livros, filmes e jogos de RPG. “É um esporte muito escondido. Não tem muita gente fazendo, e faz parte da evolução do homem. É uma coisa bem mística. É bem legal. É mais pela História mesmo. O longbow – tipo de arco - teve uma importância muito grande na guerra dos ingleses contra os franceses. A gente estuda e começa a criar uma curiosidade”, afirma.

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O Tiro com Arco no Brasil

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