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Um professor porreta

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Por Leonardo Telles, Bernardo Oliveira e Frederico Canequela


A sala C-100 do Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS) da Universidade Federal Fluminense (UFF) ganhou um novo nome. Um nome de mil versos e histórias. Moacy Cirne. Ganhou também a placa acima, na qual se lê: “Um professor porreta que fez da vida uma poesia concreta". Moacy é um dos fundadores da poesia concreta brasileira e lecionou no instituto por quase 30 anos, onde perpetuou memória e onde também editava e distribuía um famoso fanzine independente de página única, o Balaio Incomum. Ele morreu de câncer no fígado no dia 11 de janeiro deste ano.




[caption id="attachment_5941" align="alignleft" width="168"]Moacy_Cirne MOACY CIRNE LANÇA LIVRO SOBRE O FLUMINENSE FUTEBOL CLUBE (2013). FOTO: JOÃO MARIA ALV. WIKIPEDIA/REPRODUÇÃO[/caption]

Além do nome dado à sala do IACS, um sarau foi organizado pelos professores João Baptista de Abreu e Márcio Castilho. Dele participaram alunos, professores do IACS, ex-alunos e familiares do professor. “Foi uma homenagem super bonita. A gente conversou, brincou, chorou, bebeu cachaça. E a gente lembrou de uma figura. Uma figura excepcional.”,  contou Ana Lea Rego, viúva de Moacy. “Ele foi um professor que honrou a casa, honrou a passagem dele por aqui e modificou o modo de entender a vida de várias pessoas. Quem conviveu com Moacy sabe que o mundo tem várias formas de pensar, várias estéticas.”

Fátima Arruda, ex-esposa de Moacy, falou sobre a relação do professor com a poesia. “Moacy era irreverente, louco e, ao mesmo tempo, uma pessoa completamente séria. Era um acervo literário em movimento constante. O poema processo foi a grande batalha dele dentro da poesia. Acho que essa era a maior identidade que temos de Moacy Cirne. Ele era um eterno poema que permitia interferências, reintroduções, modificações, porque a vida pra ele era isso - muito afeto, muita poesia, muito movimento, muita ebulição.”


179139_305433336253681_1751958629_nNascido em São José do Seridó, no sertão do Rio Grande do Norte, em 1943, lançou em 1967, ao lado de outros nomes ilustres, o manifesto do poema/processo, sendo um dos criadores do movimento literário de mesmo nome no Brasil. Ele trabalhou por quase metade da vida como professor no Departamento de Comunicação da UFF, oferecendo disciplinas como Introdução à Ficção Científica e Introdução à História em Quadrinhos. Especialista na arte da história em quadrinhos, durante seus anos no IACS, criou o fanzine Balaio Incomum, que ele mesmo editava, imprimia e distribuía pelo instituto. Com o subtítulo “a folha porreta”, o boletim trazia poesias concretas, pensamentos e textos cheios de ironia. A publicação era famosa também pelas poesias eróticas que Moacy escrevia sob o pseudônimo de Chico Caicó. As edições especiais do Balaio eram lançadas nas notáveis Balaiadas – saraus regados a cachaça, organizados pelo professor dentro da universidade – que reunia professores, alunos e simpatizantes, leitores do fanzine.

“A inspiração [para o evento] partiu do fanzini, um boletim informal que ele produziu por quase quinze anos aqui no IACS. Esse conceito de multimídia que você tem hoje, o Moacy já simbolizava 20 anos antes. Ele era poeta, escultor, editor, crítico de cinema, ativista político, brincava de ator de vez em quando... era um ativista cultural.” comentou o professor do IACS João Baptista de Abreu.


O potiguar era também um grande defensor da cultura nordestina e expressava isso em sua obra. Nas palavras de João Baptista, “[Moacy] era uma espécie de assessor de imprensa do Nordeste; era um grande divulgador das coisas do Nordeste”. [Esta homenagem] é um reconhecimento de que o que o professor conseguiu plantar a gente continua colhendo. A vida dele não termina com a morte, ele se eterniza pela sua história, nos mais de 30 anos que teve aqui no IACS.”


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