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Entre olhares com Evandro Teixeira

Por Camilla Shaw e Samantha Su


Pochete na cintura, camisa branca, óculos de sol e um boné preto com uma câmera fotográfica bordada em amarelo. Assim chegou Evandro Teixeira. A simplicidade não para apenas na aparência. Um jeitinho baiano risonho que logo, ouvindo as primeiras palavras paulistanas, já reconhece o sotaque, caçoa e quebra o gelo. Um dos maiores fotojornalistas do mundo é mais do que brasileiro. Evandro Teixeira é um menino do Brasil, como tantos outros. Aos 78 anos, seu tempo é preenchido com muitas viagens e palestras. O menino que um dia sonhou em conhecer Zé Medeiros, ex-fotógrafo da revista O Cruzeiro, hoje adora dividir conhecimento e afirma que continua aprendendo. Prestes a lançar sua primeira biografia, escrita por Silvana Costa Moreira em parceria com o escritor Marcos Eduardo Neves, concede algumas horas de seu dia para uma boa conversa.




[caption id="attachment_6325" align="aligncenter" width="235"]10524396_899510726732663_1076192989_n Evandro Teixeira, menino do Brasil[/caption]

Evandro, com uma carreira tão extensa, se não fosse fotógrafo, o que faria?
Eu fiz Belas Artes, mas fiz pela fotografia. Acho que a minha vida é a fotografia, eu não saberia fazer outra coisa além do que faço. É a minha paixão.

Por que o nordeste é tão celebrado nas suas fotos?
Não sei. Talvez porque eu seja baiano, mas acho que no nordeste você tem mais brasilidade. Eu vou para o Rio Grande do Sul, mas não me comove, é como se estivesse na Europa. No nordeste você tem aquelas figuras típicas, a missa do vaqueiro, por exemplo. Para você ter ideia, quando fui para Canudos em 1990, eu fiquei tão ligado à historia de lá que volto religiosamente, todo ano. É uma gratificação. O JB fez um caderno especial com os velhinhos de mais de cem anos. Fui para o sertão fotografar a velharia toda. Tinha um velhinho que era sanfoneiro e eu resolvi fazer a foto dele com o instrumento. Para quê fui fazer essa foto?! Peguei uma sanfona emprestada, mas e para devolver? Só consegui três dias depois. Ele não parava de tocar. A filha dele só pôde pegá-la enquanto ele dormia! Quase que eu tive que pagar uma sanfona nova para o dono!

[caption id="attachment_6304" align="aligncenter" width="300"]Missa do Vaqueiro, Acarí, RN, 2010 (Foto: Evandro Teixeira) Missa do Vaqueiro, Acarí, RN, 2010 (Foto: Evandro Teixeira)[/caption]

Você pensa em voltar para a Bahia?
Não, não. Nunca mais voltaria. Eu vou lá e não me adapto mais. Quando a gente foi filmar no vilarejo em que nasci, foi vergonhoso para mim. Eu fiquei triste porque eu não conhecia mais ninguém, não lembrava. Fui ao meu antigo colégio que era deste “tamaninho” e hoje é enorme.

Quais as diferenças entre o menino do interior da Bahia e o grande fotojornalista que você é hoje?
Às vezes eu fico me perguntando como isso aconteceu? Eu nasci no interior, meu vilarejo não tinha porra nenhuma. A primeira vez que eu vi um carro, eu e os moleques saímos gritando “é lobisomem”. Eu fico me questionando. Sei lá. Na minha família ninguém era ligado à arte. Meus pais eram fazendeiros. Só eu que quis me meter nessa maluquice. Comecei porque o pai de um amigo trazia para nós pedacinhos de filme enguiçados do cinema de Salvador. A gente colocava numa caixa de madeira que eu fiz com uma vela e uma lente. A gente botava uma fita, projetava na parede, era um filme parado, mas era o nosso cinema.

A primeira vez que eu vi um carro, eu e os moleques saímos gritando “é lobisomem”



Antes de ser fotojornalista, quem te inspirava?
O Zé Medeiros. O Eugene Smith também, o americano, que tem uma iluminação linda, a luz dele é impressionante. Você não pode falar que o Cartier Bresson não influenciou ninguém no mundo, mas não era meu sonho me tornar um Cartier Bresson. Meu sonho era um Zé Medeiros que foi o meu maior. Ele era um fotógrafo de rua, de brasilidade. É como é meu estilo, eu adoro rua. A luz dele era maravilhosa, linda como a do Eugene Smith. Então eu admirava o Zé e passei a admirar o Eugene Smith.

Você passou quase toda a sua carreira trabalhando no Jornal do Brasil, como era lá?
Naquela época nós tínhamos a melhor equipe de fotógrafos do Brasil. O jornal destacava a imagem. Nós não podíamos usar flash, não podíamos usar fotômetro, era tudo no olhômetro. Flash só se estivesse um breu, se tivesse um ponto de luz você não podia usar. A gente ganhava mais que o próprio repórter de texto no jornal. Era o sonho de todo mundo trabalhar lá. O JB foi, no Rio e no Brasil, o mais importante jornal, o mais criativo e mais moderno graficamente. Ele fez uma reforma em 1959 e se tornou o mais moderno do mundo.

Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema sobre você. Sebastião Salgado afirmou que não há nada de mais brasileiro do que a sua fotografia. Como você lida com essa fama?
É tranquilo. Eu gosto de fotografar o mundo, o Brasil. Para mim é normal, eu não tenho minhoca na cabeça. Eu detesto essa coisa de metido à besta. Uma vez, no Carnaval, tinha um garoto aprendendo e pediu ajuda para um fotógrafo. E eu fiquei puto com o cara, ele ensinou tudo errado! Vai ensinar errado para o garoto?! É sacanagem. Mostrei para o menino as configurações da minha câmera depois. Eu gosto da felicidade de falar com todo mundo. Sou tão importante quanto você, quanto aquele que está aprendendo hoje. Um dia eu sonhei em aprender fotografia. Sonhei em ser como o Zé Medeiros. Sonhei em aprender e em fotografar como ele. E aprendi. Estou aprendendo sempre.

[caption id="attachment_6305" align="aligncenter" width="300"]Ditadura no Brasil, Rio, 1968. (Foto: Evandro Teixeira) Ditadura no Brasil, Rio, 1968. (Foto: Evandro Teixeira)[/caption]

Você já perdeu alguma imagem?
Uma coisa que eu gostaria de ter fotografado foi a queda do Muro de Berlim. Lamentavelmente, não estava lá. Mas foi um trabalho lindo, com uma história linda.

Sonhei em aprender e em a fotografar como ele (Zé Medeiros). E aprendi



Qual é o seu livro de cabeceira?
Os Sertões e Vidas Secas, que é uma desgraça de ler! Eu tenho todos os livros de Canudos, novo e velho. Eu tinha a primeira edição de Canudos, emprestei e me levaram. Tenho a segunda edição agora. Livro e mulher são duas coisas que não se emprestam.

Depois de tudo que fez, tem algum sonho que você ainda queira realizar?
Quem gosta do que faz tem que sonhar sempre. Meu sonho não acabou ainda. Eu estou sempre sonhando em fotografar alguma coisa.

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