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Caminhando contra o vento, com lenço e com documento... Só falta o incentivo

O intercâmbio para os graduandos de Ciências Humanas: as possibilidades de um caminho com muitas pedras


Por Beatriz Jorge e Leonardo Moura


Conhecer a realidade da profissão sob outra perspectiva social, experimentar novas culturas, aprender outros idiomas e agregar conteúdo ao currículo são alguns dos motivos que levam milhares de universitários a se aventurar em um universo desconhecido e optar pelo intercâmbio. Apenas este ano, a expectativa é de que o número de estudantes brasileiros emigrantes feche em 234 mil – o dado é da Associação Brasileira de Organizadores de Viagens Educacionais e Culturais (Belta), que contabilizou, de 2010 a 2013, um aumento de 21% na procura por cursos no exterior.

Esses números são o reflexo de um mercado de trabalho que prestigia profissionais com experiências diferenciadas. O Governo Federal, para atender essa demanda, criou em 2011 o programa Ciência sem Fronteiras (CsF), que custeia, por meio da concessão de bolsas auxílio, a estadia de jovens em universidades do exterior no período de até um ano. Um estudante que faz intercâmbio para o Reino Unido, por exemplo, além de não arcar com as despesas de alojamento e de alimentação, ganha por mês £420 para seu sustento, o que equivale a R$1.676,09, segundo cotação do Banco Central em 1º de outubro. O CsF parece ser a solução para os aspirantes a um intercâmbio – ou, pelo menos, para uma parte deles.

O Programa atende, basicamente, aos cursos de Ciências Exatas, Tecnológicas e de Biomédicas. Ele não abrange as faculdades de Ciências Humanas, como Comunicação Social, Direito, Ciências Sociais, História e Letras, por exemplo. Dessa maneira, os graduandos dessa área ficam a ver navios. Uma das possibilidades é, então, tentar as bolsas que as próprias universidades oferecem. O problema é que, além de não serem exclusivas a eles, costumam ter um número reduzido e sujeitas a comprovação de renda.

Para fazer a mobilidade, o aluno também pode concorrer a algum financiamento da iniciativa privada, como é o caso da Bolsa Santander, ou do programa Erasmus Mundus, financiado pela União Europeia, mas ambos oferecem uma quantidade restrita de bolsas. Outra opção é, claro, arcar com todos os custos, entre eles passagem, hospedagem e alimentação. Algumas instituições no exterior também cobram uma taxa de inscrição ou mensalidade, ainda que o período de estudo seja curto. E independente de receber bolsa auxílio ou não, a universidade de origem precisa recomendar e alocar o aluno em uma das faculdades credenciadas do destino escolhido.

Ainda há esperança
Mesmo que com um atraso considerável em relação às demais áreas, ainda há perspectiva de mudança desse panorama. Em março de 2014, o Ministério da Cultura (MinC) apresentou o programa Cultura sem Fronteiras, inspirado no já conhecido CsF. A proposta da iniciativa é bem semelhante a do programa anterior: o Ministério da Cultura faz parcerias com faculdades no exterior para financiar e levar os estudantes das áreas de “cultura”. A ideia é que o intercâmbio preveja, além das aulas teóricas, estágio prático em música, teatro, cinema, artes, literatura, patrimônio ou conhecimento jurídico, por exemplo.

O programa, que proporcionará viagens de até um ano, ainda está sendo desenhado. Estão garantidas até agora parcerias com duas universidades, o Instituto Europeu de Design (IED), na Espanha, e a Universidade de Bolonha, na Itália. Por enquanto, o foco é nas áreas de Administração, Design, Programação e Moda, mas há expectativa de que ele o portfólio de cursos cresça até o próximo ano. As datas para divulgação do edital e para o início do processo de seleção ainda não foram divulgadas.

Pé na estrada
Afiançar as próprias despesas foi a opção de Fernanda Martins. Ela se despede do Rio de Janeiro no começo do próximo ano para um intercâmbio de seis meses em Lyon, França. Nos corredores da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fernanda compartilha o que a fez querer o intercâmbio. “Minha área [a de produção audiovisual] está cada vez mais globalizada, rompendo fronteiras, e por isso é necessário esse encontro com outras tecnologias, formas de pensar e de fazer cinema”, diz.

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Fernanda: tudo pronto para o velho mundo novo


A futura cineasta acrescenta que, no Brasil, os estudantes de audiovisual ainda não encontram os subsídios de que precisam para um ingresso rápido e bem sucedido no mercado de trabalho. Da mesma maneira, não são incentivados pelo governo a buscar esses caminhos fora do país, já que o CsF não contempla a área. “Existe uma mentalidade que privilegia os cursos de Exatas, pois acreditam que o retorno econômico para o país seja maior ou imediato. Essa é uma visão errada, bitolada”, analisa.

Para ela, o audiovisual ainda não recebe o valor que deveria no País. “Se o contato dos alunos de Cinema for só com o meio acadêmico brasileiro a perspectiva de mercado fica muito reduzida, eles não são preparados para experiência da distribuição. Por mais que existam diversos fomentos que privilegiem os iniciantes na área, esses projetos não são bem divulgados, e nem as oportunidades de estágio, que são restritas. O Brasil ainda não prioriza a educação para o audiovisual”.

Já o aluno de Jornalismo do Instituto de Arte e Comunicação Social (Iacs) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Wesley Prado, correu atrás de seu sonho com o auxílio da bolsa oferecida pela universidade, que cobriu cerca de 70% dos gastos que ele teve. O restante foi pago com seu próprio dinheiro. “Decidi pelo intercâmbio por entender que é um processo fundamental para a formação de todo ser estudante. O próprio ato de deslocar-se pressupõe adaptação, e essa mudança enriquece o indivíduo. Academicamente, o intercambista cresce muito ao descobrir outras realidades e condições de produção que são característicos de outros países”, reflete.

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Wesley e o sonho realizado: estudar em Barcelona


Entre os colegas de curso que embarcaram para o intercâmbio, Wesley é um dos poucos privilegiados que contou com auxílio financeiro da universidade. Ele opina sobre o quadro atual do Ciência sem Fronteiras e ressalta o impacto que a inclusão dos cursos de Humanas no programa geraria para a sociedade brasileira. “Entendo a necessidade do país na área de Exatas e, sobretudo, a dificuldade de um programa que se propõe a atender um país tão grande como o Brasil. Mas vejo que um país que queira se destacar como produtor de conhecimento deve dar atenção também pra área de Humanas. Mais do que descobrir novas fontes de petróleo e encontrar formas de extrai-lo, é necessário pensamento crítico para analisar o impacto que isso pode ter na sociedade”, conclui.

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