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Dilma: Esforço da continuidade

Por Gabriel Vasconcelos e João Pedro Soares



Governo: mais críticas do que acertos ou falhas


Logo no início do mandato à frente da presidência da República, Dilma Rousseff mostrou que o perfil conciliador de seu antecessor não seria mantido. Após o envolvimento de altos dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT) em escândalos de corrupção, como o Mensalão, Lula decidiu indicar um sucessor cuja imagem fosse ligada à seriedade na gestão pública - reforçada, em tese, pelo fato de ser mulher. Além da idoneidade, uma suposta boa acolhida no meio empresarial pesou e a ex-ministra da Casa Civil foi escolhida para dar prosseguimento ao projeto político do PT no Executivo nacional.

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No primeiro ano de seu mandato, Dilma fez o que a imprensa chamou de “faxina ética”, ao demitir seis ministros acusados de corrupção. No campo econômico, porém, não conseguiu manter as altas taxas de crescimento observadas quando Lula entregou o governo e a capacidade da equipe econômica, liderada por Guido Mantega, foi posta em xeque. O estilo de “gerentona”, alicerçado nas boas gestões nos Ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil de Lula, acabou virando um fator complicador e Dilma passou a ser criticada pela pouca liberdade dada a seus ministros. Para analistas, as políticas anticíclicas que alavancaram a economia via investimento estatal - como o “Programa de Aceleração do Crescimento” - se desgastaram e atingiram o teto do incremento econômico. Além disso, pesam críticas sobre a política de controle da inflação, hoje no teto da meta. Para muitos economistas, medidas ditas “verticais” como, por exemplo, o represamento forçado dos preços da gasolina e do câmbio e concessões fiscais pontuais não servem no longo prazo e criam pressões negativas sobre o setor produtivo. Com a inflação na mira da oposição, o governo resolveu adotar a receita clássica e aumentou a taxa de juros (selic), forçando a diminuição da atividade e logo a manutenção dos preços. Apesar disso, as críticas não arrefeceram. em contrapartida à baixa expectativa de crescimento para esse ano, o governo se defende sob o argumento de que a demanda mundial ainda estaria retraída em função do cenário persistente de crise que teria afetado o fluxo de investimentos para o país.

Do outro lado da moeda está a inegável expansão dos programas sociais, principal plataforma da atual campanha. Entre os projetos se destacam o “Minha Casa, Minha Vida”, com a missão histórica de combater a falta de moradia no Brasil, e o “Mais Médicos”, criado para encerrar a carência de médicos no interior do país. Outro ponto alto do mandato aconteceu logo após as manifestações de junho do ano passado. Quando milhões de pessoas tomaram as ruas insatisfeitas com os serviços básicos, Dilma viu sua aprovação cair drasticamente. Em reação, enviou ao Congresso uma proposta de reforma política por plebiscito – a qual foi derrubada – e anunciou um robusto pacote de investimentos em diversos serviços públicos. Apesar da reconstrução de sua popularidade, a presidenta ainda  passou pela desconfiança de setores da própria base aliada, que se movimentou pela volta do ex-presidente Lula.

Campanha e futuro


Para o segundo mandato, Dilma propõe, como tema central, um aprofundamento das principais conquistas dos governos do PT: a inclusão social via aumento do alcance dos serviços básicos e da expansão do crédito, sobretudo para as regiões com população mais pobre do país. Mas, além da desconfiança do empresariado e de setores da classe média, a candidata à reeleição vem sendo constantemente afrontada pela especulação do mercado financeiro e, segundo analistas, por um boicote propositado de investidores. Para vencer daqui a dois dias, ela tentou construir a imagem de que era a única capaz de manter os avanços dos últimos anos e atacou as contradições de Marina Silva e, também, de seu atual adversário, o senador Aécio Neves, figura fragilizada pelo histórico negativo de privatizações e corrupção do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que representa o retrocesso da mesma forma que Aécio.

Se eleita, Dilma enfrentará dificuldades ainda maiores do que no primeiro mandato para alcançar a governabilidade. Além do PT ter perdido 18 parlamentares no Congresso Federal, sua composição é a mais conservadora desde 1964. As bancadas “da bala” e “do agronegócio” tiveram aumento expressivo, enquanto a sindicalista, por exemplo, sofreu redução de 83 para 46 integrantes. Outro agravante é a divisão interna cada vez maior do PMDB, que demonstra clara insatisfação com a forma de governar da petista.

História: de torturada a presidenta


Nascida em 1947, Dilma Rousseff iniciou sua vida política em 1964, quando entrou no Colégio Estadual Central, na capital Belo Horizonte. Como muitos outros, o colégio contava com um movimento estudantil muito ativo em função do então recente golpe militar. No mesmo ano, Dilma ingressou na Política Operária (Polop), organização oriunda do Partido Socialista Brasileiro (PSB). No grupo, fez opção pela corrente que apoiava a luta armada contra a ditadura, uma dissidência que, mais tarde, daria origem ao Comando de Libertação Nacional (Colina). Em entrevista à revista Piauí, Apolo Heringer, dirigente do Colina em 1968, afirmou que a opção de Dilma pela luta armada foi influenciada pela leitura do livro “Revolução na Revolução”, de Régis Debray, filósofo francês que, morando em Cuba, se tornou amigo de Fidel Castro. No Colina, Dilma teria apresentado desenvoltura e grande capacidade de liderança. No mesmo período, ela conheceu Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, seu primeiro marido.

Em 1969, Rousseff acompanhou Linhares na formação da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), uma fusão da Colina com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), liderada por Carlos Lamarca. Em janeiro de 1970, enquadrada na lei de Segurança Nacional, ela foi presa e levada à Operação Bandeirantes (OBAN), onde foi torturada por 22 dias consecutivos. Ela foi libertada do Presídio Tiradentes quase três anos depois, dez quilos mais magra e com uma disfunção na tireóide - sobre este período, vale conferir o relato da então ministra do governo Lula de 2008, em respostas às acusações do então senador Agripino Maia (DEM-RN), em uma comissão do Senado Federal.







Punida pelo Decreto-lei 477, o chamado “AI-5 das universidades”, ela havia sido expulsa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e impedida de retomar seus estudos na universidade em 1973. A solução foi prestar vestibular para Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se graduou em 1977. Um ano antes, em 1976, nascera sua única filha, Paula Rousseff Araújo. Depois, já na Faculdade de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi aluna de mestrado e doutorado, onde concluiu os créditos mas não defendeu as teses, por dificuldades de conciliação com sua vida política. Ex-professores da presidenta, como o conceituado economista Carlos Lessa, enfatizam seu destacado desempenho.

A vida partidária teve reinício no PDT, de cuja fundação participou, junto com o marido Carlos Araújo. Após divergências com o grupo de Leonel Brizola, líder histórico do partido, Dilma se filiou ao PT em 1986. Mesmo assim, seu primeiro cargo público de relevância foi como Secretária Municipal de Fazenda de Porto Alegre, na gestão do pedetista Alceu Collares, de 1985 a 1988. Eleito governador em 1990, Collares indica Dilma para a presidência da Fundação de Economia e Estatística (FEE), onde ela ficou até 1993, quando foi nomeada Secretária de Energia, Minas e Comunicações do governo gaúcho, cargo que ocupou até o final do ano seguinte. Dilma voltaria à função em 1998, quando o petista Olívio Dutra  foi eleito governador daquele estado. Sua segunda gestão foi positivamente marcada pela alta de 46% na capacidade de atendimento do setor elétrico do RS. Essa, talvez, tenha sido uma das principais credenciais para que Dilma viesse a ocupar, mais tarde, o cargo de Ministra de Minas e Energia e, depois, a Casa Civil do governo Lula.

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