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A dança do ventre, sua beleza e uma realidade não tão livre

Por Andrew Costa e Raissa Vidal


Músicas com uma batida rítmica e envolvente e roupas leves e glamourosas são vistas em apresentações de dança do dentre. Os passos sensuais, que misturam delicadeza com precisão, levam muitas mulheres ocidentais a procurar locais onde possam aprender essa dança, que faz parte da cultura milenar no oriente. No entanto, essa modalidade pode não ser tão libertária para as mulheres que nasceram em países com a tradição. Se aqui a mulher quebra tabus ao se interessar pela dança, lá ela não tem a opção de não desejar se apresentar para seu marido.


A dança do ventre começou no Antigo Egito, há mais de sete mil anos e foi incorporada ao folclore árabe durante a invasão moura no país, na Idade Média. É extremamente valorizada pela comunidade muçulmana, mas a cultura de lá não permite que nenhuma mulher árabe dance, as que dançam ficam mal vistas e mal faladas pra sempre e, dependendo do país, elas podem ser mortas por apedrejamento. As que ousam dançar, perdem o contato da família. O principal motivo para essa restrição é a  vestimenta, as mulheres muçulmanas usam burcas e mostrar o corpo é visto como uma ameaça. Então, existe uma restrição da liberdade na execução da dança. Ainda que seja a mulher a estrelar, existe uma protagonização do masculino, pois é voltada para o homem.


Os egípcios mais ortodoxos abominam a dança do ventre profissional em seu país. As danças só acontecem em pontos turísticos (grandes hotéis cinco estrelas e barcos que transitam pelo Nilo).  Fora isso, só nas zonas consideradas "impróprias". Lucy Goulart, dançarina e professora de dança do ventre, já foi a alguns países orientais e se espantou ao chegar ao Egito, pois o país que fica no continente africano é conhecido como um dos menos machistas no oriente e se revelou opressor contra as mulheres.

Lucy sempre sonhou em dançar no Egito e esperava ser muito bem recebida, mas só teve bom tratamento enquanto dançava e seu contratante a fez ficar andando acompanhada de um funcionário do hotel, pois as mulheres que andam sozinhas são mal vistas. Logo que chegou, ela teve dificuldades para ser respeitada nas filas do aeroporto e pegar um taxi. Ao longo de sua viagem, após ter dançado em Sharm El-Sheik, Lucy foi para o Cairo e lá enfrentou problemas maiores. Homens e mulheres cuspiram nela e ela sofreu ameaças, inclusive uma que a fez temer ser estuprada.


“No hotel cinco estrelas em que fiquei, o público aplaudia, se empolgava com a minha apresentação, mas fora dos palcos eu era mal vista. O fato de eu ter ido para lá desacompanhada de um homem foi um fator que me fez ficar muito mais vulnerável, pois lá as mulheres não podem andar sozinhas. Embora tenha gostado da viagem, me surpreendi com o quão machistas eles são. A gente passa até a achar nossa cultura pouco machista depois desse choque de hábitos.”


http://www.youtube.com/watch?v=8nhv19D3rX8

Mesmo sendo professora de dança do ventre há 20 anos, Beatriz Rosental preferiu não viajar para o oriente quando teve a oportunidade. Segundo ela, o fato de saber que precisaria ir acompanhada de um homem a fez desanimar da viagem. Ainda assim, Beatriz é apaixonada por essa dança, que entrou na sua vida aos 17 anos. “Eu me apaixonei pela dança do ventre desde a primeira vez que eu vi um show. Em seguida, comecei a fazer aulas e quando percebi estava dando aula e a dança se tornou uma paixão muito grande. Eu acho os movimentos lindos e fico encantada com as músicas.”


A estudante de História da Universidade Federal Fluminense Elis Lemos considera que esse machismo presente no oriente tem a ver com um processo de ocidentalização dos homens, mas de manutenção das práticas e costumes para as mulheres. “Os homens orientais são ocidentalizados. Isto é, eles passaram a ter alguns comportamentos de ruptura e liberdade que não são comuns nas práticas orientais. Dessa forma, é comum que vejam as mulheres como objetos sexuais e como seres que devem servi-los. Associado a hábitos do povo muçulmano, esse comportamento faz com que a mulher seja oprimida até quando dança. As mulheres orientais precisam manter os comportamentos e hábitos milenares e dançam até quando não desejam.”


Quanto ao embate entre o empoderamento feminino e a objetificação da mulher, presente na dança do ventre, Elis considera que há dificuldades para as mulheres se sentirem donas do seu próprio corpo ao dançarem. “As mulheres orientais aprendem a dançar quando menstruam e sabem que quando casarem serão obrigadas a dançar para seus maridos. Isso tira a autonomia delas sobre seu próprio corpo e o direito de serem livres ao dançar, pois aquele rito está atrelado à fertilização e à reprodução. Se a mulher for estéril, por exemplo, é considerada inferior e não tem a opção de não gostar de dançar.”


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