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Saudades, Paquetá

Tradicional refúgio familiar dos cariocas sofre com o abandono do poder público


Por Ana Clara Campos, Janaína Medeiros e Raphaela Ayres


http://www.youtube.com/watch?v=UPpxPsdHRsE

Descoberta em 1555 por expedicionários franceses, a Ilha de Paquetá sempre foi conhecida por seus encantos. Viveu o auge de sua glória no Império, quando era local de descanso de D. João VI. Eternizada no romance A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, a ilha também serviu de cenário para a novela homônima exibida pela Rede Globo em 1965.


Tradicional ponto turístico do Rio de Janeiro, a ilha recebeu durante anos milhares de turistas que buscavam lazer familiar e bucólico em suas praias e pequenas vielas de terra batida, que em nada lembram o município do Rio de Janeiro, do qual a ilha é parte integrante.


O clima de interior ainda sobrevive na pequena ilha no meio da Baía de Guanabara. O comércio no bairro continua sendo familiar, abastecido principalmente por carregamentos vindos semanalmente de São Gonçalo. As bicicletas e charretes por toda parte e a ausência de automóveis ainda são a marca do local. Até hoje, os únicos veículos autorizados a circular pelas ruas do bairro são os que prestam serviços públicos, como coleta de lixo.


A marca, no entanto, ganhou uma mancha. Uma mancha prateada de peixes. Infelizmente, todos mortos. O cheiro provocado por cardumes inteiros sem vida é insuportável nos dias de calor do verão carioca.




[caption id="attachment_7448" align="aligncenter" width="660"]10599590_874304959270711_2865903656151513097_n A mancha[/caption]

Os visitantes, agora bem menos do que já foram, se impressionam com o contraste entre as belezas naturais e o visível abandono. Lurdes Araújo de 62 anos, visita a ilha a mais de quarenta anos e se assusta com as profundas mudanças. “Era muito diferente por aqui, tudo costumava ser muito bem conservado. Agora me dá pena. Eu olho para o mar e só vejo alga e peixe morto”.


Dona Lurdes, no entanto, continua a voltar à Paquetá pelos velhos tempos. “Virou costume da minha família, então nós voltamos todo ano. Só que agora tomo mais cuidado. Quando meus filhos eram pequenos adoravam andar de pedalinho, mas não tenho coragem de deixar minha neta fazer o mesmo”, afirma a visitante com tristeza.


Apesar de seu amor incondicional pelo lugar, Dona Lurdes nota a queda do número de visitantes. “As pessoas deixaram de vir para cá porque sabem que está tudo sujo. Vem cada vez menos gente, e isso não vai mudar se continuar do jeito que está”.


A moradora Sandra Maria Reis, 52 anos, mudou-se para Paquetá em busca de sossego após a morte de seu marido, mas a realidade que encontrou foi totalmente diferente da que conheceu quando comprou sua casa na ilha, vinte anos atrás. “Tudo por aqui anda abandonado e quem mora aqui é quem acaba sofrendo mais as consequências desse abandono”, desabafa.


O abandono do local pode ser percebido em pequenos detalhes, como os buracos ao longo das ruas, as luzes queimadas do parque da ilha que nunca são substituídas e os bebedouros das praças, que nunca funcionaram porque a ligação de água não foi realizada.


Os moradores sofrem também com a precariedade do atendimento médico hospitalar na região. Casos sérios, muitas vezes emergências, encaminhados para hospitais do grande Rio precisam ser transportados por helicóptero, mas o bairro não conta com nenhum local adequado para pouso.


Sandra também trabalha na pequena feira de artesanato na pracinha da ilha, mas viu suas vendas diminuírem gradativamente. “Agora faço meus trabalhos manuais por distração, porque é impossível sobreviver de artesanato local. Os turistas aparecem cada vez menos e não se interessam mais em levar lembrancinhas”, revela.


 Charrete ameaçada


A principal atração da ilha sempre foi os passeios de charrete que levavam o visitante aos pontos turísticos mais procurados. Agora, até mesmo esses passeios estão ameaçados.


O condutor de charrete José Marcos Oliveira, 57 anos, trabalha com isso há mais de 38 anos. Nascido em Paquetá, ele é testemunha ocular do que considera um total descaso e abandono. “A prefeitura do Rio de Janeiro esqueceu-se que Paquetá faz parte da cidade. Sem a ajuda da prefeitura, nós paramos no tempo”.




[caption id="attachment_7443" align="aligncenter" width="660"]José Marcos trabalha como Charreteiro há 38 anos José Marcos trabalha como Charreteiro há 38 anos[/caption]

O condutor revolta-se ainda mais com a tentativa por parte da prefeitura de acabar com as charretes. “Eles querem acabar com a charrete, que além de ser nossa principal atração turística, é o ganha pão de muita gente por aqui. Eles falam que a gente trata mal os cavalos, mas não é verdade. Nós cuidamos deles com muito carinho, até o capim a gente manda trazer de São Gonçalo toda semana”. Ainda segundo José Marcos, os moradores preferem as charretes à carrinhos, porque se não a ilha “deixa de ser Paquetá”.


Visivelmente infeliz com a situação da ilha que ama, José desabafa antes de se despedir. “Vocês estão vendo Paquetá hoje, mas Paquetá era muito bonita, conhecida no mundo inteiro, mas hoje está abandonada a própria sorte”.


 Contato com a Prefeitura


Entramos em contato com a Prefeitura do Rio de Janeiro buscando um posicionamento oficial em relação às queixas apresentadas, mas até o fechamento da matéria não houve resposta.


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