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China cinematográfica

por Rebeca Letieri e Francielly Baliana


Enquanto as cifras caem na Europa e nos EUA, o mercado cinematográfico ganha cada vez mais espaço na China. "Lá o cinema continua sendo muito popular", afirma o professor norte-americano Richard Peña. Especialista em cinema chinês e de outras nacionalidades (como o cinema iraniano, por exemplo), ex-diretor do prestigiado Festival de Nova Iorque e do Setor de Cinema do Lincoln Center, Richard esteve no IACS durante duas semanas em novembro, para oferecer um curso sobre as peculiaridades do filme oriental. No intervalo, ele conversou com o Casarão sobre as diferenças entre os vários tipos de cinema chinês, bem como o norte-americano e o brasileiro, acrescentando à sua fala, a valorização do mercado cinematográfico do país da grande muralha e seus períodos de decadência.


“Um admirador do cinema brasileiro, Richard já esteve no IACS três vezes, sendo a última em 2012, quando deu uma conferência sobre a obra de Oscar Micheaux, pioneiro cineasta afro-norte-americano a ser reconhecido ainda na década de 20”, contou o professor de cinema da UFF, João Luiz.


Richard Peña dá aulas na Universidade de Columbia em Nova Iorque, nos Estados Unidos, sobre a história geral do cinema, em particular, sobre o cinema internacional. Conheceu o professor João Luiz, em 77, quando este foi aos Estados Unidos cursar doutorado em cinema. Mais tarde, Peña seria convidado por ele para dar aulas em terras cariocas.


“Eu dou poucas aulas sobre o cinema americano. Semana que vem eu vou a Cuba para fazer algumas conferências sobre o cinema afro-americano independente dos anos 30 e 40, que é uma coisa que me interessa muito. Isso quer dizer que eu gosto muito daquelas pequenas áreas desconhecidas do cinema americano. Mas já existem muitas pessoas estudando essa área, não tem necessidade de mais um.”


Richard também é amigo de longa data de Nelson Pereira dos Santos, desde 1974. A primeira análise crítica em inglês de Como era gostoso o meu francês foi escrita por ele e publicada no também pioneiro livro Brazilian Cinema.


Com essa vasta experiência em cinema, não era de se surpreender que o interesse tanto dos alunos quanto do professor norte-americano pelo cinema oriental, mais especificamente, o chinês, pudesse trazer uma nova visão deste cenário tão pouco explorado. Há três anos, Richard fez uma grande mostra do cinema chinês na Espanha, e por isso possui diversos DVDs com legendas em espanhol, o que facilita a compreensão dos alunos do IACS. Do dia 20 ao dia 29 de novembro, Richard Peña apresentou filmes e abordou conceitos que só um especialista no assunto poderia ter.


“Os alunos daqui têm muito interesse e muita curiosidade no cinema asiático, e, se existe esse interesse, é porque havia pouco conhecimento sobre essa área. Também acho que foram um pouco surpreendidos pelos filmes, esperavam outra coisa. Como eles conhecem um pouco do cinema japonês, imaginaram que o cinema chinês seria parecido. E agora que estão vendo os filmes mudaram de ideia.”




"Os chineses são preocupados com história. No Brasil, como nos EUA, há grande parte do povo que não pensa muito na história."



O cinema chinês e a influência internacional


Porém, em termos de comparação, Richard logo alertou que o cinema chinês nada tem de muito diferente do modelo hollywoodiano. A América nos anos 30 e 40 era o grande modelo, mesmo para a esquerda chinesa e para as pessoas que tinham uma forte crítica contra a política norte-americana. Para o povo chinês, a grande luta era pela modernização da sociedade, e ao mesmo tempo, para eles, o grande modelo de modernização eram os Estados Unidos.


“Mas, por exemplo, quando eu falei aos alunos que muitos dos roteiristas eram comunistas, a primeira pergunta era com relação à falta de influência soviética nos filmes. E a resposta é a falta de acesso ao cinema soviético. A realidade é que esse cinema era proibido. Algumas pessoas até conheciam um pouco, mas ainda assim não era o modelo de cinema de que eles gostavam. Gostavam mais daquela visão americana, por conta de todo aquele papo moderno. No fundo, a modernização era a grande luta para toda uma geração chinesa.”


Ainda segundo o professor, o cinema chinês em nada pode ser comparado ao cinema oriental como um todo. Peña ressalta a importância de se fazer uma distinção entre as culturas de cada nação ou país.


“Eu acho que nós não podemos falar em generalizações tão grandes. No cinema chinês, nós temos pelo menos quatro: a República da China, o chinês popular, o cinema taiwanês e o cinema de Hong Kong.”


Ainda em termos comparativos, diferentemente do Brasil, Richard ressaltou a tradição épica dos filmes chineses. A preocupação em se contar a história do próprio povo, no sentido de criar memória, é, sem dúvida, o ponto forte da produção chinesa, que se opõe à brasileira por ter uma estrutura narrativa mais intimista, com valor histórico, e temporal reduzido. Para ele, o motivo pode estar tanto no orçamento, quanto na cultura de cada nação. No caso da China, sobretudo a China popular, havia um apoio do governo para fazer grandes produções, e o Brasil tinha pouca oportunidade para isso.


“Aqui a tradição era fazer mais filmes baseados em indivíduos, em histórias um pouco menores do que na China. Isso tem a ver também com a questão da cultura. Os chineses são preocupados com história. No Brasil, como nos EUA, há grande parte do povo que não pensa muito na história. Na China, um filme pode começar em 1910 e acabar em 1980, seguindo uma pessoa durante 70 anos, por exemplo. Você pode ver toda a história da China contemporânea através da vida daquela pessoa. Isso é uma estrutura narrativa muito típica do cinema chinês.”




[caption id="attachment_7622" align="aligncenter" width="470"]Professor Richard Peña no IACS Professor Richard Peña no IACS (Foto: Rebeca Letieri)[/caption]

“Estão construindo cinemas, não sei quantos a cada semana. É uma coisa extraordinária."



Mercado chinês


O mercado de cinema na China é enorme e crescente, não tardando muito a alcançar o posto do maior mercado cinematográfico do mundo, ultrapassando os Estados Unidos. Isso se explica pela popularidade do cinema em um país muito povoado.




[caption id="attachment_7663" align="alignright" width="200"]Lanternas Vermelhas (1991) Lanternas Vermelhas (1991)[/caption]

“Estão construindo cinemas, não sei quantos a cada semana. É uma coisa extraordinária, o número de multiplexes que são construídos em todas as cidades.”


Houve uma época, nos anos 90, em que uma onda de filmes chineses fizeram bilheteria bastante impressionante nos EUA. Isso era em 93 e 94, quando os primeiros filmes de Zhang Yimou, Chen Kaige, da China popular, fizeram títulos ingleses com sucesso de bilheteria como Raise the Red Lantern, Farewell My Concubine, entre outros. Mas é claro, dentro do circuito da arte, e não em circuitos comerciais.


Além da China popular, houve também um tempo de grande interesse pelo cinema do combate, das artes marciais. “Teve praticamente um culto nos EUA para esse tipo de cinema”. Tendo os mais famosos sido produzidos em Hong Kong. O gênero apareceu inicialmente na literatura popular chinesa. O início do século XX testemunhou uma explosão dos romances chamados de wuxia (habitualmente traduzido como "cavalheirismo marcial"), conhecidos como contos de heroicos guerreiros espadachins, muitas vezes com elementos místicos, geralmente veiculados em jornais. Este gênero foi rapidamente tomado pelos filmes chineses, particularmente na capital cinematográfica da época, Xangai. A partir dos anos 20, filmes wuxia foram extremamente populares.


O trabalho inovador de cineastas e produtores como Tsui Hark e John Woo introduziram ainda mais variedade. Um êxodo de muitas figuras principais para Hollywood nos anos 90 coincidiu com um declínio na indústria. Todos estes desenvolvimentos não tornaram apenas Hong Kong o cinema dominante no leste asiático, mas também reavivaram o interesse ocidental. A partir da reduzida mas resistente subcultura do cinema de kung fu, Jack Chan e filmes como os de Hark e Woo tiveram uma passagem limitada mas bem-sucedida nos Estados Unidos. Nos anos 90, ocidentais com um olho na cultura "alternativa" tornaram-se uma visão comum em lojas de vídeo e cinemas de Chinatowns, e gradualmente os filmes foram se tornando disponíveis no mercado de vídeo mainstream.




[caption id="attachment_7664" align="alignleft" width="211"]Adeus Minha Concubina (1993) Adeus Minha Concubina (1993)[/caption]

A partir daí, críticos e acadêmicos de cinema ocidentais começaram a levar o cinema de ação de Hong Kong a sério. Hong Kong passou a definir um novo vocabulário no cinema de ação mundial, com a ajuda de uma nova geração de cineastas norte-americanos. Quentin Tarantino inspirou-se em City on Fire, por exemplo, para fazer Reservoir Dogs (1992), e o seu filme em duas partes Kill Bill (2003-04) foi em grande medida uma homenagem ao filme de artes marciais, tendo Yuen Woo-Ping como coreógrafo de luta e ator. Desperado (1995) e a sua sequela de 2003 Once Upon a Time in Mexico, ambos de Robert Rodriguez, se inspiram nos efeitos visuais de John Woo. A trilogia de ficção científica e ação de Matrix (1999-2003), dos irmãos Wachowski também tem como modelo Woo e filmes wire fu.


Além disso, segundo Richard, o cinema de Taiwan é muito respeitado, sobretudo com pessoas como Yu-Chieh Cheng, Zhang Yang e os mais renomados nomes do cinema de festival. Seguindo essa lógica de uma supervalorização do mercado cinematográfico na China, a quantidade de filmes vem aumentando com o decorrer dos anos, chegando perto de 300 filmes por ano, segundo o professor. O setor audiovisual é muito ativo, ainda que com pouco sucesso de exportação. A importância imediata do cinema chinês tem a ver com um imenso mercado que se abre para a exibição de diversos cinemas nacionais, incluindo o brasileiro.


"Como parte do BRICS, caso acordos especiais de comércio sejam feitos apenas entre esses países, é um imenso público que pode receber nossos produtos audiovisuais, sempre em uma via de mão dupla também, claro. Pensar que se tivéssemos uma nova versão de A escrava Isaura, por exemplo, em película, ou em formato de minissérie, o que isso não faria sucesso de novo na China!",  acrescentou João Luiz.




"Para esses 10 anos da Revolução Cultural, realmente o cinema morreu. Mataram a cultura."



Circuitos alternativos


Existe também na China um grupo de filmes que são um pouco mais "underground", ainda que o nome fuja ao conceito. Alguns cineastas fazem críticas bastante fortes à vida contemporânea e à politica no país. Apesar disso, não são filmes tão populares, e muitos são proibidos dentro do país.


“Existem porque a gente vê os filmes em DVD, e existem no mundo dos festivais internacionais e nos cinemas da arte. Mas dentro da China esses filmes têm pouca repercussão porque não são filmes que podem ser vistos nos cinemas. Comercialmente falando, eles são vetados. A censura é ainda muito forte. Mas ao mesmo tempo que é muito forte, eu estive uma vez em Hong Kong com um diretor, que me convidou para uma projeção de um filme dele que estava proibido. Nós fomos ao bar, e lá tinha uma projeção, em uma tela bastante grande, com mais de 300 pessoas assistindo. E ninguém reclamou ou teve medo da polícia. Passou. Não era uma projeção oficial, mas as pessoas viram o filme. Imagino que o circuito não-oficial desse tipo de cinema deva ser bastante grande, mas nunca vai chegar a ter o efeito que um lançamento comercial poderia ter.”


Em se tratando de censura e China, não poderíamos deixar de falar da famosa Revolução Cultural. A Grande Revolução Cultural Proletária, conhecida como Revolução Cultural Chinesa, foi uma profunda campanha político-ideológica levada a cabo a partir de 1966 na República Popular da China, pelo então líder do Partido Comunista Chinês, Mao Tsé-tung, cujo objetivo era neutralizar a crescente oposição que lhe faziam alguns setores do partido, em decorrência do fracasso do plano econômico Grande Salto Adiante (1958-1960).


Na prática, a Revolução Cultural Chinesa formou a Guarda Vermelha — milícias formadas por jovens doutrinados pelo chamado Livro Vermelho — comandadas pela mulher de Mao, Jiang Qing. Os alvos da Revolução eram membros do partido mais alinhados com o Ocidente ou com a União Soviética, funcionários burocratas, e, sobretudo, intelectuais. Como na intelectualidade se encontravam alguns dos potenciais inimigos da revolução, o ensino superior foi praticamente desativado no país. Além de perseguir pessoas, essa revolução também queimou livros considerados perigosos e proibiu a execução de peças teatrais que não condiziam com a luta proletária do comunismo de Mao.


“Na Revolução Cultural não existiu produção de cinema. Eles pararam toda a produção do cinema entre 66 e 69. Em 71, quando "recomeçaram" a produção de "modelos" e "óperas", como eram chamados, fizeram durante alguns anos, dois, três ou cinco filmes. Mas era uma produção bastante pobre. Só a partir de 74 e 75 começaram a filmar novamente. Então, para esses 10 anos da Revolução Cultural, realmente o cinema morreu. Mataram a cultura.”


Sobre os tempos atuais, Richard acrescentou: “Acho que o engajamento politico diminuiu bastante, mas ainda existem filmes em que você pode encontrar críticas ao governo e à sociedade nas entrelinhas.”

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