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'A informação liberta'

Moradora da Maré e jornalista, Renata Souza fala sobre a realidade dos jovens da favela e o poder transformador da informação


Por Bianca Alcaraz e Paula Rodrigues


Parece engraçado. Desde criança tinha um histórico de frustração com o jornalismo. Nada que via na TV parecia com a sua realidade. Esta seria a primeira profissão dispensada por ela. Mas, aos 17 anos o destino a surpreendera. Nascida em uma das famílias fundadoras do Parque da Maré, favela que compõe o conjunto de 16 comunidades, Renata Souza descobriria no jornalismo a possibilidade de dar voz àqueles que ela considera excluídos da opinião pública. “A informação liberta. Através dela as pessoas passam a ver sua realidade de maneira mais crítica, a desnaturalizar aquilo que viam como comum na sua rotina. A mudança de postura diante dos problemas pode levar a ação, a reivindicação de seus direitos”, disse. Cria da Maré há 31 anos, desde que nasceu, a jornalista orgulha-se da sua trajetória de militância por direitos humanos na comunidade. Desacreditada de sua capacidade de cursar o Ensino Superior, assim como muitos jovens da Maré, Renata viu muitas portas serem abertas quando começou a fazer curso de teatro no Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré). Prestou vestibular e por três vezes pensou em desistir, mas o apoio da família sempre lhe deu forças para continuar. A “mareense” cursou jornalismo e publicidade na PUC-Rio com 100% de bolsa, hoje é doutoranda pela ECO-UFRJ e trabalha na Alerj (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Foi através do jornal O Cidadão, um projeto social da Maré, que Renata conheceu a própria realidade em que vivia. “Foi lá que comecei a acessar a própria comunidade, desconhecida por mim enquanto moradora que não circulava pelos espaços. Comecei a notar as gradações de pobreza que existem em uma mesma favela” contou. Apesar do leque de possibilidades que se abriu diante de seus olhos, ela ainda enxerga falhas no que diz respeito à cobertura jornalística. Segundo Renata, existem muitos problemas com a “falsa imparcialidade” e a cobertura dos fatos. Formada e com uma trajetória repleta de conquistas, ela optou por permanecer na comunidade. “A minha certeza é que na Maré está a minha história de militância. A Maré é o meu lugar.”




[caption id="attachment_5437" align="alignleft" width="271"]O orgulho de ser mareense faz com que Renata continue morando na comunidade. Foto: Arquivo Pessoal O orgulho de ser "mareense" faz com que Renata continue morando na comunidade. Foto: Arquivo Pessoal[/caption]

Como foi a sua trajetória até o Ensino Superior? Você sempre morou na Maré?


A minha história até chegar à graduação é engraçada. Fiz um teste vocacional aos 17 anos e indiquei o jornalismo como a profissão mais dispensável do mundo. Achava que o jornalismo não dizia a verdade sobre a favela. E quando via as notícias relacionadas à Maré sempre me questionava por que elas não correspondiam ao que eu via na rua. Então, a orientadora pediu para eu estudar a profissão e fiquei encantada com o mundo de possibilidades que o jornalismo oferecia, além do olhar crítico que o profissional poderia imprimir nas reportagens. Descobri que poderia retratar a verdade.


Você foi interessada pelos estudos desde cedo? Sentiu algum tipo de preconceito por morar na Maré? 


Minha perspectiva de vida até os 16 anos era a de terminar o segundo grau, arrumar um bom emprego, casar e ser feliz. Não havia referências na família de pessoas que chegaram ao Ensino Superior. Essa era uma realidade muito distante para mim, até começar a fazer um curso de teatro que me abriu muitas portas. Percebi que o leque de oportunidades era maior do que o que eu havia experimentado. Foi através dele que fiz o teste vocacional, mas também pude sentir o preconceito bater de verdade. Ganhei uma bolsa para estudar na Casa de Artes de Laranjeiras (CAL) e costumava ir com a roupa do colégio para não pagar passagem. Minha blusa do CIEP Professor César Pernetta contrastava com os uniformes dos colégios “santos da vida”: Santo Antônio, Santo Agostinho etc. Eu era a única negra e moradora de favela da turma, as pessoas só falavam comigo na hora de improvisar. Não fiz nenhuma amizade de fato. Quando cheguei à PUC, uma das meninas que fez curso comigo no CAL me olhou perplexa. Vi que ela não estava acreditando que a mesma bolsista ignorada durante todo o curso de teatro poderia estudar com elas em uma Universidade cara como a PUC-Rio.


Como foi, para você, o período do vestibular?


Entrei na PUC-RIO em 2003, já na terceira tentativa de passar no vestibular. Eu desistiria caso não conseguisse nesse ano. A cada reprovação sentia que o ensino superior não era coisa para mim, que seria incapaz de passar naquela dolorosa peneira. Eu fiz o pré-vestibular na Maré, no Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), trabalhava durante o dia e estudava à noite. Por vezes, ao chegar do trabalho, cansada, deitava no sofá e as minhas forças se esvaiam. Mas, meu pai me dava carinho, era a força que eu precisava. Minha família sempre me apoiou muito, mas nunca me forçou ou pressionou para passar no vestibular. Cheguei à PUC com a minha identidade já bem delineada, sabendo onde estava pisando e o que eu procurava ali.


Em que momento você começou a trabalhar no jornal O Cidadão? O que te motivou a participar desse tipo de comunicação voltada para questões sociais?


Fiquei encantada com O Cidadão quando o jornal promoveu um debate político entre os candidatos da Maré que pleiteavam um cargo de vereador na Câmara, em 2000. Ao final do debate, me aproximei do responsável pelo jornal na época, e disse que queria fazer parte da equipe, porque achava importante aquele tipo de intervenção do jornal. Foi quando entrei no Cidadão como fotógrafa, porque já fazia um curso de fotografia no próprio Ceasm. Fizemos até uma fotonovela, mas eu queria mesmo escrever. Quando acompanhava os repórteres em entrevistas, acabava me intrometendo. Logo depois passei para a reportagem e quando entrei para a Universidade fui efetivada como estagiária do Cidadão. Ao me formar, passei para o cargo de editora. Fui a primeira moradora da Maré a assinar o jornal como jornalista responsável. Foi uma felicidade imensa, e uma responsabilidade inigualável. Trabalhar no Cidadão foi um verdadeiro laboratório pessoal e profissional. Aprendi errando e acertando e fortaleci minha identidade mareense.  Foi lá que comecei a acessar a própria Maré, desconhecida por mim enquanto moradora que não circulava pelos espaços. Comecei a notar as gradações de pobreza que existem em uma mesma favela, e fazia as inevitáveis comparações com a minha própria realidade. Nunca faltou comida na minha casa, por exemplo, mas conheci várias famílias que passam fome de verdade, com todo mundo desempregado, sem sequer documentos de nascimento. Tem gente na Maré que não existe para o Estado. Percebi o quanto o acesso aos direitos é limitado e quanto mais se acessa, mas certeza se tem de que os “favelados” não têm seus direitos respeitados. Então, trabalhar no Cidadão me fez entender muito sobre a necessidade urgente de políticas públicas para as favelas do Rio de Janeiro. Por isso, desde o seu início, em 2009, O Cidadão trata dos assuntos relacionados às questões sociais da Maré com prioridade. As pautas enfatizam a identidade local, a cultura e a origem dos mareenses.


De que modo você enxerga o cenário da comunicação comunitária/alternativa atualmente?


Vejo com muito otimismo o cenário da comunicação comunitária e alternativa. Antigamente, essas iniciativas surgiam e desapareciam na mesma velocidade por conta da falta de recursos financeiros. Atualmente, com os avanços das novas tecnologias de informação, os meios de produção são mais acessíveis. Mesmo sabendo que o jornal impresso tem mais apelo nas favelas, seja por ser algo palpável ou pelo fato do acesso à internet ainda não ser universalizado, a possiblidade da criação de um blog, site, entre outros, evita que essas iniciativas acabem se extinguindo de vez. O próprio O Cidadão ficou um longo tempo sem sair em sua versão impressa e o blog acabou “segurando a onda”. Aliado a isso, acho que as iniciativas alternativas ganham força diante do crescente descrédito que os meios de comunicação tradicionais e comerciais experimentam nos últimos anos. A internet, em especial as redes sociais, colocou em xeque a abordagem midiática sobre a cobertura dos fatos. Vide as manifestações de junho do ano passado, quando grupos independentes passaram a cobrir as manifestações sem edição de seu material. Ao divulgarem as imagens, a abordagem feita pelos veículos tradicionais foi posta em questão. Quem estava nas ruas, e não foram poucas as pessoas, passou a comparar o que se via na televisão sobre os protestos que participavam ativamente. Ao iniciar a criminalização dos movimentos que estavam nas ruas, as pessoas questionaram a suposta "neutralidade" que esses veículos juram ter.


Você acredita que esse tipo de comunicação é capaz de produzir alguma mudança na realidade das pessoas dentro da comunidade?


Com certeza, porque acredito que a informação liberta. Através dela as pessoas passam a ver sua realidade de maneira mais crítica, a desnaturalizar aquilo que viam como comum na sua rotina. A mudança de postura diante dos problemas pode levar a ação, a reivindicação de seus direitos. Por isso, as pautas de qualquer jornal comunitário devem levar em consideração a realidade local. Quanto mais próximo estiver dos problemas que afligem a comunidade, mais identificação as pessoas terão com ele.


Qual seria, em sua opinião, o maior problema da mídia hegemônica e qual a melhor forma encará-lo? 


O monopólio dos meios de comunicação enfraquece a democracia. Como diz Bourdieu, não existe opinião pública, existe opinião publicada e o que vemos nos meios de comunicação comercial não é a opinião dos mais pobres. Isso que dizer que os pobres, pretos e favelados não participam da tal opinião pública. Esse fato é muito danoso para a diversidade de pensamento, que não faz parte das pautas midiáticas. Outro grande problema é a falaciosa neutralidade, imparcialidade. Isso é um mito. Quando se escolhe uma pauta entra em jogo a subjetividade do jornalista, do editor e a linha editorial do veículo. É nesse jogo que a tal objetividade tão aclamada pelos meios de comunicação comercial se perde. Por isso, acho que o governo deveria enfrentar com seriedade a questão do monopólio dos meios. É incrível ver a inércia de um governo petista, que nasceu com base forte de trabalhadores, perseguir e fechar mais rádios comunitárias do que o governo de Fernando Henrique. Tivemos a primeira conferência nacional de comunicação em 2009 e, até agora, as iniciativas concretas indicadas pelos conferencistas não foram postas em prática. Sem o monopólio dos meios, a falácia a imparcialidade cairá por terra e cada veículo poderá se incluir nas linhas ideológicas de esquerda, direita, entre outras. Assim, o leitor, ao ler um determinado conteúdo saberá quais os interesses envolvidos na abordagem de cada matéria. A honestidade editorial não impede que reportagens críticas e bem apuradas sejam feitas com seriedade, muito pelo contrário, em minha opinião haveria um salto qualitativo na atividade jornalística.


Como você enxerga o problema da educação pública no Brasil?


Essa é uma questão muito séria. A prefeitura do Rio de Janeiro, por exemplo, prestou um grande desserviço com a tal aprovação automática para aumentar o índice de aprovação nas estatísticas nacionais. Isso resultou em uma geração inteira de analfabetos funcionais. A pessoa consegue juntar as letras, formar frases e ler, mas não consegue interpretar o enunciado. E os professores acabam tendo que se virar em uma turma com mais de trinta alunos que têm diferentes dificuldades. Não há um projeto pedagógico participativo, onde a comunidade escolar desenvolva a melhor forma de trabalhar a realidade de seus alunos. Os professores são pessimamente remunerados e desestimulados, por outro lado, há o aluno que não reconhece na escola como local de formação de identidade, um espaço de aprendizado sobre sua realidade. Essa conta não fecha, não há vencedores. Como uma pessoa que enfrentou essa realidade escolar pode se sentir capaz de entrar em uma universidade? A minha geração não pegou a aprovação automática, mas enfrentou todo o processo de sucateamento do ensino público, por isso, três anos da minha vida foram dedicados a passar no vestibular. Quantos anos esses analfabetos funcionais passarão no curso pré-vestibular? Chegarão a fazê-lo? Com que autoestima? Com que pretensões? Como nos ensinou Paulo Freire, não adianta fazer escolas com educação bancária, onde os professores depositam seus conhecimentos na cabeça supostamente vazia dos alunos. Há que se ter vontade política para uma verdadeira reforma na educação. Paulo Freire, um dos educadores mais completos com suas metodologias magistralmente eficazes, foi completamente renegado por nossa educação.


Hoje, mesmo já sendo formada, você continua morando na Maré. Por que a escolha de permanecer na comunidade?


Hoje sou doutoranda da ECO-UFRJ e não tenho a menor vontade de sair da Maré. Pode parecer contraditório, mas o fato de ter acessado um outro tipo de informação, diferente daquela disponível para meus pais, irmãos e vizinhos, talvez me faça ter mais vontade de ficar na Maré e refletir sobre a realidade da favela vivendo-a cotidianamente. Sinto que o fato de o Estado se fazer ineficaz em serviços básicos fortalece o debate que tenho com aqueles que me cercam. No final das contas, a minha certeza é que na Maré está a minha história de militância. A Maré é o meu lugar!

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