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Ela não vai parar

Em entrevista a O Casarão, Aika Cortez fala sobre rap, feminismo e preconceito


Por Lucas Alves e Gabriel Rolim



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O público predominante do rap sempre foi o masculino. Figuras como Kanye West, Tupac e Jay-z, nos Estados Unidos, Sabotage, Mano Brown e Black Alien, no Brasil, são referência nas rodas. O contingente de meninas que apreciam esse estilo musical já existia, entretanto, por pressão da sociedade que quer vê-las como senhoras recatadas, poucas mulheres apareciam nos encontros para rimar a sua própria vida. Esse cenário permaneceu por anos, até agora.


O domínio cansou. A falta de liberdade deu no saco. As mulheres encontraram nos versos uma forma de mostrar o seu poder e encarar o preconceito de frente. Mulheres como a carioca Aika Cortez, de 19 anos, dona de uma marra que ela mesma reconhece, que faz parte de sua personalidade e da figura do rap. Aika encontrou no rap uma forma de empoderamento e utiliza sua própria voz como ferramenta de combate à opressão e destaca a autoconfiança como primordial. Essa luta contra os opressores a diverte. A MC quer ver meninas cada vez mais novas imponentes e independentes para não sofrerem nenhum tipo de abuso. Ela não tem medo de brigar ou denunciar o que estiver errado, seja rimando com bom humor ou gritando ferozmente.




[caption id="attachment_8055" align="aligncenter" width="300"]Na luta. Aika participa do show da banda Original Na luta. Aika participa do show da banda Original[/caption]

Mesmo afirmando que o rap precisa de mais protesto, porque muitos assuntos são tratados de forma rasa, superficial ou sutil, a integrante da Liga Feminina De MC’s, se mostra esperançosa com a nova geração. Para ela, a população está se tornando mais politizada.


Nas batalhas de rap, mulheres como Aika não enfrentam apenas o seu oponente, mas também o público. Mas elas não se deixam calar pelo preconceito e machismo, pelo contrário, só estão dando mais gás.


Confira a matéria "Enfim, chega a vez delas"


O Casarão - Qual a sua impressão sobre esse novo cenário, no qual as mulheres estão ocupando um lugar de destaque no rap e o que tem mudado nos últimos anos?


Aika Cortez - Não acho que estamos ocupando lugar de destaque ainda devidamente. O que tem mudado é que as mulheres estão mais conscientes dessa desigualdade e estão dando mais a cara para bater. Antigamente eu via poucas mulheres na música em geral falando sobre o machismo, o que hoje em dia não rola, as mulheres no rap nacional estão começando a se auto-organizar melhor e buscar independência. Não esta sendo fácil, mas não estamos pensando nisso, trabalhar com o rap pra nos é satisfação e  ferramenta de combate à opressão. As críticas e atitudes machistas só estão nos dando mais gás pra trabalhar.

Assista: FreeStyle DiMina - Session 01


Como foi pra você enfrentar esse ambiente predominantemente masculino e machista desde o início da carreira?

Até que eu levo na boa, o rap me empodera, por mais que tentem me oprimir eu sei usar as mesmas ferramentas que os homens nesse meio e, modéstia à parte, às vezes até melhor. A verdade é que eu gosto de tirar onda com a cara dos meus opressores com o rap e isso me diverte, não o faço reproduzindo o mesmo discurso, apenas com o meu trabalho e vendo o público ao redor gostar. Quando a pessoa, os amigos da pessoa ou quem estiver por perto curte o meu trabalho, isso já é o suficiente. Quando digo opressores não falo só de homens, ainda tenho a barreira do racismo e da classe social. Mas o rap reforçou a minha segurança de chegar em qualquer lugar e ambiente e falar com qualquer pessoa de igual para igual, seja o rico da zona sul ou o mendigo da Central do Brasil.


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Qual a relação que você faz entre o rap e o feminismo, em termos de empoderamento?


Eu penso nisso quase todos os dias. Acho que é muito importante eu sempre passar a autoconfiança para o público feminino, a atitude e postura são as minhas principais aliadas quando eu estou na rua. Na minha música eu busco falar sobre a opressão, nas formas de enfrentá-las e superá-las também. Mas dou muita ênfase à autoconfiança em tudo o que for fazer, por achar ela primordial nesse processo. Cada menina que conversa comigo eu procuro ouvir e dar atenção, e destaco com importância que não deve haver rivalidade principalmente com outras mulheres e que autoconfiança não é arrogância. É você ter atitude pra enfrentar qualquer constrangimento, não ter medo de brigar e denunciar o que estiver errado, seja rimando com bom humor ou gritando ferozmente. Quero ver meninas cada vez mais novas sendo imponentes e independentes pra não sofrerem nenhum tipo de abuso.


http://www.youtube.com/watch?v=5mBBqKcVjQ4

O que é e qual é a importância da Liga Feminina de MC’s?

A Liga Feminina de MC’s surgiu em 2014, no Rio de Janeiro. Quem deu a ideia de criar uma liga feminina foi a Taz Mureb. Já existe uma Liga de MC’s há anos que é unissex, mas a sua maioria é homem. A ideia surgiu na escassez de meninas no hip-hop, nas batalhas, fazendo o freestyle, então a ideia surgiu pra podermos incentivar novas meninas a se integrarem na cena, divulgar seus trabalhos, recrutar as mulheres a serem mais participativas e a ter mais espaço, também trazendo mais paridade de gênero pra cultura. Conseguimos fazer conexão com o Brasil inteiro, tem mensagens de novos estados querendo organizar a liga, meninas que começaram na Liga e hoje batalham nas batalhas unissex, que estão gravando e fazendo show graças à iniciativa de uma liga feminina, estou vendo mais meninas interessadas em fazer rap, a se empoderar através do rap, e isso no faz perceber o quanto a liga é importante e o do porque fazermos.

Clique e leia o texto “Sobre rap e guerra de gêneros”, por Aika Cortez


Assista: Aika Cortez faz participação no show da Banda Original 


Você se sente representada pelas rappers nacionais ou internacionais que estão na mídia nesse momento? Elas passam a mesma mensagem que você quer passar?


Sim e não. Me sinto representada pelo som de algumas, principalmente as que trazem um empoderamento sexual como no Funk, mas acho que falta muito protesto. No rap em geral está faltando. Acho que muitos assuntos são tratados de forma rasa e superficial, e até com sutileza quando deveria ter mais agressividade. Minha música fala de mulher que aborta, de mulher que apanha, das que acordam às 5h da manha pra ir trabalhar, das crianças que são marginalizadas e vivem nas ruas, das meninas que engravidam aos 16, das que são ou já foram estupradas, das que falam de política sem falsas informações impulsivas... Sinto falta disso nos sons, as pelo que acompanho da nova geração tudo pode acontecer, hoje em dia a população está ficando mais politizada.

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