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Escassez de ídolos marca nova geração do esporte brasileiro

Por Aline Ventura e Renata Amaral


O mundo atual é feito de situações passageiras, em que nada dura muito. A popularidade de um músico, ator ou escritor, a audiência de um programa de televisão, o sucesso de um aplicativo para smartphones, a atualização de um software, a fama de uma celebridade instantânea, um ídolo no esporte. Em uma geração onde tudo aparece de forma muito rápida, e some na mesma velocidade, se manter no topo como uma referência se torna cada vez mais difícil.

[caption id="attachment_8070" align="aligncenter" width="640"]neymar-reproducao Neymar é o grande ídolo do momento (Crédito: Veja-SP)[/caption]

No passado, era possível observar o surgimento de diversos ícones que perpetuaram os seus valores, arte, trabalho, feitos. São referências surgidas em um passado, que marcaram época e permanecem vivas na memória e no imaginário até a atualidade. No cinema, os casos de Marilyn Monroe, James Dean, Elizabeth Taylor e Audrey Hepburn se destacam. Na música, Elvis Presley, Michael Jackson, Renato Russo, e um fenômeno dos dias atuais, Beyoncé, são grandes exemplos de figuras emblemáticas.

No esporte, diversos nomes podem ser facilmente destacados como símbolos, espelhos, inspirações. São os famosos ídolos. Zico, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Giba, Hortência (ouça os áudios), são grandes exemplos para uma geração que surge em meio a craques relâmpagos, talentos que são desperdiçados e excelentes atletas que não mais criam vínculos com seu clube ou até mesmo sua pátria.

A jornalista Martha Esteves, subeditora de Esportes do jornal O Dia, o 'Ataque', há 18 anos, cita a ideia atual do futebol visto como um negócio como um dos principais fatores que contribuem para a dificuldade em se criar um ídolo real.

“O que acontece hoje é o que o jogador aos 13, 14 anos já tem empresário buscando transação para o exterior. O garoto sobe para o time profissional, joga duas temporadas e vai embora, mal tendo tempo de criar raiz no clube e amor no coração da torcida”, afirmou a jornalista, que fez uma comparação com o tempo antigo.

[caption id="attachment_8057" align="aligncenter" width="660"]marthazico A jornalista Martha Esteves ao lado de Zico (Reprodução Facebook)[/caption]

“No passado, o ídolo era forjado no clube desde as divisões de base. Ali, já aprendia a lidar com as pressões da profissão e a se relacionar com sua torcida. E o fato de defender as cores de determinado clube durante muitos anos, criava identificação com sua torcida”, complementou.

A equação para que um atleta se torne um ídolo não é exata. A identificação com o clube, o comprometimento, a boa conduta, uma postura correta dentro e fora dos gramados são grandes fatores que colaboram para a formação de um atleta-exemplo. Fora isso, há casos de que os atletas só conseguem se consolidar no coração dos torcedores por meio de título de expressão. Ainda assim, a questão não é tão simples quanto parece.

No caso do futebol, um bom nome que contrapõe diversos pontos é o de Adriano, ex-atleta do Flamengo. O jogador é tido como um ‘bad boy’ do esporte, com diversas polêmicas envolvendo não apenas sua carreira, mas também sua vida pessoal. Ainda assim, o eterno Imperador é ovacionado por milhares de fãs, em sua maioria flamenguistas, torcedores do clube que o revelou.

Ainda no Rubro-Negro carioca, surge um dos maiores nomes do esporte no país: Arthur Antunes Coimbra. Zico faz parte de um seleto grupo de jogadores transcendem a barreira de idolatria em um único clube. O camisa 10 é um ídolo nacional. Apesar de não ter conquistado uma Copa do Mundo pela seleção brasileira, Zico fez parte de uma geração talentosa que marcou a década de 80, e mantinha o padrão do futebol brasileiro em alto nível.

“Acredito que a identificação com o Flamengo, por ser rubro-negro, e ter esse respeito pelo torcedor, a dedicação ao clube em tempo integral, fez muita diferença. Quem estava em campo não era só o profissional, era o torcedor também”, afirmou Zico.

Nos clubes cariocas, diversos ídolos surgiram no passado e são ovacionados pela torcida até os dias atuais. No futebol, a máxima de 'quem vive de passado é museu' não tem vez. O tempo antigo de cada time compõe sua história, trajetória e tradição, uma das palavras mais importantes no esporte.

No Fluminense, a dupla Assis e Washington recebe destaque. O famoso Casal 20 é símbolo de uma geração vitoriosa no Tricolor: venceram o Campeonato Brasileiro de 1984, além do tricampeonato carioca, nos anos de 1983, 1984 e 1985. Apesar de serem reconhecidos pelo clube do Rio, os jogadores surgiram juntos em outro time: o Atlético Paranaense.

“Nem sempre ídolos do passado foram revelados no clube. A dupla Assis-Washington veio do Paraná, mas soube criar a identificação com a torcida tricolor”, disse Martha.

[caption id="attachment_8061" align="aligncenter" width="660"]casal20-washington-assis O Casal 20 do Fluminense, Washington à esquerda e Assis, à direita (Crédito: Globoesporte.com)[/caption]

A tão falada identificação com o clube onde se joga está comprometida pelo fato da ida precoce dos jogadores para o exterior. O grande ídolo do momento no país do futebol atende pelo nome de Neymar. Ainda que tenha ido para o futebol europeu com apenas 21 anos, o craque foi revelado pelo Santos, clube onde permaneceu por mais de uma década. Antes de se tornar um ídolo nacional, o atacante já era reverenciado pelos torcedores da Vila Belmiro.

Um caso diferente é o de David Luiz. Considerado o melhor zagueiro do mundo, ao lado do também brasileiro Thiago Silva, ambos entraram para a seleção da Fifa do ano de 2014, o jogador não chegou a criar vínculo com clube algum. O camisa 3 surgiu no São Paulo, ainda nas categorias de base, passou para o Vitória, onde permaneceu por dois anos. Ainda aos 19 anos, se transferiu para o Benfica de Portugal. Quatro anos depois, passou a defender o Chelsea, da Inglaterra, e desde 2014, está com a camisa do Paris Saint-Germain, da França.

O jogador protagoniza nos dias atuais uma grande questão que assombra diversos jogadores. Ao fazer uma pequena sequência de partidas insatisfatórias, o brasileiro passou a ser alvo de constantes críticas e até mesmo perseguições. David Luiz, que até um ano atrás tinha status de ídolo, passa por uma crise na carreira, e ainda aos 28 anos, pode perder o posto de ‘zagueiro da geração’.

Com tantos ídolos repentinos, poucos conseguem se consagrar e eternizar em um clube. Dos casos recentes, dá-se notoriedade a um jogador com a carreira incomum em meio ao mundo efêmero do futebol: Leonardo Moura. O jogador permaneceu mais de dez anos no Flamengo, criou um vínculo com a torcida, conquistou inúmeros títulos pelo clube e, ao se despedir para jogar em outro país, tal qual Zico fez em 1983 para atuar na Itália, o lateral-direito recebeu uma festa como há muito tempo não se via.

“O jogador pode ser ídolo através de seleção brasileira, exemplo do Ronaldo, que não era ídolo de um clube, não teve muita identificação com um só. Era referência nacional. Já o Léo Moura não teve chance na Seleção, mas não deixou de ser ídolo, por causa do Flamengo, devido às conquistas, sua postura, uma série de fatores”, analisou Zico.

“Minha identificação com o Flamengo aconteceu naturalmente. Fiquei feliz, lisonjeado e agradecido a Deus por isso. Acredito que foi pela entrega que sempre tive em campo e também pelos títulos que conquistei. Para ser ídolo no Fla é preciso honrar a camisa, não só vestir”, disse Léo Moura sobre a sua passagem pelo Rubro-Negro.

[caption id="attachment_8064" align="aligncenter" width="660"]12set2013---leo-moura-comemora-gol-do-flamengo-sobre-o-santos-em-jogo-valido-pelo-brasileiro-1379033312390_1920x1080 Léo Moura se despediu do Flamengo após dez anos, no início deste ano (Crédito: Sportv)[/caption]

O lateral-direito passou por um processo raro atualmente. O surgimento de um ídolo no futebol está cada vez mais escasso no país pentacampeão do mundo. Em uma referência digna de Assis, Washington e até mesmo Zico, dentre tantos outros que surgiram no passado, e guiam torcidas e clubes no presente carente de referências, Léo Moura entrou no seleto hall de atletas para uma torcida inteira admirar.

“O último dos moicanos foi mesmo o Léo, que ficou dez anos no Flamengo, e teve uma festa de despedida à altura do respeito que tinha junto à torcida - quase 33 mil foram ao Maracanã. Dificilmente isso irá se repetirá. Rogério Ceni, goleiro do São Paulo, deve apagar essa luz”, finalizou a jornalista Martha.

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