Navigation Menu

Necessidade que gera empreendedorismo

Por Clara Monnerat, Geovani Noleto e Luciane Ballock      


Deixar de ser empregado e se tornar patrão é o sonho de muitos brasileiros. Segundo o empresômetro, até maio deste ano já foram criadas mais de 500 mil micro e pequenas empresas.  Atualmente 25% do PIB brasileiro vem destas MPEs, que geram quase 15 milhões de empregos formais. Porém, destas 500 mil empresas mais de 300 já fracassaram. A explicação para esta mortalidade está na falta de planejamentos. Para tentar amenizar essa situação o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE tem ajudado bastante com a capacitação do pessoal através de cursos e palestras sobre empreendedorismo.


Mas por quê empreender? Mudar de vida, ganhar dinheiro, obter sucesso, status e poder. Isso é o que mais impulsiona os novos empreendedores. Claro que também está ligado ao desenvolvimento econômico do País, então, o incentivo do governo pode ser considerado um dos pontos de partida para se criar um empreendimento.


A organização, liderança, determinação, visão de negócios e principalmente a imaginação são os predicados que um empreendedor precisa para alcançar o sucesso. Entretanto nem todos os empreendedores começaram com esse pacote. Grande parte tinha apenas um objetivo: sobreviver! Alguns conseguiram atingir essas qualidades com o tempo e outros nem pensavam em construir impérios, queriam apenas a sua subsistência. Como explica a professora Joysi Moraes, do Departamento de Empreendedorismo e Gestão da Universidade Federal Fluminense. "Quando temos um aumento no índice de desemprego, temos um aumento do empreendedorismo por necessidade. Se as pessoas estão indo é por uma necessidade daquele momento, quando começa a ter emprego, algumas saem e outras  não. Às vezes por falta de educação formal ou algo mais, ela vai ficando...”


O programa de pesquisas Global Entrepreneurship Monitor (GEM) que estuda a atividade empreendedora em 80 países, classifica o empreendedor em dois tipos, de acordo com a motivação: o empreendedor por oportunidade e o por necessidade. O GEM, que atua no Brasil desde 2000 através do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade - IBQP, em sua última pesquisa apontou que  o empreendedorismo de necessidade caiu 28,2% entre 2002 e 2014, período em que o Brasil teve baixas taxas de desemprego. 


empreeendo



O empreendedorismo de necessidade muitas vezes é entendido como sinônimo de atividade informal, que vai desde a venda de bombons em transportes coletivos à venda de bebidas nas praias. Porém nem todo trabalhador informal é considerada empreendedor de necessidade, pois este tem o minimo de planejamento podendo estar na informalidade ou não. São pessoas que não conseguiram inserção no mercado de trabalho por falta de formação ou porque os salários não condizem com o custo de vida e tentam novas formas de sustento.


No trabalho informal encontramos mães desesperadas em busca de alimentos para os seus filhos. Filhos que trabalham para sustentar suas mães. Um trabalho suado, cansativo e às vezes perigoso, porém é a principal fonte de renda de algumas famílias. “Um tipo de trabalho muito informal que a pessoa faz por necessidade, mas não têm nenhuma proteção social. comenta Joysi. Segundo a última pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, esse tipo de trabalhador representa 33% da força de trabalho no Brasil.


Dona Lívia, de 79 anos, é uma típica trabalhadora informal. Com uma história de muita dificuldade, ela viu como saída a venda de doces nas ruas de Niterói. Foi dona de casa por muitos anos e pagava seu próprio INSS para garantir sua aposentadoria atual. Lívia não é seu verdadeiro nome, ela prefere não se identificar, já que o filho não sabe da sua atividade. O marido, que trabalhava como camelô, faleceu há oito anos. Foi então que as dificuldades da dona de casa aumentaram. Sua renda não era suficiente para pagar seu aluguel e ela se viu obrigada a alugar uma casa menor com sua sobrinha. Após um ano da morte de seu marido, Dona Lívia decidiu vender doces para complementar sua renda.


"Tudo o que ele ganhava a gente gastava, então não deu pra ele deixar nada pra mim. Depois que ele morreu eu tive que sobreviver né!? Uma vez eu estava conversando com meu vizinho e ele me disse: Por que a senhora não vende doces? Doce é leve, você vende na mão", explica.


“Compra um docinho pra me ajudar!?” É assim que aborda as pessoas nas ruas do centro de Niterói para vender sua mercadoria. Ela fica em pé seis horas por dia com um pratinho de paçoca, bananada e pingo-de-leite, oferecendo a todos que passam pela rua.


A aposentada conta que compra os doces na CEASA (Central de Abastecimento da Secretaria de Agricultura e Pesca do Estado do Rio de Janeiro), na unidade de São Gonçalo. Ela vai de carona com um vizinho que também é camelô e contribui pagando parte do gás veicular utilizado na viagem. Gosta de trabalhar como vendedora e não tem problemas com o “rapa” da guarda-municipal, pois “eles só implicam com quem monta barraquinha”. Porém a ambulante pretende parar em breve sua atividade.


Assim como a Dona Livia a maioria dos trabalhadores informais e empreendedores de necessidade ficam estagnados em seu grupo social contribuindo para a perpetuação da pobreza na família. O individuo não tem intenção de mudar sua condição social, quer apenas manter o padrão, estendendo isso aos seus filhos. “A criança cresce vendo aquilo ali. Pra ela se torna normal, ela vai querer fazer escola pra quê? Se a tua mãe está ali vivendo daquilo, então você acha que vai viver também.” explica a professora Joysi.

0 comentários: