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Vai ter festa ou não?

Diretórios acadêmicos e coletivos organizam festas nos campi da UFF para arrecadar fundos, mas enfrentam proibição dos eventos pela Reitoria


Por Carolina Baldi e Natacha Dominicci


   Quinta-feira, 9 de julho. 22h30. Campus do Gragoatá. Portões fechados. “Não vai ter festa”, dizem os jovens para os amigos que chegam. “Vamos para a Cantareira, então”, sugere um deles. Os amigos concordam. Todos caminham pela pequena rua que desemboca na praça da Cantareira, já bem cheia, na sua maioria por universitários. Enquanto compram uma cerveja, um amigo chega correndo e avisa: “Vai ter festa sim! ”. Todos saem às pressas, já que a possibilidade de cancelarem a festa novamente é grande. Mas essa era uma noite de sorte: teve festa!


   Na Universidade Federal Fluminense, essa tem sido a rotina: estudantes marcam a festa e a universidade manda fechar os portões. Mesmo quando a estrutura já está montada, as bebidas no freezer e os convidados chegando. A festa da noite de 9 de julho era chamada “Bonde Ladies feat #DACOÉBOM *a festa da comunicação*”. Organizada pelo Diretório Acadêmico de Comunicação Social (Daco), o lucro da festa tinha como objetivo financiar o transporte dos estudantes da UFF para o Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação Social (Enecom) de 2015, em Salvador.




[caption id="attachment_8506" align="aligncenter" width="959"]Nas páginas das festas Nas páginas das festas "Bonde Ladies" e "Meu reitor é mó otário", a dúvida tomava conta: teria festa ou não?[/caption]

   A realização de festas dentro dos campi da universidade por diretórios acadêmicos e coletivos para arrecadar dinheiro é recorrente. Como não possuem renda fixa, essas organizações precisam buscar formas de custear as atividades e projetos desenvolvidos por eles. A integrante da gestão do Daco, Isabella de Oliveira, explica: “A festa é uma das formas mais diretas de se conseguir dinheiro, o retorno é imediato e o lucro geralmente é alto, podendo chegar aos dois mil reais. Além disso, não compromete ideologicamente o diretório com nenhuma instituição, ou seja, mantemos a nossa autonomia de decisão política, além de fomentar o debate da universidade enquanto um espaço público que devemos ocupar cada vez mais.”


   O coletivo “Nós não vamos pagar nada!” também é adepto da realização de eventos dentro da universidade. Eles ressaltam a importância de ter alternativas para conseguir dinheiro, principalmente agora, com os cortes do governo federal na educação: “Está cada vez mais difícil ter auxílio para congressos científicos ou encontros de área. Aqui na UFF é muito comum o Centro Acadêmico ser obrigado a pagar a gasolina e as diárias dos motoristas para enviar sua delegação a um encontro ou congresso. A partir das festas, conseguimos levantar dinheiro em situações como essa, por exemplo”.


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Estrutura, suor, e festa!


   A organização das festas tem início na escolha do tema: além de angariar fundos, os eventos têm como objetivo gerar a reflexão sobre alguma pauta dos organizadores. Com o tema escolhido,  organiza-se a estrutura: som, iluminação, DJ, bebidas. Quando o diretório ou coletivo não possui caixa inicial para bancar os custos, é comum a divisão dos gastos entre integrantes que podem ajudar e que são reembolsados com o lucro das festas.


   Tudo devidamente planejado, é hora da divulgação. Ela é fundamental para atrair o maior número possível de pessoas, de dentro e de fora da UFF, para o evento. São criadas páginas em redes sociais e a divulgação é feita também fora da internet com cartazes e pelo burburinho nos corredores da universidade


   Segundo Isabella, o balanço das festas é positivo: “Geralmente é, tanto em termos políticos quanto financeiros. Politicamente porque conseguimos demarcar nosso posicionamento de que a universidade é um espaço público e, portanto, dever ser ocupada. Financeiramente, porque tem um baixo custo inicial e o retorno geralmente traz o lucro esperado”. Os integrantes do coletivo Paga Nada ressaltam ainda que o espaço da universidade não é prejudicado pelos eventos: “Ao término da festa nós nos responsabilizamos pela limpeza e entrega do local totalmente em ordem para as aulas do dia seguinte”.


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Imagens: Gabi Moscardini


Proibição no caminho


   Mas como a experiência da festa que abriu a matéria mostrou, a realização das festas não é tão simples assim. Desde 2005, quando uma pessoa morreu em uma festa realizada em um dos campi da UFF, os eventos foram proibidos dentro da universidade. “A proibição, mas principalmente a falta de diálogo com a reitoria, são barreiras para a realização das festas”, aponta Isabella. Os membros do coletivo Paga Nada acrescentam: “Hoje a reitoria proíbe as festas fazendo revistas não autorizadas em carros, fechando o portão da universidade antes das 22h e até mesmo utilizando a guarda patrimonial terceirizada para investir contra estudantes que estejam organizando alguma atividade cultural dentro da universidade”.


   A regulamentação das festas nos campi está em pauta nas reuniões dos movimentos estudantis da universidade não apenas nos campi de Niterói, mas também em outras unidades da UFF. No dia 24 de outubro, um grupo de trabalho, formado por estudantes de todos os campi da UFF,  se reuniu na unidade de Campos dos Goytacazes para formular de maneira coletiva a Portaria de Festas, que foi aprovada pelo Conselho de Centros Acadêmicos no dia 27.”Saindo com uma proposta consensual de dentro do movimento estudantil, podemos ir ao Conselho Universitário pressionar pela aprovação da Portaria de Festas e o fim definitivo desta proibição contraproducente”, explica o Paga Nada.


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Não é só festa


   A realização das festas vai além do entretenimento e da arrecadação de fundos, como destaca Isabella: “A gente entende a festa enquanto um espaço lúdico e ao mesmo tempo um instrumento potente de diálogo com um número muito grande de pessoas, inclusive daquelas que não têm acesso à universidade pública, sendo estratégico para o debate sobre cultura, por exemplo”.


   Os membros do coletivo apontam a importância do reconhecimento da universidade como um espaço público para promoção da cultura gratuita e democrática: “Somos contra a cultura mercantilizada, onde só quem tem acesso à ela é quem pode pagar. A UFF abrigar eventos culturais da sociedade é fundamental para que a universidade cumpra sua função social de oferecer alternativas públicas e gratuitas à cultura-mercadoria”.




[caption id="attachment_8515" align="aligncenter" width="2048"]Cartaz do coletivo Cartaz do coletivo "Nós não vamos pagar nada!"[/caption]

   Enquanto a universidade não toma uma posição clara sobre o assunto, o discurso a respeito da liberação das festas dentro do espaço da UFF fica polarizado:  estudantes  versus administração, personificada na figura do reitor Sidney Mello. Inclusive, ele foi o tema da última festa realizada no Campus do Gragoatá, promovida pelo Paga Nada, chamada “Meu reitor é mó otário, ele barra minhas festinhas”, que reuniu dezenas de alunos. Tentamos falar com um representante da Reitoria, mas até a postagem da matéria, não tivemos resposta. E assim seguem as noites na UFF, sem qualquer regulamentação. Até quando?

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