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OAB quer fim das charretes de turismo

Por Felipe Magalhães


Dois anos após negociar com a Associação de Charreteiros da Ilha de Paquetá, no Rio, a Comissão de Proteção e Defesa dos Animais OAB/RJ finalmente conseguiu aposentar os trinta e um cavalos que faziam o transporte de passageiros e de pequenas cargas no local. Eles foram substituídos por carrinhos elétricos semelhantes aos utilizados no golfe, comprados pela Prefeitura. Os charreteiros foram treinados, tiraram habilitação e agora trabalham com os veículos.

O desejo da Comissão é levar a proposta de libertar os cavalos que trabalham em municípios como Friburgo, Miguel Pereira, Petrópolis, Teresópolis e Paraty, além das praças do Rio de Janeiro. Desde o início do ano, o governador Luiz Fernando Pezão sancionou a lei 7.194/2016, de autoria do deputado estadual Dionísio Lins (PP), que proíbe a utilização de animais para puxar carroças. Apesar disso, a regra não se aplica a atividades turísticas - o que ocorre nos municípios acima - e nem nas áreas rurais.

[caption id="attachment_9038" align="aligncenter" width="604"]901255_470720449672621_1098635457_o Presidente da Comissão quer pôr fim às charretes de turismo em todo o estado. (FOTO: Arquivo pessoal)[/caption]

O presidente da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais OAB/RJ, Reynaldo Velloso, explica que onze dos animais que faziam transporte na Ilha estão em um santuário que fica em local não divulgado, por questões de segurança. Os outros vinte permanecem na Fazenda Modelo da Prefeitura, em Guaratiba, mas terão destino semelhante aos demais ainda esta semana. Para ele, a ação "sacudiu o Brasil".

- O que você sentiu quando viu os cavalos começarem a ser retirados da Ilha?

Uma emoção muito grande. Meus amigos dizem que a minha porção biólogo – também fiz Biologia, depois que fiz Direito – muitas vezes se sobrepõe à minha porção advogado. Então, sempre me emociono. Não só lá, mas quando falo nas minhas palestras. Foi uma emoção muito grande, principalmente pela representatividade do que foi acabar com a tração animal em Paquetá. Isso pode trazer um apoio muito grande se pensarmos no Brasil como um todo. A emoção foi dupla: a da libertação daqueles 31 animais que lá estavam e, também, a de poder unir campanhas regionais e depois nacionais contra esse absurdo que é a tração animal. Me senti muito motivado e emocionado com a saída deles lá, principalmente do jeito que foi, porque a gente pode proporcionar a luta em outros estados.

"A porta está aberta e a chave foi Paquetá"


- Existe uma intenção de começar a negociar com algum outro município para retirar as charretes de turismo?

Foi a primeira vez na história que charreteiros de uma cidade tradicional como Paquetá aceitou, por unanimidade, o fim das charretes. Foi a primeira vez que um grupo de uma cidade bucólica, tradicional, sentou com uma pessoa para abrir o diálogo.  Isso deu muito fôlego. No dia 31 de maio, já estive reunido com os charreteiros de Petrópolis. Foi outra situação que sacudiu o Brasil. Não quer dizer que aconteceu tudo na terça-feira, claro, mas a porta está aberta e a chave foi Paquetá.

[caption id="attachment_8905" align="alignnone" width="960"]13220845_1042446435833350_513954584762425584_n (1) Cavalos foram levados por caminhões e uma balsa no dia 19 de maio. (FOTO: Arquivo pessoal)[/caption]

- A OAB pensou pensar em fazer uma campanha nacional de arrecadação para comprar charretes elétricas, mas a Prefeitura do Rio decidiu arcar com os veículos semelhantes aos de golfe. Vocês pretendem lançar uma campanha de arrecadação para substituir os cavalos em outros locais?

Nós tínhamos programado essa campanha para ser feita porque iria a chamar todo o Brasil. Chamaríamos vários órgãos públicos para fiscalizar, ia ser tudo com decência. Haveria a participação de um juiz para redigir um documento e todos assinariam na frente dele, para nunca mais ter cavalos em Paquetá. Seria uma campanha de arrecadação de fundos toda supervisionada para que isso acontecesse. Paquetá tinha 31 cavalos. A informação preliminar é que em Petrópolis são um pouco mais de 40. Temos que ver custos e se o mesmo carro se adapta ao local. Depois que a gente tiver a ideia de custos, vou pedir uma audiência com o prefeito. No Rio de Janeiro, essa etapa [do dinheiro] foi eliminada. A gente vai tentar tecer uma parceria com as prefeituras locais. Se não quiserem, vamos partir para essa campanha. Mas vamos tentar esgotar todas as negociações com as prefeituras.

"Vários detalhes em laudo apontavam problema em todos os cavalos"


- Como eram as condições dos animais de Paquetá?

O laudo do Ministério Público, provocado por uma ação do MP e feito por um perito veterinário, apontava vários problemas de saúde com os animais: muitos cascos estavam deformados, devido aos animais ficarem em local duro, úmido e com fezes; também havia casos de problemas de coluna; cicatrizes; doenças crônicas. A alimentação era inadequada. Vários detalhes estipulados nesse laudo apontavam problema em todos os cavalos.

[caption id="attachment_9107" align="alignnone" width="960"]13254541_1044972285580765_7383888491859427248_n Cavalos já estão em santuário. (FOTO: Arquivo pessoal)[/caption]

- O que vocês enfrentaram de resistência, ao longo desses dois anos de negociações?

A maior dificuldade que a gente teve nisso tudo foi o recurso. Se tivéssemos o dinheiro, isso já estaria resolvido há mais tempo. Fomos trabalhando a ideia de os charreteiros aceitarem abrir mão das charretes e convencendo a maioria dos moradores, até que se chegou a um denominador comum e conseguimos avançar. Os charreteiros são pessoas decentes e precisam ter o ganha-pão, precisam viver. Sempre o entrave maior é o dinheiro. O Brasil é o país das tradições de conveniência. E nós quebramos esse paradigma.

- De que forma a população pode ajudar nessa campanha da OAB para aposentar os cavalos de charretes do estado do RJ?

O que a população tem que fazer é não utilizar a charrete com animal de tração em área turística. A carroça é diferente, porque está mais atrelada à pobreza... É outra batalha que ainda vamos chegar lá. A nossa luta é um passo de cada vez. Mas a charrete é turística, e a população já ajudaria muito se não usasse. Também pode reivindicar outro tipo de veículo para andar nas localidades. É preciso orientar aos filhos que aquilo faz mal. O ferro que fica na boca do cavalo incomoda, o peso diário, os horários inadequados de alimentação e hidratação. A ração não é balanceada. Os pais precisam contar aos filhos a maldade que é isso, do cavalo escravo. Animal sente fome, sente frio, sente medo. E muitas vezes nos trazem mais amor do que os seres humanos. Eles não estão aqui para serem usados por nós, mas para serem nossos companheiros.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=9BQesS4aLrk]



Últimos animais deixaram a Ilha durante a noite. (VÍDEO: Arquivo pessoal)

Um comentário:

  1. […] Comissão de Proteção e Defesa dos Animais OAB/RJ pretende levar a iniciativa de acabar com as cha…, como os citados acima. O primeiro da lista é Petrópolis. Já no dia 31 de maio o presidente da […]

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