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Em busca do "Caraca!"

Fernando Moreira fala sobre o início da trajetória no jornalismo e o atual sucesso de seu blog Page Not Found

Por Stephany Cordeiro
   
Aos 47 anos, o jornalista e escritor Fernando Moreira diz que o que espera de seus leitores, são reações do tipo "Caraca!". Autor do blog Page Not Found, que trata de fatos verídicos inusitados, Fernando se inspirou em 14 histórias publicadas em seu blog, na criação do livro "Baseado em Fatos Reais". Ele conta que a obra não se resume em uma coletânea dos contos "As histórias são reais no coração delas. Elas foram tiradas de um fato real, mas eu me permiti a ficção. Tem um fato real, e aí eu "viajo", eu invento personagens... todos os nomes e locais são fictícios".
  O "jornalista da ficção", como autodenomina-se, acredita que seu livro tem grandes condições de ser adaptado para a televisão. "Eu acho que os contos que escrevi têm um apelo visual muito grande. As histórias são facilmente roterizáveis e podem ser transformadas em contos pra tela. O meu objetivo é  transformar o page em algo maior. Já virou livro. Quem sabe, uma série na tv? Porque os contos têm um toque cinematográfico"- explica.

   Fernando estudou no Colégio Militar e chegou a fazer três períodos de Engenharia. Na faculdade, durante os intervalos das aulas, ele gostava de passar o tempo escrevendo. Mas na verdade, conta que o dom o acompanha desde pequeno, quando escrevia pequenas histórias e sua vó pagava uma pequena quantia por elas. "Ela financiava esse meu hábito de escrever, esse meu prazer de escrever, me incentivando. Claro, não era DINHEIRO... era pra comprar uma bala, uma pipa... Eu vim do subúrbio, então, pipa era  uma coisa importante."  

O tempo passou, e Fernado percebeu que Engenharia não era realmente o que queria. Largou tudo e foi fazer Jornalismo na UERJ. Em uma entrevista exclusiva, ele conta um pouco mais sobre suas experiências profissionais.


A trajetória

Como foi o início da sua carreira de jornalista?

Foi bem difícil... eu me formei em 1993 e só fazia uns freelas, umas coisas bem pequenas. Não conseguia arrumar um emprego e nem cheguei a estagiar em redação. Em 1999, O DIA ofereceu um curso de jornalismo e os melhores seriam aproveitados. Esse curso foi super concorrido e eu passei em primeiro lugar. Depois disso, eu fui aproveitado e consegui um emprego fixo. Eu comecei com a editoria de Economia em 1999, mas por acidente. Eu não tinha menor vocação pra essa área, mas era a única oportunidade oferecida e eu queria muito trabalhar em uma grande empresa.

Como foi o processo de ir para a editoria de jornalismo  internacional? Os assuntos que você escrevia antes mudaram completamente?

Foi um acidente. Em 1999, eu saí do O Dia e vim para O Globo ser redator. Eu fui convidado pra trabalhar em um site, numa parte, que reunia muitos redatores. A gente chamava de Plantão. Ou seja, eram redatores que faziam todas as notícias de todas as áreas. Você estava aqui num momento, e se acontecesse alguma coisa importante de inter, você fazia. Se fosse de país, você fazia. Se fosse cultura, você fazia. Se fosse esporte, você fazia... Então, nós éramos generalistas. A partir de 2000, no processo de eleição do Bush contra o Al Gore, eu passei a cobrir internacional. Só que aí, aconteceu um fato muito importante em 11 de setembro de 2001 (o ataque às torres gêmeas). A editora de inter, na época, pediu pra minha chefe nesse grupo de redatores, um redator mais experiente e tal... Então, ela falou "Tem que ser o Fenando, que tem facilidade com língua, com inter...". Na verdade, eu fui pra ajudar na cobertura, que era muito pesada. Só que na época, a editora falou "você não volta mais". Então, exatamente ali, eu comecei minha carreira de repórter internacional. Em 2003, acaba o globonews.com, eu volto pro O Globo e continuo na editoria de inter e ciência. Em 2008, eu assumo a chefia da editoria de internacional.

Qual matéria você considera ter sido "um divisor de águas" na sua carreira?
Acho que foi uma matéria que mais teve repercussão aqui no O Globo. Em 2005, teve o Katrina, que atingiu Nova Orleans...  eu estava aqui no Brasil, e por acidente, uma pessoa entrou em contato com O Globo, querendo achar uma brasileira que estava lá. E eu fui atrás dessa brasileira. Talvez, eu tenha sido o primeiro repórter do mundo a mostrar que  o estádio Superdome estava entupido de gente; com dezenas de corpos, a partir do relato de uma brasileira que estava lá, com um celular quase acabando a bateria (não tinha como carregar, porque a cidade estava totalmente  às escuras).  E me deu muito orgulho, poque eu consegui ajudar  essa Brasileira, ao Consulado entrar em contato com ela, e tirar ela de lá... então, não só foi uma história que teve muita repercussão nacional e internacional, como também me deu muito orgullho de poder usar o jornalismo como seus fundamentos: de ajudar a sociedade, promover o bem estar social... esse foi um caso bem marcante.

Nas entrelinhas

Como você fica sabendo dos casos inusitados que acontecem no exterior? Você pesquisa na internet ou tem algum correspondente ou uma agência que te mantém informado?

As agências não cobrem tudo de todos os eventos. Principalmente essas coisas que são relegadas à segundo plano. Qual é a ideia do Page Not Found? Por que que o nome é Page Not Found? Porque é a página que você não encontra mídia tradicional. São notícias que você não encontra na cobertura "normal", na cobertura "corriqueira das coisas"; chamado hard news (que são as notícias mais "pesadas"). Então, as agências de notícias não cobrem esse tipo de coisa, como deveria, pra abastecer um blog que é muito atualizado. O Page, tem uma média de 9 posts por dia. Então, eu tenho que recorrer a sites mesmo. E alguns países, principalmente Reino Unido, Alemanha, Rússia, China e Índia, são países que gostam muito desse tipo de notícia. Então, eu desenvolvi uma lista de sites onde procurar esse tipo de coisa, esse tipo de informação inusitada.
Em um trecho do seu livro "Baseado em Fatos Reais", você relata "Sem tirar o avental de sangue e cego de fúria, Igor entrou no Samara enferrujado e desapareceu na névoa de óleo queimado que se espalhou pela rua" (pg 40). Você é adepto do Jornalismo Literário (ou Novo Jornalismo)?
Sim. Eu acho que eu fiz jornalismo pra chegar ao "Baseado em fatos reais". Eu acho que esse livro é o auge da minha carreira. A minha carreira aqui no Globo foi construída em cima de textos menos hard news, e  mais metafóricos. Textos mais densos,com mais liberade... eu uso a palavra "libertinos". Não no sentido sexual, mas no sentido de se permitir... sair do lide convencional. E esse tipo de assunto que o Page trata, facilita um pouco isso.  As  histórias do livro foram selcionadas pensando nisso: Quanto de literatura eu vou poder tratar e abordar nessas histórias? Essa experiência no Globo me ajudou bastante a fazer isso.
Como você faz  pra  apurar a veracidade desses casos tão bizarros e inusitados?
Não existe um critério pra você fazer isso. A gente  tende a confiar. Por exemplo, a própria agência de notícias... você não sabe se ela está apurando uma coisa verdadeira ou falsa. Então, meu critério é: onde está publicado. Se onde está publicado é um site confiável, eu vou atrás... eu não tenho como ligar e creditar. Mas, eu sempre faço a ressalva  que a notícia foi tirada do site tal. Eu não assumo aquilo como uma verdade minha, que eu pesquisei, que eu corri atrás, que eu apurei. Volta e meia, a gente cai nuns golpes. Ninguém está imune a isso. Jornalismo é isso.

Na rede
Você acha que seu blog é dirigido a que tipo de leitores? Dá pra traçar um perfil?
Não existe. As pessoas pensam, de uma forma geral, que o blog é pra classe C e D . Porque tem esse fenômeno de Expresso, Meia Hora... que são jornais muito populares, que vendem na barca, no trem, nas áreas menos favorecidas da cidade, que têm uma leitura muito rápida, muito dinâmica... rasa, e não, profunda.  Quando o Page foi criado em 2006, curiosamente no 06/06/2006, as pessoas falavam pra mim" Seus leitores vão encher uma Kombi, no máximo", "Aqui no Globo isso não vai funcionar", "O Globo não tem esse perfil de leitor: classe C e D". Mas, as pessoas se enganaram. Hoje, eu tenho 4,5 milhões de cliques por mês. Eu  tenho leitores de todas as classes sociais:  desembargador, engenheiro, médico... "n" políticos me seguem no Twitter, gente da imprensa, artistas...  Ou seja, não existe isso porque a curiosidade pelo que é diferente afeta as pessoas da mesma forma, independente de classe social.
Você acha que a página do Globo em redes sociais como o Facebook ajudam a divulgar as notícias do seu blog? Ou as pessoas só lêem as chamadas de forma superficial?
A audiência no Facebook é muito importante pra mim. As pessoas não passam só os olhos por curiosidade.  O blog não trata de notícias hard news. Você vai ler assim "Dilma chama Serra de careca e bobão", por exemplo. Aí, a pessoa terá a seguinte reação "Ué, como isso aconteceu?" Então, ela clica.  Cada vez mais, eu estou mais relevante no Facebook, e o Facebook está cada vez mais relevante para o "Page". Então, isso me dá a certeza de que as pessoas não se bastam só com a chamada. Elas clicam também, pra saber o que tem por trás dela.
Você acha que o tipo de notícia que você escreve para o blog tem sido mais valorizado pelos leitores do que assuntos considerados mais sérios, como política, economia e saúde?
Nem todo mundo que entra no blog é um desavisado de  que tal página trata de notícias surreais. Mas eu acho que em entra no blog sabendo sobre o que se trata, quer exatamente o que eu pretendi quando criei o Page Not Found.  Eu estava cansado de falar sobre Bush, Saddan Hussein, guerra ao terror, Bin Laden, de Al- Qaeda, e quis escrever sobre assuntos mais leves. Quando o leitor vai ao page, ele não está abrindo mão do hard news, da política, da economia, das notícias do Rio de Janeiro... Ele quer um momento em que  possa viajar comigo, um momento de lazer. O Page Not Found é mais ou menos isso. É o momento do leitor se afastar um pouco desse mundo pesado que a gente vive.
Como você lida com as críticas? Elas interferem no seu trabalho de alguma forma?
Jornalista que tem medo de crítica, não vira jornalista. A gente que tem um blog, ou uma coluna (como você queira chamar), com um apelo tão popular e tão visto, vai receber crítica de todos os lados. Existem críticas construtivas (são críticas bacanas)... mas tem  muita gente que critica só por criticar.  Acha que o conteúdo do Page é um conteúdo menor...  Eu escrevo alguma coisa do tipo fait diver, um assunto leve... aí, vem aqueles caras politizados" O Brasil pegando fogo, a CPI, a currupção da Petrobras, o mensalão... e você escreve uma besteira dessas? Um assunto tolo desses?" Tem espaço pra todos, entendeu? Mas o cara clicou lá, chamou a atenção dele. E existe um negócio que eu acho engraçado: elas são atraídas pra esse tipo de conteúdo e se sentem mal por terem entrado naquilo. "Poxa vida, eu acho que eu queria ser um pouco mais politizado. Eu queria ser um pouco mais intelectualizado, e entrei naquilo... Estou aqui lendo essa bobagem, então vou ter que me chicotear e me punir por ter entrado aqui"- e escrevem  esse tipo de coisa. Então, eu lido muito bem com isso.  Volta e meia, eu agradecia as críticas. Eu tinha até a prerrogativa de publicar ou não o comentário criticando. E muitas vezes, eu aceitava e autorizava a publicação de comentários que "metiam o pau" no meu trabalho. Não tenho problema nenhum quanto à isso. "Quem tá na chuva é pra se molhar".
Você já trabalhou ou pensa em trabalhar em meios diferentes como rádio ou televisão?
Rádio, eu já fiz. Durante um ano e meio eu tive um quadro chamado "Caraca!" toda sexta-feira no programa do Alexandre Ferreira, na Rádio Globo. Para esse quadro, eu levava casos inusitados, que tinham o mesmo viés, o mesmo teor  de notícia do Page Not Found. Era muito legal! Eu gosto muito de rádio. Tinha uma audiência muito boa, uma resposta muito boa dos ouvintes. Televisão, eu já fiz produção, edição de texto na Globosat... mas, nada específico (isso, na época que eu fazia freela). Mas, a minha grande paixão é ficção. É engraçado falar isso, mas é uma expressão que martela na minha cabeça... eu sou um "jornalista da ficção". E o "Baseado Em Fatos Reais" é exatamente isso: um jornalismo da ficção.

Sua  obra
Como foi a seleção dos fatos para o seu livro? Quais critérios você usou?
Não houve nenhum critério. A única história que eu já sabia diante mão, que entraria no livro, foi a primeira história: "Coração de chumbo", que  quando eu escrevi pro Page, eu pensei "Poxa, se um dia eu escrever um livro, essa história vai ter que entrar (por ser muito interessante). As outras histórias foram tipo: Calma aí, deixa eu dar uma olhada no que realmente dá pra fazer um conto.  Quais são as histórias em que eu vou poder viajar, em  que eu vou poder  realmente oferecer pro leitor alguma coisa diferente do  blog? Porque simplesmente repetir o que estava no blog, não fazia muito sentido pra mim.  Eu queria dar ao leitor uma coisa que fosse inédita pra ele. É claro que o coração da história já saía no Page. Mas toda a construção da história, toda a periferia da história foi inédita.
Em seu livro "Baseado Em Fatos Reais", você procura extrair uma lição de cada conto?
Eu não diria uma lição, porque eu não sou educador. Mas tem uma mensagem, tem alguma coisa nas entrelinhas que gosto de deixar no ar. Deixar o leitor pensando, deixar ele atento e mais desconfortável. O curioso é que meu filho nasceu tem 7 meses, o Rafael, e depois que eu escrevi os contos, que eu entreguei pra editora, eu me dei conta de que quatro deles falam de gravidez (não exatamente sobre isso, mas têm a gravidez como componente do conto) Na hora, eu não tinha nem percebido. Isso me fez parecer que eu devo ter sido sugestionado de alguma forma. Então, tem muito de mim naqueles contos. Tem muito das coisas que eu acredito que valem ser passadas para o leitores. Tanto é que eu sempre abro os contos com a citação de alguns autores, de algum famoso, e tal... justamente pra dizer pro leitor o caminho  que eu quero que ele enverede. Quando ele começa, lê um título e já tem uma citação. Isso leva o leitor a ter uma leitura diferente  sobre o assunto. Eu chamei atenção pra uma coisa ali. Então ele passa a ler o conto procurando aquela referência.

O inusitado
O que é bizarro pra você?
Eu repasso a pergunta. O que é bizarro pra você?  Não existe. Esse é um dos grandes desafios do blog e também, uma das fontes de crítica. Muitos posts que eu considero  ter temas inusitados, curiosos... as pessoas perguntam "Ué, essa é a coisa mais comum do mundo. Qual é a bizarrice disso? Qual é a coisa insólita desse negócio? Não entendi". Então, eu não consigo definir o que é bizarro pra mim. E o que é bizarro pra mim este mês, pode ser que mês que vem não seja mais.
Você ainda se surpreende com as coisas bizarras que noticiou ou o inusitado tornou-se comum pra você?
Sempre me surpreendo. Todo fim de ano eu faço uma retrospectiva. Eu imagino assim "Poxa, esse ano eu consegui falar disso, daquilo, daquilo outro... É, acho que agora não vai ter mais assunto. Acho que eu cheguei no meu limite de notícias curiosas, inusitadas, bizarras..." mas, eu sempre me surpreendo. E é por isso que o page continua a existir, porque se os assuntos já tivessem desgastados e as notícias fossem as mesmas, eu não teria nem prazer em fazer o Page Not Found. Então, um dos combustíveis para fazer o blog, é sempre me surpreender. Sem isso, eu não conseguiria fazer o Page Not Found, fazer o livro, e ser o profissional que eu me tornei.

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