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Nocauteando sonhos

Quatro jovens das categorias galo e pena, descrevem as dificuldades de se tornarem lutadores profissional de MMA no Brasil.

Por Julianna Prado

Rotinas semelhantes, dificuldades diferentes, mas um mesmo desejo: se tornar campeão mundial. Esse sonho resume a vida de quatro brasileiros que já se imaginam conquistando o cinturão de luta-livre mais almejado do mundo, o The Ultimate Fighter Champioship (UFC). Para isso, esforço, dedicação, treinos intensos e alimentação balanceada não faltam no dia-a-dia dos atletas.

Com 28 anos, 1m81 e 68 quilos, a personal traineer Juliana Velasquez se desdobra no cotidiano entre trabalho e treinos durante seis dias da semana. Moradora da Zona Oeste do Rio de Janeiro, a ex-judoca conheceu as lutas marciais ainda pequena, através do pai, que era professor de judô. A vontade de lutar Artes Marciais Mistas (MMA) vem desde essa época. No entanto, Juliana diz ter sido desestimulada pelo próprio treinador com alegação que não havia público para competições femininas neste ramo.

“Com isso, o treinador me desanimou completamente. Até que eu vi a ex-judoca Ronda Rousey entrando no MMA e conquistando o primeiro cinturão do peso galo feminino no Strikeforce e no UFC (eventos de competições internacionais). Então, eu pensei:  ‘Se ela pode, eu também posso!’ Em seguida a brasileira Cris Cyborg começou a lutar e eu fiquei alucinada. Quando eu a vi conquistando o cinturão e a Ronda, que também veio do judô, conseguindo êxito, me deu mais garra”, conta a atleta, que desde 2012 vem lutando na categoria peso galo – até 61kg.

Jonas “Speed” Bilharinho é conhecido pela velocidade em aplicar golpes dentro do octagon. Com oito anos de dedicação exclusiva ao MMA, o carioca garante ter começado a carreira fazendo história no evento brasileiro de luta Jungle Fight, do qual é campeão em duas categorias diferentes ao mesmo tempo. A vitória do segundo cinturão na categoria peso galo abriu novas portas: assinou contrato com um novo empresário e agora espera convite do UFC, seu grande sonho dentro da carreira profissional.
Mas para chegar aqui não foi tão simples. Aos 20 anos, Speed informou à família que iria abandonar a faculdade de estatística na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) para se dedicar apenas ao MMA. Embora a mãe tenha lhe apresentado o atual centro de treinamento, os pais não incentivaram essa escolha.

“Foi preciso coragem para apostar no que eu realmente queria. Tem gente que não entende que eu não vou ter um diploma. Não é todo mundo que precisa de um para ter uma carreira. Eu sou um profissional liberal contratado, e tenho que ter a esperteza para ganhar meu dinheiro”, diz Bilharinho, hoje com 25 anos.

Jonas não nega ter vontade de ir morar em outro país, como fizeram alguns dos grandes lutadores brasileiros, a exemplo de Anderson Silva e Victor Belfort. Segundo ele, o Ministério dos Esportes e os governos municipal, estadual e federal não apoiam nem oferecem incentivos para quem está começando a carreira, como ocorre nos Estados Unidos e no Canadá.

“Infelizmente temos uma grande desvantagem em relação aos atletas de outros países nas questões de investimento, material e patrocínio. Enquanto o governo não começar a dar incentivo, sempre haverá essa desvantagem. Ainda assim, nós brasileiros conseguimos nos manter no topo. Imagina se houvesse apoio público?”, questiona Speed, que pretende ter seu próprio negócio como renda de aposentadoria.

Não é só Jonas que sente falta do apoio do governo brasileiro. O cearense Lucas Melo, o Cangaceiro, e o mineiro Nikolas Motta, o Queijinho, também lutadores, estão certos de que essa falta de investimento poderia ter modificado completamente suas trajetórias. Ambos tiveram que deixar para trás suas respectivas famílias, encontrar uma academia de luta que os acolhesse e, hoje em dia, moram em favelas no Rio.

Logo que terminou o Ensino Médio, Queijinho veio para o Rio e foi morar no interior de uma igreja no Centro, junto com um amigo. Após seis meses, conseguiu um apartamento para dividir com outros lutadores e, por fim, uma casa na favela Morro Azul, no Flamengo, bem próxima à academia onde treina.

Competidor na categoria peso pena, até 66kg, o atleta começou treinando jiu-jitsu, mas prefere lutar em pé, usando as habilidades do muay-thai, e não esconde que a estratégia preferida de golpe utilizada contra o adversário é o “cruzado” que vem do boxe. Das seis lutas em que competiu, o mineiro de 22 anos venceu cinco por nocaute e teve uma derrota.

“Como o nome já diz que é a mistura das artes marciais, tudo pode acontecer. É imprevisível e a luta pode mudar em qualquer momento. Por isso existe a importância em estar preparado para tudo e essa é a importância de saber várias modalidades de luta”, explica.

Como se dedica exclusivamente à luta e não tem patrocínio, Queijinho ainda recebe apoio financeiro dos pais desde o início da carreira. Em 2015, o atleta foi convidado para participar do TUF, reality show organizado pelo UFC, cujo intuito é descobrir novos talentos no mundo da luta.

“Com apenas três anos de profissão, eu consegui entrar no TUF, mas acabei perdendo. A experiência foi maravilhosa, mas a pressão psicológica foi a pior coisa. Agora eu já sei onde errei. Espero que o UFC me dê uma oportunidade de lutar e estar entre os melhores do mundo, já que todos conhecem o meu trabalho. Acho difícil não me darem oportunidade, mas caso não me chamem, são eles que estão perdendo. Eu não faço luta chata. Eu faço luta pra ganhar”, contou o jovem.

Vindo de Cariré, a 267 km de distância de Fortaleza, Ceará, Lucas Melo, 24 anos, vulgo Cangaceiro, foi mais um dos jovens que largou tudo, há quatro anos, em busca do grande sonho de ser lutador profissional de MMA. O esforço físico dividido entre trabalho e treino chega a esgotar, ainda mais quando está em fase de competição, como conta.

“A minha rotina já é uma correria, geralmente. Trabalho e treino praticamente todos os dias. O pior momento é quando estou em preparação para luta. Tenho que fazer dieta e ter uma alimentação bem limitada para perder peso. Treino pesado e ainda trabalho no restaurante.  Mas, para mim, o mais sacrificante é a distância da família”, desabafa o lutador.

No Ceará, Cangaceiro lutava apenas capoeira. Foi no Rio de Janeiro que aprendeu outras modalidades de artes marciais. Com 12 vitórias e quatro derrotas, ele se considera um vencedor e já imagina como será sua entrada triunfal pelos tapetes do UFC.

“Já me visualizei entrando no octagon, a galera gritando e eu conquistando o cinturão. Vou tentar mais um pouco, mas se não der certo volto para o Ceará. Acredito muito em mim e acho que vai dar certo. Nós, lutadores, não temos muita oportunidade. Então, no momento, o que mais preciso é de um patrocinador para que eu possa focar apenas na luta”, conta Lucas, que durante três meses recebeu uma ajuda de custo de mil reais da prefeitura de Cariré.

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