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A Linha do Tempo da Beleza

Por Diego Andrade e Luana Santiago

Uma discussão muito presente no dia-a-dia é a da beleza, ou melhor, dos padrões impostos por ela. Tendo ganhado força nas duas últimas décadas, o assunto marca a mudança de foco da dialética rico-pobre pelos movimentos políticos de esquerda para um empoderamento de minorias baseado em questionamentos quantos aos padrões da sociedade.

Embora presente também no universo masculino, o assunto predomina na vivência feminina, alimentado pela exploração das supermodelos – um microuniverso seleto de mulheres magérrimas e com biótipos parecidos, duramente criticado não só pela seletividade, mas também por práticas como anorexia, resultado das exigências desumanas da indústria da alta-costura.

O termo “padrão de beleza” carrega as marcas do modelo onde é gerado, capitalista, com fins de estabelecer objetivos de consumo inalcançáveis e opressores. As mais variadas formas físicas já tiveram seu momento de glória e ruína ao longo da história, colocando em destaque minorias como modelos a serem seguidos. Os chamados padrões sempre existiram e são visíveis desde que há registros de sociedade – tudo bem, nas pinturas rupestres não é muito visível.

Vale destacar também que os padrões variam em cada região do mundo e hoje mesmo existem tendências muito diferentes de beleza, tanto no padrão oriental quanto ocidental.

Biotipo

 
Nos séculos XIV e XV, mulheres gordinhas eram consideradas belas. No entanto, o padrão de magreza foi tomando conta aos poucos, sendo representado hoje pelas top models. Para chegar a este padrão, mulheres se arriscam em dietas que consistem em redução drástica dos níveis de nutrientes. Por mais estranhos que esses meios agressivos de se encaixar no padrão de beleza pareçam, eles não chegam perto dos métodos de antigamente: na Inglaterra do século XVIII, por exemplo, mulheres ingeriam vermes vivos, que passavam a viver em seus estômagos, consistindo no que ficou conhecido como a “dieta da tênia”. Quando os vermes cresciam além da conta, precisavam ser removidos do estômago.

Cor da pele

Maria Antonieta

Ao contrário da atualidade, onde uma pele dourada de sol é considerada como o padrão de beleza, no passado as peles brancas eram consideradas o símbolo máximo de beleza. A palidez também era símbolo de status, já que uma pele bronzeada indicava trabalho pesado, o que era associado às classes mais baixas. Mulheres da época muitas vezes se cortavam para que, com a perda de sangue, conseguissem um visual de palidez quase mortal.
Pré-História: A Vênus Paleolítica



Durante muito tempo, a procriação era o foco da sexualidade humana, e corpos generosos e carnudos eram considerados mais propícios e fortes para geração de filhos. Logo, os primeiros padrões de beleza perseguiam o ideal de fertilidade. Isso reforça a ideia de que a chamada Vênus de Willendorf, uma escultura de apenas 11 centímetros e 20 mil anos, seja o modelo de beleza feminina primordial. Ela pode ter sido usada em rituais de fertilidade.

1200 A.C: As Primeiras Academias

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A educação física era um pilar na formação dos homens gregos. Como a guerra fazia parte da cultura da época, gregos eram treinados desde meninos, frequentando os chamados gymnasiums, complexos esportivos que também eram centros de formação intelectual. O treinamento os transformava em soldados e competidores de jogos públicos. Luta e boxe eram ensinados em estabelecimentos específicos, as palaestras. Os atletas se exercitavam sem roupa (gymnos significa “nu” em grego).


Egito antigo (1292 a.C. a 1069 a.C.)





As mulheres deveriam ter cabelos longos, rosto simétrico e um corpo magro e alto com cintura e ombros estreitos. Observando os hieróglifos e usando como parâmetro a localização geográfica, o tom de pele, pelo sol forte, seguia a linha azeitonada.

Grécia antiga (500 a.C. a 300 a.C.)

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Na Grécia Antiga, as regras de beleza eram, talvez, muito mais importantes do que nos dias de hoje. Concursos de beleza ─ kallisteia ─ eram realizados regularmente nos centros de treinamento das Olimpíadas em Elis e nas ilhas de Tenedos e Lesbos, onde as mulheres eram julgadas pela maneira como andavam.

Homens de abdômen rasgado, cintura fina, pênis pequeno e brilhando de óleo das partes íntimas até o pé, ou seja, dentro dos atributos de um guerreiro, tinham uma vida melhor. Já as mulheres possuíam um apelo diferente: ser cheinha, principalmente nas nádegas. Ruivas também tinham uma vantagem (e precisavam aproveitar, pois ruivas eram consideradas bruxas na Idade Média). A beleza era traduzida como benção dos deuses.

Um grego de lábios carnudos, queixo protuberante e músculos torneados era abençoado, e se por fora era bonito, por dentro era ainda mais perfeito: tinha uma mente brilhante. Eram amados pelos deuses, o que significava que eram uma boa pessoa.

Dinastia Han – China (206 a.C. a 220 d.C.)

Chinesas com os pés deformados
Na época da dinastia de Tang na China surgiu o hábito grotesco de amarrar os pés de meninas a partir dos 4 anos de idade para que eles não crescessem propriamente. Uma chinesa com pés pequenos era considerada muito atraente e teria mais chances de ter um bom casamento. Infelizmente, por baixo das ataduras, os pés terminavam pequenos mas bastante deformados. Elas também precisavam ter olhos grandes, cintura fina e corpo esguio.

Idade Média: Testa grande


Ana Bolena
No século XIV, além das grandes descobertas artísticas, científicas e políticas, surgiu a moda da testa grande. Diversas pinturas e esculturas da época comprovam a tendência no mínimo estranha. Muitas mulheres arrancavam os cabelos da testa ou usavam uma solução química perigosa para removê-los e obter uma testa maior, constituída de vinagre, cal e fezes de animais, o que muitas vezes resultava em cicatrizes. Foram abandonados os hábitos de higiene e saúde herdados dos gregos e romanos. “Cuidados com o corpo eram considerados pecaminosos”, diz Denise Sant’Anna, professora da PUC-SP. Qualquer preocupação estética era vista como afronta às leis divinas. As obras de arte mais escondem que evidenciam os corpos.


Renascença Italiana: O redescobrimento da anatomia




Corpo arredondado, com quadris largos e seios grandes, era sinônimo de beleza. O padrão ainda impunha pele branca, cabelo loiro e testa grande. No entanto, Leonardo da Vinci, o maior artista-anatomista do período, redefiniu os modelos da anatomia humana através dos estudos sobre o funcionamento de órgãos, ossos e músculos. Uma das ilustrações mais famosas, o Homem Vitruviano (1490), expressa as proporções matemáticas exatas do corpo humano.
Renascimento: Das virgens às Vênus
O Renascimento resgata valores humanistas e o apreço pelos padrões de beleza da Antiguidade. A Virgem Maria, musa dos pintores medievais, cede espaço para representações da deusa Vênus, ninfas e semideuses despidos. As mulheres exibem longos cabelos, formas roliças e voluptuosas e até uma barriguinha pronunciada. Um dos quadros da época é O Nascimento de Vênus (1485), de Botticelli.






1500: O homem nu



Imagem relacionada

Pintores e escultores renascentistas desafiaram a Igreja e deixaram até Jesus Cristo praticamente nu. Deuses, heróis gregos e bíblicos e santos e anjos exibiam músculos definidos, corpos sem pelos e mostravam até os pênis, sem pudor. O maior ícone desse resgate é Davi, de Michelangelo, considerado até hoje modelo de perfeição das formas masculinas. Em contrapartida, em terras tupiniquins, portugueses se chocavam ao se deparar com a nudez cotidiana dos indígenas, classificando-os, por isso, como um povo primitivo.   

Era vitoriana (1837 a 1901)

A sociedade obrigava as mulheres a vestirem corpetes apertados para afinar a cintura o máximo possível. Elas também usavam o cabelo longo como símbolo de feminilidade.
1900: O pai da musculação

O prussiano Eugen Sandow (1867-1925) enxergou na musculação um filão inexplorado. Bolou alguns dos primeiros equipamentos, criou a primeira competição oficial de fisiculturismo e lançou, em 1901, a primeira revista especializada no gênero: a Physical Culture.


1920: Anos Loucos e o Sex-Appeal
Contudo, surgiu, entre as décadas de 20 e 30, a expressão sex-appeal. Ela tentava explicar a sensualidade no jeito de andar, falar e  encarar os homens. Nos chamados Anos Loucos, as mulheres, incorporadas ao mercado de trabalho, adotaram um visual andrógino, com cabelos curtos e seios e quadris disfarçados em vestidos retos. Em 1925, o corte de cabelo à la garçonne era usado por uma em cada três mulheres.
Era do Ouro de Hollywood (1930 – 1950)

Os astros de Hollywood foram as grandes referências de beleza e forma física durante os anos 40 e 50. Sexys, voluptuosas, com quadris largos e seios fartos acentuados pelos sutiãs com enchimento, divas como Rita Hayworth e Jayne Mansfield encarnaram a femme fatale. Mas a morte prematura consagrou Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual de todos os tempos.








1960: Contrastes      

Cresce o apelo pela figura da mulher com seios fartos, cintura fina e quadris avantajados; a mulher-violão. O cinema europeu é pródigo em exportar divas nesse padrão, como a francesa Brigitte Bardot. Em contraste, as revistas de moda exaltam um tipo magricela, com jeitão de garoto, cabelos curtos e ausência de curvas, personificada pela inglesa Twiggy, a maior top model da época.

1970: A volta do andrógino


Tempo de liberação sexual e luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. Os padrões de beleza masculinos sofrem mudanças drásticas. “As distinções ficaram mais tênues; os homens deixaram crescer os cabelos, ficaram menos musculosos e usaram roupas unissex”, diz a professora Denise Sant’Anna. Astros do rock como Mick Jagger e David Bowie consagram o visual andrógino.



1980: Mister Músculos


Em 1966, o austríaco Arnold Schwarzenegger era um entre milhares de fisiculturistas. Tudo mudou após ser eleito Mr. Olympia por seis vezes, de 1970 a 1975. Na década de 1980, ele se tornou referência para gerações de praticantes de musculação depois de aparecer em filmes como Conan, o Bárbaro e O Exterminador do Futuro. Em 1989, criou o Arnold Classic Weekend, um dos mais prestigiados eventos mundiais de fitness.







1982: Ginástica em casa

Fitness para todos: a democratização do videocassete deu impulso ao surgimento dos vídeos com aulas de ginástica para fazer em casa. O mais célebre deles foi o Jane Fonda Workout Video, lançado pela atriz americana em 1982, reunindo exercícios de força, flexibilidade e resistência. Fonda nunca mais parou: na sequência, produziu mais 23 fitas e seis DVDs, o último deles lançado em 2012, aos 74 anos.

1990: Supermodelos







Modelos sempre ditaram padrões de beleza. Mas foi diferente com Cindy Crawford, Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Linda Evangelista e Kate Moss, as top models da virada dos anos 1980 para 1990. Altas, magras, curvilíneas sem exageros, dominaram passarelas, capas das revistas e campanhas das grandes marcas a ponto de seus anos de glória terem sido batizados de A Era das Supermodelos.




2010: Os reis do octógono
Os adeptos do MMA (Mixed Martial Arts) compartilham um padrão corporal que caiu no gosto masculino. Boxe, muay-thai, jiu-jítsu ou krav magá são alternativas para construir músculos e desenvolver atributos como agilidade, equilíbrio e coordenação. A tendência começou com a família Gracie, um clã de lutadores de jiu-jítsu. O patriarca Hélio Gracie fez sua primeira luta nos anos 30.

Século XXI
Barriga chapada, músculos torneados, bumbum empinado e seios fartos. Todos os dias, milhares de mulheres vão a clínicas especializadas em cirurgia plástica buscando se adequar ao padrão atual de beleza – ênfase no “atual”. Afinal, como mostra o vídeo a seguir, produzido pelo site Buzzfeed, as medidas consideradas ideais para o corpo feminino já mudaram muito nos últimos 3000 anos e, claro, tendem a continuar se renovando.

E o Brasil?
Como um país jovem em comparação com a média mundial, o Brasil demorou para abandonar os padrões trazidos por Portugal, o da mulher pálida, etérea, muito parecido com o francês, a referência global desde àquela época, e adotar seus próprios.

Não existem registros claros sobre as tendências da beleza na época do descobrimento, afinal o que se tinha aqui era uma variedade incalculável de tribos e cada uma seguia baseada em suas particularidades, ou do Brasil colônia, porém pode-se observar uma encantamento por certos biotipos e etnias, embora eles não tenham atingido o patamar de modelos a serem seguidos.

A primeira manifestação da figura feminina adequada a uma identidade brasileira veio com o Romantismo, dos anos de 1831 a 1881. É com José de Alencar que se cria um mito sobre a mulher, primeiro com Aurélia, em Senhora e, depois, com Iracema. Ambas cultuam a juventude e pureza, embora a última receba mais atenção por suas origens exóticas. A índia da pele vermelha, cabelos e olhos escuros se torna, então, uma musa para os brasileiros.

Todavia, o padrão exaltado cai por terra no movimento literário seguinte, o Realismo, onde a ilustração da mulher é distorcida e oculta; a beleza é tida, assim como na Grécia Antiga, como instrumento para enganar os homens. Sem dúvidas, Capitu, com os célebres “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, é a perfeita representação da beleza na época.

Deste ponto em diante, a admiração volta-se para a exaltação de uma forma mais espontânea, que não necessariamente acompanha as tendências do exterior. A pele branca era almejada, porém não se tornou uma exigência pelo conformismo do Brasil ser um país de clima tropical. Tanto que, na década de 70, Sônia Braga, de pele tostada e ar desleixado, era considerada a mulher brasileira por excelência.

Ieda Maria Vargas, a primeira Miss Universo do Brasil, com seus 1,68 de altura, não se encaixaria no padrão estético dos dias atuais, onde a indústria da moda exige que mulheres sejam cada vez mais altas e mais magras. A demanda por esse biotipo começou em 1980, por isso, brasileiras como Xuxa e Luiza Brunet, fizeram muito sucesso no mercado internacional.

Foi assim, aliás, que se consagrou a maior modelo de todos os tempos: Gisele Bündchen. Com traços de princesa, magreza na medida e altura espantosa, a gaúcha de 36 anos tornou-se o símbolo da mulher brasileira, inclusive difundindo mundo a fora uma imagem que não condiz com a realidade, afinal, em uma pesquisa realizada pelo SENAC, a estatura da mulher brasileira é baixa, com nádegas  e pernas cheias; tonificadas. Distantes de um padrão “produto de exportação”.

Concluiu-se, portanto, que o mulherão, em conjunto com a pele bronzeada e o cabelo liso, é o padrão brasileiro atual. Fatores como o aumento popularidade do funk carioca e a propagação de academias colocam nomes como Valesca, Mulher Melancia e Anitta  na lista de desejo das mulheres. No caso dos homens, ainda permanece a obsessão na busca por um corpo sarado e grande, inspirado nos lutadores de MMA.
Fica, então, a pergunta: até quando essa tendência vai durar? E qual será a próxima?

Anitta em 2015
Kléber Bambam em 2016








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