Navigation Menu

Axé

As religiões de matrizes-africanas são instrumentos fundamentais para a resistência da cultura negra

Por  Gabriel Sorrentino



O sol queimava forte quando o portão de ferro prateado foi batido. Do lado de fora, era possível enxergar um coqueiro de, aproximadamente, seis metros de altura, cujas raízes se prendem no solo do interior do terreno. Acima da entrada, os três vasos, que provavelmente continham elementos e firmezas, mostravam a quem passasse por aquela rua de terra, em Tribobó, bairro de São Gonçalo, que ali era um terreiro de candomblé. Isso, porém, apenas para quem viesse de longe. Na região, poucos são os que desconhecem o tradicional Ilê Axé d’Ogum Já, fundado há mais de 50 anos por Pai Kayambe, que completou um ano de falecimento em outubro do ano passado.

 Sem muita demora, o portão se abre. Recebendo a equipe do Casarão, a filha de santo do barracão, Ingrid d’Yansã, com suas tranças afro presas em um ojá branco, turbante usado nas religiões de origem africana, logo se prontificou a nos levar até o barracão. No caminho, logo à frente da entrada, nos deparamos com um gigantesco igbá - recipiente que contém os objetos de culto a um orixá -, com diversos tipos de ferramentas. Era designado a Ogum, divindade dona do terreiro e, também, das estradas e caminhos. É esse orixá que, segundo algumas religiões, protege as portas de entrada das casas e templos. Ainda não sabíamos, mas Ingrid foi a primeira filha a realizar os rituais de iniciação ao candomblé na nova gestão do terreiro após o falecimento de Pai Kayambe. Ela nos avisou que a mãe de santo, que assumiu o terreiro em novembro de 2016, logo nos receberia.

“Kalofé, yá”, pedi, quando Mãe Juçara apareceu. Enquanto beijava sua mão, ela respondeu: “Yemonjá te abençoe”.

Bisneta de escravos, Mãe Juçara d’Yemonjá é filha e neta de negros e, em constante trabalho, mostra que as religiões afro-brasileiras são formas de resistência da cultura negra. Seja pelas marchas e caminhadas, que têm objetivo de combater o preconceito e, também, conscientizar pais e mães de santo sobre seus direitos, ou seja por palestras realizadas por organizações de umbanda ou candomblé dentro dos próprios Centros. “Todas as casas de candomblé aqui de São Gonçalo abrem as portas para a comunidade. Explicamos nossa religiosidade. Mostramos à sociedade o que é nosso culto”, explica Mãe Juçara. O babalorixá Pai Gilmar d’Yansã acrescenta que esses eventos não buscam apenas os direitos da comunidade, mas, também, mostrar o cotidiano do grupo.

 “A sociedade continua impondo a cultura eurocêntrica dentro das comunidades de matrizes africanas. Contudo, é ao contrário: nossa cultura está presente no Brasil de ponta a ponta. Nas vestes, na gastronomia, no cotidiano e, até mesmo, nas brincadeiras de criança. ’Fui ao tororó beber água e não achei. Escravos de Jó jogavam caxangá’. Desde a Pedagogia até o nível acadêmico nas universidades, o candomblé está influenciando. A cultura negra está presentno dia a dia de qualquer parte da sociedade brasileira”, conta Pai Gilmar.

 Zelador da casa Egbe Ile Ase Oloya Torun, em São Gonçalo, o pai de santo conta que esse projeto educativo aconteça de dentro dos terreiros para fora. Antes, o povo do santo, como são chamados os fiéis das religiões afro-brasileiras, iam às ruas para apresentar sua fé. Hoje, o grupo leva a população para dentro dos terreiros. “Conseguimos convencer os líderes, os babas e yás, que tudo deve começar de dentro pra fora. Conseguimos fazer com que seus filhos de santo viessem a se autoafirmar, se autodeclarar, se impor. O povo do santo que se mostre: use branco às sextas-feiras, não tenha vergonha das suas contas. Temos que mostrar a sociedade nossa cultura sem medo. Essa é a resistência negra”, defende.

 De acordo com Mônica Dias, pesquisadora associada do Laboratório de Etnografia Metropolitana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LeMetro/IFCS-UFRJ), ao falar sobre resistência dos cultos afro-brasileiros, nos referimos a séculos de devoção sobrevivendo de maneira inadequada. Sendo consideradas “crendice”, “feitiço” e, até mesmo, associadas a algo primitivo, as religiões sobreviveram a uma época em que os costumes europeus eram considerados referência. “Este tipo de pensamento é denominado como etnocêntrico pelas ciências sociais. E, devido a esta forma de pensar, muitos praticantes foram perseguidos e presos, casas de candomblé e umbanda e outras afins foram fechadas de forma violenta. Basta conversar um pouco com religiosos mais antigos e você se vê diante do que realmente é a resistência”, diz a especialista.

 Para Àyánídá d’Oyá, iniciada no candomblé em agosto de 2015, a intolerância está diretamente ligada ao racismo porque ‘macumba é coisa de preto’. “Nossa religião sobreviveu a décadas de intolerância e criminalização. Então, sim, é coisa de preto e não há vergonha nenhuma em dizer isso. Quando eu enxergo minha fé, me sinto honrando todos os negros que sofreram ao longo desses anos para manter minha religião viva. É como se eu dissesse aos intolerantes que não vou abaixar minha cabeça para o preconceito”, assume.

 A antropóloga acrescenta que todos devem ter ter muito respeito às religiões afrodescendentes. De acordo com Monica, nelas estão a memória e a história de vários povos antigos. “Chamo a atenção para as histórias contadas, as narrativas dos antepassados presentes nos terreiros, para a forma de pensar o mundo sob a lógica do sagrado, um modelo ecológico de respeito à natureza e a todas as formas de vida”, explica.

No ano passado, a temática “Intolerância religiosa” foi tema da redação do ENEM, alcançando milhares de jovens em todo território nacional. Além disso, ainda em 2016, a umbanda passou a ser considerada Patrimônio Cultural Imaterial. Mônica Dias afirma que isso é algo a ser considerado como cenário de reflexão. “A mensagem é clara: tolerância e respeito. Tolerância à diferença e respeito aos Direitos Humanos. Retrocessos que trazem da obscuridade a perseguição a religiosos e seus templos são inaceitáveis, seja porque devemos, democraticamente, respeitar as diferenças culturais e a diversidade religiosa, seja porque a lei nos exige”, conclui a pesquisadora.

0 comentários: