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A Invasão Europeia



Por Matheus Wesley

Eles estão por toda parte. Você já deve ter cruzado com alguém pela rua usando uma camisa com um 10 de cor amarela e o nome "Messi" nas costas, ou  desfilando com a 7 do "Ronaldo". Ao contrário de alguns anos, é cada vez mais comum ver jovens brasileiros vestindo Barcelona, Real Madrid e PSG, ter como times preferidos no videogame Bayern de Munique ou Manchester United e até mesmo adotar algum desses clubes como segundo ou único time do coração. Os clubes europeus vieram para ficar na cultura futebolística nacional: uma pesquisa feita pelo IBOPE, em 2016, mostrou que 72% dos jovens usuários de internet (entre 16 e 29 anos) se declaravam torcedores de algum clube europeu. Em em 2015, esse número correspondia a 69%. Este sucesso também se confirma pela audiência da mais famosa competição de clubes europeia, a Liga dos Campeões da UEFA: no confronto entre Bayern de Munique e Paris Saint-Germain, pela última rodada da fase de grupos do torneio, a BAND - que detém os direitos de transmissão em TV aberta, ao lado da Globo - alcançou 12 pontos, um número expressivo para o horário.

Os motivos para todo esse interesse são os mais variados. Um deles é o fato de os principais jogadores do futebol mundial se concentrarem no continente europeu, como o português Cristiano Ronaldo, do espanhol Real Madrid, ou o argentino Lionel Messi, do rival Barcelona. Até mesmo os jogadores da Seleção Brasileira jogam em sua maioria esmagadora em clubes europeus, como o atacante Neymar, do francês Paris Saint-Germain, o lateral Marcelo e o volante Casemiro, ambos do Real Madrid, ou William, do inglês Chelsea. Como aponta o jornalista de economia e esporte do jornal O Globo e da revista Época, Rodrigo Capelo:

"O principal motivo é a qualidade que o futebol europeu apresenta. Não temos nem de longe um atleta como Messi, Cristiano Ronaldo ou Neymar no futebol brasileiro. A partir daí, os meios hoje são mais propícios para que o futebol europeu se alastre entre brasileiros que no passado. Primeiro: a televisão brasileira hoje transmite e repercute o que acontece na Europa com muito mais frequência e abrangência. Segundo: os garotos estão em contato com videogames desde a infância, e neles a presença dos europeus é muito maior do que a dos brasileiros", afirma.

Capelo toca num ponto importante: os videogames. Hoje eles influenciam tanto os fãs quanto os atletas, e a tecnologia dos consoles permite que se represente fielmente a face e atributos físicos e técnicos dos jogadores. Além de possibilitar usar nos bonecos do videogame os mais recentes uniformes, chuteiras e até cabelos de suas contrapartes do mundo real.

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Os jogos de futebol para videogame são uma das novas maneiras dos clubes cooptarem novos torcedores (FIFA/Divulgação)
Entretanto, isso nem sempre acontece com os clubes e o Campeonato Brasileiro. Muitas vezes, as duas principais franquias do gênero de futebol - o FIFA, da EA Sports, e o PES, da Konamy - se utilizam de nomes genéricos para se referirem a clubes e jogadores que atuam no Brasil. Isso se dá porque, ao contrário do que acontece na Europa com a FifPro, no Brasil não há uma organização com a qual a EA e a Konami possam negociar os direitos de todos os atletas que aqui trabalham, restando às duas companhias negociar direta e individualmente com cada jogador e depois com os clubes que os representam. Um processo um tanto difícil e caro, que causa em algumas edições a desistência da obtenção de direitos de todos os jogadores e clubes. 

Sem ter os nomes dos clubes e de seus jogadores em um meio tão difundido como os games, os clubes brasileiros acabam por perder uma chance de ouro de internacionalizar sua marca e, mais ainda, de ganhar terreno entre os jovens gamers, para os quais os clubes europeus são quase onipresentes.

O intruso europeu

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Outro aspecto em que se pode perceber a crescente influência dos clubes europeus é na venda de camisas. A Netshoes, uma das principais empresas de e-commerce no Brasil e a maior varejista esportiva do país, tem divulgado o seu ranking particular de venda de camisas de clubes. Na primeira vez em que fez isso, em 2015, nenhum europeu aparecia no top 10. Já no ranking do ano passado, o cenário mudou, com a participação, pela primeira vez, de um representante da Europa: 

Camisas de clubes mais vendidas no Brasil

1) Corinthians (Nike)
2) Palmeiras (Adidas)
3) Flamengo (Adidas)
4) São Paulo (Under Armour)
5) Sport (Adidas)
6) Santos (Kappa)
7) Cruzeiro (Umbro)
8) Internacional (Nike)
9) Vasco (Umbro)
10) Barcelona (Nike)

Fonte: Netshoes

O Barcelona já se coloca como intruso na lista e na frente de clubes vencedores, como Grêmio e Atlético Mineiro. Mas vale lembrar que o time espanhol já teve no seu elenco famosos nomes da Seleção Brasileira, como Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e mais recentemente Neymar,  o que lhe garantiu certa popularidade no país. Mas segundo Capelo, não há muito o que temer:

"A população brasileira é composta por várias faixas etárias e classes sociais. Vai levar muitíssimo tempo, e não sei se mesmo assim acontecerá, para que o Barcelona conquiste e engaje torcedores em todas essas faixas", afirma.

No entendimento de Rodrigo, o Barcelona tem mais influência em garotos entre 10 e 16 anos do que em adultos de 54, que são, efetivamente, quem move a indústria do futebol. "No fim das contas os homens com mais de 54 anos têm um poder aquisitivo superior ao de garotos de 10 a 16 anos". Entretanto ele alerta:

"O mero fato de o Barcelona já aparecer entre os mais vendidos, acima de Portuguesas e Guaranis, já é um sinal amarelo para todos os clubes que se pretendem grandes atualmente. Portuguesa e Guarani perderam tamanho no longo prazo. Outros clubes estão prontos para evitar que isso aconteça com eles?", questiona.

Mas afinal, quem são esses brasileiros torcedores de clubes europeus? Procuramos entender as motivações que levam estes jovens - pejorativamente chamados de "modinhas" - a torcerem para clubes do outro lado do Atlântico.

Os "gamers"

Os motivos diferem de pessoa para pessoa, mas os videogames também aparecem como um dos motivos, como no caso do brasiliense Felipe Verdade, de 18 anos, que é simpatizante do Real Madrid desde 2005, por gostar de jogar com o clube no PlayStation 1. Mas só passou a torcer de forma mais intensa pelo clube com a chegada de Cristiano Ronaldo, Kaká e Xabi Alonso ao clube em 2009, no que ele mesmo define como a "retomada da grandeza do clube". "Nessa época ainda curtia mais a Juventus (por causa de Nedved e Del Piero) que o Real Madrid". Verdade possui um clube brasileiro que também fica distante de sua morada: o carioca Vasco da Gama. Diz que o pai "acha besta" torcer para um clube europeu, mas também gosta de acompanhar as partidas e não o critica por ser torcedor do Madrid.

Outro caso de torcida motivada pelos videogames é o do mineiro Weslley Rodrigues, também de 18 anos que, segundo ele, "pegou paixão" pelo Atlético de Madrid por sempre escolher o clube colchonero no PES 6 para irritar os primos, que preferiam jogar com times mais famosos, como os arquirrivais Barcelona e Real Madrid. Ele se sentia isolado no início, mas depois de 2014 - ano em que o clube foi campeão espanhol pela primeira vez depois de 18 anos e chegou à final da Liga dos Campeões depois de 40 - passou a ter mais contato com outros torcedores do clube madrilenho. Também possui um time brasileiro, o Palmeiras.

Poliamor clubístico

Mas se ter dois clubes do coração já causa certa estranheza para os fãs de futebol mais conservadores, imaginem 4! É o caso do mineiro Pedro Henrique, de 20 anos, e do carioca Iuri Lins, de 23. Pedro, além de ser vascaíno, ainda é torcedor do Wolfsburg da Alemanha (motivado pelo belga Kevin De Bruyne, jogador do clube entre 2014 e 2015), do Chelsea (motivado pelo inglês Frank Lampard, um dos maiores ídolos da história dos blues) e da Udinese (motivado pelo camisa 10 Di Natale, o maior ídolo do pequeno clube italiano). Pedro, contudo, diz que o Vasco sempre vem à frente dos outros, "mesmo quando ainda está no estadual".

Já Iuri, torcedor da simpática Sampdoria da Itália (por ter se apaixonado pelo hino do clube), do inglês Manchester United (por conta de seus "heróis de infância" Park Ji-Sung e Ruud van Nistelrooy) e do Ajax Amsterdã (por ter sido um dos primeiros botões de galalite que comprou), tem um ranking chamado "FIFI" onde avalia seu grau de afeto atualmente por cada um de seus times. Ele hoje diz que se sente mais ligado à Sampdoria do que ao Botafogo, seu clube brasileiro.

Os que fogem à regra

Mas nem todos os jovens brasileiros são afeitos à ideia de torcer para um clube europeu: o paulista Rafael Cerdeira, de 22 anos, considera "estranho" alguém se dizer torcedor de um clube "de fora". Para ele "torcer vem do berço" e "significa aprender sobre futebol amando aquele clube e não o trocando por nada, defendendo-o aonde for". Na opinião dele, o que possivelmente os motiva a torcer para esses clubes são a admiração por algum jogador.

O também paulista Marcelo Felipe, de 21 anos, considera que nunca se imaginaria torcendo para um clube de fora como torce para o seu Corinthians e que o motivo de haver brasileiros torcedores de clubes europeus se deve à superioridade técnica e tática dos campeonatos europeus. Mas acredita que isso possa ser prejudicial: "Isso acaba desvalorizando bastante o nosso (campeonato)".

Quem acha que torcer para um clube europeu seja um fenômeno exclusivo para os mais jovens está enganado, alguns trintões também nutrem paixão por uma amor estrangeiro. É o caso de Victor Martins, de 32 anos. Sei pai o ensinou desde pequeno a gostar não só do lado mais visceral do futebol, mas também apreciar o esporte em si e entender que aquilo não se resume só ao que se podia ver de perto. Mas uma mudança radical na sua vida foi fulcral para seu gosto para o futebol do Velho Continente: "Quando ele (o pai) se separou da minha mãe, fui morar com meus avós que tinham TV a cabo, e aí pude formar minhas próprias impressões do futebol internacional", lembra Victor.

Na concepção de Victor, torcer é o simples ato de sofrer por um clube de forma perceptível: "Se começa por admiração a uma camisa ou jogador, pra mim não importa muito, importa que a pessoa desenvolveu um vínculo com aquele clube". Victor é torcedor do Barcelona, Milan e Chelsea, na Europa, e do Santos, no Brasil.

Se brasileiros podem torcer para clubes europeus, europeus também podem torcer para clubes brasileiros ainda que isso seja mais difícil de se ver: o português Ricardo da Cunha, de 34 anos, começou a ter apreço pelo Vasco da Gama primeiro por considerar o homem que inspirou o nome do Gigante da Colina o maior português de todos os tempos. Depois, pela admiração pelo ex-lateral esquerdo Felipe. Mas o que fez Ricardo torcer de vez para o clube carioca foi a pioneira atitude da agremiação com os jogadores negros:"A seta fatal no coração veio com o meu interesse por futebol clássico. Ao passar em revista a história dos clubes sul-americanos, percebi o papel do Vasco na integração do jogador negro e na luta contra o racismo. Vem daí a paixão pelo Vascão".

Mesmo com a distância e as poucas opções de assistir às partidas na TV, Ricardo não desanima: "Acompanho sempre que posso em stream, por ano devo ver entre 20 a 40 jogos, dependendo das competições em que está envolvido e se a transmissão está disponível".

Uma mensagem de consideração e carinho

A torcida de um brasileiro por um clube europeu pressupõe uma relação fria e afastada, devido às distâncias. Conhecer pessoalmente os jogadores de que mais gosta, o técnico e as instalações do clube se mostram uma utopia, a não ser que se pague uma viagem até o local. Mas uma das boas coisas que a internet trouxe foi o encurtamento de distâncias, e qual não foi a surpresa do mineiro Bernardo Dornela quando abriu o e-mail e deu de cara com o seguinte vídeo do Portimonense, seu clube em Portugal:




"Quando eu vi o vídeo eu fiquei incrédulo demais, mas acima de tudo me senti muito feliz por ter recebido essa atenção, esse carinho". O vídeo de pouco menos de dois minutos foi o que fez o coração de Bernardo se apaixonar de vez pelo pequeno clube português: "Eu os acompanhava porque estava num "projeto" pessoal de acompanhar os jogadores saídos da base do Galo na Europa, e no Portimonense tinha o Bruno Tabata. Mas foi depois do vídeo mesmo que eu, de fato, passei a acompanhar todos os jogos e a assistir todos que eu posso". Hoje o estudante, que torce para o Atlético Mineiro no Brasil, possui até mesmo um perfil no twitter onde fala sobre o clube, o Portimonense Brasil.

Dornela é um fã de ligas menos conhecidas da Europa, como a sueca e a dinamarquesa, entre outras. Sobre isso ele disse: "Eu acho bem legal, tem sempre umas histórias bem legais e inusitadas, e como são geralmente ligas formadoras, dá pra observar vários jovens surgindo".

O amor pelo futebol realmente não possui fronteiras.

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