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As dificuldades de ser mulher nos estádios brasileiros

Torcedoras do Atlético-MG exibem faixa para mostrar a importância da presença feminina nos estádios.
                                                                                                                                 
                                                                                                                                  Por: Roberto Accioly

No dia 11 de março, em jogo válido pelo campeonato gaúcho, a repórter Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, foi agredida fisicamente dentro do Estádio Beira-Rio, após começar a filmar um torcedor que havia a xingado momentos antes. Três dias depois, foi a vez da jornalista Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, que teve de lidar com uma situação de assédio: enquanto ela fazia a cobertura no lado externo do Estádio São Januário, momentos antes da partida ente Vasco x Universidad de Chile, um torcedor que ela foi entrevistar tentou beijar a repórter. De maneira fria e corajosa, ela apenas disse que a atitude "não foi legal" e deu continuidade à transmissão. Esses dois casos de machismo descarado desencadearam um movimento que pode vir a ser muito importante para que casos assim diminuam, ou ao menos, sejam mais denunciados.


Repórter Bruna Dealtry sendo beijada à força por torcedor do Vasco, enquanto fazia a cobertura do jogo Vasco x Universidad de Chile, do lado externo de São Januário.


A campanha "Deixa Ela Trabalhar", realizada pelas jornalistas da área de esportes para que haja uma maior conscientização acerca dessa mazela que ainda assola o esporte mais querido pelos brasileiros. traz depoimentos curtos de jornalistas de renome, como Fernanda Gentil, Cristiane Dias, Helena Calil, Bárbara Coelho, Renata Millington, entre outras, onde também pediam para que as mulheres pudessem trabalhar em paz enquanto jornalistas. Casos como os de Renata e Bruna ficaram em evidência na mídia, e por isso receberam bastante atenção e comoveram várias pessoas, inclusive aquelas que não são tão antenadas no mundo da bola. Mas outras profissionais do ramo de comunicação também têm de conviver com o machismo diário presente nos estádios brasileiros, sem que isso tenha muita visibilidade. 

É o caso da assessora de imprensa Williany Brito, que trabalha na Portuguesa Carioca, da Ilha do Governador. Por trabalhar em um clube pequeno do Rio, que não ocupa o mesmo espaço na mídia que os grandes, a visibilidade para os casos de machismo que a funcionária de comunicação da Lusa enfrenta acaba sendo menor. No entanto, isso não significa que eles não ocorram, muito pelo contrário. Quando perguntada se já sofreu algum tipo de ofensa machista, ela não hesita nem precisa cavar muito na sua própria memória para se recordar dos momentos de constrangimento pelos quais já passou:
"Já sim. Já fui chamada de "gostosa, gostosa" e também 'só tira foto da Portuguesa por que, sua puta?'. Os dois insultos ocorreram enquanto eu cobria jogos na beira do campo. Fiquei com nojo e muita raiva do que tinha acontecido. Constrangimento total. É fazer com que a mulher não se sinta confortável no próprio lugar de trabalho".
E embora esses tipos de insultos sejam frequentes, Williany nunca se deixou abater, e em nenhum momento chegou a pensar em abandonar a profissão que gosta de exercer no meio que tanto ama:
"Nunca pensei em deixar de exercer meu trabalho na área esportiva por conta de atitudes machistas. E nenhuma mulher, nenhuma profissional deve desistir. Temos que combater e lutar contra o assédio moral e sexual sofrido por muitas nos estádios, nas ruas e redações."
Assim como o amor de Williany pela sua profissão fez com que ela nunca pensasse em abandonar a sua carreira por causa do machismo enraizado no ambiente futebolístico, a paixão da estudante Letícia Figueiredo pelo seu clube de coração, o Criciúma, nunca fez com que ela cogitasse a hipótese de deixar de frequentar estádios, ainda que a repressão machista tenha sido algo corriqueiro na sua vida como torcedora de futebol, tanto nas arquibancadas, quanto até mesmo por parte de pessoas que ela poderia considerar como de sua confiança:

"Uma vez, ao expor minha opinião, fui interrompida por um grito de 'cala boca, volta pra cozinha' tradicional, seguido de varias vozes masculinas rindo e concordando com aquilo. Já sofri assedio, fui chamada de burra, ignorante, frases feitas de machista, como 'vai lavar uma louça'. Já tive 'namorados' que queriam me proibir de frequentar estadio por não ser lugar de uma moça. Com o tempo a gente consegue ignorar essas pessoas, felizmente, mas ainda é muito ruim ouvir esse tipo de coisa. Nunca cheguei a pensar (em deixar de ir em estádios por ser um ambiente machista), o que eu sinto pelo clube é algo que faz com que eu ignore todos esses comentários e atitudes", diz.
Para que Letícia se mantivesse determinada a acompanhar o Tigre, apelido do clube aurinegro de Santa Catarina, ela julga como fundamental o apoio de seu pai, que sempre incentivou a filha a ir aos estádios, inclusive a acompanhando em diversas idas ao Heriberto Hülse, local onde o Criciúma manda os seus jogos. Na visão da jovem, a cidade tem adquirido uma maior consciência de que a presença das mulheres nas arquibancadas tem sido cada vez mais comum, e que isso passa longe de ser algo negativo:

"Aqui em Criciúma, com o passar do tempo reduziu muito, atualmente o público no Heriberto Hülse é 50% mulher e 50%homem, não tem mais essa de domínio masculino.
Acho que nossa cidade já está bem conscientizada em relação à mulher no futebol. Os poucos casos que ainda existem, geralmente são feitos por homens mais velhos, 'antigos'", afirma.
Entretanto, mesmo com essa maior conscientização recente, foi ainda no ano passado que um grave caso de machismo foi visto justamente no estádio que a estudante catarinense tem como a sua segunda casa. No dia 31 de outubro de 2017, a repórter esportiva Júlia Goulart, da Rádio Galera, passou pelo pior momento de sua vida enquanto jornalista. Ela foi vítima de diversas ofensas machistas, que não ocorreram apenas naquele sábado a tarde, mas haviam se iniciado numa partida entre o time sub-23 do Internacional e o São José, válida por uma Copa disputada por clubes que não têm divisão para jogar no 2º semestre, além do Inter e do Grêmio B. No dia 10, três semanas antes do ocorrido no Heriberto Hülse, torcedores do Internacional ofenderam Júlia das piores maneiras que alguém pode imaginar:

"Acabou o jogo, eu fui entrevistar o capitão do São José, na casa do Inter, mas tinha bastante torcida do São José. E esses torcedores começaram a falar que eu era o prêmio dos jogadores. E depois que eu terminei a entrevista, o jogador do São José disse que era para eu sair da frente deles, que eles não iriam parar", relembra.
Mas o pesadelo de Júlia não parou por aí. No jogo entre Criciúma x Internacional, que valia pela 31ª rodada da série B de 2017, mais ofensas vieram. E dessa vez não foram somente 5 ou 10 pessoas que agrediram verbalmente a repórter e que a pressionaram psicologicamente, e sim um estádio inteiro:

"Eu estava 'fazendo torcida' e eles puxavam meu cabelo, falavam da minha bunda. Depois tive que fazer a coletiva do Guto Ferreira (técnico do Internacional), e para isso eu teria que entrar no campo. Quando eu boto o pé no gramado, eles começam a falar as mesmas coisas que haviam falado contra o São José: que o Inter iria subir e que eu era o prêmio, essas coisas. Mas eu ignorei, porque não valia a pena. E enquanto eu ia em direção do gol onde a coletiva seria realizada, os caras começam a me chamar de volta, dizendo que iam pedir desculpas, e eu fui", conta a repórter.
Enquanto Júlia ia, outros começaram a xingar a jornalista e ela pegou o celular para gravar a agressão. Percebendo a situação, um grupo de dez torcedores se uniu para vaiar a repórter, e o resto da torcida, que não sabia o que estava acontecendo, acabou acompanhando a vaia. Foi todo um estádio vaiando.

A resposta de Júlia para aquilo que não parecia ser real foi responder com ironia, fazendo sinal de positivo, reverenciando a si mesma, entre outras atitudes que, no momento, não mostraram desespero, nem raiva, mas apenas o deboche diante daquela situação lamentável que mulher nenhuma merece enfrentar. Porém, os efeitos daquilo, a longo prazo, foram os piores. Ter de ver a preocupação de sua mãe com tudo o que a filha havia enfrentado e tomar antidepressivos para que pudesse dormir foram apenas algumas das consequências dos atos de torcedores que a ofenderam, agrediram e ameaçaram, inclusive de morte.

O impacto do incidente foi forte em Júlia, que admite ter pensado em deixar a carreira de jornalista da área de esportes, por conta de todo o desgaste que aquilo havia causado a si e à sua família:

"Sim, sim, já pensei muitas vezes (em abandonar a carreira), principalmente depois do que houve no Heriberto Hülse, pelo sofrimento que a minha família passou, pela repercussão que gerou. E eu acho que não compensa, por isso fiquei um tempo afastada e acabei voltando, mais tranquila. Com medo, sobretudo de fazer jogo do Inter, mas passou. A pessoa esquece, digamos assim.", relata.

Ao responder se, após o seu retorno, teve de enfrentar mais algum caso de machismo, Júlia diz que não. Pelo menos de maneira explícita, afinal ela salienta que, embora não tenha ocorrido algo da dimensão do que houve em Santa Catarina, ainda tem de ouvir coisas tidas como "normais", mas estão no campo das ofensas.

Júlia Goulart fazendo reportagens à beira do campo no Estádio Beira-Rio, casa do Inter de Porto Alegre.





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