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A evasão no Ensino Superior e por que ainda é tão difícil superá-la

 Quase metade dos alunos de graduação de todo o país abandonam o curso sem concluir. Foto: Divulgação. 

Por Bruna Ximenes 

Ingressar no ensino superior é o sonho de muitas pessoas. Todos os anos milhares de estudantes conseguem realizar o desejo de integrar um dos 33 mil cursos acadêmicos nas mais de 2.400 instituições de ensino espalhadas pelo Brasil. Mas tão difícil quanto entrar em uma universidade é se manter nela.  

Dados colhidos pelo Censo do Ensino Superior, em 2015, e divulgados pelo Inep, mostram que em 2010, 11,4% dos alunos ingressantes abandonaram os cursos para o qual foram admitidos. Já em 2014, apenas quatro anos depois, essa porcentagem alcançou 49%. Um aumento expressivo, configurando quase a metade do total de graduandos do país.  

Problemas no auxílio   
A Universidade Federal Fluminense é uma das que mais recebe alunos todos os anos nos cursos de graduação, tendo disponibilizado, só em 2017, 9.500 vagas na instituição. Jordino Pereira, de Minas Gerais, é um desses estudantes que experimentou a dificuldade de completar o ensino superior. Mudou-se para Niterói no início de 2017 para cursar Jornalismo na UFF e solicitou a bolsa-auxílio oferecida pelo estabelecimento de ensino logo no primeiro semestre, tendo seu pedido indeferido. 
"Notei o quanto a seleção é concorrida. Trezentas vagas para uma instituição da grandeza da UFF não é suficiente", opina. Com os pais desempregados e sem perspectiva de conseguir estágio remunerado, Jordino precisou trancar a matrícula e voltar para o seu estado. 
Indianara Reis estuda Artes na UFF desde 2016 e tem dificuldades para frequentar as aulas assiduamente. Segundo ela, o fator determinante é a falta de dinheiro. "Os cursos integrais impossibilitam as chances de trabalhar para custear as necessidades, e a quantidade de bolsas oferecidas não supre a demanda de alunos com dificuldade financeira", argumenta.   
O Programa de Bolsa de Permanência (PBP) nasceu com o intuito de assegurar a permanência dos alunos de baixa renda nas graduações até o final do curso, evitando os gastos com vagas ociosas e evasão estudantil. As bolsas foram cortadas em 2016 sob argumento do MEC de estouro orçamentário. 
  
Aumento de transtornos psicológicos 
Gabrielly Gomes estuda Jornalismo e se deslocou de seu Estado, Natal, para terminar o curso na UFF. Além de problemas financeiros, a aluna alega ter dificuldades em frequentar as aulas por outras razões. "Há sempre questões emocionais e o questionamento constante de estar ou não fazendo o curso certo", declara.   
O ambiente imediatista e cheio de pressões das universidades expõe os alunos a um cotidiano propício para o desenvolvimento de instabilidades psicológicas cada vez mais comuns nos meios estudantis. 
Em levantamento divulgado pelo Andifes (Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) em 2016, cerca de 30% dos estudantes de universidades federais brasileiras já utilizaram medicação psiquiátrica, tendo dificuldades emocionais para dar conta de seus afazeres acadêmicos. Aproximadamente 60% têm ansiedade, 20% alegam ter tristeza persistente, 10% apresenta medo ou pânico, 32% insônia, 6% têm ideia de morte e 4%, pensamentos suicidas. 
Por essa razão algumas iniciativas foram criadas; é o exemplo da Frente Universitária de Saúde MentalElaborada em 2017 por alunos de diferentes universidades, cursos e áreas após tentativas de suicídio em uma mesma turma na medicina da USP, a frente coloca o assunto em discussão fazendo uso de postagens em redes sociais, tendo mais de 35 mil curtidas na página do Facebook.  Dentre as postagens, é comum os dizeres “não é normal” seguido de algum padrão autodestrutivo, como exemplo “Não é normal que a faculdade se torne um gatilho para a ansiedade”.
Na UFF, há disponível o Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), promovido pelos estudantes de Psicologia que prestam assistência psicoterapêutica no Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), entre outras unidades hospitalares de Niterói.  
  
Falhas na formação básica  
Com a principal forma de admissão acadêmica sendo o ENEM, cuja ênfase de conteúdo é o Ensino Médio, espera-se que os estudantes dominem não só o conteúdo proposto pela prova, mas que tenham bagagem para o curso superior, o que nem sempre corresponde à realidade. 
Mendonça Filho, Ministro da Educação, afirmou durante coletiva de imprensa do Censo que parte do quadro de evasão tem a ver com o ensino médio brasileiro, que deixa o aluno despreparado para ingressar e, principalmente, concluir o ensino superior.   
Uma das estratégias proposta pelo pró-Reitor de graduação da UFF, José Rodrigues, é a de implantação de centros de nivelamento dentro da universidade.  De acordo com ele, os centros funcionariam como uma alternativa não-compulsória de melhorar a evasão de alunos que têm dificuldades em acompanhar os cursos, além de ajudar os que ainda não conseguiram se encontrar na profissão que escolheram. 
O sistema de ensino superior passou por uma grande expansão quando, em 2013, foi implantada a Lei de Cotas, a partir da qual alunos de baixa renda, pretos, pardos, indígenas e/ou provenientes de escolas públicas têm direito a uma parcela das vagas nas instituições de ensino.  Além das cotas, houve a implementação do SISU (Sistema de Seleção Unificada) como a principal forma de entrada nas universidades públicas.

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